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João Magalhães, 23 anos, campeão nacional de golfe oito vezes seguidas ou quase seguidas. Tenho ideia que houve um ano em que não foi?
Sim, sete seguidas, depois um ano em segundo e depois voltei a ser.
Bravo. E eleito o jogador de golfe do ano da sua confederação. Bem-vindo aos "Imperdíveis".
Obrigado.
Queria começar por perceber o que é ser o jogador do ano nos Estados Unidos, naquela escala de país, de uma confederação.
Primeiro é ótimo, é sentir que os resultados realmente dão frutos. A faculdade foram quatro anos, eu só consegui atingir isso no meu último ano. E a confederação somos 12 equipes, cada equipe tem cinco jogadores, por isso são 60 jogadores e não a dimensão que as pessoas acham que é os Estados Unidos inteiro. Sim, a nível nacional acabei como número seis da minha liga, que é a organização NAIA. E dentro dessa organização acabei como número seis. E depois há as conferências, que é as confederações que estávamos a falar, e dentro dessas confederações, na minha, fui o jogador do ano.
Mas isso é estar num high level.
Sim, de certa forma, sim.
De certa forma. É a modéstia, fica-lhe bem. João, já lhe dei as boas-vindas, gostava de lhe perguntar se não se importa de se definir. Ou como pessoa, ou traços de caráter que são dominantes, ou pelos sonhos, não sei. Não tem que dizer tudo aquilo que é, e muito menos devassar-se.
Não é uma pergunta muito fácil.
Sobretudo para um rapaz e com 22 anos.
Sim. Acho que sou uma pessoa que não desiste. O meu próprio treinador dos Estados Unidos estava-me sempre a dizer isso, porque independentemente do resultado que eu tinha ou que ia ao fim de nove buracos, o jogo tem 18, eu sempre fui um jogador que nunca desistiu. E eu considero-me uma pessoa, não só no golfe, mas na vida, em que não desisto e vou atrás das coisas até ao fim.
Ou seja, uma pessoa extraordinariamente resiliente, porque a inclinação para desistir, a frustração é muito grande. É preciso ter muita cabeça e uma estratégia muito afinada.
Sim, é fácil desistir quando estamos no modo baixo. Quando estamos em baixa de forma, é fácil desistir, mas acho que aí é que se vê realmente quem são os verdadeiros campeões e quem é que vem ao de cima, porque lidar com sucesso acho que é fácil, acho que não é assim tão difícil. O problema é quando estamos lá embaixo, para voltarmos a subir, acho que aí é a parte difícil e aí é que temos que ser persistentes e acreditar naquilo que estamos a fazer.
E aí, no concreto, o que faz consigo próprio? Como é que trabalha nas alturas em que está embaixo ou depois de fracassos, falhanços, que todos temos, mas que quando estão expostos e quando está nessa fasquia da alta competição, são mais frustrantes ainda.
Eu tive duas ou três maneiras diferentes de lidar com o fracasso. O meu primeiro fracasso foi aos 16 anos, quando acabei em segundo no campeonato nacional e fui para o Campeonato da Europa como jogador, supostamente para ganhar, e acabei de ficar nos três últimos.
E vinha de ser sete vezes campeão nacional seguidas.
Sim, exatamente. E toda a gente esperava que eu fosse muito bom. E da maneira que eu lidei com o fracasso dessa vez, eu desisti de jogar durante três meses. Não foi desistir porque eu sabia que ia voltar, mas senti que o melhor para mim era parar durante três meses.
Portanto não é uma desistência, é só criar um tempo.
Exatamente. Criar um tempo porque eu sentia que tinha que voltar a ter o gosto de jogar e de trabalhar.
Mas é duro, não é? Ou seja, é duro uma pessoa ir para ganhar e ficar perto dos últimos. Diga.
Eu lembro do treinador nacional querer que eu fosse a um estágio a seguir e que falasse com eles, e eu disse que não e que tinha que ter tempo para mim.
Não o pesam demais.
Queria resolver primeiro as coisas comigo próprio e depois voltar ao trabalho.
E quando voltou ao trabalho, volta num patamar de autoconhecimento certamente diferente, ou seja, uma pessoa não sobe um degrau, sobe um patamar, ou não?
Sim. Acho que passar por esse fracasso, hoje em dia ajudou-me bastante. Sou uma pessoa mais atenciosa, ou seja, a nível de treino, estou mais atento a pontos pequenos que se calhar os jogadores que não passaram por este modo baixo, que eles não estão atentos e eu estou porque sinto que à mínima coisa isto pode voltar a acontecer. Por isso, de certa forma, como jogador, ajudou-me bastante.
Apostou o seu caráter.
Exatamente.
