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Bem-vindos ao Imperdíveis hoje com a Ana Sofia Martins, 50 anos, engenheira em informática. Criou um blog muito especial para quem gosta de viajar, mas sobretudo quem gosta de viajar e tem alguma dificuldade de mobilidade ou de acessibilidade. Ana Sofia teve um acidente de carro quando tinha 23 pra 24 anos e ficou paraplégica. Não foi isso que a parou. Ou seja, é uma pessoa que nesta idade fica confinada a uma cadeira de rodas e, pior ainda, um ano inteiro confinada a um hospital, onde fez a recuperação, terapias e muito mais. Não a parou. Já viajou para mais de 30 países e ajuda as pessoas a viajar e a não ficarem em casa porque têm alguma dificuldade de mobilidade. Bem-vinda, Sofia. Obrigada.

Obrigada eu pelo convite.

Eu é que agradeço. Gostava de começar por saber como é que foi o acidente, como é que reagiu, como é que num instante toda a sua vida mudou e como é que foi capaz de se manter vertical e de continuar a fazer a sua vida com essa liberdade.

É todo um processo que vai acontecendo.

Onde é que estavam? Estavam na estrada, estavam em Espanha?

Sim. Íamos para França, estávamos a atravessar Espanha, tivemos o acidente. Fui operada assim que tive o acidente.

E perceberam logo que ia ficar assim?

Não. Eu não percebi na altura. Fui para Madrid por um mês, nos cuidados intensivos, onde estive em coma induzido.

Portanto, não tem memória nenhuma?

Não tenho memória. Depois, quando fui passada para o Hospital Nacional de Paraplégicos de Toledo, aí começo a me aperceber de tudo o que tinha acontecido, da minha situação, e começa todo este processo de aceitação, de revolta.

Passa-se por tudo, não é?

Passa-se por tudo, sim.

A pessoa é uma miúda giríssima, nova, com 23 anos, loira, de olhos azuis, com esse sorriso. Não há de ter sido fácil, cheia de sonhos e com tudo pra viver.

Sim.

Ia a caminho de França para assistir à defesa da tese de mestrado do seu irmão, não era?

Sim, íamos visitar o meu irmão.

Portanto, era um motivo muito feliz e tudo aquilo era também já um sonho de todos.

Sim. Eu estava no meio do meu curso superior. O meu sonho, na altura, era ir viver sozinha e portanto estava à procura de emprego para conseguir ir viver sozinha. Esse foi logo o primeiro-

O primeiro obstáculo. O primeiro muro em que se esbarra

...o primeiro sonho que ficou por ali, que foi pra água abaixo. E eu fiquei um ano no hospital.

Ou seja, em Toledo ficou um ano.

Em Toledo, a 600 km de casa. Mas teve um lado também engraçado, porque eu era das pessoas que tinham mais visitas no hospital. Eu estava a 600 km de casa. Eram procissões.

Eu acho que nós também não brincamos em serviço. Os espanhóis são bons nisso, mas nós também.

Sim, mas eles são ótimos nisso também.

São.

E portanto, eu tive muito apoio familiar e dos meus amigos, que foram impecáveis e que me acompanharam sempre. E depois fiz os meus amigos do hospital. Éramos um grupo enorme.

Ó Sofia, ouvi dizer na BBC que a Sofia não só tinha muitos amigos no hospital, muitos amigos em cadeira de rodas como a Sofia, como conseguiam de alguma forma fintar as regras e sair à noite e ir pros copos. Isso é verdade?

É verdade.

Ou é um boato sem fundamento?

Tínhamos um médico excepcional que ia contra tudo, ia contra as regras todas do hospital e autorizava-nos a sairmos à noite.

Era o célebre doutor Ascenso.

Doutor Ascenso.

Eu conheço sem o ter conhecido, porque ele já morreu. Também porque o Salvador Mendes da Almeida fala dele. Este médico que olha pra jovens que de um dia pro outro ficaram sem mobilidade, paraplégicos e tetraplégicos, e que lhes abre as portas e que deixa que eles façam uma vida o mais normal possível, é uma grande parte da terapia. Ou seja, há muita coisa que acontece por causa de um médico assim.

Sim. É fundamental. Eu acho que ele tinha uma grande visão. Nós tínhamos uma recuperação de fisioterapia intensiva, era o dia inteiro.

Penosa, chatíssima, aqui entre nós.

