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Como é habitual, junta-se a nós o Alberto Gonçalves. Alberto, boa tarde.
Olá, boa tarde.
Olá, boa tarde, Alberto Gonçalves. Neste final de semana, o Alberto Gonçalves escolheu para tema deste "Ideias Feitas" as agressões cometidas por uma família cigana numa pastelaria do Seixal, na margem sul do rio Tejo.
Sim, andou por aí um vídeo a circular nas redes sociais em que um grupo de indivíduos, que se veio a saber ser uma família, agrediu os funcionários ou os proprietários dessa pastelaria porque queriam que umas raspadinhas fossem servidas à mesa e os proprietários ou os funcionários recusaram-se a fazê-lo. Pelos vistos, não será prática. O motivo também não interessa muito, interessa a violência das agressões e interessa, sobretudo, o facto de ninguém ou quase ninguém— eu vi uma referência, pode ter havido outras, mas vi uma referência na TVI— dizer que a família era constituída de ciganos. Mais ninguém identificou, mais nenhum órgão de comunicação, o que eu tivesse visto, volto a dizer, identificou a etnia em causa. Eu não sou adepto de se identificar necessariamente a etnia, a raça, a cor da pele ou as crenças de quem comete um crime. Sei lá, se for um grupo de brancos a atacar alguém, ou um grupo de negros, ou um grupo de asiáticos, não acho que isso seja particularmente relevante, porque eu também não sei o que é cultura branca, ou cultura negra, ou cultura asiática. Não acho que sejam conceitos unívocos e que haja uma cultura assim propriamente dita. No caso da cultura cigana, nós temos ideia que, pelo menos os ciganos que vivem em Portugal, têm uma cultura e são um grupo, um subgrupo da sociedade relativamente coeso, com valores mais ou menos partilhados e mais ou menos em comum. E este tipo de omissão do jornalismo, quando acontece qualquer coisa, normalmente negativa, por azar, que envolva ciganos, normalmente vão justamente por essa omissão. Ainda há pouco tempo aconteceu um caso de um rapaz cabo-verdiano que foi morto em Bragança numa rixa de um bar e o caso já estava a despoletar grande indignação a propósito do que seria o racismo de brancos contra o rapaz de cor, etc. E quando se pôs a hipótese, que pelos vistos era bastante plausível ou muito provável, dos assassinos do rapaz serem ciganos, o assunto desapareceu. O assunto morreu como infelizmente morreu o rapaz. O problema que acontece aqui é que, ao contrário de culturas inexistentes como uma cultura branca ou caucasiana, uma cultura africana etc., que volto a dizer, não acho que existam, os ciganos têm valores próprios. Há uma série de fatores que as pessoas pelo menos associam ao comportamento dos ciganos e que na maioria das vezes estão ligados a uma certa permissividade de costumes e a uma certa impunidade perante a lei. É evidente que nem todos os ciganos agem assim, nem todos os ciganos andam aí a agredir pessoas, nem todos os ciganos se comportam com desrespeito pelas regras mais ou menos básicas da convivência entre as pessoas, mas há uma percentagem suficiente de ciganos dentro da comunidade que o faz e que não parece que, a olho nu de quem está de fora, sejam propriamente repreendidos ou penalizados por isso. Ainda há tempos, a propósito da percentagem de ciganos que faz isto ou que não faz, houve uma campanha a mostrar, através de umas fotografias, que individualizava vários senhores e senhoras da etnia cigana e a mostrar que eles tinham profissões absolutamente normais. Um era bancário, outro era engenheiro, outra senhora trabalhava não sei onde. E é evidente que sim, que ninguém põe em causa que alguns ciganos tenham profissões absolutamente normais e que não andem a praticar estas delinquências. A questão é que uma campanha destas seria absolutamente impensável a propósito de outra etnia qualquer ou a propósito de um branco, ou de um preto, ou de um amarelo. Ninguém imaginaria que houvesse uma