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Começa agora mais um Gabinete de Guerra nas manhãs 360. Conosco já está o historiador Bruno Cardoso Reis, a partir de Washington. Olá, Bruno, bem-vindo.

Olá, obrigado.

Bruno, que ponto de situação se pode fazer em relação ao que se está a passar na Síria? Netanyahu diz que Israel está a acompanhar atentamente a ofensiva lançada pelos rebeldes sírios contra o governo de Bashar al-Assad.

Sim, e não é só Israel. É Israel, é o Irã, o ministro iraniano está a se desmultiplicar em reuniões. Já foi a Damasco encontrar-se com o protegido, o grande aliado do Irã na região, o ditador sírio Bashar al-Assad, que está no poder desde 2000, sendo que a família Assad já governa a Síria desde 1971, portanto há várias décadas. O pai, Hafez al-Assad, tomou o poder nessa altura também num golpe. É uma daquelas repúblicas autoritárias dinásticas, que é uma coisa um pouquinho peculiar, mas existem vários exemplos. O pior de todos era a Coreia do Norte, mas a Síria dos Assad não andava muito longe. Desde 2011 temos esta guerra civil. Houve uma revolta popular, aquele efeito contágio das chamadas Primaveras Árabes, que em muitos casos, infelizmente, acabaram num inverno ou num inferno de guerras civis, de novas ditaduras, etc. Neste caso, foi realmente uma guerra civil extremamente violenta, de seis milhões de sírios refugiados, muitos deles, aliás, procuraram refúgio na Europa, como sabemos, entre 2015, 2016. Desde 2020, basicamente, havia um certo congelamento do conflito.

Faz.

O regime parecia ter conseguido aqui uma grande vantagem graças a um forte apoio da Rússia e de Putin a partir de 2015, inclusive na utilização de armas químicas e de ataques aéreos contra zonas civis, etc. Muito apoio também do Irã e do seu braço armado nesta região do Líbano e da Síria, que é o Hezbollah. Agora o que aconteceu foi os rebeldes que estavam acantonados nesta zona mais do norte e que neste momento são essencialmente controlados por grupos, também é preciso dizer isso, de fundamentalistas sunitas. É um grupo que se demarcou da Al-Qaeda, esta Frente de Libertação do Levante, mas basicamente era a antiga Al-Qaeda na zona da Síria e vários outros grupos jihadistas. A perspectiva de uma vitória destes grupos também alarma bastante vários desses atores regionais, por diferentes razões. Mesmo para as várias populações minoritárias na Síria, que em muitos casos acabam por se aliar ao regime, sobretudo, obviamente, os alauítas, são a própria minoria a que pertence a família Assad, mas os próprios cristãos, por exemplo, várias comunidades cristãs, que no início da guerra civil eram volta 2 milhões, neste momento já vai em menos de 1 milhão. Os curdos estão aqui numa situação também muito ambígua, porque tinham algum apoio ocidental, mas por causa de Trump, esse apoio foi reduzido praticamente ao mínimo, embora ainda haja uma presença militar americana mínima. É uma situação muito complexa. A Síria é um bom exemplo da complexidade destas rivalidades regionais entre diferentes países, como a Turquia sunita a apoiar estes grupos, depois o Irã a apoiar os grupos mais ligados a grupos religiosos minoritários, como os Assad, etc. Agora, o que foi claro aqui foi que estes rebeldes que estavam acantonados no norte, aproveitaram o enfraquecimento e a distração do Hezbollah e do Irã, por força do conflito com Israel, e também o enfraquecimento, a distração da Rússia por causa do conflito na Ucrânia, e acharam que este era o momento certo para uma ofensiva. Aparentemente, eles próprios ficaram surpreendidos, e os seus aliados turcos, com a facilidade com que rapidamente avançaram e acabaram por tomar a segunda cidade mais importante da Síria, Alepo.

Que foi bombardeada pela Rússia, pela primeira vez desde 2016.

