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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto.
Bem-vindos ao programa "Imperdíveis", hoje com Jan Wierzba, maestro, pianista, cofundador do MPMP Ensemble, membro da direção do MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, que está a fazer agora 10 anos. O Jan é polaco, tem 34 anos, é conhecido por ser um dos músicos mais versáteis da sua geração. Nasceu em Łódź, mas foi educado no Porto, porque os seus pais, ambos músicos, vieram viver para o Porto. Bem-vindo, Jan.
Muito obrigado, Laurinda.
Gostava de começar pela história da sua família e, sobretudo, também porque a sua mãe já não está e também prestarmos uma homenagem, começar por falar dela e por falar desta chegada a Portugal.
Com certeza, com todo o gosto. Vou só permitir-me fazer aqui um pequeno reparo. A Laurinda disse que eu sou polaco. Efetivamente, sou polaco de sangue e nos papéis também, sendo que, como disse, cresci no Porto e com algum orgulho digo que sou um polaco tripeiro, porque devo muito à cidade e efetivamente sinto que tenho algum espírito da própria cidade e das pessoas que o habitam.
Maravilha.
Em relação à nossa vinda para Portugal, teve a ver um pouco com as histórias de vários músicos do antigo Bloco do Leste que, na altura, emigraram para o Ocidente. Era o ano de 1989, o ano da revolução na Polónia, e eu tinha, na altura, três anos e meio, qualquer coisa deste gênero, pelo que eu sei, claro que isto são tudo histórias que eu ouvi falar. E na altura estava a ser criada no Porto uma nova orquestra, na altura chamada Regia Cooperativa Sinfonia, que posteriormente passou a ser chamada Orquestra Clássica do Porto e ainda posteriormente Orquestra Nacional do Porto e, entretanto, tornou-se a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música. E, na altura, esta orquestra estava a ser criada para, no fundo, não sei se substituir será uma palavra adequada, mas teve a ver com a dissolução da Orquestra da Rádio Difusão Portuguesa no Porto.
E os seus pais concorreram?
A minha mãe, mais especificamente.
A sua mãe, que era uma violinista conhecida pelo nome Magda.
Magda. O nome dela era bem mais complicado, Małgorzata, mas conhecida por toda a gente como Magda. E esta orquestra, com a sua direção artística, andava a fazer provas por toda a Europa para constituir esta nova orquestra. E, salvo erro, na primeira leva das provas que houve na Polónia, em Varsóvia, por muito que tenha sido encorajada por alguns colegas que iam concorrer, ela não concorreu, dizendo que não, a nossa vida era na Polónia e que eu era um miúdo ainda. E apesar de tudo, os meus pais tinham uma vida bastante bem organizada e de sucesso na Polónia, quer seja a nível de tocar em orquestras, como ambos lecionavam na Escola Superior de Música de Łódź. Portanto, ela tinha algumas dúvidas, mas na segunda leva de provas, porque a orquestra não foi toda constituída quando fizeram as primeiras provas, as primeiras audições, a minha mãe efetivamente concorreu e conseguiu um lugar. E assim, muito num espírito aventureiro de um jovem casal de, salvo erro, 30 e poucos anos.
Vamos lá fazer um ano ou dois.
Vamos lá fazer um ano ou dois. Na verdade, vamos ser absolutamente sinceros, a ideia, para além da aventura, era também ganhar dinheiro, porque trazer dólares na altura para o Bloco do Leste era uma coisa fantástica e o salário era bom na altura. Portanto, sim, decidiram vir um pouquinho numa aventura. Dois casais, na verdade, que depois o outro casal de polacos também tocava na orquestra, fizeram uma viagem de cerca de uma semana através da Europa para tocar nesta orquestra.
Que maravilha. E a sua mãe e o seu pai tocaram durante muitos anos nesta orquestra?
O meu pai nunca chegou a tocar nesta orquestra. O meu pai no segundo ano nosso cá, foi admitido como professor do Conservatório de Música do Porto. A minha mãe mais tarde também chegou a trabalhar. O meu pai trabalhou em muitos outros sítios também, mas o meu pai continuou a tocar enquanto músico de câmara, com recitais, etc.
Jan, sendo filho de músicos, parece quase natural que seja também músico, maestro, pianista e tudo aquilo que o Jan faz, embora haja um irmão. O Jan tem um irmão que não tem nada a ver com isto, que é gestor e está em Hong Kong, não é?
Exato.
Mas para si a música foi um caos, não é? Foi assim um caldeirão onde mergulhou desde pequeno.