Completamente. E ele sabia que isso era fundamental pra nossa recuperação, pra vida, preparar-nos pra vida que íamos ter daí pra frente.

E por isso fechava os olhos.

Ele era uma pessoa muito humana.

Se pudesse descrever, como é que diria? Se fizéssemos uma espécie de um obituário verbal, o que diria sobre essa pessoa?

É isso. Eu acho que ele tinha uma grande visão, ele era muito terra a terra. Ele sabia que era aí que nós íamos recuperar, na rua e não dentro do hospital. No entanto, ele também sabia que havia uma fase em que era importante estar ali. Eu, só ao fim de um ano é que quis mesmo voltar pra casa. Calhou com a altura em que eles acharam que eu também estava apta, mas eu nunca quis voltar pra minha realidade.

Porque era brutal o impacto.

Era brutal. E ao fim de um ano eu quis, foi exatamente quando eu quis. E eu acho que ele respeitou isso. Ele respeitou o meu tempo e soube ver qual era o meu tempo.

Isso é muito impressionante, sobretudo porque há muitíssimos bons médicos, terapeutas, fisioterapeutas, enfermeiros, auxiliares, todos de excelência, mas também há uma cultura de uma certa distância, não é? Também há muitos outros que se protegem, que se distanciam dos doentes e que não são capazes de dar este passo, de dar asas pra voar, de se relacionarem, de certa forma, se implicarem também.

Sim.

E ele fez isso com essa proximidade incrível.

Sim, ele era o nosso psicólogo também, porque a porta dele estava sempre aberta e ele queria que desabafássemos com ele. Ele fazia uma grande terapia conosco.

Se calhar, porque vos conhecia bem, também sabia orientar cada um. Sabia ajustar as medidas terapêuticas e as fisioterapias a cada um. É muito interessante. Foi a Ana Sofia que depois recomendou este Dr. Ascenso pro Salvador Mendes da Almeida?

Eu não sei. Houve um contato do meu pai com um tio do Salvador. Eu não sei se ele já tinha conhecimento ou não, mas sei que houve aí uma conversa.

Porque a Sofia e o Salvador são duas luzes no mundo, são pessoas que não só não param, como não deixam que ninguém pare só porque estão em cadeira de rodas. Ele com a Associação Salvador, a Sofia com o seu blog e com a sua partilha tão aberta aos outros e tão generosa. Então, gostava de saber: quando é que foi o tempo da revolta? Foi ainda no hospital, ou foi à chegada, ou foi nos dois momentos?

Foram duas revoltas diferentes. Nós no hospital estávamos todos no mesmo barco, estávamos todos iguais, estávamos todos em processo de recuperação e ainda por cima, como saíamos. Os espanhóis estão sempre em festa, não é?

E quanto mais tarde, melhor.

E, portanto, quase que foi um tempo-

Alegre e bom. De boa memória.

Sim, de boa memória.

Extraordinário isso.

Não sei se são os espanhóis ou se seria igual em Portugal, mas ali foi assim.

E a sua relação com o corpo, ou seja, quando olha pra si e vê metade do seu corpo estar paralisado e teoricamente, ou à partida não vai voltar a andar, não vai voltar àquilo que era. Essa autoimagem, isso perturbou, isso zangou-a?

Zangou, claro que zangou. Eu acho que só pode zangar, isso é uma mudança muito radical.

E muito dramática.

Muito dramática. E quando eu voltei pra minha realidade do dia a dia, pros meus amigos, pras pessoas que eu conhecia, estava tudo igual e só eu é que tinha mudado.

E o olhar dos outros também magoa?

Também magoa. Eu aprendi a não olhar pro olhar dos outros.

Como é que se faz isso?

Aprende-se a fazer.

É porque o olhar dos outros às vezes é bastante letal e é muito julgamentoso e às vezes é difícil uma pessoa abstrair-se do olhar do outro.

Aprendi a fazer e acho que consigo fazê-lo muito bem.

E pode ensinar? Sim, tem que ser cada um a fazer à sua maneira.

Tem que ser. É uma maneira de me proteger. Se me magoa, não olho.

Por isso também não cria nenhum ressentimento, nem nenhuma amargura.

Não vou dizer que não há situações em que também me magoam, porque há, e em que dou por esses olhares, mas na maior parte das vezes tento não ver.

