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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Major-general João Vieira Borges, bem-vindo. O Hamas reivindicou o ataque a tiro na rua que fez três vítimas mortais em Jerusalém, numa altura em que, na Faixa de Gaza, se tem prolongado o cessar-fogo, que tem dado tempo a este grupo extremista. O Hamas não está aqui a comprometer com este ataque a tiro o prolongamento da trégua ao avançar com ataques deste tipo?
Muito boa tarde. Efetivamente, na nossa perspectiva, está a fazê-lo da mesma maneira que a narrativa do ministro da Defesa israelita de que estão prontas as forças para imediatamente a seguir à libertação do último refém, destruir o Hamas e, portanto, desencadear planos de operações que já estão prontos e que vão para além do norte. O discurso de um lado e de outro, inclusivamente ontem com alguns incidentes e a morte de alguns palestinianos também em própria Gaza, são pequenos incidentes. Não são lobos solitários neste caso, mas quase, porque são dois irmãos que já tinham antecedentes, já tinham sido presos por tentativa de ataques terroristas. Digamos que não são propriamente premeditados no sentido normal, mas são apoiados imediatamente pelo Hamas, da mesma maneira que o soldado que matou palestinianos ou aquilo que se vem passando na Cisjordânia com a morte de dezenas de palestinianos durante este período de sete dias também é apoiado pelo governo de Israel. São situações que temos que entender da mesma maneira dos dois lados.
E na sequência deste ataque a tiro por membros do Hamas, Benjamin Netanyahu diz que o governo israelita vai distribuir mais armas pelos cidadãos. Major-general João Vieira Borges, parece-lhe uma boa ideia esta de armar civis?
Não parece nada uma boa ideia. Até porque os Estados Unidos estão preocupadíssimos com essa situação dos colonos. A crítica foi clara da parte do próprio presidente Biden relativamente àquilo que os colonos estão a fazer durante este período. Durante estes 55 dias ocuparam territórios, estão a ocupar o espaço das Forças de Defesa de Israel e as lacunas que têm as componentes policiais e, portanto, é uma tentativa que estão a fazer de compensar a falta de forças, quer militares, quer policiais naqueles espaços. Só que estamos a falar de extremistas. Extremistas estes que depois desenvolvem ações que obviamente vão contra todos os acordos e estão inclusivamente a alargar, em vez de diminuir, o espaço de Israel se está a alargar durante esta guerra na Cisjordânia. É algo que preocupa a comunidade internacional, preocupa os Estados Unidos, não preocupa só, certamente, os palestinianos em geral, neste caso, as forças que se encontram mais na região da Cisjordânia. Mas é uma situação que é muito preocupante a partir do momento em que distribui armas, porque obviamente está a tirar espaço de intervenção a forças legais e está a criar condições para situações do verdadeiro terrorismo também desenvolvidas agora por Israel. Isso é muito mau para Israel, na minha perspetiva.
Para já, o cessar-fogo foi prolongado por mais um dia. O Egito e o Qatar anunciaram que o Hamas já aceitou uma nova extensão de dois dias. Falta ainda a confirmação de Israel. Acredita que pode acontecer e pode vir a repetir-se durante a próxima semana?
Acredito nesses dois dias, porque aquilo que tinha sido aprovado pelo gabinete de guerra era para estender até 10 dias se o Hamas continuasse a libertar reféns. E está ainda dentro desses 10 dias. Eu acredito e espero bem que se concretize, mas depois a partir daí será certamente mais difícil para o Egito e para o Qatar, que aliás, neste momento estão também a trabalhar em simultâneo o cessar-fogo. Independentemente de Israel não aceitar, Israel tem representantes e estão lá não só os membros da Mossad, estão políticos, estão outros militares a acompanhar. Eu estava aqui a ver, inclusivamente nas notícias de Israel, exatamente a confirmarem isso, na sequência da informação que deram há pouco do ministro da Defesa, Yoav Gallant, que as forças estavam prontas para a renovação dos combates. Também confirmou enviados ao Qatar para distribuir a libertação de reféns e não só. Portanto, há aqui um esforço, e muito bem, diplomático, mas obviamente para Israel é importantíssimo a questão dos reféns, fazia parte da missão atribuída, que era primeiro destruir o Hamas, segundo libertar os reféns e terceiro garantir a segurança de Israel. Uma missão muito genérica para militares. Isto é muito complicado e sobretudo para militares, se me permitem, e eu tenho visto alguns artigos escritos por israelitas, antigos combatentes. Para eles, e eu compreendo perfeitamente também como militar, é muito complicado este adiar mais dois dias, adiar outros dois dias. Ou seja, aquele período de descanso que estava previsto para aqueles primeiros dias e que libertou alguns militares para irem junto da família, depois baralhou. Volta novamente para o teatro de operações. Quando volta para o teatro de operações, já esteve junto da família, já viu as notícias que, como sabemos, em Israel são muito complicadas. Não é propriamente um Estado autocrático, é um Estado democrático, com uma grande discussão, até mais como parte do Estado europeu e, portanto, os soldados em casa obviamente assistem às notícias, às grandes discussões. Quando voltam para o teatro de operações, voltam diferentes, não voltam com aquela determinação, certamente, que tinham para combater, voltam com dúvidas. E isso quanto mais tempo demorar, nós temos noção que é pior para o exército de Israel. Eles têm noção disso e por isso esta renovação do discurso diário, quase, do ministro da Defesa e do chefe do Estado-Maior General à tropa. Nós compreendemos isso perfeitamente como militares. É importante é que não passe em determinado tipo de discurso para o exterior. Para dentro é importante que passe. Agora, discursos relacionados com destruição, é melhor que fique só dentro da tropa.
A "Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 e tem nova edição depois da síntese das 16:30. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.