Vamos dizer que os meus pais tiveram pouco a ver com o fato de que eu comecei a estudar música, porque, na verdade, o meu irmão também estudava música, mas quando chegou a Portugal, e ele tinha na altura 10, 11 anos, o meu pai a um certo ponto reparou que ele detestava estudar violino e, a meio de uma choradeira qualquer do meu irmão, disse: "Tu não gostas mesmo nada disso, pois não?" O meu irmão disse a meio de lágrimas: "Não, eu detesto isto". E assim deixou. A verdade é essa.
Desculpe, Jan, quando estamos em Skype, não é nada fácil, uma pessoa não se atropelar. Mas o Jan gostou sempre de estudar música e, portanto, nunca houve choradeira para tocar piano, nunca ninguém teve que o obrigar?
Claro que houve choradeira e claro que me tiveram que obrigar. Naturalmente que sim. Apesar de tudo, era um miúdo normal, como são a maior parte dos músicos, mesmo que às vezes me pareça que estejamos numa torre de cristal, mas eu queria jogar bola, eu queria estar com amigos e baldava-me, tal como toda a gente se balda, muita coisa. A escolha foi efetivamente minha, de começar a estudar piano. Não foi por imposição deles. Agora, no momento em que eu comecei a estudar e no momento em que se reparou que eu até tinha algum jeito e tudo mais, sim, levaram a coisa muito a sério. Houve uma altura que quis desistir, quando tinha 17 anos, uma crise de adolescência. Eles não me permitiram desistir nessa altura, e acho que fizeram bem, sendo que, se calhar a Laura ainda ia me perguntar mais tarde em relação a isso, mas eu só decidi seguir música de uma forma mais séria um dia antes da inscrição para as universidades. Ou seja, um dia antes, finalmente eu com o tempo a acabar, tive que tomar uma decisão. Tomei a decisão um dia antes das inscrições, comuniquei aos meus pais e a única coisa que eles me pediram foi: "Tudo bem, mantenha as notas", eu estava no curso de Economia, no secundário, "e mantenha as notas nos exames nacionais como se fosses concorrer às faculdades", e foi o que aconteceu.
Interessante isso, porque eu acho que isto também diz muito do seu ecletismo. Uma pessoa que tem interesses muito diversificados, não só na música como fora da música, mas também a sua ação como músico, como maestro, como diretor de orquestra, como pensador e como comunicador, tem sido também muito eclética. Isso é interessante ver como em miúdo também isso já se desenhava.
Sim, penso assim.
A sua mãe era uma grande violinista e morreu muito cedo, não é? O que que aconteceu?
A minha mãe teve câncer. No fundo, assim tão simples e assim tão complicado ao mesmo tempo.
Com quantos anos?
Foi diagnosticada a primeira vez quando eu tinha cerca de 17 anos, salvo erro. Foi primeiro um câncer da mama, que terá sido resolvido. Mais tarde, a doença voltou, metastizou e não houve muita hipótese a um certo ponto. Quando ela faleceu, eu tinha 21 anos.
Que é muito cedo, não é?
É cedo? Eu não sei se existe um cedo ou um tarde para perder alguém que é nuclear, que é estrutural. Quem quer que seja, quer seja uma mãe, um amigo ou um cão, sinceramente.
Sim, e também é uma perda, no fundo, é isso que diz, é sem idade e é sem tempo. É sempre uma perda brutal, irreparável. O que acha que herdou da sua mãe?
Várias pequenas coisas, sendo que eu estou sempre na esperança que é mais do que aquilo que eu penso. Ela era uma mulher absolutamente fascinante, com sentido de humor fantástico. Acho que herdei algum do sentido de humor dela. Também um sentido de ironia e de algum sarcasmo que ela própria tinha. Acho que herdei também alguma aptidão para lidar com pessoas, que era uma das grandes armas intrínsecas da minha mãe, nada pensado. E espero que tenha herdado alguma coisa disso, pelo menos sinto que sim. E depois resiliência, alguma resiliência. Por muito que eu me considere uma pessoa absolutamente afortunada em vários aspectos, não digo que não houve momentos em que não tivesse que ser resiliente, e isso acho que vem muito da minha mãe.
Isso é bonito, ainda por cima porque nós, neste tempo que corre, estamos todos a ser chamados à resiliência, não é?
Sem dúvida.
A resiliência restaurativa.