Sofia, e a verdade é que quem a conhece, eu conheci há já um par de anos, uma pessoa olha pra si e tem uma leveza, e tem uma luz, e uma beleza que tem que vir dessa paz interior, de uma pessoa bem resolvida consigo e com a sua vida. E isso deu-lhe trabalho?

Sim, isso dá trabalho, mas vai acontecendo naturalmente, acho eu. Eu acho que aprendi a não me focar nas dificuldades, porque senão...

Está liquidada.

Não vamos a lado nenhum. Aliás, isso reflete-se muito nas minhas viagens. Há imensos destinos onde eu não posso ir.

Teoricamente?

Mas há tantos outros onde eu posso. Eu não me vou focar naqueles em que eu não posso ir.

Eu pensei que ia dizer: "Há tantos destinos em que eu não posso ir teoricamente, mas depois vou". Não, mas está a dizer que há uns que objetiva incontornavelmente não pode ir.

Há alguns em que não posso ir.

Tais como?

Não sei. Também posso. Eu ia dizer ir ao deserto, também posso. Existem sempre maneiras de contornar essas questões. Por exemplo, não é que não seja possível, mas não me atrai ir a um país onde não tenho grandes acessibilidades, um país mais de terceiro mundo.

Em que tudo fica mais difícil.

Tudo fica mais complicado. Talvez não seja impossível, mas se calhar não vou usufruir tanto, não vou desfrutar tanto dessa viagem.

Sim, porque os obstáculos serão constantes e sucessivos.

Mas há tantos outros onde eu posso ir. O meu limite é conhecer o mundo. Sei que não vou conseguir fazê-lo todo, portanto vou começar por aqueles que eu posso fazer.

30 países já é muito. São muitos países. A Sofia apaixonou-se e é casada há 10 anos. O facto de ter ficado paraplégica também de alguma forma achou que poderia ficar muito distante da possibilidade de constituir a sua família, de se apaixonar, se apaixonarem por si?

Não achei que fosse impossível. Eu sou também uma pessoa muito pragmática e basta olhar à nossa volta e ver que as coisas acontecem. Se acontecem aos outros, também nos acontecem a nós. Agora, que não é tão fácil, é mais difícil.

Mas a dificuldade maior está dentro de nós, da maneira como nós lidamos com a nossa limitação? Ou acha que os outros continuam a ser muito julgamentosos?

Acho que está dos dois lados, mas eu acho que o amor acontece.

E aconteceu há 10 anos.

Há mais. Casámos há 10, mas já estamos juntos há 14 anos.

Então há quase 15. Caramba! Muito bem. Sofia, gostava só de voltar a isso que a Sofia disse, que é: "Não me posso concentrar naquilo que não posso, só me posso focar naquilo que eu posso". Isso é uma espécie de um mantra e uma lição de vida. Isto aplica-se na sua vida, eu acho que se aplicava, tem que se aplicar na nossa. Em vez de ficarmos a olhar para as restrições, se calhar temos que olhar para aquilo que é possível fazer. O facto de estarmos confinados, mas não estamos num bunker, não há um blitz, não estamos numa guerra. Não sei se é esse tipo de pensamentos também que a ajuda.

Eu acho que sim. Temos que pensar positivo. Não quer dizer que não haja momentos em que eu também penso naqueles destinos que eu gostava de ir e que não posso ir, mas eu acho é que temos que nos concentrar em afastar esses pensamentos. Também me custa este confinamento, apesar de eu já ter estado confinada. Vivi um ano no hospital, já tive outros problemas de saúde que me fizeram estar em casa, mas este confinamento também me custa. Parece que estamos a perder anos de vida. Estamos aqui a perder a nossa vida fechados em casa, com tanta coisa para fazer, com tantas viagens que me faltam fazer. Também me custa, mas este confinamento custa-me um bocadinho menos do que os outros, porque nos outros eu estava sozinha. Eu estava fechada sozinha e o mundo estava a acontecer lá fora.

Agora estamos todos no mesmo barco, ou seja, no seu tempo estavam todos naquele hospital, todos estavam em cadeira de rodas. E há bocado disse isso. Agora o mundo inteiro está ou confinado ou em via. Exato. Mas essa comunhão no sofrimento também alivia de certa forma, não é?

Acho que sim. Eu acho que é mais difícil quando estamos sozinhos. Agora também me custa este confinamento.

Sofia, de onde é que vem essa paixão por viajar? Sempre viajou?

