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O programa é patrocinado por BP Ultimate com tecnologia Active. Salvador, que alegria começar este programa contigo. Tu que és uma pessoa tão importante na minha vida e na vida de todas as pessoas que te ouvem e que te acompanham. Em vez de começar por te apresentar, ia pedir para te apresentares a alguém que tu aches que ainda não ouviu falar de ti, nem te ouviu cantar.
Se fosse alguém que eu conhecesse, eu diria só o meu nome. "Olá, Salvador, prazer". Se calhar, diria que sou músico. E pronto.
E coisas que gostes e coisas que não gostes.
Diria que além da música, adoro pessoas e línguas. Não sei se adoro pessoas porque adoro línguas ou se adoro línguas porque adoro pessoas. E cinema, pronto.
E cinema. E casaste com uma atriz.
Exato.
Porque estás muito apaixonado.
Exato. Um dia que me apaixone pelo circo, vou me casar com uma circense.
Isso já não vai dar. Já estás ocupado.
Já estou ocupado.
O teu grande coração já está ocupado. Salvador, que bom estares aqui. Tanta coisa que passou na tua vida nestes últimos anos.
E tu assististe a isso.
E ver-te bem. Acho que é a primeira vez que eu te vejo completamente bem, em paz com tudo. Em paz com a Eurovisão, em paz com o coração, em paz com a vida, em paz com tudo. E por isso, acho que não deve haver tabus. Podemos falar de tudo nesta conversa.
Claro.
Então se calhar, começamos pelo coração. As pessoas todas querem saber do teu coração, querem saber como é que tu estás, se estás em forma.
É engraçado que as pessoas perguntam na rua.
Isso é querido.
Muitas vezes me perguntam: "Como é que estás? Rezei muito por ti". Há muita gente que diz que rezou muito por mim. Até no outro dia, umas freiras em Santiago de Compostela diziam: "O nosso grupo todo das irmãs rezou por si" e depois agradeceu. Não rezaram só por mim antes, depois agradeceram por eu estar bem.
Isso chama-se fidelidade.
Exato. Porque eu percebo o querer rezar para pedir. Mas às vezes depois esquecem-se de que tens que agradecer.
Isto é como pedem: "Sabes de um médico que me possa ajudar?" E depois nós damos a volta, ajudamos e depois nunca mais sabemos nada a seguir, porque as pessoas esquecem-se de dar feedback e de agradecer.
Só se não ficassem melhor é que iam ligar outra vez para pedir outro médico.
E que impacto é que tem quando umas irmãzinhas de Santiago de Compostela dizem que rezaram por ti ou quando és interpelado na rua?
Tem um impacto sempre positivo. Avassalador, às vezes. Há coisas que acontecem simplesmente estranhas. No outro dia eu dei um autógrafo num disco, uma vez, porque ela veio a um concerto e disse: "As pessoas dizem que eu sou um bocadinho estranha". Eu disse: "Não te preocupes, a mim também me diziam muitas vezes que eu era estranho". E depois no disco dela eu escrevi: "Viva as pessoas estranhas". E uns meses depois, ela era espanhola, tatuou as palavras que eu tinha escrito, mas com a minha caligrafia. Não sei como é que ela fez aquilo, com papel vegetal ou o tatuador. E de repente tatuou essas palavras. Eu achei: "Que coisa, eu disse aquilo para o ar e ela foi tatuar aquilo para a vida inteira".
Pois, porque se calhar ela precisa de sentir que ser estranho não é impeditivo de nada.
Claro. Hoje em dia até é melhor.
Hoje em dia é a tua originalidade.
Claro, hoje em dia uma pessoa comum não tem interesse. Temos que ser todos muito estranhos.
Em que tu te sentias mais estranho? Quando te sentias estranho ou te faziam sentir estranho?
Quando não tinha saúde, era a coisa mais estranha que eu tinha. Toda a gente tinha saúde. Eu pensava: "Mas se toda a gente tem, por que eu tenho que estar pouco saudável?"
Parece um dado adquirido.
Era a coisa mais estranha. Sim.
E era estranho, eu conheci-te e tu não conseguias subir dois degraus sozinho. Alguém tinha que te amparar.
Tu quando me conheceste, não era ainda a pior fase, eu não fazia grande retenção de líquidos, eu acho, quando eu te conheci. Mas sim, já me cansava facilmente, mas ainda não era a pior fase.
Qual foi a pior fase?
A pior fase foi justamente antes de entrar no hospital, em setembro, eu já estava muito cansado. Eu estava a me lavar os dentes e a cortar o pão. Essa já foi a reta final, foi já quando eu disse: "Ok, agora tenho que concordar com o médico e ir lá".
E dar o passo.
Exato, internar-me.