Certo, sendo restaurativa difícil neste momento, porque é uma resiliência comunitária também. Quando somos resilientes, não somos resilientes sozinhos. Neste momento, de repente, temos que ser resilientes, mesmo todos, cada um por si, ao mesmo tempo que cada um por todos. E isso é muito complicado.
É muito complicado. Oh, Yann, vejo aqui no Skype que está a beber um copo d'água, portanto deixe-me beber. Queria então ir aqui ao seu percurso como pianista, seu background é de pianista, portanto começou por ser um solista, não é? Quando é que percebeu que não queria ser só um pianista, também queria ser um diretor de orquestra?
Uma história engraçada, porque há um momento específico em que isso aconteceu. O bichinho esteve sempre lá, por inerência à situação social e familiar e tudo mais. Assistia a muitos ensaios de orquestra, muitos concertos, muitos convívios de músicos de orquestra. Quando comecei a crescer, a minha mãe trazia muitas vezes para a mesa de almoço ou jantar as suas frustrações, as suas alegrias e as suas interrogações. A um certo ponto, eu crescendo enquanto músico, as conversas passaram a ser também muito mais profundas. No fundo, começamos a falar de outras questões musicais e de grupo que iam surgindo. E eu sempre tive uma curiosidade imensa sobre esta figura do maestro, que na altura eu pensava, tal como muita gente pensa, e eu não vou dizer ainda bem, mas é natural que assim pense, que é uma pessoa ali a espantar moscas um bocadinho num código que não é inteligível à primeira vista, muitas vezes.
É interessante isso, porque eu acho que há umas décadas, de facto, eu acho que antes dos Bernsteins da vida, se calar, e antes dos grandes maestros, destes que de facto não só foram os grandes maestros, como os grandes comunicadores desta música, desta arte, acho que as pessoas achavam que sim, que no fundo havia ali uma movimentação.
Certo, embora, como disse, os Bernsteins desta vida, como Bernstein, com Karajan e outros maestros que tais, veio também um certo misticismo. Agora que o faço e que realmente tenho as mãos na massa, considero também perigoso, de certa forma, uma glorificação da figura.
Sim, eu percebo. Mas entre uma coisa e outra há de estar aí um equilíbrio, uma verdade, exatamente, uma autenticidade. Mas é interessante ver que, no imaginário comum, pode haver isto do maestro, que há pessoas que, no limite, pensam o que ele lá está a fazer, porque eles são todos excelentes músicos, no limite, podem pensar, não precisariam dele. Sabemos que precisam, mas pode dar essa ilusão. Mas, por outro lado, no imaginário comum está que ele é a metáfora por excelência da liderança. Há muita coisa que as pessoas tentam imitar e vão usar sempre a imagem do maestro. Portanto, se não lhe dessem importância, não usavam tanto como referência. Por outro lado, vem esta glorificação. Onde é que se situa, então?
Onde é que eu me situo?
Não é onde é que o Jan maestro se situa, é onde é que se situa no sentido filosófico e conceptual do papel do maestro.
É uma pergunta muito difícil, porque duvido que algum maestro lhe dê uma resposta com a certeza absoluta. E acho que aqui há uma pequena falácia e um pequeno problema no sentido de usar a figura do maestro enquanto uma referência também de liderança, e muitas vezes vê-se também no mundo empresarial esta comparação, porque o maestro faz uma coisa que é muito raro, aliás, não me lembro quase de nenhuma profissão neste momento, claro que deve existir, mas não me lembro, em que uma pessoa tem que encarnar o líder, de semana a semana, com um grupo de pessoas diferentes e num espaço de tempo extremamente limitado. Estamos a falar de, com sorte, 18 horas de ensaios, muitas vezes são 12 ou nove, em três, quatro dias, e nestes três, quatro dias, temos que convencer esse grupo de pessoas de que merecemos o seu respeito ou que os conseguimos pôr a remar para o mesmo lado. E isto é um pequeno problema, porque muitas vezes já houve coisas como TED Talks, pequenas conferências de mestres, nós estamos na altura do YouTube, portanto, tudo isto é muito comum de se ouvir, mas é muito complicado passar esta ideia de liderança a uma pessoa que está, imaginemos, num lugar de liderança, quer seja política, quer seja empresarial, porque estas pessoas estão envolvidas muitas vezes em projetos de muito mais longa duração.
Claro.
Portanto, claro que há exemplos que se podem tirar, mas a comparação direta é complicada.