Eu viazei quando era pequena, fazia viagens com os meus pais. Fazíamos muito Europa de carro. Acho que deve ter crescido logo aí esse bichinho das viagens. Depois voltou mais tarde, quando comecei a viajar com o meu marido. Voltámos a descobrir esse gosto.

E quando tomou essa decisão interior de viajar e pensar independentemente de estar numa cadeira de rodas, "eu vou viajar, não vou ficar parada", é difícil apanhar esse balanço para programar uma viagem ou é um impulso e depois esse impulso é tão forte que tudo o resto depois se alinha?

Sim. É querer. É só querer.

Então qual foi a primeira grande viagem que fez, já em cadeira de rodas?

Os primeiros três anos fomos para resorts, porque eu queria água quentinha, queria praia, água quentinha e azul turquesa. E então fomos para as Caraíbas. Era tudo muito igual. Os resorts são todos iguais e cansámo-nos.

No fundo, ainda não era bem sair da zona de conforto.

Não era. E a nossa primeira grande viagem foi a nossa lua de mel. Fomos a Nova York e ao Havaí Eu adorava voltar ao Havaí, mas é uma viagem tão grande que eu não sei se volto. Acho que só a fiz porque não sabia ao que ia.

E porque estava à página de ir em lua de mel.

Porque foi muito duro em termos de viagem, fisicamente. As horas de avião.

Quem tem mobilidade reduzida tem algum privilégio, digamos assim, ou alguma situação de exceção dentro dos aviões? Agora que ainda por cima encolheram, encurtaram o espaço.

Não, nenhuma.

Portanto, é um desconforto total?

Total. Sim.

E nem há um sítio onde se possa deitar naqueles sítios supostamente que é uma maca improvisada.

Só se pagar o bilhete de primeira classe.

Só isso. Sim. Mas estando como viajamos quase todos, não.

Não.

E isso nunca a demoveu de viajar?

Se eu pudesse, na véspera de cada viagem eu desistia.

Então vamos fazer aqui uma pausa e já vamos perceber isso e depois como é que dá a volta a isso. Fazemos uma pausa. Até já.

Sim, até já.

Ana Sofia Martins, 50 anos, casada, engenheira informática, criou a Just Go by Sofia. Este é o blog das viagens. Estava a dizer que adora viajar, mas como viaja em cadeira de rodas, adora viajar, programa tudo, mas depois na véspera se pudesse, desistia. Explique-me melhor.

Desistia mesmo. Eu acho que desistia mesmo se pudesse.

Por quê?

Quando tenho viagens grandes de avião.

Porque tem medo? Porque é muito cansativo?

O desconforto é muito grande. Eu não me levanto dentro do avião, portanto são aquelas horas todas sentada no mesmo sítio e é o medo do que possa acontecer. Ir à casa de banho é impossível dentro do avião. É impossível, há quem vá. Eu já fui, mas é uma situação muito complicada e, portanto, é esperar que corra tudo bem. E só quando chego é que começa a viagem.

E quando chega, começa a viagem, mas depois há os outros obstáculos. No fundo, há os obstáculos, os passeios que não foram rebaixados, há cidades onde ainda não estão pensadas pra pessoas com mobilidade reduzida.

Sim.

Qual foi o sítio onde se sentiu mais livre e o sítio onde se sentiu mais constrangida?

A viagem que eu fiz há dois anos a Berlim, eu costumo dar este exemplo, porque foi uma cidade que estava fantástica, muito boa. Talvez das cidades mais acessíveis onde estive nos últimos anos. Não quer dizer que seja a mais acessível, até porque nos últimos anos tem havido uma grande evolução em termos de acessibilidades, e portanto os destinos onde eu fui já há mais anos podem agora até já estar melhores.

Como Lisboa, por exemplo.

Lisboa está a ter uma grande evolução nos últimos anos. Costumam me fazer muito essa pergunta, qual é o destino mais acessível onde eu já estive. E é muito difícil responder, porque as coisas vão mudando, e porque cada pessoa tem a sua dificuldade. Duas pessoas em cadeira de rodas têm dificuldades diferentes e, portanto, depende muito da pessoa.

E o seu maior medo é o quê? É chegar e não encontrar passeios rebaixados?

Eu faço muito grandes capitais e, portanto, estão na maioria adaptadas e acessíveis. A preparação da viagem é feita com algum cuidado. Eu costumo dizer que sou uma aventureira muito precavida.

Muito preparada.