campanha a mostrar que os cidadãos chineses também têm empregos. Não faria muito sentido. O problema disto tudo e desta impunidade que a comunidade cigana parece viver, é o fato de isto poder aumentar uma visão discriminatória da mesma, que nalguns casos se justifica, noutros casos evidentemente que não, mas que vai acrescendo. Há uma minoria que não é penalizada, não se sente suscetível de ser penalizada pela nossa lei comum. E pior, não é penalizada sequer pela comunidade a que pertence. Se a comunidade a que pertence discriminasse estes ciganos que cometem estes atos, e cometem alguns deles repetidamente, nós poderíamos ter uma noção de que aquela cultura ou de que aquele caldo cultural não aprova estes atos, mas nós não temos ideia nenhuma disso. Isto parece um bocadinho, mal comparado, com o que acontece com o terrorismo islâmico. Há uma necessidade de fazer crer à sociedade em geral que devemos aceitar os muçulmanos, por exemplo, os muçulmanos mais religiosos, mas não vemos da parte dessas comunidades religiosas nenhum esforço para que os atos condenáveis deles, no caso são bastante mais condenáveis que os da comunidade cigana, mas a certo de comparação, não vemos nenhum esforço de condenação dentro das suas próprias comunidades. E isso faz com que o resto da sociedade, e este resto da sociedade somos todos nós, não é uma sociedade exatamente, não sei o que são portugueses de gema ou lusitanos. São o resto das pessoas que se veem afetadas por alguns elementos e um número significativo de elementos da comunidade cigana, que começam a ter uma visão que às vezes corresponde à realidade e que com facilidade pode exceder essa realidade e pode se transformar num ódio e numa discriminação realmente a sério e com represálias. Neste momento, a violência parece vir só de uma comunidade que realmente é pequena e que nem sempre são de uma violência atroz, os que são absolutamente violentos são raros, felizmente, mas pode começar a haver represálias e sobre elementos dessa comunidade cigana que não tenham absolutamente culpa nenhuma. Nós tivemos há muitos anos um caso no Minho, de ciganos honestos que pagavam por uma parte importante da comunidade a que pertenciam, fazer tráfico de droga numa zona de Vila Verde, no Minho. Salvo erro, foi aí já há uns 20 e tal anos, se não estou em erro. E é isto que pode acontecer, e sabemos que hoje há forças políticas que cavalgam estas ideias, estas histórias e, no fundo, este sentimento de impunidade que os ciganos parecem viver e o sentimento de injustiça que o resto da sociedade parece viver face a eles.
Certo, é Alberto Gonçalves, que é preciso condenar qualquer tipo de comportamento violento, independentemente também da etnia. Obrigado, Alberto Gonçalves. O Alberto hoje a desfazer ideias feitas a propósito dessas agressões cometidas por uma família cigana numa pastelaria do Seixal, na margem sul do rio Tejo.
Voltamos a desfazer ideias feitas na segunda-feira com o comentador do Observador, Alberto Gonçalves. Entretanto, esta edição vai ficar disponível em podcast, nas plataformas habituais e também em observador.pt, já a seguir.
Rádio Observador. Aconteça o que acontecer.
E João Alexandre, à sexta-feira, na tarde em direto, ouvimos Bandex.
E já ouvimos por aqui alguns treinadores de futebol, por exemplo, Jorge Jesus, e esta semana destacamos o alarme causado pelo coronavírus relacionado com outro treinador, ou seja, é a opinião do treinador alemão Jürgen Klopp, é treinador do Liverpool. Questionado sobre este novo vírus, o Covid-19, o técnico da equipe inglesa respondeu ao seu melhor estilo, dizendo que não faz sentido perguntar a um treinador questões que nada têm a ver com o futebol. Jürgen Klopp diz que o coronavírus é um assunto sério, que deseja a todos saúde, mas que a sua opinião, a do treinador alemão, não é importante neste assunto.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto