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A reunião de hoje do Gabinete de Guerra, na tarde em direto, conta com o coronel Carlos Mendes Dias. Isto num dia em que a presidência da Comissão Europeia está de visita a Kiev e também arrancou a cimeira entre União Europeia e Ucrânia. São pontos na ordem de trabalhos deste gabinete de guerra, também com a Judite França e a Vanessa Cruz.

O presidente ucraniano aproveitou a chegada dos representantes europeus para alertar que a campanha de sanções europeias à Rússia abrandou ligeiramente. Pediu que fossem tomadas medidas mais firmes, mais punitivas. A União Europeia promete um novo pacote de sanções até ao dia 24 de fevereiro, que é quando se assinala um ano de guerra. Coronel Carlos Mendes Dias, bem-vindo. Desta cimeira, o que é que pode sair mais?

Boa tarde. Para além dessas sanções, e obviamente, não há nada como forçar o adversário, eu julgo que, na prática, além da procura de arranjar soluções para uma possível integração econômica, e que tem a ver com diferentes programas, escalas de corrupção, os suprimentos do gás já não dependerem da Rússia, a integração na componente da eletricidade, da rede elétrica, etc. Essas coisas vão todas ser faladas, mas a primeira ideia é que a União Europeia está em Kiev e, portanto, aquela questão de arrastar a União Europeia para o espaço ucraniano é, do meu ponto de vista, a mensagem mais forte. E o contrário, a União Europeia também ganhará, porque, em boa verdade, as maiores reservas da Europa em titânio e urânio estão na Ucrânia. As segundas maiores reservas do mundo de manganês e grafite estão na Ucrânia. As terceiras maiores reservas do mundo de carvão e do aço estão na Ucrânia, e isso significava um boost enorme pra União Europeia. E finalmente, abanar-se com a ideia de que se não nos defenderem aqui, os próximos podem ser vocês. E, portanto, esta mensagem para as opiniões públicas que informam a União Europeia, pese embora, como saibamos, a União Europeia não tem competências exclusivas na área da defesa, mas é de facto uma mensagem forte. E condiciona, nestas alturas em que os altos dignitários das organizações estão naqueles espaços, obviamente a utilização da dimensão militar, por muitas delas negativas que possa haver se a dimensão militar nessas zonas tiver ação. Nesta altura, nestas áreas, podem ser áreas relativamente seguras.

Senhor Coronel, hoje Sergey Lavrov avisou que a Rússia tem planos para ofuscar os eventos para a Ucrânia que venham a assinalar este marco de um ano de guerra. Será a tal grande nova ofensiva de que tanto se fala?

Eu julgo que não, por uma ou duas razões essenciais. A primeira razão é que, nestas questões, a incerteza e da qual dela deriva o efeito surpresa, são fundamentais. E, portanto, quando todos nós esperamos, embora se anuncie, essa circunstância, na maior parte dos casos, não se materializa, porque o outro lado, obviamente, está à espera. Pode haver uma contra-resposta, isto é, se se anunciar sanções nesse dia, pode haver uma contra-resposta, pode haver ataques localizados só a indiciar resposta, mas que procure alguma utilidade, como regular tiro, continuar a fragilizar as infraestruturas ucranianas, pode haver, mas não é a ofensiva. E dizer sobre isto, porque o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros, Lavrov, da Rússia, anunciou que poderá haver isso ou que com carros e enfim, se os países europeus e os norte-americanos, canadenses, etc, continuarem a fornecer, até julgo que a frase foi: "Pode não ser só com carros de combate que vamos enfrentar os carros de combate do outro lado". Ora bem, esta para mim, do meu ponto de vista, é que é a ideia forte e que é preciso enfatizar. Isto é, de acordo com a doutrina de segurança russa atual, que até é designada por escalar para desescalar, é o seguinte: se de facto, o que se encontra previsto, se de facto houvesse um ataque convencional com alguma escala feita pela Ucrânia à Rússia, que a Rússia, do ponto de vista até das simulações, treina, pode empregar, está na doutrina, armamento nuclear tático para forçar o adversário não a escalar, mas a parar. Isto é doutrinário, têm feito simulações sobre o assunto e é esta a ideia que pode pairar. Eu não estou a dizer que se vai concretizar, mas que pode pairar, porque o outro lado também sabe destas questões doutrinárias, nas frases do senhor ministro Lavrov. Portanto, na minha opinião, são estas duas, três dimensões que temos que ver com toda a calma, serenidade, mas firmeza nas mensagens russas que podem passar.

