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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Espaço para olharmos para os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje com o Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa. Boa noite, bem-vindo, Vítor. Começamos com a guerra na Ucrânia. Volodymyr Zelensky disse hoje que as negociações com os Estados Unidos foram produtivas, mas não foram fáceis. Afirmou também que as garantias de segurança são essenciais para um acordo e que qualquer alteração territorial seria agora um ponto doloroso de negociar. Entretanto, soubemos também que os negociadores dos Estados Unidos disseram a Kiev que tem de retirar as tropas do Donbass. Pergunto-lhe se esta pressão de Washington para que a Ucrânia abdique do Donbass pode vir a surtir efeito, se também acha que eventualmente Volodymyr Zelensky pode vir a ceder neste ponto, sendo que os negociadores norte-americanos disseram hoje que cerca de 90% dos assuntos que dividiam as partes foram já resolvidos no encontro desta segunda-feira em Berlim.
Antes de mais, obrigado à Rádio Observador pelo convite. Às vezes os últimos 10% são os mais difíceis. Isso é assim em todas as negociações diplomáticas. Aqui não sabemos quais são exatamente esses 10%, mas sabemos que Zelensky tem suavizado os termos que tem utilizado para a cedência de território. Neste momento, diz que é doloroso. Aquilo que Zelensky está a prever é que isso terá mesmo que acontecer. Os Estados Unidos estão a fazer a pressão que estão a fazer, porque muito provavelmente, e daquilo que se sabe a nível internacional, haverá um canal directo com a Rússia e a Rússia já deu a entender aos Estados Unidos que essa é a razão "sine qua non" para aceitar um acordo de paz naquela região. Preocupa-me, sobretudo, como é que será garantida mais tarde e posteriormente a segurança. Isso é aquilo que eu acho que a Europa, que também está agora mais envolvida nas negociações, deverá ter alguma atenção, porque Donald Trump não quis falar muito sobre isso, mas fala-se da zona económica de exclusão, que seria uma zona tampão entre a fronteira que seria cedida à Rússia e a zona da Ucrânia. Teremos que perceber como é que essas garantias serão tomadas, para que depois mais tarde a Rússia não possa reposicionar as suas tropas nessa região. Ou teremos que perceber que se os Estados Unidos levarem a Ucrânia a abdicar na totalidade do Donbass, claro está, a Rússia reposicionar-se-á na fronteira do Donbass tomado, portanto, na totalidade do Donbass, depois com outra região ucraniana. Teremos que perceber em que medida e que garantias é que serão dadas para as potenciais eleições que Zelensky fala. Zelensky também já falou em referendos para a aprovação da cedência de território. Eu penso que serão todos estes detalhes, uns mais importantes que outros, que estarão em cima da mesa. E neste momento, cabe a Zelensky lutar com tudo o que tem para perder o menos possível, porque perder, já vai perder, isso acho que é claro para todos.
A União Europeia admitiu hoje também a possibilidade de a Ucrânia ser forçada a prescindir da integração na NATO. A Rússia tem exigido isso mesmo, que a Ucrânia desista desse ponto. Ontem, o próprio presidente ucraniano tinha já admitido estar disposto a ceder relativamente à adesão da NATO em troca de garantias de segurança robustas. Parece-lhe que para que se consiga alcançar um cessar-fogo, a Ucrânia vai ter mesmo de abdicar da adesão à Aliança Atlântica?