Agora disse uma coisa engraçada, porque como viveu muito tempo fora, nos Estados Unidos, disse: "Eu sou muito atencioso". E depois eu percebi que queria dizer atento, mas ao mesmo tempo também é atencioso com os seus rivais ou não?
Sim, de certa forma.
Na medida em que é possível.
Sim.
A competição é brutal.
É enorme.
Mas há fair play ou não? A esse nível de alta competição.
Claro que sim. O que acabou número dois da conferência, ainda hoje falámos, ele é americano, foi para Guatemala, eu perguntei-lhe como é que correu. Sempre a mandar mensagem a perguntar como é que está a minha vida de profissional agora, porque ele ainda tem mais um ano de faculdade.
Para ver se ainda consegue chegar ao seu lugar, à sua posição.
Não.
Não.
Ele tem mais um ano de faculdade e depois creio que ele se vai tornar profissional, tal como eu. Mantemos contacto, estava sempre a jogar contra ele e era o meu rival no último ano, mas somos muito amigos.
João, é preciso realmente muito nervo, muito sangue-frio e muita cabeça para jogar golfe, para não perder a cabeça, para não dar o passe errado, não dar a tacada errada, não é?
Sim. No golfe, uma pancada pode custar um duplo bogey num par quatro, que seria mais duas, em que pode se perder um torneio com um mau shot. Enquanto, por exemplo, eu comparo muito ao ténis, porque estamos ali sozinhos no corte, como no campo, e no ténis uma má pancada está só a perder nada 15. Não determina o jogo. Enquanto no golfe a maior parte das vezes acaba por determinar.
E pode dar cabo de uma carreira, uma pancada, uma má pancada.
Sim.
Uma carreira, se calhar, não.
Uma carreira, se calhar, não, mas sim, às vezes, sim.
Naquele concurso.
Sim, naquele torneio.
Naquele torneio, exatamente. A terminologia. João, andando para trás e ainda só tem 23 anos, eu há bocado enganei-me e disse 22, mas já tem 23. Tudo isto começou muito cedo. Começou aos quatro anos. Fui ler, fui investigar e há fotografias muito amorosas, com quatro, cinco, seis anos, já com os ferros e a fazer um hole in one, como se diz, ou a dar sinais de que era uma pessoa que tinha futuro. Como é que começou? Podemos andar estes anos para trás? Quase 20 anos?
Podemos, sim. Comecei a jogar há 19 anos, no verão, por isso foi agora.
Portanto, tinha quatro anos.
Tinha quatro anos, exatamente.
E conseguia segurar nos ferros?
Conseguia. Eu lembro-me que foi a um estágio de verão em que não era permitido começar antes dos seis, entrar antes dos seis, mas as minhas irmãs começaram e o meu pai perguntou se eu também podia pelo menos experimentar. Eu lembro-me da treinadora Patrícia Briticunha, que adoro ainda, já não trabalho com ela.
E a quem sempre deve muito.
Sim, sem dúvida alguma. Eu lembro-me na altura de ter uma coordenação fina. Vamos dizer assim, fora do normal na altura, e então deixaram-me continuar no estágio e a partir daí, acho que sim.
Mas depois aos seis anos também aconteceram coisas e há relatos noutras entrevistas que deu e noutros perfis que fizeram sobre si, uma vez que também tem um perfil de campeão já há vários anos. Li que ia, jogava com cinco, seis anos, jogava muito bem, chegava ao carro e adormecia.
Sim, vinha sempre dos treinos a dormir.
Mas no campo estava super desperto.
Sim, eu lembro-me do meu primeiro torneio, foi no Golfe de Amarante, que é a subir e a descer montanhas atrás de montanhas. Joguei nove buracos no verão com 38°. Eu lembro-me que no último buraco eu disse ao meu pai que queria desistir, que eu não aguentava mais, estava tão cansado. E o meu pai disse: "Nem pensar, eu levo-te às cavalitas, levo-me às cavalitas o último buraco todo, que é a subir". Tenho essa memória e só tinha quatro anos na altura.
E levar as cavalitas é um grande apoio. É um grande pai, é um grande apoio, é alguém que diz: "Não desistas porque não estás sozinho, eu estou aqui contigo e faço o que for preciso por ti".
Sim, sem dúvida.
Esse apoio dos pais foi sempre importante?
Foi, claro. Ajudaram-me a ir para os Estados Unidos. Sempre me apoiaram, sempre estiveram do meu lado, nunca forçaram eu jogar, que infelizmente há muitos pais, não só no golfe, mas em qualquer desporto, a fazer isso. Sempre estiveram do meu lado e me apoiaram qual fosse a decisão. O que me pediram sempre foi para ter responsabilidades e encarar as responsabilidades para não andar a brincar, ou seja, não fazer nem uma coisa nem outra, era uma coisa que eles eram contra. Ou seja, eu tinha que fazer opções.
