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Triplo homicídio em Lisboa. Aconteceu nesta quarta-feira e é o tema do "Ideias Feitas" do Alberto Gonçalves. Olá, Alberto.
Olá, Vanessa. Eu gostava de começar por dizer que não sei qual é a etnia dos culpados, dos assassinos ou do assassino daquelas três pessoas ontem em Lisboa. Corre por aí que foram ciganos, de etnia cigana. Não faço ideia. Sinceramente, não tenho forma de saber ao certo quem foi. Agora, sei que não foi aquilo que se chama pessoas não racializadas, que se chama com alguma arrogância e com alguma ofensa, pessoas não racializadas, ou seja, portugueses brancos, triviais, com muitas gerações de ascendência, sei lá, em Celorico da Beira ou Oliveira do Hospital. Isso não foi de certeza, e eu sei disso, porque se tivesse sido, a atenção dos mídia e das televisões, em particular, teria sido muito diferente. Teriam identificado, com certeza, a etnia ou a falta dela dos homicidas. As televisões não falariam noutra coisa. Ao que sei, as televisões não deram destaque por aí além ao assunto, pelo menos foi o que me garantiram. Não vejo telesjornais quase nunca. E já haveria a esta hora insinuações de que se tratava de um crime de ódio, dado que as vítimas foram um cidadão de ascendência africana e dois imigrantes brasileiros, ao que parece. Portanto, já haveria por aí vigílias, manifestações da SOS Racismo, aquelas coisas todas. Seria aquilo que se chama o tal crime de ódio. Como não se falou em nada disso, presumo que não tenham sido, vou simplificar, eu não gosto de usar estas coisas, para mim das raças é um bocado absurdo, mas não foram brancos. E isso em si não teria nenhum problema, a não ser a própria ocultação de certas informações relativas aos crimes. É que essa ocultação traz consigo consequências. Consequências que não são boas, nenhuma delas. Uma delas é fazer crescer extremismos. Com certeza, faz. É evidente que faz, porque sim. Porque não havendo informações concretas do que se trata, deixando todo o caminho aberto a insinuações, a especulações, permite alimentar discursos mais demagógicos, discursos mais populistas, aquelas coisas todas que nós sabemos. Também aumenta a desconfiança face a certos grupos, porque se não se identifica se há uma propensão, que eu não sei se há, francamente, se há uma propensão para certos grupos ou certas etnias cometerem mais crimes, mas se não se divulga quais são, fica aquela ideia de que a culpa pode ser de qualquer etnia estranha, entre aspas, estrangeira, alheia. Portanto, cria essa desconfiança. Mas o que mais importa é o seguinte: quem é que beneficia com esta desvalorização do crime ou de certos crimes? São os criminosos. Sejam os criminosos ciganos, sejam brancos, sejam negros, sejam apaches, sejam esquimós, sejam o que forem. Desvalorizar o crime ou os crimes de alguns é alimentar o crime em geral. Ainda por cima, em circunstâncias, quer dizer, que não são só os mídia que ignoram o caso, ou os vários casos que já vão havendo, são os políticos também, é a própria Justiça, que também cria a tal impressão, muitas vezes justificada, de que as punições não são adequadas ou que as pessoas que cometem estes crimes não são apanhadas, e se são apanhadas, não sofrem penas propriamente compatíveis com os crimes que cometeram. O que nós sabemos, isso estatisticamente, de modo geral, é que a criminalidade violenta, ainda hoje, acho que foi hoje que o primeiro-ministro admitiu isso, a criminalidade mais violenta está a aumentar em Portugal. O número de homicídios, pelo que eu sei, pelo que vi, não parece que esteja a aumentar, embora estes três ontem em Lisboa contribuam certamente para as estatísticas, mas há um aumento da criminalidade e esse aumento tem causas, tem que ter explicações. As coisas não nascem no vácuo, como dizia outro. E convém que as coisas, além de não nascerem no vácuo, que não continuem no vácuo, que as coisas possam ser encaradas de frente, que a insegurança possa ser discutida, não ser deixada a certas franjas políticas do espectro partidário. Uns com uma perspectiva, outros com outra perspectiva totalmente oposta. Uns querem condenar as pessoas a 32 prisões perpétuas, outros não querem fazer nada às pessoas, querem mandá-las em paz. Mas não se deveria deixar a esses radicalismos a discussão de um tema como este. Este é um tema central nas sociedades ocidentais de hoje, como se está a ver na campanha eleitoral americana, como se tem visto em campanhas eleitorais em vários países da Europa, ainda há pouco tempo em França, por exemplo. É um tema que tem que ser discutido. Se não for discutido, se for ocultado, se for disfarçado para não criar sentimentos de xenofobia ou de racismo ou coisas do gênero, está-se a agravar a xenofobia, está-se a agravar o racismo e, o que é pior de tudo, como já disse, está-se a agravar o crime. Está-se a permitir que muitos crimes, se uns crimes passam impunes, é natural, ou possam beneficiar de uma certa impunidade, é natural que todos os crimes possam crescer com base nessa mesma suposta ou real impunidade.
"Esconder alguns crimes alimenta os crimes todos" é o título do Ideias Feitas de hoje, como sempre assinado pelo Alberto Gonçalves. Amanhã, Alberto, novo tema, nova crônica. Vamos voltar a encontrar-nos. Até amanhã.
Até amanhã, Vanessa.