Sim, exatamente. O que aconteceu foi que rapidamente o Irã e a Rússia parecem estar a mobilizar-se com os meios que ainda têm para tentar travar este avanço. É importante recordar que a Rússia tem em Tartus a única grande base naval no Mediterrâneo, é realmente estrategicamente uma base muito importante, que já vem, aliás, do período soviético, precisamente desde 1971. Há um longo histórico de aliança entre a família Assad e os ditadores do Kremlin. Apesar de tudo, o regime sírio, por exemplo, ao contrário do regime líbio do coronel Gaddafi, sempre contou com grandes apoios externos, nomeadamente da Rússia e do Irã, e também tem alguns apoios internos que têm muito a ver com esta extrema fragmentação, extrema desconfiança entre diferentes grupos étnicos e religiosos. Há muitos cristãos, muitos alauítas, muitos xiitas, muitos curdos na Síria que não gostando do regime de Assad, têm receio que a alternativa seja pior e tendo em conta o perfil destes grupos armados jihadistas, realmente não há grandes razões para confiar que a sua vitória pudesse abrir um período de grande abertura democrática e respeito pelos direitos humanos na Síria.

Mas Bruno, como é que se explica o apoio turco? Eles negam o apoio aos rebeldes na Síria, mas há relatos de que o estão a fazer.

O presidente Erdogan sempre teve ambições de alguma liderança regional no Médio Oriente. Há uma forte tendência no partido que está no poder de revalorizar a herança otomana, o grande império islâmico liderado pelos turcos até ao final da Primeira Guerra Mundial, até 1918, que controlava basicamente todas estas regiões do Médio Oriente. Além do mais, este movimento Tem uma raiz comum na chamada Irmandade Muçulmana, que é o grande movimento que, a partir do Egito, desde o século XX, começa este movimento de fundamentalismo islâmico e que vai inspirar depois grupos muito diferentes. Nem todos eles são grupos terroristas, nem grupos armados, não é o caso de Erdogan, mas há aqui alguma proximidade. São movimentos sunitas muito conservadores, até fundamentalistas em certo sentido, e isso cria alguns pontes com estes movimentos. Ao mesmo tempo, sendo que estes grupos muitas vezes são classificados como grupos terroristas, nomeadamente pelos Estados Unidos, e a Turquia tem aqui uma política que está longe de ser como no passado, de alinhamento com o Ocidente e com os Estados Unidos, como foi durante a Guerra Fria. Mas apesar de tudo, Erdogan procura manter aqui um certo equilíbrio e continua a ser-lhe conveniente manter algum apoio, inclusive militar americano, pertencer à NATO, etc. Recordo que houve em 2016, por exemplo, um incidente com a Rússia. A Turquia abateu um avião russo e não houve uma Terceira Guerra Mundial, a acreditar nestes analistas que falam sobre essas questões em relação à guerra da Ucrânia. Mas uma das razões por que não houve foi porque a Turquia fazia parte da NATO e obviamente a NATO imediatamente deu sinal de que apoiaria a Turquia. Portanto, a Turquia está aqui num jogo de equilíbrios e também não se quer colar completamente a estes grupos que têm, muitas vezes, um passado e provavelmente um presente e um futuro pouco recomendável.

Entretanto, Bruno, António Costa já é o novo presidente do Conselho Europeu, ele que esta semana esteve em Kiev e que há dias disse não acreditar que o presidente Trump queira sair da Ucrânia da mesma forma que outros, referindo-se à administração Biden, saíram do Afeganistão. Parece que pode ser por aí que esta seja a única segurança para Kiev.