Há, entretanto, entre os analistas a ideia de que a guerra está a entrar numa terceira fase. Concorda?

Há as fases do ponto de vista tático, que não têm nada a ver com o que os analistas dizem fase Eu tenho muitas reticências em dizer fase quando há apenas, vou chamar assim, mudanças. Do meu ponto de vista, não há nenhuma nova fase. O que pode haver é uma mudança de atitude por parte dos parceiros ocidentais, que mesmo assim eu não consigo ver. Isto é, o facto de se pensar em carros de combate, o facto de se pensar em aeronaves, não vem de agora, já vem de algum tempo. Carros de combate desde abril do ano passado e aeronaves pouco depois, mas mantemo-nos, eu vou chamar assim, na guerra convencional. O que pode de facto termos a ideia é que a estratégia, eu vou lhe chamar ocidental, que não é só ocidental, temos que lembrar a Austrália, Nova Zelândia, Japão, por aí fora, é que se houve alguma primazia inicial nos fenómenos coercitivos económicos e diplomáticos, iniciando uma estratégia de conjunto do ponto de vista técnico, que se chama estratégia indireta, pese embora se utilize a militar, a predominante são as outras, nesta altura poder estar a notar-se alguma inversão. Isto é, pôr preponderância no meio militar. Mas tenho dúvidas quando estamos a falar só de 14 carros de combate, 100 carros de combate e ela alonga quase cinco, seis semanas. E portanto, não lhe sei responder diretamente. Eu estou tentado a responder que não é uma nova fase do ponto de vista restrito. Pode ser encarado do ponto de vista do espírito ou da ação dos parceiros ocidentais, digamos assim, um novo acordar ou uma nova forma de atuar. Pese embora, em larga escala, não vejo isso assim. Do meu ponto de vista, não é de facto uma nova fase, uma mudança em substância. Reparemos em Kharkiv e em Kherson como os carros de combate foram utilizados e foram ocidentais, países do Pacto que se mobilizaram e colocaram 300 a 400 carros de combate nessa altura. E nós não falámos em fase.

Coronel Carlos Mendes Dias, só um último ponto aqui na ordem de trabalhos, mas rapidamente, pedir-lhe uma resposta rápida. Semanas depois terminaram os exercícios militares entre a Rússia e a Bielorrússia, com o ministro da Defesa de Lukashenko a dizer que o objetivo foi exclusivamente defensivo. Podemos mesmo acreditar nisso?

Os exercícios não são ofensivos, não defensivos. Portanto, isso é retórica. Os exercícios são, neste caso, treino conjunto, isto é, entre ramos e combinado entre países diferentes, para haver uma maior integração. Isto é, a partir desta altura, se estiver na mente de alguém realizar uma operação combinada, isto é, com forças armadas de dois países diferentes, existe, a priori, maior eficácia que se possa atingir com o uso deste emprego combinado. Isto é, tecnicamente, nós podemos concluir. Se é ofensivo, se é defensivo, quando se treina tiro de carro de combate, quando se treina tiro com sistema de defesa aérea ou com força aérea, dizer que é ofensivo ou defensivo, na minha opinião, é mera retórica para enganar os povos.

Obrigada, Coronel Carlos Mendes Dias.

Obrigado eu.

Muito obrigada. Amanhã abrimos novos gabinetes de guerra aqui na Rádio Observador.