Muito preparada. Vai tudo muito pensado. Também tenho surpresas, mas viajo normalmente com meu marido e portanto, aí tenho uma grande segurança, quando encontro surpresas, tenho sempre alguém que me ajude. Porque o maior problema é, por exemplo, chegar a um hotel e não ter uma casa de banho bem adaptada.

E isso dá cabo de umas férias, dá cabo de uma estadia.

Sim, claro.

Ou inviabiliza, mesmo.

Sim. Apesar de que nós estamos sempre em movimento e portanto nunca ficamos mais do que dois ou três dias no mesmo hotel.

E portanto, pode ser um grande senão, mas não mais do que esse tempo.

Não mais do que isso. E portanto, por aí também nunca corre assim muito mal.

Ó Sofia, como é que se apaixonou pelo seu marido? Como é que se apaixonaram?

Nós trabalhamos juntos.

Na Câmara de Setúbal.

Na Câmara de Setúbal, apesar de termos sido apresentados.

É verdade, e a Sofia, agora estou aqui a mostrar temas, ainda por cima, a Sofia já trabalha em teletrabalho há muitos anos. Mas agora primeiro a paixão, o namoro, e depois já vamos ao teletrabalho.

Nós fomos apresentados por uma amiga em comum, que não trabalha na Câmara, apesar de trabalharmos os dois na Câmara. Fizemos um trabalho juntos e surgiu aí.

Eu pergunto isto só porque eu acho que às vezes nós, os que temos a felicidade de não estar numa cadeira de rodas ou de não ser amputados, ou de ver bem, ou o que for Muitas vezes desperdiçamo-nos com a franja, o cabelo está mal cortado, a borbulha, a coisa, a ruga, a prega.

Mas nós também.

Não digo que não, mas o que eu pergunto é: quando há a cadeira de rodas, isso não ocupa demasiado espaço na cabeça?

No início.

Como é que se resolve a cadeira de rodas? Falando sobre ela?

Sim. Eu acho que essas coisas primeiro são naturais. E depois, claro, têm que ser faladas e têm que ser tratadas, porque ela não vai desaparecer, está lá. E portanto, é mais uma opção da outra pessoa do que nossa, porque nós não podemos optar. A outra pessoa é que pode optar se quer viver com isso ou não.

Sofia, o ficar em cadeira de rodas também é uma grande escola de aceitação, ou não? Aceitação da vida, da circunstância, mas também aceitação constante, permanente, hora a hora, dia a dia, de situações em que uma pessoa está dependente dos outros.

Sim, temos que aprender a estar dependentes, e isso não é muito fácil. Não é nada fácil. Aliás, eu acho que eu construí a minha vida, depois da cadeira de rodas, a tentar estar o menos dependente possível. Eu e qualquer pessoa que fica numa situação como eu, é tentar estar o menos dependente possível.

Como é que isso se faz?

Por exemplo, eu em casa não tenho praticamente adaptação nenhuma. Tenho uma barra na casa de banho e uma plataforma na banheira pra poder tomar banho. A minha ideia é quanto mais eu me adaptar às coisas, em vez de adaptar as coisas a mim, mais facilmente eu me vou adaptar ao mundo, porque o mundo não está preparado. E portanto, se nós adaptarmos muito tudo à nossa volta, depois também não conseguimos fazer nada fora da nossa zona de conforto. E portanto, tentar ser o mais independente possível, pra conseguirmos viver o melhor com isto. Às vezes, isso até pode funcionar de outra maneira, que é: se eu não posso ir pra esquerda, vou pra direita. Isso às vezes até me leva a desistir, "mas eu queria mesmo era ir pra esquerda".

Como uma grande contrariedade, uma contrariedade permanente.

Sim.

Mas aí daria também uma grande amargura, que é uma coisa que não se encontra em si. E portanto, essa dupla zanga de que falou, que depois não ficamos muito focados nesses dois tempos de zanga, não deixaram esses frutos corrosivos. Há uma grande paz em si, há uma grande leveza.

Sim, talvez.

Isto não tem imagem, se tivesse imagem, as pessoas percebiam melhor. Sofia, então vamos às viagens. Ah, não, por acaso gostava de ir ao teletrabalho.

Ah, sim.

E agora que estamos todos aqui, quase todos, ou uma esmagadora maioria de pessoas está obrigada a ficar em teletrabalho, é extraordinário, porque a Sofia não só esteve confinada num hospital um ano, depois mais várias vezes por causa de complicações, vive de certa forma confinada à sua cadeira de rodas, mas que já vimos que não a travam, e também em teletrabalho há mais de 20 anos. Isso era uma coisa muito à frente.

