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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Professor António Zetello, teme-se um novo escalar das tensões no Médio Oriente depois de Gaza, Líbia e do Iémen. Há registo de confrontos entre Irão e Paquistão, que diz estar em alerta máximo e que qualquer passo dado pelo Irão vai ser enfrentado com força. Este é um escalar de guerra muito concentrado naquela região ou há o risco de alargar a um nível mais global?

Bom dia.

Bom dia.

Bem-viver, teme-se não é o termo indicado. De facto, está a haver uma escalada que não é de agora. E nós cada vez temos que olhar para este conflito não como um conflito único, não como uma guerra única entre Israel e o Hamas, que existe de facto, mas como múltiplos conflitos cruzados uns com os outros, que são coincidentes no tempo, mas que têm dinâmicas e lógicas diferentes. Por exemplo, recordo que antes destes incidentes entre o Paquistão e o Irão, chamemos-lhe assim, houve uma ação, por exemplo, do Estado Islâmico no Irão, com um atentado muito sangrento no Irão e, portanto, um incidente entre movimentos jihadistas, embora de sinais contrários e diferentes. Do mesmo modo, houve uma intervenção direta, quer dos Estados Unidos, quer do Reino Unido, quer de outros países, em termos de tentar manter o tráfico marítimo no mar Vermelho, ameaças em relação ao Golfo Pérsico, e aí estamos a falar de duas das principais vias de navegação em termos mundiais e dos principais funis de navegação. E agora o alargamento para fora já do Médio Oriente, com esta troca de ataques entre o Irão e o Paquistão, o que sem dúvida não deixará a curto prazo de envolver a Índia, nomeadamente. Portanto, temos aqui um conflito que se está a alargar, por enquanto numa escala ainda relativamente moderada, com exceção daquele que foi o conflito inicial ou a guerra inicial entre Israel e o Hamas, mas à parte disso são múltiplos conflitos que se estão a sobrepor. É como se toda uma região que de facto era um barril de pólvora começasse a ter várias erupções vulcânicas com origens diferentes, com lógicas diferentes, mas a ocorrerem ao mesmo tempo. É uma situação que todas as semanas se torna um bocado pior e que não só neste momento abarca o Médio Oriente todo, desde o Mediterrâneo até à Índia, e desde o Iémen e os Houthis até à fronteira do Paquistão, mas tende a alargar-se já para a zona, nomeadamente do Índico e da Ásia, diretamente com o envolvimento do Paquistão e de outros Estados.

E professor António Zetello, este confronto entre os Estados Unidos e os Houthis pode chegar ao mesmo nível de Israel? Ou seja, os americanos ou o mundo ocidental um dia destes podem declarar que não vão descansar enquanto não eliminarem este grupo terrorista?