E disseste uma coisa muito bonita, que era entregar o meu corpo à ciência.
Exato.
E se calhar, como diz o Novalis, metade é ciência, metade é fé.
Pois, seja ela qual for, qualquer fé, eu dizia: "Sim, rezem por mim ao vosso Deus católico, rezem por mim ao Buda, a qualquer pessoa, eu quero todas as ajudas possíveis".
O que te custou mais a passar naquele tempo opaco e denso do hospital?
A incerteza. Eu acho que a incerteza é o pior, de não saber quando é que ia chegar.
E se ia chegar.
E se ia chegar. Sim. Acho que isso é o pior, a incerteza de saber quanto tempo. As pessoas precisam sempre de saber quanto tempo é que eu vou esperar. E neste caso não havia, é impossível a resposta. Podia ser dois dias. Ele disse: "Olha, podes te internar amanhã e daqui a dois dias aparece um coração. Ou então podes estar dois anos no hospital à espera".
Como é que ocupavas o tempo? Como é que ocupavas a cabeça? Qual era a rotina para suportar esse tempo de espera?
Eu acho que como tudo na vida é isso, temos que ter uma rotina. Eu acordo sempre ao meio-dia, mas isso toda a minha vida acordei e no hospital eu avisei logo todas as enfermeiras, toda gente: "Eu não vou mudar, eu tenho que acordar ao meio-dia".
Uma alma boêmia.
Sim.
No hospital e fora do hospital.
Exatamente. Até para tirar sangue, tudo, eles já sabiam, ele só acorda ao meio-dia. Eu lembro uma vez que eles disseram: "Salvador, isto é um processo delicado psicologicamente, tu se calhar devias ter acompanhamento, há uma psicóloga aqui no hospital". Eu até estava de acordo, porque aquilo é difícil e passei momentos horríveis de depressão. E eles disseram: "Pronto, mas a psicóloga está disponível às 10h30 da manhã". Eu disse: "Nem pensar, pronto, prefiro estar deprimido do que acordar".
Deprimido, mas na mate.
Claro. Então rejeitei a psicóloga do hospital e lidei com as pessoas à minha volta e comigo mesmo. Mas lia muito e via imensas séries, vi o Twin Peaks inteiro, ouvia música e lia bastante.
E não cantavas?
Não.
Nem mentalmente?
Às vezes, mas sentia que a música não fazia muito parte daquele espaço.
Eu lembro-me uma vez de ter lido que o José Carreras quando teve um cancro e estava nos tratamentos, cantava mentalmente uma ária da Aida e ele sabia que era o tempo do tratamento e aquilo ajudou imenso a chegar à outra margem. E portanto pensei: "Será que o Salvador canta?"
Eu fazia isso, mas era nas aulas de matemática. E se eu cantar o disco inteiro, Abbey Road dos Beatles, vai dar a aula inteira. E eu um dia contei ao meu pai e meu pai disse que fazia exatamente a mesma coisa. Eu disse: "É louquíssimo".
It runs in the family.
Sim. Ok, vou começar da primeira canção até à última e isto vai ser a aula inteira.
Esquece matemática.
Qualquer aula, eu sofri imenso na escola.
Por quê? Isso é uma coisa que eu acho que pode ajudar imensos pais, imensos alunos e imensas pessoas, porque há imensas pessoas que não encaixam na escola convencional, nos métodos convencionais.
Sim.
E tu eras um deles.
Eu era um deles, mas afinal tive que fazer a escola.
Claro.
Eu acho que por mais métodos de ensino que inventem, eu acho que afinal temos que passar pelo que temos que passar.
O que tu não encaixavas ali? Não tinhas capacidade de concentração?
Sim, eu queria fazer outras coisas. Sentia que aquilo não servia para mim, mas servirá de alguma maneira ou de outra. Geografia, história. Não, história eu até gostava, mas matemática, físico-química, essas coisas.
Não gostavas de ir para o laboratório.
Nunca usei aquilo na minha vida.
Mas faz parte.
Faz parte.
É treinar o pensamento, é treinar o músculo.
Eu tinha sempre péssimas notas no primeiro semestre e depois a minha mãe tirava-me tudo, a PlayStation, aqueles computadores enormes que havia. Tudo o que era diversão, não podia sair com os meus amigos, não havia mesada. Então eu melhorava, e quando eu melhorava, ela devolvia-me as coisas e pronto, era sempre esta a dinâmica.
Ficavas uma espécie de náufrago, despojado de tudo.
Completamente, não fazia nada. Ela não me deixava fazer nada, tirava-me tudo.
Quando é que tu decidiste que não vou para a universidade, eu vou ser músico? Só isso.
Eu fui fazer Erasmus, em Psicologia. Eu adorava psicologia, mas, na verdade, eu adorava era as pessoas e eu queria percebê-las. Pensei: "Se calhar, eu posso fazer isso sem ter que estudar". E como eu estava a fazer concertos lá nos bares, não conseguia acordar a tempo de ir às aulas, porque os concertos acabavam às 3:00 h da manhã nos bares de blues, e depois tínhamos que acordar às 7:00 h da manhã, não dava. Então optei pela música e pensava que ia viver a vida inteira naquela ilha a fazer música e eu estava feliz. Mas depois com a pressão da minha irmã que dizia: "Se tu queres ser músico, tens que estudar música".
E isso foi o passo mais radical, foi quando tu dobraste o teu cabo das tormentas.
Exatamente.
Foi? E descobriste um novo mundo.
Exato, em Barcelona, um novo mundo.
E desde aí, o que aconteceu? Aconteceu que tu tocavas só pelo prazer de tocar.
E depois houve uma intelectualização da música. E uma compreensão teórica da música e tudo o que andava à volta, o que estava por trás da música, a matemática da música. Que é necessária depois para uma melhor performance e para uma melhor interpretação da música. E foi o que eu fiz, estudei harmonia, improvisação, piano, o que me ajudou imenso para perceber imensas coisas e para descobrir a minha voz também, que eu andava à procura do meu timbre. É como em qualquer instrumento, tu dizes: "Como é que eu vou cantar?" E então tu agarras um bocadinho daqui, um bocadinho do Chet Baker, um bocadinho do Billie Holiday, um bocadinho do Caetano, um bocadinho de outros instrumentistas que não sejam necessariamente cantores, metes tudo na panela e tens a tua voz.
E podemos ouvir a tua voz agora?
Acho que sim. Mas queres que eu cante assim à capela, não é?
Sim.
Posso fazer "A Casa Dela", quantos segundos temos?
O tempo que quiseres.
Então vai, que eu posso cantar "A Casa Dela". Entrei em casa dela sem bater. Como um intruso em busca da nascente. Onde todos os rios querem nascer. Todos os barcos querem morrer. E todo coração é residente. Abri o quarto onde nascem os versos. Espalhados em vasinhos pelo chão. E revirei os seus universos. Juntei os beijos que tinha dispersos. Mas não encontrei o coração. E o refrão virá mais tarde
E esse foi a voz, o teu timbre e aquilo que tu cozinhaste nessa grande panela onde estava o Chet Baker e o Caetano e todos aqueles.
Mas está continuamente em mutação. Estou constantemente a tentar descobrir coisas. Agora apaixonei-me completamente pelo flamenco. Fiz um concerto na Galiza.
O que faz o flamenco? O flamenco é fabuloso.
O flamenco é uma música incrível e superemocional, visceral. Fiz um concerto na Galiza com uns cantadores flamencos. E o flamenco não é uma música que se ensine na escola, nunca foi academizado. Tu tens um mestre e tu vais e vives com ele como se fosse um guru, vives com ele e ele aprende. E eu agora vou a Huelva, na Andaluzia, três semanas estar só com ele e aprender aquele canto.
E como é que a tua voz entra no flamenco?
Vamos ver. Eu tento imitar um bocadinho às vezes.
E consegues agora também assim à capela, sem o som?
"Llueve en Santiago". Não, espera. Vamos voltar aqui. É melhor começar mais grave. "Llueve in Santiago. Lleno de plata y de sol, lleno de plata y de sol. La Quintana del Monte". Mas é difícil, eles gritam isto.
É espetacular.
É gritado.
No tableau aquilo fica vibrante.
Ritmicamente é superinteressante. E é isso, eu vou tendo obsessões. Passei a minha do Jacques Brel, que vamos fazer concertos no CCB na Casa da Música em homenagem ao Jacques Brel. Agora estou a acabar a minha obsessão chanson française e a começar no flamenco.
E a chanson française veio antes ou depois da Genar?
Veio depois, claro. Veio depois. Ela é que me mostrou Serge Gainsbourg, Yves Montand, Charles Aznavour.
Gainsbourg, "Elle me fait chanter".
Exato.
Maravilha.
E a minha mãe gostava muito. A geração antes da minha era muito francófona. Não sei o que aconteceu.
A minha geração.
Exato, a tua geração.
Exatamente.
Não sei o que aconteceu, é uma pena, mas deve ser devido a esta americanização do mundo que nos levou a falar todos inglês, que é uma pena.
Salvador, se o mundo pudesse ser um mundo perfeito, o que tu farias à frente? O que tu farias se houvesse aqui um constar de um dedo, o que tu gostarias de fazer para além de cantar?
Olha, gostava de explorar a minha veia de ator também.
A sério?