Eu acho que aí o exemplo que se tira é sempre o da afinação, salvo seja. É fazer todos tocarem no tempo certo, não há grupinho à parte, eu não gosto de ti, portanto, eu contigo não colaboro. Eu acho que é a metáfora por excelência e sobretudo também é a metáfora do dedo mindinho. Há sempre um dedo mindinho para tocar sempre a mesma nota e nas organizações também há sempre alguém que é mais invisível ou que tem um trabalho mais mecânico ou menos inspirador, e que no fundo se revê também, não sei, nos ferrinhos, que toca ali duas vezes. Portanto, eu acho que não é completamente errado, nem desvirtua.
Sim, não desvirtua, de todo. Isto não foi uma crítica, foi só uma chamada de atenção.
Sim, mas fez bem, porque eu concordo consigo, também. Jan, o que o fascina naquilo que faz?
As pessoas.
As que estão atrás de si ou as que estão à sua frente?
Era o que eu ia dizer a seguir, ambas. Ambos os grupos. Fascina-me a orquestra enquanto um organismo vivo. Fascina-me a orquestra enquanto uma família, também, porque é, porque, na verdade, são famílias que passam muitos anos juntos. Não existe uma coisa chamada mobilidade do mercado, necessariamente, pelo menos naquilo que consideramos as orquestras tradicionais, de pessoas contratadas, com contratos, com tudo mais alguma coisa. E, por outro lado, fascina-me, efetivamente, a comunicação, muitas vezes energética, muitas vezes, se quiser, metafísica, é um bocadinho, se calhar, auspicioso dizer isso. Mas fascina-me como é que nos encontramos aí algures no meio.
Jan, e é literalmente no meio. Está no meio entre uns e outros. Engraçado isso de falar dessa comunicação e dessa energia, porque está de costas para o público, não é?
Sem dúvida nenhuma.
Mas sente o público, não é?
Sinto. Sinto, sem dúvida alguma, que se sente e a energia na sala é uma coisa que se sente. É fascinante quando se tem um concerto em que essa energia, esse encontro, exista. Por outro lado, é um pânico e uma luta imensa quando se está num concerto em que se está a perceber que isso não se está a passar, e não há um buraco onde nos enfiar.
E isso às vezes não se passa por quê? Por haver poucas pessoas ou porque as pessoas não estão na sintonia?
Eu acho que isso pode se passar por várias razões. Pode se passar por ser simplesmente um dia mau. E isso toda a gente tem, qualquer artista, qualquer ser humano, e nós somos ser humanos.
Mas um dia mau para todos? Para todas as pessoas que estão na plateia?
Acredito que pode acontecer.
Sim, interessante. O que foi o melhor que já lhe aconteceu até hoje? E se calhar, o pior?
A nível de concertos?
Sim.
Não consigo limitar o melhor o que me aconteceu. Isso é absolutamente impossível. Tenho uma amálgama imensa de grandes memórias E acho que as piores coisas que me aconteceram, eu acho que também não as posso classificar como piores porque fizeram parte de um crescimento. Acho que a metáfora da vida encaixa como uma luva, na verdade. Os momentos em que não conseguimos, na verdade, damos um salto ainda maior.
Isso é muito interessante, porque, se calhar, é quando estamos mais condicionados que somos mais levados a dar um salto em altura e em comprimento. Jan, estamos aqui em cima da pausa, mas ainda antes, ainda tenho aqui um minuto para fazer uma pergunta sobre o seu pai. O seu pai continua no ativo? O seu pai chama-se Adam?
Exatamente, o meu pai chama-se Adam, é clarinetista, ou vamos dizer que era clarinetista, neste momento encontra-se aposentado.
E continua no Porto?
Continua no Porto, mesmo tendo-se aposentado, eu e meu irmão fizemos alguma questão de falar com ele sobre a possibilidade de voltar para a Polónia, mas ele também diz que não consegue viver sem o mar.
Então, converteram-se numa família tripaira.
No fundo, sim. Sem dúvida.
Maravilha. Mas não tem muito sotaque, mas já lá vamos.
Depende.
Se estiver a falar com pessoas do Porto, é capaz de arrancar com o melhor sotaque.
Pessoas do Porto e com um fino na mão.
Muito bem. Fazemos uma pausa, voltamos já a seguir. Até já.