E ser coerente com as opções.
Exatamente. E levar o golfe a sério e os estudos também.
E isso foi fácil?
Não, não foi nada fácil.
Os estudos são em que área?
Gestão, economia. Até à faculdade foi mais difícil do que na faculdade, porque quando fui para os Estados Unidos, o programa está feito de maneira a conseguirmos conciliar as duas coisas. Aulas de manhã, treinos à tarde. Quando íamos para fora jogar torneios, não tínhamos testes ou exames logo no dia a seguir. Falávamos com o professor e arranjávamos a melhor data para nós, de certa forma, termos a mesma oportunidade que outro aluno que não praticasse uma modalidade.
Em que zona dos Estados Unidos é que esteve?
Na Geórgia, perto de Atlanta.
Sempre?
Sim, os quatro anos.
E quem é que conheceu destes nomes que povoam o imaginário comum e universal? O Tiger Woods, apesar de tudo aquilo que aconteceu e tudo aquilo que o fez também ficar na mó de baixo, pelo menos em termos da opinião pública, mas pensei nele só porque o nome soa. Há muitos outros, e se calhar, muito mais interessantes.
Nós estivemos mais interessantes que o Tiger Woods? Eu duvido.
Depois em jogo, em campo. Exato. Esquecendo o resto.
Claro. Não, mas tivemos a sorte, a minha equipa todos os anos íamos ver um torneio que é o The Tour Championship, em Atlanta, que era a 45 minutos da nossa faculdade, onde nós vivíamos Que é o top 30 desse ano. É o último torneio do ano em que está lá o top 30, ou seja, os 30 melhores do mundo estão lá a jogar. E nós tivemos a oportunidade de ir três anos seguidos, em que o ano passado, depois do Tiger ter passado o que passou, foi a primeira vitória dele e nós estávamos lá, não no dia da vitória, mas estivemos no torneio, estivemos a vê-lo. Eu lembro-me de estar a 10 cm dele, eu com 23 anos a querer tocar mesmo miúdo, mas sentir aquilo de ver o melhor do mundo e o Tiger Woods.
Por que ele é o melhor do mundo? Agora só tecnicamente falando e para quem, como eu, e para muitos leigos que nos ouvem e que não percebem assim tanto de golfe, o que faz dele o melhor do mundo, com uma competição feroz e com pessoas absolutamente extraordinárias nesta e noutras modalidades?
Primeiro, eu acredito que ele treine mais que os outros. Não basta só a mentalidade.
Uma espécie de profissional.
Sim. Eu não acredito que a mentalidade chegue, porque depois quando estamos sob pressão, a mentalidade acaba por não adiantar. Interessa mais o treino todo que nós fizemos para nos preparar para aquele momento.
E portanto, há o lado mental e há o lado físico.
Exatamente, os dois.
Mas depois há um lado também, não é mágico, mas há qualquer coisa que é o dom, não é?
Sim.
Qual é o dom dele?
Assim que ele apanha a liderança de um torneio.
Esquece os outros.
Esquece os outros, não têm hipótese. Ele deu uma vez uma entrevista em que ele disse que o objetivo não era ganhar, mas sim ganhar pela máxima vantagem possível. Isso aí demonstra realmente o que ele é. Ou seja, quando ele chega a ter vantagem por uma, ele não está contente. Ele quer chegar às 20, ele quer bater recordes, ele não quer só ganhar.
E agora abstraindo ou despersonalizando e indo para outros jogadores, a questão mental é uma questão que interessa. Como é que vocês fazem um treino mental? Quais são as vossas balizas? O que é que sim, o que é que não?
Treino mental. O golfe é muito mental, é verdade. Acho que temos que saber encarar os erros bem. Quando temos um mau buraco, é como se não tivéssemos um mau buraco. Nós falamos em poker face, porque independentemente de irmos em primeiro ou em último, temos que estar sempre estáveis a nível mental e também body language, que interessa muito, porque acaba por interferir.
Interferir também no jogo dos outros e no próprio. Isto é como um pianista. Um pianista dá uma nota falsa com ar imperial ou dá uma nota falsa com ar muito frustrado, porque acabou de dar uma nota falsa, não é?
Claro.
E portanto tudo o que é falhanço tem que ser vivido de olhar a prumo.
Sim, nunca estar de cabeça para baixo, sem dúvida.
Mas isso treina-se ou são características, são traços de caráter da pessoa que no fundo se vai fazendo um campeão?
São traços, mas pode-se treinar também.
Que treino é que faz, por exemplo, João?
Eu acho que é com a experiência, porque pedir a um miúdo de 10 anos para fazer isso, acho que é quase impossível. Claro que há uns que têm mais talento que os outros para fazer isso. Mas acho que é com a experiência. Eu hoje com 23 anos, 19 anos de golfe, eu não me chateio a jogar, tento sempre estar muito forte psicologicamente, que é super importante. Eu acho que é 90% estar forte psicologicamente.