Era um projeto muito à frente, sim. Eu integrei uma equipa que trabalhava a partir de casa, portanto, nós fazíamos teletrabalho, fazíamos Help Desk, atendíamos e fazíamos outsourcing a empresas, e atendíamos as pessoas a partir de casa. Ninguém percebia que nós estávamos em casa. E portanto, foi há uns 23, 22, 23 anos.

Ninguém diria, não é?

Sim.

Olhando pra trás, sobretudo, ninguém diria, mas quando se é engenheira informática, a sensação que temos é que esta pessoa precisa de estar ao meu lado pra eu lhe explicar bem o que está a passar. E não era preciso.

Não, não era preciso. Funcionava muito bem. O que é que aconteceu na altura? Eu tinha tido o acidente, tinha acabado o meu curso. Eu estava no meio do curso quando tive o acidente.

Quando teve o acidente, depois quando voltou, completou.

Quando voltei, completei, e depois comecei a trabalhar em teletrabalho. O que é que fez na altura? Isolou um bocadinho. Estar em teletrabalho agora, que estou desde março, é muito diferente dessa altura, porque agora eu já estou integrada.

Já conhece os seus colegas, a equipa toda, o chefe.

Estamos todos em teletrabalho. E portanto, é muito diferente. Na altura foi bom pra eu começar, mas depois senti a necessidade de deixar. Senti a necessidade de sair de casa todos os dias e ir trabalhar como todas as pessoas.

E agora voltamos a isto, mas agora estamos todos. E como diz, de facto, estarmos todos no mesmo barco faz uma grande diferença.

Faz uma grande diferença.

É verdade. E ouvi-la a si também nos ajuda a nós. Pode crer. Então voltamos às viagens. Qual foi, pra além do Havaí e de Nova York, quais foram as grandes viagens que mais gostou? Países. China, não sei.

A China. China gostei muito, foi uma viagem que fizemos várias cidades. Estivemos Hong Kong, Macau, Xangai, Pequim e foi uma viagem muito completa.

Ia de metro, ia de autocarro, fazia uma vida bastante livre?

Sim, andava. Comboio, metro, é isso que nós gostamos. Nós gostamos de estar sempre de um lado para o outro e de conhecer várias realidades do país, porque a China é tão grande. É um país com várias realidades. E foi uma viagem que gostei muito.

E outras?

A Muralha da China foi um dos pontos.

Altos, no sentido literal e metafórico.

Sim, apesar de eu não ter conseguido andar na Muralha da China. Consegui subir e estar lá em cima, mas depois havia logo degraus.

Uma sensação incrível.

Foi incrível. É realmente uma obra.

Só pensar que da lua se vê a Muralha da China.

É incrível. Outra viagem que gostei muito de fazer foi o Canadá. Foi uma surpresa. Aí também fomos a várias cidades, Toronto, Quebec, Montreal.

E parques, reservas.

E também gostámos imenso. Foi outra grande viagem que fizemos e que gostámos muito. Ano passado fomos à Islândia, quer dizer, 2019.

Sim, exatamente.

Antes do confinamento, fomos à Islândia, que é fantástico.

Extraordinário. E tomou banho naquela água quente no meio do gelo?

Não tomei. Tive pena, por acaso, mas não se proporcionou naquilo que levávamos programado e depois não conseguimos. Mas é também um país lindíssimo.

Vale a pena visitar.

Muita natureza. Sim, vale a pena visitar.

Sofia, e este impulso de criar um blog em que partilha estas viagens, em que de certa forma encoraja as pessoas que têm dificuldade, que têm uma mobilidade reduzida, isso nasceu quando e como é que vai alimentando e que impacto é que isso tem tido e que feedback é que tem recebido?

Eu criei o blog um bocadinho para partilhar a minha experiência, a maneira como eu organizava as viagens. Como já tinha alguma experiência, decidi partilhar isso de maneira a poder ajudar.

Desde logo o nome é muito bom, é "Just Go", não é? Just Go.

O nome é mesmo isso.

Vá antes de pensar muito.

Se pensarmos em todos os obstáculos, não vamos. E portanto, a partilha da minha experiência é ajudar um bocadinho na programação da viagem, no destino, o que é que vão encontrar, é um bocadinho isso.

