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Mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Contamos agora com a ajuda de Nuno Gouveia, especialista em política internacional. Bem-vindo, Nuno, a este Gabinete de Guerra. Obrigado pela sua disponibilidade.
Bom dia.
Bom dia. Nuno, como é que podemos olhar para tudo isto que se passou nas últimas 24 horas? Que mensagem tenta passar Donald Trump com esta operação que realizou em Caracas?
Do ponto de vista militar e operacional, é inegável que a operação foi um grande sucesso. A forma como conseguiram capturar e extrair Nicolás Maduro, o presidente da Venezuela e ditador há vários anos, foi de facto espetacular e passa uma mensagem para a região, e sobretudo para aqueles que são adversários dos Estados Unidos e de interesses americanos na região, uma mensagem de força e sobretudo de alerta para não se meterem no caminho dos Estados Unidos. Quanto a tudo o resto e ao futuro da Venezuela, parece-me que ainda é tudo muito incerto e a conferência de imprensa de ontem de Donald Trump não terá ajudado, pois foram lançadas diversas mensagens e até contraditórias. Neste momento, eu diria que há uma grande indefinição sobre aquilo que se vai passar na Venezuela e teremos que aguardar mais desenvolvimentos, sendo que me parece claro que Donald Trump acredita com a remoção de Nicolás Maduro da presidência da Venezuela, que o que resta do regime irá cumprir os desígnios que a administração americana irá tentar impor no país. Agora, os primeiros sinais é que, aparentemente, o regime de Nicolás Maduro sobrevive e continua a controlar os destinos do país.
Ou seja, fica de certa forma evidente dessa conferência de imprensa de ontem de Donald Trump que ele conta com o que restou do regime de Maduro para continuar a liderar a Venezuela, ou seja, a intenção seria apenas retirar Maduro e tudo o resto ficar como está?
Não, eu penso que a intenção de Donald Trump é muito mais do que isso. Aliás, ele ontem durante a conferência de imprensa também explicou que o interesse principal dos Estados Unidos é o petróleo e controlar as reservas petrolíferas. Aliás, sabemos que Donald Trump nas últimas semanas, e a sua administração, falou com as empresas americanas petrolíferas para perceber da sua disponibilidade de voltar à Venezuela e elas próprias fazerem os investimentos iniciais na infraestrutura que é necessária para depois ficarem a controlar o negócio do petróleo. Donald Trump também disse que eles pretendem mandar no país até ser possível fazer uma transição para a democracia.
É que não é como, não é?Não ficou claro como.
Exatamente. E nós também não sabemos o que foi conversado entre Marco Rubio e Delcy Rodríguez. Donald Trump disse que Delcy Rodríguez tinha dito que o que resta do regime iria fazer mais ou menos aquilo que os Estados Unidos entendessem. Depois, obviamente, a vice-presidente, que deverá ser a presidente, disse que não era bem assim, que o único presidente que reconhecia era Nicolás Maduro, que exigiam a sua libertação e que nunca seria uma colónia. Portanto, neste momento eu presumo que muito estará a passar-se nos bastidores e que os responsáveis americanos estarão a negociar com o governo de Delcy Rodríguez o que se irá passar a seguir, até porque, e Donald Trump referiu isso ontem na conferência de imprensa, que um segundo ataque ao país não pode ser colocado de parte. Ou seja, "se vocês não cumprirem aquilo que nós entendemos, poderemos voltar a atacar, e ainda com mais força, o país."
E é isso que pode explicar também o quase silêncio da oposição ao regime na Venezuela, estarem também a aguardar para perceber o que vai acontecer a seguir?
Sim, porque repare, a Venezuela e o regime chavista não era o regime de um homem só. Percebe-se, e os americanos sabem e a oposição também saberá, que o regime chavista tem fundações muito fortes. Há outras figuras que controlam partes importantes do país e a retirada por si de Nicolás Maduro, se não provoca o colapso do regime, é evidente que terá que haver muito cuidado para esta transição, pois vimos no passado, noutras situações e noutros países, que a eliminação por completo do regime de um dia para o outro pode provocar problemas graves. Essa até foi uma das críticas muito grandes que foi feita ontem, sobretudo por políticos ligados ao Partido Democrata, é que este tipo de situações onde os Estados Unidos derrubam os governos e depois ficam a controlar o país, têm corrido mal e os americanos estão muito queimados com o nation-building e com o que se passou no Iraque e no Médio Oriente. Portanto, eles não quererão repetir a situação na Venezuela e parece-me que esse é um dos principais motivos porque eles não querem já entregar o país à oposição e ao presidente eleito Edmond González, visto que ele venceu as eleições do ano passado. Todo o Ocidente considera que ele é o legítimo presidente da Venezuela, mas parece-me que neste momento não há condições para ele exercer esse cargo.