É impressionante isso.
Tal como eu disse, não desistir.
E essa força psicológica vem de um equilíbrio de vida, vem de opções também, se calhar dormir melhor, coisas se calhar muito banais e quotidianas, rodear-se bem de pessoas e amigos, se calhar prescindir de noitadas. Não sei. Boas leituras, boa reflexão e se calhar boas conversas com quem são os seus mentores ou treinadores.
Sim, eu tenho dois mentores. Um é de Gales, é o David Llewellyn, antigo campeão do mundo.
Tem quantos anos ele? Mais ou menos.
68, 67.
Portanto, é um homem maduro e com experiência.
Sim. Normalmente eu estou com ele uma vez por mês, ele vem cá a Portugal e eu estou com ele. E depois também tenho o meu treinador, que é o coach Spain, esteve comigo quatro anos, em que eu também tive fases difíceis nos Estados Unidos e ele sempre disse: "Tu és o melhor, eu sei o que é que tu tens dentro de ti, não vamos desistir, vamos lutar sempre até ao fim". E realmente o que aconteceu no último ano da faculdade, eu devo muito a mim, claro, pelo meu trabalho todo, mas também a ele, porque ele esteve sempre ao meu lado e sempre se disponibilizou. Ainda hoje em dia, acabei a faculdade há dois meses e meio, e falo com ele todas as semanas, três, quatro vezes. Vou para torneios, falo com ele.
É importante esta partilha, porque estas pessoas que renovam, multiplicam, projetam, reforçam a nossa confiança, são sempre importantes, seja em qualquer área da vida. É só ter uma boa conversa ou ter alguém de referência que acredita sempre em nós e que sabe que independentemente dos falhanços ou dos momentos maus, nós temos um potencial e somos capazes e tira de nós o nosso melhor, é absolutamente decisivo.
Claro. Se temos alguém ao nosso lado a dizer que não acredita em nós, é muito mais difícil nós acreditarmos em nós próprios, mas temos alguém ao nosso lado sempre a dizer: "Tu consegues, embora". É muito mais fácil. Ouvir o positivo em vez do negativo afeta toda a gente.
Agora, curiosamente, a uma fasquia mais olímpica e uma fasquia mais elevada, há muitos coaches e treinadores que acham que é desfazendo o atleta ou jogador Que ele se vai superar. E isso acontece. Feliz ou infelizmente, acontece. E com alguns jogadores e atletas, de fato, eles entram num esquema mental de: "Vou te provar que sou muito melhor do que aquilo que tu pensas". Felizmente, não aconteceu comigo, porque não era o estilo de pessoa que gostaria desse tipo de abordagem.
Não, na faculdade, não. E eu sinto que os meus treinadores têm que estar do meu lado, porque se eles estiverem a dizer coisas negativas, com o objetivo de me levantar. Eu não gosto de ouvir coisas negativas, eu sou uma pessoa positiva.
Mas ninguém gosta. A mim, espanta-me sempre que dizer negativo dê positivo, ou que encha de confiança alguém a dar cabo da confiança, mas há quem o faça.
Sim, eu não consigo ver a coisa dessa maneira, mas acredito que sim, que exista.
João, muito interessante esta conversa. Vamos fazer aqui uma pausa para as notícias. Voltamos já a seguir. Temos uma segunda parte do mesmo tamanho, com imensa coisa para saber. Até já.
Até já.
Voltamos à conversa com João Magalhães, 23 anos, campeão de golfe, oito anos campeão nacional em Portugal, eleito o melhor jogador da sua confederação nos Estados Unidos. Já falamos sobre isso. Agora eu gostava de falar sobre a motivação para conseguir tudo isto e para continuar. Voltando aos anos lá para trás, agora já não aos quatro, aos cinco, aos seis anos, já falamos sobre isso, mas quando começou a ser campeão nacional e quando foi sete anos seguidos campeão nacional, com toda a expectativa que isso gera nos outros e em si próprio, quantos anos tinha?
Fui campeão nacional pela primeira vez aos nove anos, depois fui com 10, 11, 12, 13, 14 e 15. Isto sempre sub-10, sub-12, sub-14, sub-16. Depois fiquei em segundo nos sub-16 e depois voltei a ganhar no sub-18 no meu primeiro ano. No segundo ano não pude defender o título, estávamos no Campeonato da Europa. Mas sim, foram esses os anos que ganhei.
E o que acontece dentro de um campeão de nove anos, de 10 anos, de 11 anos, que continua a ser o melhor da sua classe ou da sua categoria?
Mamãe, isso está alguns anos atrás e é difícil lembrar, mas aquilo que eu me lembro é que não era fácil ganhar.