Eu acho que é de louvar esta iniciativa. No primeiro dia em funções plenas, realmente, António Costa, juntamente com a alta representante, ou seja, a chefe da diplomacia, Kaja Kallas, da Estónia. Mas sendo da Estónia, seria sempre mais provável que fosse dessa prioridade. Mas estar o presidente do Conselho Europeu, a alta representante e também a comissária do Alargamento é um sinal muito importante num momento muito difícil para a Ucrânia. A verdade é essa, a situação militar é muito complicada. Há a questão do armamento e dos limites, mas sobretudo há a questão da falta de tropas, sobretudo quando a Rússia consegue mobilizar algumas fora, caso dos norte-coreanos. Há esta perspectiva pouco animadora ou pelo menos de muita incerteza em relação à administração Trump e a suspeita de que Trump, à partida, até tem alguma simpatia com Putin. E portanto, parece-me que também aquilo que António Costa disse é fundamentalmente o que está certo e o que era necessário nesta altura, como aliás também Kaja Kallas, ou seja, apoio à Ucrânia, os princípios da carta são para respeitar, nomeadamente a integridade territorial. Portanto, há a ver algum cessar-fogo, ele não deve passar por um acordo formal de paz que reconheça as conquistas russas. Isso seria não só mau para a Ucrânia, mas seria péssimo para o mundo. Seria, no fundo, voltarmos ao mundo anterior a 1945, à lei do mais forte, em que as grandes potências simplesmente conquistavam os territórios que entendiam e isso depois era reconhecido por outros. E também me parece que é hábil esta ideia de procurar fazer perceber a Trump que isto pode ser péssimo para a sua imagem, ou seja, o espetáculo de uma espécie de colapso da liberdade ucraniana à conta do abandono pelos Estados Unidos, poderia ser muito mau para a imagem externa, para o prestígio externo dos Estados Unidos e também provavelmente para o seu prestígio interno, que isso é o que, apesar de tudo, Trump valoriza mais para a sua popularidade nas sondagens, etc. Portanto, acho que é algo que vale a pena tentar explorar, sendo que, em última análise, será sempre Donald Trump a decidir, porque nesta área da política externa, sobretudo, o presidente tem um enorme poder discricionário, por exemplo, na questão da ajuda militar.

Mas Bruno, Zelensky admitiu pela primeira vez há dias, um acordo de cessar-fogo com adesão à NATO e sem os territórios ocupados pela Rússia, por agora, ou seja, numa primeira fase. Acreditas que Putin alguma vez aceita um acordo destes?

Vejo isso como muito difícil, mas também para um cessar-fogo, de facto, não é preciso uma aceitação tão formal como noutros casos. Mas acho isso muito difícil, porque seria confessar uma derrota estratégica importante, ou seja, conquistou alguns pedaços de território ucraniano, à volta de 20%, que estrategicamente é algo interesse, sobretudo por causa da ligação terrestre à Crimeia, mas à custa de um alargamento significativo da NATO, não só à Suécia e à Finlândia, mas inclusive, neste caso, seria à própria Ucrânia. Agora, do ponto de vista da Ucrânia, isso parece-me ser a posição mais inteligente neste momento. Ou seja, claramente, há aqui um esgotamento no apoio ocidental à Ucrânia, sobretudo da parte dos Estados Unidos, mas há esse risco mesmo nalguns países europeus importantes. Temos eleições na Alemanha no próximo ano. Enfim, não sabemos que governo é que vamos ter em França. E de facto, aí o fundamental para Zelensky seria, por um lado, não ser obrigado formalmente e definitivamente a ceder esses territórios. Como eu digo, acho que isso era do interesse de todos, inclusive da própria estabilidade da ordem global, não dar incentivos a novas guerras de conquista.

Exatamente.

Mas também, sobretudo para a Ucrânia, é fundamental que este período de cessar-fogo, que resulta também dos dois lados estarem numa situação muito difícil economicamente, em termos do enorme esforço de guerra, desgaste, em termos de tropas, etc., número de baixas, mas seria fundamental que isso não fosse aproveitado pela Rússia para se poder rearmar e voltar a preparar uma nova fase de conquista daqui a uns anos, quando estivesse devidamente recuperado. E do meu ponto de vista, realmente, para evitar isso, o fundamental seria a Ucrânia, ou seja, o território que restar à Ucrânia, passar a estar realmente abrangido pelas garantias da Aliança Atlântica e da NATO. Isto partindo do princípio que ela se mantenha a funcionar com Donald Trump. Mas eu vou apontar sempre para essa comparação, que é o que distingue os países bálticos, que são muito mais pequenos, com populações muito mais reduzidas, um território muito mais pequeno, portanto, militarmente muito mais indefensáveis do que a Ucrânia em relação a uma agressão russa, sendo que têm basicamente a mesma história, também fizeram parte da União Soviética e do Império Russo. O que distingue os países bálticos é que fazem parte formalmente da NATO, portanto, estão abrangidos pela garantia de segurança do Artigo Quinto e têm lá tropas da NATO, ou seja, a Rússia sabe que se invadir, se atacar, vai estar a matar soldados alemães, britânicos, norte-americanos, e isso praticamente obrigará a NATO a defender esses países bálticos.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela análise a partir dos Estados Unidos. Um bom dia, Bruno. Até amanhã.

Obrigado.