O meu nome é Sara Antunes de Oliveira, sou editora de sociedade do Observador. Ainda no início de março, comecei a guardar notas de todos os trabalhos que o Observador estava a fazer sobre o novo coronavírus. Achei que um dia podia ser útil para recordar como trabalhamos e aquilo que escrevemos sobre a grande pandemia do século. Mas confesso que acabei por desistir, porque era impossível acompanhar o ritmo de uma redação que, ao longo destas semanas, tem feito centenas de artigos, especiais, entrevistas, explicadores e análises. Todos eles com um objetivo: responder às dúvidas dos nossos leitores e ouvintes com toda a informação descodificada. É por isso que não paramos. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante do Observador.
Bem-vindos à segunda parte do programa Imperdíveis, hoje com Jan Wieżba, maestro, pianista, cofundador do MPMP Ensemble, membro da direção do MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, que está a fazer agora 10 anos este ano. O Jan tem 34 anos, é polaco, nasceu em Łódź, mas ele diz que já é polaco, mas também é do Porto.
Tripairo.
Tripairo, exatamente. E é conhecido por ser um dos músicos mais versáteis da sua geração. Foi educado no Porto, os pais eram ambos músicos. A mãe morreu muito cedo, era violinista, uma grande violinista, Magdas. O pai, clarinetista, e chama-se Adam, e continua no Porto, não quis voltar à Polónia. Estávamos aqui a falar de ser do Porto e de estar no Porto e viver no Porto. O que gosta mais no Porto?
Isto vai-te parecer repetitivo, porque na primeira parte fiz-me uma pergunta e eu respondi as pessoas. Eu volto a responder as pessoas.
Não, é muita coerência. Eu acho que isso é que é ser coerente, e consistentes.
Portugal é um país absolutamente fascinante por causa disso, é efetivamente as pequenas diferenças que são, na verdade, tão significativas que encontramos de terra em terra. Só vai-se 30 km para o norte ou para o sul e os sotaques mudam, as disposições mudam, as expressões mudam, isso é uma coisa absolutamente fascinante. Mas o Porto, efetivamente, é a minha casa. Eu cresci aqui. Tenho um imaginário do Porto, naturalmente, que é muito diferente do que é hoje em dia, porque o Porto mudou muito nos últimos 10 anos, desde que eu fui embora, que foi em 2010. Entretanto, já voltei a morar no Porto, há dois anos. E há uma coisa sobre o Porto que eu, para além das pessoas, que eu realmente aprecio imenso, para além do desenvolvimento da própria cidade, que podemos discutir se foi bem feita ou mal feita, mas eu acho extremamente positiva em vários níveis. Mas o Porto tem uma parte extremamente cosmopolita, por um lado, e uma parte extremamente rude e típica. Rude é uma palavra se calhar feia para este contexto, mas mesmo a nível arquitetónico e da forma como se organiza a cidade, é isto mesmo.
No sentido granítico, não é?
Certíssimo.
Muito bem. Foi uma boa definição a sua. Já falei duas vezes do MPMP, não só do MPMP Ensemble, mas do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, que está a fazer 10 anos, e é interessante ver como este movimento tem feito imenso pela música erudita portuguesa. Gostava de falar agora sobre o MPMP e também perceber o que é, o que faz e quais são os desafios para a música clássica, para a música erudita, não só neste tempo de pandemia, mas nos tempos que passam, nos tempos que correm.
O MPMP é, passando agora para a coisa tradicional, uma associação sem fins lucrativos, criada há 10 anos atrás por meia dúzia de idealistas, que são os meus colegas, a verdade é essa, fresquinhos de sair do Conservatório Nacional em Lisboa. Eu juntei-me ao MPMP em 2013 e a verdade é que eu próprio não estava à espera de quanto me iria sentir em casa neste grupo, neste núcleo duro, de pessoas absolutamente maravilhosas e interessantíssimas e em vários níveis, acho eu, absolutamente geniais O MPMP começou como uma associação de jovens e acho que neste momento está a começar a tornar-se numa instituição cada vez mais madura no panorama musical português. A verdade é que durante anos foi remar contra a maré, sem financiamentos, com ideias, com ideais, com vontade, com muita vontade. Penso que conseguimos nos últimos 10 anos, nos últimos sete, que estou envolvido, de criar efetivamente um hábito das pessoas saberem que existe um grupo de pessoas e uma instituição oficial que trata da música erudita portuguesa.
Que cuida.
