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Este é o Guerra na Terra Santa, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias do conflito no Médio Oriente. Francisco Pereira Coutinho, as forças houthis do Iémen anunciaram hoje que vão proibir a entrada no mar Vermelho e no golfo de Áden, de navios que pertençam a indivíduos ou entidades israelitas, norte-americanas ou britânicas, tendo em conta que continuam muitos ataques, que são notícia nas últimas horas ou possíveis ataques. Há forma de os rebeldes impedirem essa entrada desses navios?
Eu creio que não. A ameaça que fizeram, eles têm tentado concretizá-la com as capacidades militares que ainda têm, depois de terem sofrido ataques norte-americanos e também britânicos às suas capacidades militares fornecidas pelo Irão. Portanto, isto é mais uma ameaça que eles procuram tentar concretizar, embora não se consiga perceber no momento exatamente quais são as capacidades militares dos houthis depois de terem sido atacados pela coligação ocidental liderada pelos Estados Unidos. Agora, claramente, temos aqui um problema no mar Vermelho relacionado com a liberdade de navegação, que acaba por afetar não apenas os Estados que os houthis ameaçam, portanto, os Estados Unidos, Israel e o Reino Unido, porque os houthis referem que estão neste momento a atacar navios destes Estados por causa do conflito em Gaza e no fundo para proteger a população palestiniana. Mas aquilo que nós temos verificado é que os próprios houthis muitas vezes acabam por atacar outros navios e outros Estados, inclusivamente navios chineses e russos por erro, porque não têm capacidade sequer para conseguir perceber em concreto que tipo de navios é que estão a atacar. Agora, o problema de base é um problema para a navegação internacional e é um problema que acaba por afetar não apenas os Estados ocidentais, mas também a própria China. E, portanto, há também muita pressão sobre os houthis para que este tipo de ataques acabem por não se materializar, porque as consequências para terceiros são enormes e refiro também o Egito, que acaba por ter aqui perdas financeiras muito significativas pela diminuição de passagens no canal do Suez e, portanto, a situação continua a ser problemática e vai continuar enquanto esta ameaça houthi não for erradicada.
Bruno Cardoso Reis, a verdade é que têm sido vários os ataques. Israel interceptou ataques dos houthis, houve também um navio que também foi alvo de ataques, apesar destas ameaças dos rebeldes houthis, a verdade é que parece que não tem fim também este foco do conflito.
Não, repare, um dos aspectos que se pensava que poderia vir a solucionar-se seria justamente o conflito no Iémen. Tínhamos um cessar-fogo que tinha sido negociado com a Arábia Saudita. Os houthis foram retirados por Biden da lista de entidades terroristas, justamente para promover a possibilidade de um eventual acordo de paz no Iémen e os ataques de 7 de outubro levaram ao conflito na Palestina e levou a que os houthis aproveitassem esse mesmo conflito para intervirem militarmente, atacando navios dos Estados ocidentais e tornando o caminho para a paz no Iémen um pouco mais estreito. Eu creio que eles fazem isto para procurar também ter ganhos negociais nessas negociações internas no contexto do conflito no Iémen. Mas claro, também sabemos que são apoiados pelo Irão e o Irão atua através deste tipo de proxies. E, portanto, temos aqui uma situação complicada para a qual ainda não temos qualquer tipo de resposta e eu creio que a solução virá de uma solução do conflito em Gaza. A partir daí, será possível ir resolvendo em cascata os vários conflitos regionais que entretanto foram ressurgindo.
Bruno Cardoso Reis, como é que olha também para esta situação dos rebeldes houthis e destes ataques e do que se passa no mar Vermelho?
Estou no essencial de acordo, exceto com esta questão de que isto se resolveria através de Gaza. Acho que aliás, isso criaria um precedente perigoso, ou seja, no fundo, a ideia de que há uma espécie de recompensa para a pirataria. Criaria também, do ponto de vista dos houthis, uma narrativa política que lhes seria conveniente. Obviamente, isso não é razão para não se chegar a acordo em Gaza, tem mesmo de se chegar, mas eu estou cético quanto a isso garantir que os houthis não renovarão este ataque se isso for conveniente no futuro, até com base em vários elementos também que o Francisco referiu. E realmente é fundamental aqui referir isto, que eles estão longe de atacar apenas navios, e mesmo isso é inaceitável, porque são navios civis com tripulação civil, e obviamente estamos todos de acordo, mas estão longe de atacar apenas navios israelitas ou que se dirijam a Israel, ou que tenham bandeira, ou sejam propriedade dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha, que é agora a última versão. Ainda nos últimos dias eles atacaram um navio grego que estava a transportar ajuda humanitária para o Iémen, estava a transportar cereais para o próprio país dos houthis. Não para o porto que eles controlam, para outro porto, para Áden, os houthis só controlam volta de um terço do território, mas portanto, isto mostra bem como isso está longe de ser o caso. Além de que há um outro impacto aqui indireto, não só na segurança económica, enfim, impacto no Egito, etc, que é na ajuda humanitária ao Sudão. No Sudão nós temos uma guerra civil com algumas características até genocidas também por parte daquelas milícias do Janjaweed. Ora, de acordo com a própria ONU, que finalmente parece que acordou para o problema, há 25 milhões de pessoas em risco em termos de segurança alimentar no Sudão. Há 6 milhões de deslocados no Sudão e basicamente toda a ajuda chega por regra, por via do porto que o Sudão tem no mar Vermelho. Ora, esse porto está também ameaçado por estes ataques dos houthis.
Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois das notícias das 16h, está sempre disponível em podcast. Eu sou o Luís Soares, até amanhã.