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My chef. Ideias Feitas sempre com o Alberto Gonçalves. Boa tarde, Alberto. Hoje queres nos falar de Marcelo Rebelo de Sousa.
Olá, boa tarde. Eu já não aparecia por aqui há umas semanas, se calhar, mas há sempre motivos para falar do professor Marcelo. Ele ontem, na Universidade de Verão do PSD, afirmou que após deixar a Presidência da República, não voltará a falar sobre política e explicou o motivo desta promessa, dizendo que um ex-chefe de Estado não deve interferir na política para garantir a estabilidade das instituições. Não sei se ele estava a brincar, mas foi isto que ele disse. E o que temos agora é que faltam quatro meses para o professor Marcelo se calar para sempre, salvo seja, mas se calar em termos de opinião política, o que é, desde logo, uma boa notícia. A má notícia é que já ouvimos os disparates do professor Marcelo enquanto presidente da República há nove anos e tal. E a péssima notícia é que ainda temos mais quatro ou cinco meses disto. Ontem, na mesma ocasião, na Universidade de Verão do PSD, por exemplo, o professor Marcelo falou e disse que o senhor Trump é objetivamente um ativo soviético ou russo. O importante aqui é notar, para começo de conversa, a leviandade com que um chefe de Estado acusa o homólogo de um país aliado e decisivo para a nossa defesa, e não só para a nossa defesa, de estar ao serviço da Rússia ou da própria União Soviética. Alguns poderão ver nisto um exercício de franqueza, sobretudo pessoas que não apreciam o senhor Trump ou as atitudes do senhor Trump. É perfeitamente respeitável. Mas para além da opinião que possamos ter sobre o senhor Trump, isto é um exercício de brutal irresponsabilidade. E aliás, desde 2016, que na medida em que a realidade ignora o professor Marcelo, o professor Marcelo vinga-se ignorando a realidade e dizendo as coisas mais extravagantes que lhe vêm à cabeça. Eu acho que este comportamento dele foi aprimorado em décadas de comentário político, ou aquela coisa que ele fazia que passava por comentário político antes de ser presidente, e é o tipo de comportamento de uma espécie de alcoviteira um bocado destravada, ou particularmente destravada, que produz frases e aguarda pelo efeito dessas frases. Aqui no caso da política nacional, às vezes isso funcionava. No caso do senhor Trump, que obviamente não faz ideia de que o professor Marcelo existe, eu suspeito e espero que o efeito seja nulo. Quase tudo que o professor Marcelo diz enquanto presidente da República, em termos de impacto até nacional hoje em dia, tem um efeito nulo, não passa do zero. E nesse sentido, o professor Marcelo, que é um presidente que nunca deixou de ter apetites de comentador, nunca perdeu o hábito, é a personificação exata de uma nulidade. E essa é a nossa sorte, porque se alguém levasse o professor Marcelo a sério, ou se alguém sequer ouvisse o professor Marcelo, Portugal estaria ainda mais desgraçado do que já está. Fora isso, é interessante ir ao conteúdo da acusação feita ao senhor Trump e notar também que o professor Marcelo, autor dessa acusação, inaugurou a sua presidência, por exemplo, com uma viagem de peregrinação e de beija-mão a Fidel Castro, que era um famoso e comprovado ativo russo ou soviético. Também é igualmente interessante lembrar as inúmeras vezes em que o professor Marcelo passeou e exibiu a sua amizade com o senhor Lula do Brasil, outro iminente ativo russo ou soviético. E não vale a pena recordar as abundantes e calorosas declarações do professor Marcelo acerca da China, o orgulho com que, não há muitos anos, mas não foi durante a presidência de Trump, com que em 2020 rejeitou pressões americanas para que Portugal escolhesse entre o Ocidente e os chineses nas guerras comerciais. Isto também para não falar dos elogios do professor Marcelo ao modo como a China lidou com a Covid. Eu presumo que ele se referisse àquela estratégia de soldar as portas dos edifícios para que as pessoas morressem de sede ou de fome e não do vírus. E houve ainda as críticas, isto já é uma coisa muito mais recente, às críticas a Israel aquando do ataque às instalações nucleares do Irão, que é, como se sabe, outro membro dos BRICS. Para terminar, e de passagem, uma coisa mais ligeira, menos de caráter nacional. Que eu saiba, o senhor Trump nunca foi visto na Festa do Avante, que é uma pândega que o professor Marcelo já visitou e já louvou diversas vezes. Mais ativo russo ou soviético que a Festa do Avante e as pessoas que a organizam e que dão a cara pela Festa do Avante, é difícil. Só se o professor Marcelo tivesse sido dos pouquíssimos estadistas de nações democráticas a estar presente no Mundial de Futebol 2018 na Rússia. E o engraçado é que foi. E ainda mais engraçado é que se encontrou oficialmente com o senhor Putin e tudo. Que eu saiba, foi o único líder ocidental que o fez. Acho que o senhor Macron também esteve lá pelo Mundial de Futebol, mas não sei se se encontrou com o senhor Putin. O professor Marcelo foi à Rússia, encontrou-se com o senhor Putin e não teve problema nenhum com isso. Agora, para terminar, a questão é a seguinte: quer dizer, entre as muitas e merecidas críticas que os lamentáveis mandatos do professor Marcelo, porque são lamentáveis, entre as críticas que esses mandatos suscitam, não é habitual reparar-se que boa parte desses mandatos serviram para prestar vassalagem aos inimigos do Ocidente. Por algum motivo, que eu não sou capaz ou não me apetece analisar, não vou perder tempo com isso, a figura não justifica, mas por algum motivo, o professor Marcelo tem demonstrado uma curiosa predileção por regimes totalitários ou em vias disso. E nem sequer referi o desprezo que sempre dedicou aos direitos humanos em Angola, Moçambique, e a amizade que sempre dedicou aos líderes dos respectivos regimes. Agora, se nas palavras do professor Marcelo, o senhor Trump é um ativo russo ou soviético, não vou discutir isso. Nas ações do professor Marcelo, o professor Marcelo é um passivo russo, soviético, chinês, iraniano, terceiro-mundista e o que calhar. E uma coisa criticável, com certeza, é passar metade da presidência na praia, mas outra coisa um bocadinho mais criticável, e a que devíamos prestar mais atenção, é passar a metade restante da presidência a ir à praia com facínoras.
Alberto Gonçalves, a desfazer Ideias Feitas. Estás ainda de regresso amanhã. Até amanhã, Alberto.
Até amanhã.
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