Isso parece-me claro. Tanto Putin ou os comandos da Rússia, esse é o principal motivo pelo qual Putin diz que fez a operação especial que está a fazer na Ucrânia. É exatamente por isso, pela chegada da NATO e pela chegada da pretensão da extensão da NATO a leste, que Putin faz essa intervenção na Ucrânia. E penso que isso é claro para todos. Foi algo provavelmente levado para a mesa das negociações, já se sabendo que era retirável durante as negociações, tem que haver pontos de parte a parte. Um negociador, quem pelo bom senso entende o que é uma negociação, não pode levar provavelmente nas negociações só as linhas até onde quer ir, ou seja, não pode ir negociar pelo mínimo, tem que ir negociar pelo máximo. E a Ucrânia pedia exatamente a pretensão futura de aderir à NATO. Penso que isso está arredado, até porque não concordando os Estados Unidos com isso, isso será impossível. Com esta administração, pelo menos. Acredito que é uma vitória para Zelensky que surja a possibilidade no acordo da entrada da Ucrânia muito mais rápido do que se estava a pensar, embora isso depois, em termos de exequibilidade, a nível dos 27, com o acordo dos 27 e como é que isso vai ser depois enquadrado na realidade, isso já é outra questão, mas isso é uma vitória também para a diplomacia e para aquilo que Zelensky tem lutado. E eu costumo repetir isto muitas vezes. Nós, ao fim de uma semana, pensávamos sempre, e aquilo que tínhamos como perspectiva, pelo menos a nível internacional, daquilo que íamos ouvindo, era que a Ucrânia seria tomada numa semana. Isso não aconteceu, há também ganhos para o lado da Ucrânia, ou se me permite esta expressão, há perdas menores do que aquelas que se pensavam na altura Portanto, acredito que as próximas duas semanas serão decisivas para perceber o que se vai passar nas garantias de segurança. E esta questão da adesão à NATO parece-me que está resolvida para todos, inclusive até para Zelenskyy, que não disse ainda abertamente que prescinde, mas já disse que há abertura para prescindir. Portanto, é quase a mesma coisa.
Passamos agora para o conflito no Médio Oriente. A Casa Branca terá enviado uma mensagem privada ao primeiro-ministro israelita para censurar Israel pelo ataque que matou um alto cargo militar do Hamas este fim de semana, e isto porque o ataque violou, uma vez mais, o acordo de cessar-fogo promovido pelos próprios Estados Unidos. Este cessar-fogo bastante frágil está a contribuir para o aumento de tensões entre a administração norte-americana e a israelita, tal como tem sido anunciado pela imprensa internacional?
Não acredito que haja esse aumento de tensão, principalmente entre Trump e Netanyahu. Trump já mostrou mais do que uma vez que Netanyahu é alguém difícil de convencer e alguém difícil de negociar, mesmo como parceiro de cooperação. Acredito que a administração Trump tenha tomado alguma medida para censurar o ataque que fez, mas isso não significa que não esteja inequivocamente ao lado de Israel. Netanyahu e também fontes israelitas já anunciaram que esse violar de cessar-fogo foi também porque o Hamas tinha, a sul de Israel, tido alguma intervenção e tinha feito um ataque também contra soldados israelitas e que por isso estava a intervir. Eu lembrava-lhe só que Israel interveio num quartel e que teve a morte de uma alta patente que chefiava esse quartel, onde o Hamas guardava grande parte ou uma parte importante do seu arsenal. Portanto, esta parte da entrega das armas também ainda não está completamente clara para todos, como é que vai acontecer. Estamos ainda num clima de muita tensão. Agora, em resposta à sua pergunta, também para os ouvintes, eu acho que é claro que os Estados Unidos estarão sempre ao lado de Israel. Se estiveram antes, agora vão continuar a estar.
A Turquia foi excluída da conferência organizada pelos Estados Unidos para discutir a força internacional de estabilização da faixa de Gaza. O encontro acontece amanhã em Doha, no Qatar. De acordo com a imprensa internacional, 45 países foram convidados para participar neste encontro. O que significa então, na sua opinião, esta exclusão da Turquia?
A exclusão da Turquia acontece principalmente, na minha opinião, pela forma como a Turquia tem vindo a interpretar e tem vindo a advogar a condenação de Israel e de alguns dos seus responsáveis por aquilo que aconteceu em Gaza. E isso tem afastado bastante Israel da Turquia. Portanto, acredito que tenha sido uma imposição de Israel que a Turquia não esteja presente e, com isso, também dando primazia a outros parceiros, como a Arábia Saudita, como o Qatar, como outros países que vão estar nessa reunião e que podem, a verde Israel ou no verde Israel, formar essa força de paz sem a intervenção de um país que os tem, neste caso, Israel criticado bastante. Para mim, a resposta parece-me clara nesta questão de afastamento diplomático. Israel não quer ter a Turquia nessa força de paz.
Obrigada, Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da CEDEZ Europa. Obrigada por ter aceitado o convite. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.