Não, mas é extraordinário, porque as pessoas que são verdadeiramente talentosas, realmente é fácil, é quase um recreio, não é?
Sim.
Quando uma pessoa está a funcionar no seu talento, é quase como se estivesse no recreio, quase que pagaria para fazer aquilo que faz.
Eu quando digo era fácil, não era fácil ganhar.
Não, não é presunção.
Sim, lidar com isso. Eu nem tinha idade para pensar nas coisas. As coisas aconteciam. Eu ia treinar, ia jogar e era campeão. Hoje em dia existe muito mais responsabilidade. Na altura, era tudo ótimo. É uma maravilha quando somos crianças.
Mas não é assim tanto, porque ao fim de dois, três, quatro, e quando se percebe que é uma pessoa que está talhada para ser um campeão, há pressão. Eu lembro-me de o ter entrevistado quando tinha 16 anos e havia já muita pressão nessa altura.
Sim. Agora estamos a falar de um, dois, três, quatro, cinco anos. Eu lembro quando fui penta, eu disse: "Eu não quero parar, eu quero ganhar até não conseguir mais, até aos 18 anos, sub-18, o segundo ano". Eu disse: "Eu quero ganhar todos, eu não quero perder nenhum".
Isso daria quantos?
Dois, quatro.
Conseguiu oito.
Consegui oito, perdi um, nove, depois um não joguei, daria os 10. Sim, eu queria fazer os 10 seguidos e não queria perder, eu queria que fosse uma marca. Eu pensava sempre: "Daqui a 300 anos, eu quero que alguém esteja a tentar bater a minha marca".
Isso é muito bom.
Eu lembro quando era miúdo a pensar nisso.
Quem são as suas influências mais diretas? Já falamos do seu pai, da sua mãe, da sua família, mas há avós, há pessoas no círculo familiar que sejam muito combativas, que sejam muito atléticas, atletas, desportivas?
Não, eu guio muito pelos meus pais e pelos valores que me passam. E eu sinto que isso aí também dentro de campo. Humilde, para mim, é uma característica muito importante.
Ou seja, a humildade sempre. Na vitória, na derrota e sempre.
Tento. Não sei se o consigo, mas pelo menos tento.
A poker face ajuda.
Exatamente.
Mas a humildade, no fundo, gostaria que fosse a sua marca.
Sim, acho que sim. Sem dúvida.
E o que faz para isso? Quando sente que o que está a sentir é tudo menos humilde e tudo menos humildade. A que é que se obriga? Obriga a que outras pessoas lhe deem feedback, reage bem ao feedback, ou é uma autoanálise permanente?
Não, eu reajo bem ao feedback, sem dúvida. Mas humildade não é só o fato de não nos gabarmos, mas também sabermos em que ponto estamos. Acho muito importante isso. Por exemplo, eu sei que agora estou num ponto em que eu tenho que evoluir imenso para chegar à primeira liga europeia a nível profissional. Acho que isso também é importante.
Portanto, ser campeão, mas não ter a mania que é campeão.
Exatamente, sim.
Isso é bom.
Que acho que acabamos por perder e acho que a vida não é ser só campeão, acho que é bom que as pessoas gostem de nós. Eu vejo os miúdos e espero que eles olhem para mim também como um ídolo, como um role model. Da mesma maneira, vou referir agora aqui um grande amigo meu, que é o Pedro Figueiredo, está a jogar na Primeira Liga Europeia, e eu sempre olhei para ele, é tão humilde, tão simples. Eu adoro, não só como amigo, mas também como jogador. Acho que é fantástica a maneira como ele lida com as coisas e tem uma carreira fora de série.
Vou pensar agora nos homens. Estamos sempre a falar dos homens, mas há imensas mulheres extraordinárias no golfe, em todos os desportos e também no golfe. Quem é a mulher que mais admira no golfe?
Eu admirava, já não joga, a Joana Silva Pinto em miúdo. Infelizmente ela acabou por ter um acidente e teve que deixar de jogar. Mas eu admirava a Joana Silva Pinto.
Por quê? O que despertava essa admiração?
Ela tinha uma garra que nenhuma das outras tinha. Era impressionante. E depois era campeã e eu acho que tinha muito a ver com isso. Ela tinha uma garra e uma força. Lembro que ela no acidente, o médico dizer-lhe: "Vais ficar sem perna" e ela: "Não vou." E a garra dela fez com que ela ande normal hoje e tenha uma vida normalíssima.
E não ficou sem perna.
Não, tem uma vida normalíssima e tem a ver com a garra dela e a força dela.
O que admira nas pessoas, agora extrapolando e saindo só do desporto e do campo?
A bondade de ser amigo, acho que é muito importante. Tal como eu falei há bocado nos meus pais, acho que esses valores e ser honesto.