Não é simples, a verdade é esta: os Houthis são, como diz, um dos grupos jihadistas que promovem, que desejam a violência e, em última instância, têm um objetivo muito simples que é a jihad, ou seja, é desencadear uma guerra santa que seja à escala mundial, à escala global. Mas são só um dos grupos. Há dezenas, atenção que não estou a exagerar, há dezenas de grupos armados jihadistas de finais diferentes, ainda por cima, uns xiitas, outros sunitas, em todo o Médio Oriente. Só para lhe dar uma referência. Em Gaza, não está só o Hamas. Em Gaza está o Hamas e entre 18 a 19 outros grupos que estão ligados ao Hamas, mas que são autónomos e que têm independência e que têm lógicas e nalguns casos até estratégias diferentes. Isto é só na Faixa de Gaza e a Faixa de Gaza é um território minúsculo à escala do Médio Oriente. Só ali encontramos cerca de 20. No Líbano há dezenas deles, na Síria, no Iraque, etc. Há largas dezenas de grupos jihadistas armados que promovem a violência. No caso dos Houthis, é muito difícil a sua eliminação. Não diria que é impossível, mas sem uma operação de grande envergadura é de facto impossível. Eu recordo que a Arábia Saudita, que tem dinheiro e tecnologia, durante vários anos promoveu, de facto, um grupo contrário numa guerra civil no Iémen e esse conflito ao fim de vários anos reforçou os Houthis, não os eliminou, mas reforçou-os. Recordo também que os métodos que os Houthis utilizam, que essencialmente são drones e foguetes, são muito difíceis e exigem infraestruturas mínimas. Um drone pode ser lançado praticamente em qualquer parte. Precisa do mínimo de infraestruturas, mas são infraestruturas, nomeadamente rampas, que podem ser facilmente retiradas de um sítio e colocadas noutro. Portanto, é muito difícil de eliminar com ataques aéreos cirúrgicos Porque são móveis e não exigem instalações fixas de envergadura que possam ser facilmente eliminadas com ataques aéreos. Portanto, este tipo de ataques contra os Hutis poderia ter um efeito de dissuasão. Já não estamos na dissuasão, já passamos essa fase. Um efeito de anular capacidades é muito duvidoso. Sem dúvida, provoca problemas e dificuldades que exigem adaptações no curto prazo. Isso é uma coisa, outra coisa é que se pretende anular uma capacidade militar. E isso é complicado de fazer, a não ser com uma manobra mais geral, que implique mudanças no terreno, que implique uma ação também terrestre. Há aqui uma situação que é de facto explosiva no Médio Oriente, em que ataques aéreos cirúrgicos é meramente um dos componentes de uma manobra que tem que ser mais geral e que, em última instância, tem que ser uma manobra política para conseguir obter resultados minimamente duradouros. Sendo que se pensamos que esses resultados, do ponto de vista ideal, seriam a paz e a estabilidade, é muito complicado. Estamos numa situação de caos generalizado em amplas zonas do Médio Oriente e, como lhe digo, não é uma guerra, são muitas guerras metidas numa mesma região e que agora explodem ao mesmo tempo. Mas são erupções vulcânicas relativamente independentes umas das outras.

Professor, entretanto António Guterres, que muito tem apelado a um cessar-fogo em Gaza, reconheceu que ainda não falou com Benjamin Netanyahu desde o dia do ataque do Hamas a 7 de outubro. Tornou-se um incómodo para o governo de Israel e para o secretário-geral da ONU ou Netanyahu aposta sobretudo em ignorá-lo?

Israel desde o começo que tem tido uma manobra errática e esse é um dos seus principais problemas. No entanto, dentro dessa manobra errática, há vários pontos que são repetidos sistematicamente, não só por Netanyahu, mas pelos principais responsáveis. Um deles é que o seu objetivo central é eliminar o Hamas, independentemente do que isto seja. E como isto é dito assim, é um objetivo muito difícil, senão impossível, de alcançar numa escala geral, porque o Hamas não está só na Faixa de Gaza, está muito espalhado e nem sequer está só no Médio Oriente. Como tal, eliminá-lo não é um objetivo que seja militarmente alcançável. E mais do que isso, o que este conflito até agora tem provocado, pelo menos tanto quanto nós conseguimos avaliar, é eventualmente um aumento da influência do Hamas nos palestinos ou nos palestinianos, como se preferir dizer. E isto tem acontecido. Portanto, o grande problema de Israel é que não tem claramente objetivos realistas, alcançáveis numa manobra militar e, sobretudo, o seu enquadramento numa manobra política. O primeiro-ministro Netanyahu tem dito várias vezes ultimamente que isto será uma guerra longa e nas últimas afirmações, eu vi isso, se não me engano ontem ou anteontem, terá mesmo dito que é uma guerra que não vai terminar em 2024, que se vai prolongar pelo menos para 2025, o que é algo absolutamente contrário a toda a tradição de Israel, que está habituado justamente a estabelecer objetivos claros e objetivos que sejam alcançáveis em um prazo relativamente curto. E mais do que isso, é algo que não só não tem uma solução rápida à vista, mas que na medida em que se baseia em objetivos que podemos classificar de irrealistas, dificilmente será bem-sucedida.

"A Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.