E que tipo de feedback é que teve, que amigos é que já fez por causa deste blog, que coisas é que já aconteceram para além das suas viagens, o que as viagens dos outros lhe trouxeram também?

Neste momento, eu faço parte da Associação de Blogues de Viagem Português, que foi criado há dois anos, e aí já tenho um grupo enorme de amigos de viagens e é uma partilha muito rica que temos uns com os outros. Eu tenho imensas pessoas que me contactam a pedir conselhos e se já fui aqui, se já fui ali. Tive uma senhora que me perguntou se eu já tinha ido a França, a Paris, e eu respondi: "Já fui, mas fui antes de estar em cadeira e, portanto, não consigo ajudar." E ela passado um tempo voltou: "Mas não me sabe dizer nada sobre Paris?"

Pareceu o mais óbvio, não é?

E então eu fiz uma pesquisa sobre acessibilidades em Paris e enviei-lhe e ela ficou toda contente. E portanto, tenho imensas pessoas que me contactam. Tenho pessoas que vão abrir negócios e que querem a minha opinião sobre as acessibilidades. Também me procuram para saber como é que podem fazer, onde é que podem ir.

Sofia, e que tipo de conselhos é que daria? Porque num jornal generalista como "O Observador" e numa rádio que as pessoas ouvem e que as pessoas que estão interessadas em se manterem informadas ouvem, e que é uma referência para muitos, o que uma pessoa pode dizer a quem nos ouve para fazer definitivamente? Ou seja, como é que pode haver coisas que são construídas, reconstruídas, refeitas, sem rampas, sem cuidar, sem perceber que estamos a deixar de fora tantas pessoas?

Todas as pessoas, diria eu, porque eu acho que todos nós, em alguma altura da nossa vida, precisamos de acessibilidades.

Exatamente. Seja porque estamos a ficar mais velhos, mais vulneráveis, porque temos feito uma operação.

Carrinho de bebé.

Então o que acha que está a faltar neste país? As leis são boas, tanto quanto sei, mas a fiscalização não tanto?

A fiscalização não tanta Acho que por aí. Eu sinto, quando vou a alguns espaços que não são acessíveis, que as pessoas me perguntam.

Têm vergonha, um bocadinho.

Não é vergonha, as pessoas estão interessadas em adaptar o espaço.

E é mais fácil do que se pensa ou não? Pode haver rampas móveis que se podem pôr e tirar?

Sim, é mais fácil do que se pensa. Eu acho que as pessoas às vezes complicam um pouco. Claro, quando queremos fazer uma coisa perfeita. O meu conselho normalmente é: se não pode fazer 100%, faça 50, 100% já dá para alguém. E, portanto, começar por aí.

Mas isso percebe-se, o Just Go é isso mesmo.

O Just Go eu acho que-

Não, o Just Go como conceito. Vá, faça. Faça com o que há. Um bocadinho aquilo que dizia há bocadinho, em vez de esperar só que o mundo se adapte a mim, é eu adaptar-me ao mundo. Isso é uma grande filosofia de vida, é uma atitude incrível.

Sim, mas o mundo também tem que se adaptar um bocadinho. Ou um bocadinho, ou muito.

Sim, mas agora estamos numa fase em que temos que nos adaptar ao mundo, não é? Todos. Portanto, eu acho que o seu ensinamento ajuda-nos muito nesta altura. Porque neste momento, é o que tem que ser.

É o que tem que ser. E eu acho que o blog funciona como uma chamada de atenção para a causa das acessibilidades. Não é só para pessoas que têm algum tipo de deficiência, é também para as outras pessoas que não têm.

Sim, um casal com filhos gémeos ou trigémeos, é muito difícil circularem nesta cidade e no mundo, se calhar. Sofia, estamos aqui no minuto final. Quem é que a inspira? Quem é que são as pessoas que a inspiram? Ou o que é que a inspira?

O que é que me inspira? Inspiram-me pessoas fora da caixa, inspiram-me imenso. Inspiram-me pessoas que desafiam o mundo, pessoas que vão mais além do que aquilo que o mundo lhes diz que podem ir. Eu acho que são as pessoas que fazem o mundo avançar.

Isso é muito bonito, porque isso é o que a Sofia faz. E por isso, inspira-se nessas pessoas e depois é uma dessas pessoas. Acabamos aqui a conversa, agradeço-lhe imenso, Sofia, e desejo-lhe imensas felicidades.

Muito obrigada. Obrigada, Laurinda.