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Rádio Observador. Ideias Feitas na Rádio Observador, sempre com Alberto Gonçalves. É assim de segunda a sexta-feira, sempre por volta das 18h30. Alberto Gonçalves, boa tarde. Hoje queres falar sobre a condenação de Marine Le Pen.
Olá, Miguel. Quero, porque qualquer dia acabam-se de vez com as eleições nos países europeus e não se fala mais nisso. Aliás, já estivemos mais longe e muito mais longe, porque temos, para falar de alguns exemplos: a Hungria, que já teve uns problemas com o direito de voto no Conselho da União Europeia, e há sempre uma espécie de ameaça tácita de que a Hungria possa ser expulsa da própria União. Temos a Alemanha, em que se tentou tudo ou quase tudo para que o AfD, alternativa para a Alemanha, fosse banido ou pelo menos condicionado na atividade política. Temos a Roménia, em que há muito pouco tempo se anularam as presidenciais porque o candidato vencedor estava alegadamente envolvido numas coisas com o TikTok e Rússia. E depois foi impedido de concorrer às novas eleições porque alegadamente há uns problemas com financiamento de campanha. Temos a Itália, onde já desde há uns anos, meia dúzia de anos, que se procura acabar por via judicial com a carreira política do senhor Salvini, que é o atual vice-primeiro-ministro. E temos agora o caso da senhora Le Pen, que por acaso o senhor Salvini chamou ao caso, não à senhora Le Pen, uma declaração de guerra de Bruxelas. Ora bem, a senhora Le Pen foi hoje condenada por desvio de fundos europeus, um processo que já tem uns anos e que a própria sentença admite não ter sido em benefício próprio. Agora, por causa da condenação, em primeira instância, a senhora Le Pen está impedida de concorrer a cargos públicos durante cinco anos, o que vem mesmo a calhar para a impedir de se candidatar nas presidenciais de 2027, cujas sondagens liderava. Do que percebi, acho que nem o recurso a salva, porque é uma lei feita mais ou menos à medida, ou pelo menos que cai bem nesta matéria, que lhe proíbe a atividade política durante uma batalha judicial que a acontecer será longa. A primeira coisa que salta à vista em todos estes casos é uma espécie de coincidência, uma coincidência quase milagrosa, o fato de apenas os políticos de direita ou de extrema-direita se verem metidos em trapalhadas com a Justiça. Em teoria, é possível que os políticos do centro, da esquerda, da extrema-esquerda sejam todos imaculados, todos invariavelmente impolutos e nunca cometam ilegalidades suscetíveis de lhes trazer maçadas. É possível, mas não é provável. O mais provável é quase uma certeza, que há uma tendência para arranjar expedientes, e normalmente através dos tribunais, para limitar a vida política aos agentes e às ideologias não aprovados e não respeitáveis pelos padrões da União Europeia e os padrões vigentes mais ou menos no ar do tempo atual. As dissidências à ortodoxia pagam-se com a perseguição e correndo bem, pagam-se com a exclusão dos direitos civis, como está a acontecer agora à senhora Le Pen. Independentemente do que possamos achar da personagem, não da senhora Le Pen, mas do senhor Trump, a politização da Justiça aconteceu com o senhor Trump nos Estados Unidos e obviamente falhou, porque é o presidente em funções. Mas na Europa, se calhar porque temos instituições democráticas muito mais sólidas, essa politização da Justiça tem funcionado com superior eficácia e isso é moda pega e ao que me parece já pegou. Não deve demorar muito até que de Portugal à Bulgária o voto popular apenas possa recair naquelas forças políticas que são escolhidas, autorizadas e permitidas pelos valores dominantes, ou seja, aquelas forças que às vezes com excesso, outras vezes com razão, não levantam obstáculos à imigração descontrolada e às maravilhas do multiculturalismo. Portanto, passa a haver partidos viáveis, partidos possíveis, partidos simpáticos, agradáveis e que vão do centro à extrema-esquerda e do centro para a direita. Os partidos não são dignos do convívio civilizado. E a propósito dos Estados Unidos, só para terminar, houve um político americano que há um mês e pouco veio cá afirmar que as elites europeias sentem desconfiança e medo das suas próprias populações. E o homem foi insultadíssimo por dizer isso. A ideia, concordaram mais ou menos todos, era absurda, porque afinal na Europa qualquer cidadão é livre de votar em quem quiser. Agora, desde que vote de forma correta e ajuizada. No fundo, nós só não somos livres de votar mal. E isso, pelos vistos, é bom.
Em França, Marine Le Pen condenada, não vai poder candidatar-se às presidenciais francesas de 2027. Também destaque nesta edição de Ideias Feitas. Alberto Gonçalves, amanhã de regresso. Um abraço.
Até amanhã. Um abraço, Miguel.