A integridade, a verticalidade.
Sim, sem dúvida.
É muito interessante vê-lo sempre a referir os valores que herdou, os valores que no fundo tem em casa, nesse caldo familiar. E isso também lhe dá a si uma ternura, uma doçura, que também são invulgares. É uma pessoa, eu posso dizer, porque o João podia ser meu filho, mas é de facto uma brasa, é um homem muito bonito e que de certeza absoluta tem imensas pessoas a admirá-lo e também a achá-lo não só um ídolo do desporto, mas também uma pessoa com quem apetece estar, conhecer, amar, o que for. E como é que lida com isso? Porque quem provoca isto nos outros, quem é campeão, quem tem este perfil e quem provoca essa admiração nos outros e ainda por cima vem carregado de ternura, de um olhar de bondade e com bons princípios, onde é que se encontra neste mundo onde as coisas são duras e nem sempre fáceis?
Quando diz isso, eu simplesmente tento ser uma pessoa simples e igual a todos os outros, igual a todas as outras pessoas.
Mas sabe que é giro.
A minha mãe é gira, por isso acho que sim, acho que saí a ela. O meu pai também.
O seu pai também não é mau.
Não.
E as suas irmãs também. Quantas é que são?
Os meus pais, depois tenho três irmãs, duas mais velhas e uma mais nova.
E são todas giras.
São todas umas brasas. Eu sou o mais feio, sem dúvida.
Não deve ser isso que elas dizem. Mas lida bem com o ser bonito e o ser uma pessoa de sucesso.
Sim, tento não pensar nisso sequer.
Não é um Don Juan, não é um conquistador, vive a vida pelos seus princípios e se calhar nem sequer tem muito tempo, não lhe sobra muito tempo fora do campo para grandes conquistas.
Não.
Ainda não. E tem pena? Ainda não.
Ainda não, mas é verdade, tenho pouco tempo para ter uma vida social hoje em dia.
É muito exigente, não é?
Sim, treinos todos os dias. Acaba por ser um trabalho. Só que depois temos a parte em que temos que estar sempre fora. Ou seja, quando estou cá, tenho trabalho das 08h às 17h, das 09h às 17h, igual às outras pessoas. Só que depois, ao fim de semana também trabalho, treino. Tenho sempre um dia de folga por semana, mas depois acaba por variar. Por exemplo, se for para um torneio até segunda-feira, terça-feira vou tirar folga e quarta volto aos treinos e domingo treino. Estamos sempre fora, mas eu adoro.
Mas é um trabalho que se trabalha muito, mas também paga bem no sentido em que é campeão, mas também paga bem no sentido em que se sente compensado. Nem sei se financeiramente, não faço ideia nenhuma. Também não é um campo por onde eu gosto de entrar, mas é um trabalho que paga a todos os níveis?
Claro que sim. Paga, sem dúvida alguma.
Mas pensa continuar a ser jogador, mas depois investir numa carreira profissional ou a sua carreira vai passar sempre por aqui? Até poder.
Até poder, vai passar sempre como jogador.
E isso pode acontecer até aos quantos anos?
Até aos 60, 55.
É quase como um maestro, um diretor, um chefe de orquestra pode começar tarde e ir até tardíssimo.
A partir dos 50 é mais difícil manter o nível e a maior parte dos jogadores aos 50 anos passam para o senior tour, mas sem dúvida continuam com nível top.
É preciso ter pernas, é preciso ter mão.
Sim.
E é preciso ter cabeça.
Claro, sem dúvida.
O que gosta de fazer quando não está a jogar ou a treinar?
Adoro estar com os meus amigos. Sinto essa necessidade. Não gosto de estar sozinho. Sou uma pessoa muito sociável, eu adoro ir tomar um café, esse tipo de coisas que às vezes até devia abdicar um pouco. Por exemplo, à noite, eu gosto sempre de sair um bocadinho de casa e nem que seja só meia hora, mas gosto. Adoro estar com a minha família, acho que é uma família divertida, principalmente o meu pai é assim meio maluco. É muito divertido e estamos sempre bem uns com os outros e é ótimo.
Quando foi para os Estados Unidos, há quatro anos, há três?
Quatro.
Há quatro anos, sentiu falta dos seus amigos, da sua família, da cultura? Qual foi para si o choque cultural mais difícil de lidar?
Foi sem dúvida alguma estar sem a minha família. Foi muito difícil, principalmente os primeiros tempos. O dizer o adeus é muito difícil, mas era sempre um até já, porque eu depois voltava e isto foi um período da minha vida em que eu estive lá. Mas o facto de ir para lá para uma equipa de golfe, o que acontece é que nós somos obrigados a fazer amigos, porque nós vamos ter uma equipa de 10 ou 12 jogadores, em que vamos estar com eles de manhã à noite
Quer gostem, quer não.
Exatamente.
Portanto, o melhor é gostar.
É fácil fazer amigos, é muito fácil. E eu tive sorte do meu treinador, como já disse, também ser um grande amigo além de treinador.
E a língua para si? O inglês já era fácil para si?
Não, não era nada fácil. Falava, mas não estava habituado a ter aulas em inglês o tempo inteiro.
E numa área de especialidade que tem um jargão próprio, o economies.
Sim, nesse sentido foi difícil, sem dúvida alguma. Mas ao fim de três, quatro meses já estava falando bastante melhor inglês e acabou por ser mais fácil.
E as pessoas, os americanos acolhem ou vocês tinham ali um circuito também muito internacional e, portanto, uma pessoa sente-se em casa porque está no mundo e está com pessoas do mundo?
Algumas pessoas podem achar que não, mas acolhem bastante. Fiz amigos americanos para uma vida inteira. Não tenho razão de queixas dos americanos. Adorei estar lá e a semana de Thanksgiving, todos os anos havia um diferente que me convidava para passar a semana com a família deles. Cinco estrelas todos, sem dúvida alguma. E até estava a comentar com os meus pais no outro dia, agora quando voltei, foi mais difícil voltar dos Estados Unidos para Portugal do que sair de Portugal para ir para os Estados Unidos.
Por quê?
Porque isso foi um período em que eu sabia que eu ia voltar. E agora, os meus amigos da minha equipa, eu passava com eles de manhã à noite, de segunda a domingo, em que eu sei que é impossível manter a relação daqui a 20 anos, mas não estar ao lado deles daqui a 20 anos, faz-me confusão. E faz-me confusão que se calhar vou perder muito.
De repente, toda a gente foi para os seus países ou para outros pontos do mundo.
África do Sul, Argentina.
E aquele tempo acabou. Não volta.
Sim.
E agora que voltou, qual é o ponto da situação? O que se está a passar? O que se vai passar à frente? É um jogador patrocinado? É um jogador que as pessoas apostam tanto em si aqui como apostavam lá fora? Como é que está?
Sim, sem dúvida. Eu tenho um agente, que é o Pedro Lima Pinto, que me está a ajudar bastante. Tenho três patrocínios, um de roupa, que é a J. Lindeberg, tenho o patrocínio do Palato e tenho o patrocínio da Predivisa, que é uma imobiliária, e estes dois patrocínios monetários, o da roupa não, mas os outros dois, sem eles não teria começado a minha carreira profissional.
Portanto, eles apostaram em si de uma forma muito prematura, quando ainda não era quem já é.
Não, eles apostaram em mim agora, quando voltei dos Estados Unidos.
Ah, ok. Agora.
Para nível profissional.
Está bem. É que quando estava a dizer isso, de repente achei que eles já eram seus patrocinadores.
Não. Foi agora a partir de junho, foram eles os meus patrocinadores oficiais. Espero conseguir mais patrocinadores agora para o próximo ano. Mas sim, são eles os meus patrocinadores oficiais até agora.
E agora, aos 23 anos, aos 30 anos, começou a projetar até aos 30, porque é difícil aos 23 projetar.
Claro.
E ver-se com 30 anos, mas onde é que gostaria de estar aos 30 anos?
Gostaria de estar a jogar no circuito americano.
No circuito americano?
Sim, que é o PGA Tour, sem dúvida alguma. Gostava de voltar a Atlanta e jogar aquele torneio, o Top 30, e sentir que todos os meus amigos americanos, se eles um dia me puderem ir ver jogar aquele torneio, era fantástico.
E nesse Top 30 há pessoas de 30 anos ou já são mais seniores?
Não, há pessoas-
Até mais novas.
Vinte e três anos.
Ah, ok.
Vinte e quatro. Sim.
Portanto, tem muito caminho para andar.
Tem.
E é possível, estando em Portugal e estando por aqui, é possível evoluir e fazer caminho para chegar a esse Top 30?
Sim, sem dúvida. Sim, acho que Portugal tem as condições para golfe espetaculares.
Deve ter, porque o turismo do golfe é expressivo.
Sim. Não diria tanto no Norte, mas mais no Sul. No Norte também temos condições fantásticas, mas acho que no Sul, também pelo tempo, acho que é bastante melhor estar no Sul.
Falou do Norte e do Sul. É um homem do Norte.
Sou.
O que é ser um homem do Norte?
Um homem do Norte.
Até lhe brilham os olhos. Então dizer isto no Sul, em Lisboa, aos mouros. Ainda brilha mais.
Tenho muita orgulho em ser um homem do Norte.
O que é ser um homem do Norte? Nesta rádio cuja antena ainda está, se não ouvirmos o programa na antena, se ouvirmos através do computador, podemos estar até no Botão. Mas se estivermos aqui a ouvir no carro ou em casa na telefonia, ainda é só Lisboa. Talvez em breve vamos para o Porto. Mas o que é um homem do Norte?
O que é um homem do Norte?
O que define um homem do Norte? O que é a estrutura de um homem do Norte?
Isso é uma pergunta tão difícil.
Está tão entranhado, não é? Está tão entranhado, está tão na pele.
Ainda por cima este é um jornal em Lisboa, por isso eu não posso dizer aquilo que penso.
Não, pode.
Não posso.
Isto não acende nenhum rastilho.
Sou um homem do Norte, mas atenção que sou sportinguista, por isso não sou o típico homem do Norte que há no Porto.
Mas onde é que é o orgulho do homem do Norte para quem acaba de chegar dos Estados Unidos e é um homem do mundo, porque as suas viagens, os seus torneios, todo o seu brilho, toda a sua luz tem brilhado no mundo inteiro. O que é um homem do Norte? Não consegue dizer.
Um homem do Norte é chegar a casa e ir beber um fino.
E comer uma francesinha.
E comer uma francesinha. Ou umas tripas à moda do Porto também.
Foi bem respondido.
Acho que também vai muito por aí, ser um homem do Norte.
Mas João, em que acredita, para além da família e dos valores, quem são as pessoas que o inspiram? Tem fé? Se tem fé, tem fé em quê ou em quem? O que o faz acordar de manhã e o que o faz agir e o que o faz querer superar-se em cada dia? E que não tenha só a ver com golfe. E neste momento já também não com a família, porque já falámos bastante.
Sim. Ter objetivos de vida, acho que é super importante, não só a nível profissional, mas a nível de tudo. Acho que uma pessoa sem objetivos não tem sentido acordar. Eu penso muito desta maneira, porque uma pessoa acorda e não tem um objetivo naquele dia, para que vai acordar? Acho que eu baseio-me muito à base dos meus objetivos. Crio objetivos diários.
E tenta cumpri-los.
Sim, e acho que esse é o meu acordar. Eu hoje tenho objetivos e hoje tenho que os cumprir. Sejam qual for, pode ser levar a minha irmã Rosarinho à escola.
Coisa que ela deve adorar.
Sim, acho que gosta.
Sobretudo depois do irmão mais velho que esteve nos Estados Unidos, longíssimo, como se tivesse emigrado para Marte ou para a Lua.
Sim, ela chorava muito quando eu ia embora.
No Skype.
No Skype, então, sim.
Esses objetivos e cumprir objetivos. E também tem sonhos de vida familiar, ou seja, como fala tanto da família, está nos seus objetivos mais ou menos remotos, casar, ter filhos.
Claro, sim.
Gostava de ter muitos filhos, uma vez que tem muitas irmãs.
Gostava, pelo menos ter uns três ou quatro. Acho que sim, porque acho que uma casa cheia é sempre diferente. Acho que há muito mais vida numa casa de cinco ou seis pessoas do que numa de duas ou três.
Isso, certamente. Mais vida há, certamente, mas pode haver mais chatice, mais gritos.
Claro.
Mas também há mais entreajuda, é o caso.
Sim.
Mais partilha, talvez menos egoísmo.
Sim, claro. Acho que todas essas partes são importantes.
Se houvesse um lema de vida, o que seria o seu lema?
Um lema de vida. Vamos voltar um bocadinho à conversa o início. Não desistir.
Não desistir.
Não desistir. É a maneira que eu vivo.
Quando se volta ao básico. Se uma pessoa começa por não desistir e volta a não desistir, é porque isso é mesmo um ponto central da sua vida.
Sim.
Se pudesse trazer aqui uma pessoa neste minuto, alguém morto ou vivo, de outro país, de outra área, de especialidade, o que fosse, quem traria?
Como? Não percebi.
Se pudesse trazer aqui alguém, teletransportar alguém do mundo, quem traria aqui?
Agora?
Sim. Alguém que gostasse de conhecer, alguém que lhe apetecesse ver.
Traria os meus dois avôs, claramente. Acho que voltar a vê-los seria ótimo.
É? Aquele seu avô, a um dos seus avôs, que segurava nos braços, era tão atlético que tinha força de braços para ter um amigo em cada braço, posto em pé, em cima do braço.
Sim, o pai da minha mãe.
O pai da sua mãe. Traria cada um deles e para lhes dizer o quê?
Sim, cada um deles. Nada, para passar um bocadinho mais de tempo com eles. Acho que era o suficiente.
Para um abraço literal ou metafórico.
Sim, um abraço. Acho que seria bom.
Muito obrigada, João. Parabéns. Muitos parabéns por todas as suas conquistas e sobretudo por ser quem é e como é, e fazer as coisas como faz.
Obrigado.
Obrigada eu.
Obrigado.
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