"Cuida" é uma ótima palavra. O que nós fazemos, vou então por partes do que a Laurinda me perguntou. Somos uma associação que, para além de promover concertos, normalmente integralmente compostos de repertório português, começou acima de tudo com o projeto que é a Glosas, que foi durante muitos anos a única revista de música clássica ou erudita em Portugal. A um certo ponto, começamos a editar e a gravar CDs, a editar livros, a ter uma presença online muito mais vincada. Começamos a aglomerar vários agentes, várias pessoas, vários artistas, vários acadêmicos do mundo português, conosco, através de edição de livros, de CDs, inclusive de partituras, embora tenha que ser absolutamente franco e dizer que nós não temos o répto único disto. Existem várias associações e várias instituições que, apesar de tudo, fazem esse trabalho também, não sendo exclusivos desta área.
E vocês trabalham de forma articulada uns com os outros, imagino.
Sim. É um mercado tão pequeno que é impossível cada um ficar no seu galho.
Claro.
Absolutamente impossível.
Já falou de repertório português, já falou de defender, de cuidar do patrimônio musical português. O que eu pergunto é: qual é o patrimônio de que estamos a falar? São composições? É o quê?
Eu vou responder só ligeiramente para trás, que isto tem um bocadinho a ver com a minha história. Eu fui educado em Portugal, no Porto, certo, mas numa casa polaca, muito rodeada de literatura, cultura polaca, cinema, etc.
O melhor de muitos mundos.
Diga.
Uma grande sorte, é o melhor de muitos mundos.
Sem dúvida. Mas, na verdade, a um certo ponto, primeiro comecei a me sentir cada vez mais português, mesmo, e uma coisa começou a me fazer imensa confusão para dois lados. Primeiro, algum chauvinismo polaco, em termos de orgulho naquilo que é a Polônia enquanto país, enquanto símbolo de resistência de vários séculos e também da riqueza da sua cultura, porque existe esse chauvinismo muito mais agora a nível político. E, por outro lado, fazia-me imensa confusão a falta de orgulho português. No nosso. Que existe em alguns-
Aqui entre nós, que só nos ouve, quem nos ouve é, de facto, uma falha muito portuguesa, que eu acho que está a melhorar.
Muito. Acho que a diferença é mesmo imensa.
Os espanhóis aqui ao lado têm um orgulho na sua herança.
Sendo que o orgulho pode não ser necessariamente uma coisa boa. Quando falo orgulho, não é necessariamente orgulho, é apreço, vamos dizer.
Valorização.
Valorização. Sendo que em Portugal existe, a nível de literatura, por exemplo, mas a nível de várias outras artes.
Da arquitetura.
Da arquitetura, sem dúvida alguma.
E de piano também, não é?
Certo. Certíssimo. Portanto, havia bolhas. Mas a um certo ponto eu comecei a refletir sobre por que não há mais, porque há tanto mais para descobrir, tanto a nível de pintura, como a nível de escultura, como a nível de música, que é a minha área, naturalmente. Isto foi uma das coisas que me apaixonou imenso no MPMP. Estão a me perguntar o que é este patrimônio. Este patrimônio, estamos a falar de toneladas de música escrita.
Toneladas?
Toneladas. Estamos a falar de toneladas.
Para nós, portugueses leigos ou ignorantes como eu, toneladas é música pelos meus ouvidos. Nós temos toneladas de patrimônio.
Eu tenho perfeita noção disso. E quando eu digo toneladas, eu sou daqueles que não faço a mínima ideia quanto. Mesmo que tenha ressuscitado algumas dessas partituras, tenhamos feito estreias de missas do século XIX, do século XVIII e do século XX com o ensemble MPMP, temos reavivado estas partituras. Mas já para não falar de música antiga, de antes da época barroca. Realmente há um mundo de coisas que são de uma qualidade inegável, que por variadíssimas razões, que se tiver interesse eu posso enumerar, penso que foram esquecidas durante estes últimos dois séculos.
Imagino que sejam razões políticas e que sejam razões de desinteresse, de ignorância, de falta de cultura.
São razões políticas, sem dúvida alguma. São razões de algum imperialismo cultural, também.
E de iliteracia.
Iliteracia, mas também quando falo em imperialismo cultural, nem sequer sei se esta expressão Existe, mas é que sempre nos disseram aqui que aquilo que é feito França, Alemanha e tudo mais, é o pináculo do gênio, e tudo o resto não vale a pena ser tocado. Eu discordo disto, veementemente. Eu acho que muita da produção musical que houve nos últimos dois séculos é de uma validade extrema e há coisas que são fantásticas.
E nós, que somos periféricos, geograficamente e também culturalmente, acha que nós produzimos coisas que são fantásticas?
Sim, sem dúvida alguma.
Isso é bom de ouvir.
Sem dúvida alguma.
