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"Ideias Feitas." "Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Boa tarde.

E hoje quero dizer a uma espécie de declaração de amor a Portugal?

Espécie não, acho que foi uma declaração de amor absolutamente sincera. Não vi nada de duvidoso naquilo.

Ficaste convencido, então.

Fiquei convencidíssimo. Para quem não sabe do que estamos a falar, o presidente dos Estados Unidos, o senhor Donald Trump, gravou um vídeo a congratular, nem percebi exatamente por quê, mas é a propósito do 4 de julho, do dia da independência dos Estados Unidos, a congratular o embaixador americano em Lisboa. E hoje a embaixada divulgou o vídeo e ficamos informados de que o senhor Trump não só ama Portugal, foi uma frase dele, como tem em altíssima conta os campos de golfe nacionais. Bastou esperar uns minutos, contei ali uns minutos, contei é maneira de dizer, mas esperou-se uns minutos, já tínhamos comentários pela internet fora, as declarações do senhor Trump, a maioria, evidentemente, comentários insultuosos, e quase todos em volta de duas questões mais ou menos ligadas entre si. A primeira questão é a possibilidade, dizem as pessoas, de o senhor Trump nem sequer saber onde fica Portugal. E esta é uma crítica recorrente de muitos portugueses ao que eles imaginam que é a cultura média dos americanos, às vezes com razão, outras vezes sem ela. Eu, por acaso, também realmente não imagino que o senhor Trump ou a generalidade dos americanos conheça grande coisa de Portugal, embora, por acaso, seja o único povo que quando os informo da minha origem, costumam dizer o nome de um navegador, Magalhães ou Magellan ou Vasco da Gama, e não o nome de um futebolista. Isso fica registado, mas pode ser a amostra naturalmente reduzida de que eu disponho. Agora, tenho a certeza de que inúmeros portugueses também são reciprocamente ignorantes sobre os Estados Unidos e nem refiro o pormenor de bastantes portugueses serem bastante ignorantes no que toca ao seu próprio país. Agora, a segunda questão é o facto, ou a segunda corrente de insultos, prende-se com o facto aparentemente vergonhoso para o senhor Trump, de o senhor Trump destacar apenas os nossos campos de golfe. As pessoas não toleraram que ele falasse apenas nos campos de golfe, que é um desporto que ele pratica, é mais ou menos conhecido isso, e pelos vistos o embaixador americano também acho que é um jogador de golfe até com algum mérito. Não acompanho a modalidade, por isso não sei. E aqui o senhor Trump, quando falou dos campos de golfe, limitou-se a destacar um exemplo daquele tipo de virtudes que os estrangeiros em geral atribuem ao país. Nisto ele não foi de nada original. Se não fossem os campos de golfe, seria a comida ou a hospitalidade, o clima, e agora com estas vagas de calor, acho que já nem o clima se salva. Mas é aquele tipo de coisas que os estrangeiros costumam destacar de Portugal. E nisso o senhor Trump mostrou ter a perspectiva do turista comum e que é a perspectiva expectável acerca de um país que decidiu devotar boa parte da economia ao turismo e para cúmulo, a um turismo de baixo valor acrescentado, como dizem os economistas, e como se nota depois no dinheiro que fica por aí, nos salários ligados ao setor, que também não são grande coisa. Agora, o senhor Trump não tem culpa de que Portugal rivalize com alguns dos países, também como Portugal, mais pobres da Europa, como a Croácia, a Grécia, o Chipre, em matéria de dependência de turismo, ou que sejamos uma espécie de Tunísia menos pobre, e menos pobre também em parte graças ao fatídico hábito dos fundos europeus. O senhor Trump não tem culpa de que há meia dúzia de anos os governos do doutor Costa, hoje presidente do prestigiado Conselho Europeu, tenham aberto as fronteiras a um milhão de imigrantes maioritariamente sem qualificações e tenha também disfarçado os dados, ao que parece, enquanto criaram as condições para que perto de um milhão de portugueses, maioritariamente com qualificações, tivessem saído do país em busca de uma vida menos pelintra. O senhor Trump não tem culpa de não nos distinguirmos pela portentosa indústria automóvel, por gigantes das novas tecnologias, nem de nos estarmos a tornar num daqueles lugares relativamente exóticos. Uma espécie de recreio, um recreio que só é atraente e só é recreio para umas dúzias de turistas endinheirados que passam por cá a fim de jogar golfe e comer lavagante, fresquinho, aliás, e milhares de turistas menos endinheirados que vão à praia e não comem lavagante. Agora, a culpa nem é sequer dos governos que temos tido, ou pelo menos não é só dos governos que temos tido, nem só dos partidos em que votamos. Em última instância, a culpa é nossa, porque nada do que tem acontecido a Portugal tem acontecido à nossa revelia. O nosso modelo de desenvolvimento, como se diz, é assente no atraso de vida e é no fundo uma escolha nossa. Nós podemos insultar o senhor Trump à vontade, aliás, é um desporto não só nacional, mas seria mais útil também às vezes guardarmos alguns dos insultos para nós mesmos. Nós temos culpa daquilo em que nos tornamos, e aquilo em que nos tornamos é em parte representado pelos campos de golfe, como podia ser representado pelo pastel de nata ou por outra coisa qualquer, mas nada que propriamente seja suscetível de nos enriquecer.

Obrigado, Alberto, e até amanhã.

Até amanhã, Ricardo.

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Desculpe, Nina, sabe onde é o Milênio Festival ao Largo?

Sim, sei, é ali na praça.

Na praça? Então não é ao largo?

Não, este ano o Milênio Festival ao Largo é na praça, na praça central do Centro Cultural de Belém.

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