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8.4. Desfazemos ideias feitas com Alberto Gonçalves. Alberto, boa tarde, boa semana.

Olá, boa tarde e boa semana.

Obrigada.

Olá, boa tarde Alberto Gonçalves. Neste início de semana, Alberto Gonçalves quer desfazer ideias feitas sobre um assunto sobre o qual estivemos a falar há pouco, esse fundo de recuperação das economias europeias. Coloca aqui este fundo de recuperação entre aspas. Por que isso acontece?

Foi sobretudo porque é o termo que é designado, que não me parece que seja exatamente oficial. Há algo, eu não diria ideológico, mas algo que não é exatamente científico ou técnico no termo. Não quero dar demasiada importância às aspas, é apenas a forma como estão a falar destes dinheiros para que os países que mais produzem na União Europeia e que mais dinheiro têm, vão distribuir pelos países que menos dinheiro têm e que normalmente andam de mão estendida por aí, como o doutor Costa tem andado. É mais um governante português que tem dado uma estendida pela Europa a pedir o dinheiro que nós não conseguimos, o valor que nós não conseguimos produzir, pedimos aos outros para nos fornecerem. Há aqui um problema de comunicação que tem alguma graça, e acho uma certa piada seguir estas, pelo menos com uma certa distância e alguma reserva, seguir estas negociações. Por que é que é um problema de comunicação curioso? É que Portugal ou os países como Portugal, mas nós somos um exemplo sempre constante do país que pede, usa argumentos poéticos, ou vagos, ou líricos, como a solidariedade e a coesão e a harmonia europeia, etc., para exigir, no fundo, uma coisa muito simples, que é dinheirinho, é uma coisa muito concreta. É curioso, há aqui qualquer coisa de irônico nisto. Nós pedimos uma coisa e prometemos retribuir com outra de igual valor. Nós falamos em conceitos e depois queremos é dinheiro, que é um conceito também, mas dá para comprar mais coisas. E depois há outras complicações comunicacionais, porque cá dentro os socialistas falam muito grosso face aos europeus, face a esta alegada falta de solidariedade, neste caso dos sociais-democratas nórdicos, que de repente se tornaram no inimigo, na besta negra do nosso patriotismo. Dantes eram o exemplo a seguir. Falava-se sempre das Holandas, Suécias, Finlândias, etc. Agora eles são muito maus, porque não nos querem ajudar, ou pelo menos levantam problemas a isso e se emprestarem dinheiro, querem que o dinheiro tenha ou parte dele tenha retorno. Mas quer dizer, os socialistas, o doutor Costa e os seus apaniguados lá fora falam com muito jeitinho, pedem com muito cuidado, muita educação, depois cá dentro vêm mostrar que a soberania nacional está acima de tudo, sobretudo quando se trata de vivermos à custa do dinheiro alheio. E o PCP, por exemplo, já veio avisar, e é uma mentalidade que está mais ou menos disseminada pelo país. Isto corre mais ou menos de todos os partidos ou quase, os militantes de todos os partidos ou quase. O PCP, repito, veio defender que a utilização destas verbas europeias cabe aos portugueses. Quer dizer, os alemães e os holandeses e essa gente toda têm apenas que pagar. Não têm que escolher qual é o destino para onde vai este dinheiro, os destinos, no caso. E eu estive a ver para aqui alguns destinos que podemos imaginar por onde o dinheiro vai. Nós falamos destas verbas todas e fala-se já agora em 15 mil milhões, mas para onde é que vai este dinheiro? Não será necessariamente para prostitutas e vinho verde, como dizia aqui há uns anos um certo dirigente europeu. Acho que vai para coisas piores, porque ainda ontem ou anteontem saiu uma notícia de que Oeiras vai pagar €600 mil. Isto parece uma coisa mínima destes valores todos, mas não é tão mínimo assim. São €600 mil por um obelisco com raio laser verde no topo. Eu imagino que qualquer conselho português possa dar grande utilidade a um obelisco com raio laser verde no topo, mas €600 mil é dinheiro. Ainda por cima, este foi um ajuste direto. Eu tenho aqui umas notas tiradas que diz que foi um ajuste direto a um escultor luso-angolano que em 18 meses já vendeu mais de 1 milhão de euros em obras, isto são consideradas obras, ao município presidido por Isaltino Morais. Pronto, já temos aqui uma ideia para onde pode ir um cadinho das verbas. Para financiar escultores luso-angolanos ou luso outra coisa qualquer e que façam obeliscos. Mas já temos aí nos jornais muita gente agitada e a pedir a urgência do famoso novo aeroporto de Lisboa, que vai ficar bastante longe de Lisboa, mas isso é de somenos. E parece-me que a urgência no pedido de um novo aeroporto faz sentido, sobretudo numa altura em que as viagens de avião praticamente, praticamente não, quer dizer, encolheram dramaticamente e não se sabe quando voltarão a ter a intensidade que já tiveram. E depois temos, por fim, eu lembro-me de um sketch, só para terminar, havia um sketch dos Gato Fedorento em que o Ricardo Araújo Pereira fazia de autarca ou daquele autarca típico assim do norte, vagamente inspirado talvez no major Valente Loureiro, uma coisa assim, em que ele prometia alcatifar o município dele todo, a cidade dele. Aquilo que na altura era absolutamente ridículo e que ninguém imaginava sequer o próprio major Valente Loureiro a fazer, de facto, era apenas uma caricatura. Já temos o presidente da Câmara de Lisboa a mandar pintar ruas de cores bonitas e vistosas e tal. E mais uma verba investida com excelentes intenções e excelentes resultados. Portanto, é natural que os europeus e estes senhores, os chamados frugais, tenham algumas dúvidas no dinheiro que vão despejar aqui. Podemos perfeitamente acusá-los de falta de solidariedade, podemos acusá-los do que quisermos, não podemos acusá-los de ser estúpidos.

Obrigado, Alberto Gonçalves, neste início de semana a abordar esse tema desse fundo de recuperação da União Europeia. Para já ainda decorre mais uma das rondas de negociação dessa reunião plenária do Conselho Europeu. Ainda não há fumo branco, ainda não há esse acordo final, mas à entrada para a reunião desta tarde, o primeiro-ministro português António Costa sublinhou estar otimista, adiantando ainda que a fatia que vai chegar a Portugal pode superar os 15 mil milhões de euros.

Voltamos a desfazer ideias feitas amanhã. Esta edição vai ficar disponível. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.