Então, Yan, se temos esse patrimônio, se temos o MPMP, que está há 10 anos a restaurar, a cuidar, a valorizar, a revelar, a publicar, por que os portugueses têm tão pouco gosto pela música clássica, pela música erudita? Eu acho que às vezes até nem é só pouco gosto, é um certo medo, um certo temor de não entender. E depois há estas pessoas como o Yan e outros, o Dinis Sousa, há jovens maestros, há jovens músicos, em todas as áreas, que depois comunicam a música e que de repente nos ocultam e nos fazem ficar fascinados. Mas é preciso que alguém faça isso, porque a esmagadora maioria dos portugueses, que não são melômanos, têm uma certa distância em relação à música clássica.
Eu acho que isso também está a mudar, ligeiramente. Cada vez mais me deparo com situações, eu sou maestro da Orquestra Clássica do Centro, que opera na região de Coimbra, e sou-lhe muito sincero que raramente encontramos um auditório que esteja às moscas. Já não é como era, se calhar, há 10, 15 anos. Eu acho que cada vez mais as pessoas estão interessadas em experimentar alguma coisa nova. E eu sou muito sincero, essa distância também é um pouco culpa nossa, e eu vou dizer nós, porque sou um músico clássico, mas é um pouco nossa culpa, porque consideramos que aquilo que nós fazemos é uma arte superior e por causa disso, temos que ter público informado e que seja capaz de discernir aquilo que fazemos.
Yan, isso é uma espécie de um mea culpa, que está a fazer com sorriso, mas com essa noção. Mas como é que se pode então desglorificar, porque há bocado falou na glorificação dos maestros, como é que podemos desglorificar não só a figura do maestro, mas a figura de toda a orquestra e a música? Ou seja, qual é o grande desafio, para um jovem maestro como o Yan, qual é o grande desafio da música clássica no mundo contemporâneo?
Penso que há duas coisas. A primeira coisa é a desconstrução de rótulos. E quando falo nisto, refiro-me acima de tudo que música é música. Para mim não existe música clássica. Para mim não existe rock, para mim não existe hip-hop, para mim é música. Portanto, qual é o problema, ou porque não, isto é uma educação e uma forma de comunicar que é extremamente importante, é porque não expor-nos a algo que nos parece um pouco estranho, tudo bem, ou que nos disseram que é impossível alcançarmos. Porque não? Em termos de público, para mim, a comunicação deve ser muito nessa onda.
Yan, então eu pergunto, se calhar, ao contrário. Uma vez que para si a música é música, ponto, o que se expõe e que seria difícil, ou que acharia que não ia gostar, ou que lhe seria desconfortável?
Eu, pessoalmente?
Sim.
Ok. Eu sou músico clássico, raramente ouço música clássica em casa. Na verdade, cresci muito no mundo do rock, em termos de audição, por exemplo. Recentemente aconteceu, aliás, neste confinamento, uma conversa com alguém que me enviou uns álbuns de hip-hop. E é muito longe da minha realidade, sendo um gênero musical que vem muito de ambientes urbanos. E expus-me, e na verdade, com muita surpresa para a pessoa que me expôs a isso, eu fiquei extremamente surpreendido. Não é que não tivesse ouvido na minha vida. Ouvi, claro, mas eu fiquei a conhecer algumas coisas que fiquei extremamente agradado.
Sim, e quando se fizer a história da música na humanidade, o hip-hop está lá, como os grafites estão lá, como tudo que é cultura urbana está lá. Então essa distância, vamos pôr isto neste plano, esta distância que temos, os clássicos dos contemporâneos, os hip-hops, do jazz, como é que se pode diluir? É fazer mais fusão ou o que se pode fazer para que as pessoas percam medos e baixem as guardas?
Acho que neste momento, sim, é possível fazer fusão com qualidade. Durante algum tempo, isto era uma novidade e fez-se muitas coisas, várias tentativas, que eu não considero que tenham sido bem feitas. Neste momento, já começa a ser uma opção, sem dúvida alguma. Acho que, efetivamente, isto está a acontecer volta e meia, mas figuras de proa, entre aspas, se quisermos, comunicadores no mundo da música clássica, que ainda têm um discurso muitas vezes virado para um público, para um estrato social determinado, têm que mudar o seu discurso um bocadinho. E nós não podemos continuar a viver em auditórios como o CCB Gulbenkian em que existem Existe uma clara separação entre o chamado artista, que somos nós, e aquilo que é o público que nos vem apreciar. Acho que cada vez tem que haver mais inclusão. Diga?