Olhando também para aquilo que é o impacto dentro dos Estados Unidos, daquilo que foi a atuação da administração de Donald Trump, as críticas que têm sido alvo, nomeadamente ainda agora Kamala Harris também faz um post nas redes sociais a criticar a intervenção militar norte-americana, dizendo que é ilegal e imprudente, apesar de reconhecer que Nicolás Maduro é um ditador brutal e ilegítimo. Todas estas críticas internas passarão ao lado de Donald Trump, como é que ele poderá gerir também essa questão interna e aquilo que foi a sua atuação nesta operação?
Eu, em termos internos, de fato, dividiria em dois blocos. O primeiro, obviamente, do Partido Democrata, que é bastante crítico desta forma quase imperial de Donald Trump governar os Estados Unidos. Repare-se que ontem ninguém do Congresso foi avisado desta intervenção. A administração marcou e o presidente justificaram que isto foi uma operação policial para prender um criminoso procurado, neste caso, pela DEA e pelas forças policiais. Mas obviamente percebemos que é muito mais do que isso, pois derrubar um líder de um país estrangeiro e em termos da lei americana, o mais expectável é que o governo procurasse a autorização do Congresso para fazer uma intervenção militar em solo estrangeiro. E até mais do que isso, porque ao longo das últimas semanas, meses, os Estados Unidos foram deslocando para a região um aparato militar enorme e os responsáveis da administração americana, e ontem isso foi dito por vários senadores do Partido Democrata, sempre disseram que o objetivo não era mudar a liderança venezuelana, que foi o que acabou por acontecer ontem. E, portanto, no fundo, o Partido Democrata sente-se mais uma vez enganado pela administração Trump e mais do que isso, sente que a atuação da administração foi à margem da lei e seguramente nas próximas semanas, meses, esse tema será muito discutido, até porque esta não é uma situação única da administração Trump. Eles neste último ano, desde que assumiram os destinos do país, têm atuado muito à margem do Congresso. É preciso dizer com quase autorização da parte republicana, que neste momento controla as duas câmaras. Ainda por cima estando em ano de eleições e nós vamos ter eleições intercalares em novembro, este tema da legalidade da administração Trump, não só apenas nesta questão, mas em tudo o resto que tem feito, será um dos temas mais prementes da campanha eleitoral. E, por outro lado, será interessante perceber também dentro do movimento Trump e da sua base, como é que eles irão entender esta intervenção. Nas primeiras horas, e ao contrário, por exemplo, do que sucedeu na intervenção do Irão, genericamente todos os republicanos, mesmo aqueles que são mais adversos a intervenções externas, apoiaram a intervenção, porque de facto foi espetacular. Conseguiram capturar Maduro sem baixas americanas, mas agora com o passar dos tempos e vai depender muito do que acontecer no terreno e também da situação, acredito que isso irá dividir a base republicana, pois nós não nos podemos esquecer que Donald Trump emergiu como líder do Partido Republicano em 2016 e ao longo destes anos todos, sempre contra aquela ala mais tradicional do Partido Republicano, sempre muito adepta de intervenções externas e de ingerências na política externa de outros países. E isso não terá, a meu ver, se esta situação se arrastar, irá provocar fissuras, como aliás se tem provocado nestes últimos meses dentro da base do Donald Trump.
E olhando ainda para a questão das intercalares, Nuno Gouveia, já sabemos que é sempre um período complicado e são sempre eleições complicadas para qualquer administração que esteja no poder. Aquilo que eu lhe queria perguntar é até que ponto é que a população norte-americana poderá ser influenciada por aquilo que foi esta operação, se terá aqui alguma influência ou não naquilo que poderão ser os resultados dessas intercalares.
Nós sabemos que esta intervenção na Venezuela era extremamente impopular. Recentemente foi feita uma sondagem onde apenas 25% da população americana apoiava uma intervenção na Venezuela. De facto, a operação de ontem foi espetacular e correu muito bem para os Estados Unidos e isso poderá dar algum boost à administração. Donald Trump terminou o ano muito impopular. Aliás, os números indicam que é o mais impopular presidente a terminar o primeiro ano. A situação econômica interna, que é sempre mais importante e que é sempre a decisiva para o voto dos eleitores, também não é boa. Os americanos continuam a queixar-se muito de custos de vida e do preço dos produtos, que aliás terá também sido agravado pela política tarifária de Donald Trump. E Donald Trump ano passado foi eleito precisamente a dizer que ia resolver os problemas econômicos dos americanos. Sabemos que no início deste ano o Donald Trump deixou expirar uns subsídios que existiam para a compra de seguros de saúde e que irá afetar muitos milhões de americanos. Portanto, a menos que tudo corra perfeito na Venezuela, e sabemos que raramente isso acontece neste tipo de situações, eu tenderia a achar que esta intervenção externa e com este volume de intervenções externas do Donald Trump, que não o irá ajudar para as eleições intercalares, até porque, como disse e muito bem, são eleições sempre difíceis para o presidente, pois as primeiras intercalares depois da sua eleição costumam, e há uma exceção em 2002 depois do 11 de setembro, mas quase sempre os presidentes em exercício perdem lugares na Câmara dos Representantes e no Senado. E, por exemplo, na Câmara dos Representantes, onde a maioria do Partido Republicano é muito curta, eu diria, e obviamente ainda falta muito tempo, mas será muito difícil ao Partido Republicano manter essa maioria.
Olhando também para a questão da legitimidade desta operação, já aqui falámos da questão do Congresso não ter sido informado. A questão é se Donald Trump poderá vir a repetir este tipo de operações, nomeadamente noutros países da América Latina, tendo em conta que esta operação, como ele próprio descreveu, correu bem e foi espetacular, se pode sentir força para vir a realizar outro tipo de operação semelhante noutros países, nomeadamente na América Latina
Eu diria que Marco Rubio, que foi um dos arquitetos desta intervenção e da remoção de Nicolás Maduro, terá sempre uma atenção especial em Cuba e ontem isso foi referido pela intervenção de Donald Trump, onde há décadas há um desejo da remoção da ditadura cubana. Marco Rubio, descendente de cubanos, de Miami e da comunidade cubana, obviamente, se tiver a oportunidade para mudar o regime cubano, eu acho que não deixará passar essa oportunidade. E se ele conseguir o apoio de Donald Trump para isso, parece-me que poderá tentar fazer uma operação especial deste gênero em Cuba. No resto da América Latina, honestamente, é muito mais difícil, visto que apesar das ameaças que têm havido, por exemplo, em relação à Colômbia, e de fato a Colômbia é um país até muito mais importante para o narcotráfico do que a Venezuela, mas a Colômbia é um país que historicamente tem relações com os Estados Unidos, vai ter eleições presidenciais em maio deste ano. Genericamente, toda a oposição colombiana, incluindo até alguns mais à esquerda, como a antiga alcaldesa de Bogotá, Claudia López, apoiaram esta intervenção ontem na Venezuela. Portanto, apenas o candidato do presidente Gustavo Petro condenou, mas é uma pessoa ligada com um passado ligado também às FARC. E, portanto, há uma grande relação da Colômbia com os Estados Unidos, o exército tem relações muito próximas com os Estados Unidos e parece mais difícil haver uma intervenção desse gênero, até porque, a meu ver, também não fazia sentido remover um presidente democraticamente eleito como Gustavo Petro, ainda por cima irá sair do poder em maio e parece-me que não haverá intervenção no México. Os Estados Unidos também já ameaçaram o México e intervir militarmente, não para remover a liderança, mas para atacar cartéis. Eu honestamente espero bem que os Estados Unidos não comecem a atacar estes países, porque isso significaria uma ingerência em países democráticos, porque quando falamos da Colômbia e do México, estamos a falar de países democráticos e obviamente, seria muito mais difícil para Donald Trump justificar isso internamente do que uma intervenção na Venezuela, que era um regime desacreditado e que já não era sequer reconhecido pelos Estados Unidos e pelos seus principais aliados.
Olhando ainda, Nuno Gouveia, nestes últimos minutos também para aquilo que foi a reação europeia. A Europa volta a ficar para trás em relação aos Estados Unidos?
A Europa, neste caso e como outros, tinha sempre uma grande dificuldade, pois por um lado, é óbvio que houve uma violação do direito internacional com a remoção do Nicolás Maduro e a prisão. É uma intervenção externa sem qualquer legitimidade internacional. Mas, por outro lado, também é verdade que a Europa e os principais países europeus há muitos anos que defendem a remoção de Nicolás Maduro, apoiaram os líderes da oposição, quase a generalidade dos países não reconhecia Nicolás Maduro e reconheceu que houve fraude em 2024. Por outro lado, há neste momento também entre os líderes europeus um grande receio em afrontar Donald Trump, até sobretudo pelo que passa na Ucrânia e pelo grande estado de necessidade que a Europa tem em continuar a ter boas relações com os Estados Unidos. Portanto, a Europa está numa posição de fraqueza e no fundo aquilo que vimos ontem na reação dos líderes europeus foi a demonstração dessa fraqueza, pois não conseguiram falar primeiro num tom coeso, mas sobretudo não se percebeu muito bem o que a Europa dizia, pois uns diziam, como o primeiro-ministro espanhol criticou a intervenção americana, outros diziam: "Bem, o Nicolás Maduro era um ditador, ficamos contentes com sua remoção". Portanto, é a demonstração da nossa fragilidade atual.
Nuno Gouveia, muito obrigado por ter vindo a este Gabinete de Guerra. Um resto de um bom domingo. Bom dia.
Bom domingo.