O que é que sugere? Dessacralizar e, no fundo, misturar as pessoas?
Uma das coisas muitíssimo importantes, salvo erro, é isso que a Laurinda está a fazer comigo, é mostrar que as pessoas que estão lá em cima do palco, que têm aspecto de deuses gregos, às vezes, que são pessoas absolutamente normais.
Exatamente.
Isso é uma das coisas, de certeza absoluta. Eu acredito nisto e não vou descer.
Se eu estou a fazer um bocadinho esse papel, também é bom.
Sem dúvida.
Eu estou do lado dos ignorantes, estou do lado dos que, como são ignorantes e são leigos, não conhecem, têm medo e, portanto, talvez por circunstâncias muito pessoais eu esteja mais aberta, mas, de facto, pertenço a essa esmagadora maioria.
Isto tem uma coisa, peço imensa desculpa, mas tem uma coisa a nível de toda a construção da nossa sociedade, que é a idealização das pessoas, dos atores, das celebridades, etc. Tudo isto, para mim, tem que ser desconstruído também no nosso mundo.
Mas é engraçado que diga isso, porque o Jan tem 34 anos, é muito novo, mas nós temos outros maestros ainda mais novos que o Jan, e estou a pensar no Viotti, não quero ofender o Viotti.
Claro.
Viotti cultiva esse lado imperial, intocável, uma pessoa distante. Acho que isto tem que vir muito de dentro, tem que vir dos que comunicam, tem que vir dos que tocam. Percebo que é um apelo.
Claro que sim. Isto, com o que eu estava a dizer, não é uma crítica, é uma opinião, simplesmente.
Claro. Então, nesta linha, quem é que são as pessoas que mais admira? Independentemente se são músicos. Eu percebo que tem uma paixão por pessoas, portanto, perguntar-lhe quais são as pessoas que mais admira deve ser difícil de afunilar, mas então vamos pelos da música, seja ela qual for.
Pronto, eu tenho muito poucos ídolos, sinceramente. Uma das pessoas que mais admiro é um maestro estônio chamado Paavo Järvi, com quem tive a oportunidade de trabalhar em contexto de masterclass, e que sempre que tive a possibilidade de lidar com ele, mostrou que é uma pessoa normal, como ele diz, "I'm a regular guy". Outra pessoa, Bernard Haitink, com quem tive a oportunidade também de lidar um pouco, que no momento de ensaio demonstrou uma humildade enorme. Portanto, sim, assim de cabeça, neste momento, há um terceiro maestro, também, Semyon Bychkov, que também tive a oportunidade de observar alguns ensaios, que tem uma elegância no trato às pessoas e para além de ser um músico absolutamente genial. Portanto, sim, eu diria que estas três pessoas.
Jan, isto é a pergunta mais difícil de se fazer, mas se se visse de fora, como é que se definiria? Ou qual é que acha que é a sua marca? Humana, pode não ser a marca da música.
Ui. Como é que eu me definiria?
Modéstia à parte e com a mesma autenticidade com que esteve nesta conversa.
Considero-me um agregador, mesmo sendo muitíssimo assertivo nas minhas opiniões, volta e meia, mas considero-me um agregador, considero-me um mediador, de certeza absoluta. E considero-me uma pessoa que, por muito que por vezes carreira, vida e estresse não me permita, que realmente aprecia coisas pequenas da vida, como simplesmente um rio ou um monte, e que tenta estar em contacto com a vida para além das cidades e dos auditórios.
Muito bem, muito bonito. Eu queria só aqui dizer uma coisa, porque me lembrei há bocado, quando estava a dizer que valoriza as pessoas humanamente boas, humildes, sãs e abertas. Lembrei-me do Rui Calçada Bastos, que é um grande artista plástico, que uma vez dizia: "Um grande artista não me interessa se for uma pessoa execrável. A mim interessa-me se for uma boa pessoa, então depois se for um bom artista, ótimo, mas se for um grande artista e uma pessoa execrável, não me interessa nada." E eu, de certa forma, voltei a esta frase do Rui Calçada Bastos quando há bocado estava a dizer o que mais valorizava nas pessoas. Portanto, não sei se se identifica, mas eu acho que certamente.
Essa frase é um grande perigo, porque se fosse por aí, estaríamos a denegrir um Picasso ou outros que tais.
Então vamos deixar isso para outra conversa.
Certíssimo.
Muito obrigada, Jan, muito obrigada por esta conversa fantástica. Obrigada.
Foi um enorme prazer.