Um dia. O Frank Sinatra, o Bing Crosby, eles todos faziam filmes, o Jacques Brel também fazia filmes. Pense: "Porque eu também poderia fazer um filme".
Uma espécie de musical?
Não. Um filme assumido num cinema de autor, um filme de autor. Só para representar. Gostava muito.
Que tipo de personagem?
Isso está para perto.
Um personagem livre? Imprevisível? Ou um atormentado? Não vai contigo.
Qualquer coisa. Eu sinto que não tenho muito jeito, mas acho que posso aprender.
Mas imagina, se houvesse um personagem já de filme filmado, com quem tu te identificarias?
O anti-herói. Gostava de ser aqueles anti-heróis.
Outra vez o estranho, o personagem estranho.
Exato, em que tudo corre mal.
Uma espécie de um Woody Allen revisitado e atualizado.
Daqueles filmes muito psicológicos também, muito introspectivos. Gostava de fazer uma coisa dessas.
Este teu interesse pela psicologia, onde é que te leva no dia a dia? Tu interessas-te pelas pessoas ou interessas-te pelo mecanismo que faz girar e rodar e andar as pessoas?
Não sei bem, por acaso. Só sei que gosto delas e de tentar percebê-las e o âmago delas.
Mas é uma espécie de ir ver a sala das máquinas? É tipo abrir e perceber o que se passa lá dentro?
Sim, é possível.
E o que tu percebes sobre ti próprio, tu que de alguma forma também foste obrigado a fazer isso, a dar esse mergulho em profundidade. Porque tiveste tempo a fazer, porque estavas confrontado também com a tua vida ou até com a tua morte, com a tua possibilidade de morrer. Fizeste isso, ou seja, usaste a psicologia para ti próprio, para te resgatar, para te compreender.
Acho que terei feito isso, mas muito inconscientemente. Sei que sempre tive medo da solidão e acho que isso apareceu mais quando fiquei doente. Medo de estar sozinho e isso continua. Eu não passo muito tempo sozinho.
Isso traduz-se em quê?
Ligar logo aos amigos e estar com eles. Não sou uma pessoa que consegue estar muito sozinha ou se estou sozinho, preciso de um estímulo qualquer. Não sei se é para não pensar muito.
Mas achas que isso ainda vem do tempo da doença?
É possível, eu passei muito tempo sozinho no hospital. É possível que isso me leve lá. Eu ainda não estou preparado para lidar com imensas coisas que vivi e apaguei imensas coisas. Imensas coisas que me conta a minha família estão aí naquele dia que não me lembro. É engraçado.
Uma amnésia seletiva.
Sim, exatamente.
De sobrevivência também.
Completamente.
Só não querer voltar lá.
E de repente, às vezes lembram-me de coisas, digo: "Isso aconteceu, como é que é possível não me lembrar e não estar tão presente?"
Salvador, e tu de repente és um homem casado, apaixonado, casado. És tio de dois sobrinhos.
É verdade, ainda hoje estive com eles.
O que fazes com eles? Eles são pequeninos, mas o que é que fazes? Embala-los ao colo Dás-lhe colo, cantas para eles, ralhas com eles.
Eu acho que o meu sobrinho não gosta tanto de música porque ele sabe que quando a mãe não está, muitas vezes é porque vai cantar. Ele diz: "A mãe foi cantar". Então eu acho que ele tem uma coisa contra a música, porque ele não gosta que ela esteja tão longe. Mas comigo, eu ainda hoje fui buscá-lo à escola.
Ele tem quantos anos?
Ele tem três agora, vai fazer três dia 26 ou 27 de junho.
Como é que se chama?
Chama-se Zé. E ela chama-se Rosa e tem um ano agora. Mas o miúdo é muito querido e eu acho que ele está a ser muito bem educado. Acho que a minha irmã é muito sensata em tudo na vida e obviamente na educação das crianças também. E eu admiro-a imenso nas decisões que ela toma em relação aos miúdos e o que devem ou não fazer. E ela estimula imenso a criatividade e a imaginação deles, brincar com coisas que não existem.
Que giro!
E eles nem sabem o que é um iPad, acho que eles olham para aquilo e não percebem. Isso era o que eu gostaria de fazer um dia com os filhos que eu tivesse.
E o que tu aprendes com a tua irmã? Tu falas muito dessa admiração profunda e elevada pela tua irmã, que realmente é uma mulher admirável de todos os pontos de vista e tem essa sensatez que te fascina, mas que não fazes muito tua. Porque tu és uma pessoa que tem uma narrativa mais livre e mais imprevisível. Mas o que tu sentes que aprendes com a Luísa?
Exatamente esse lado mais ponderado e mais sensato. Coisas simples como: eu escrevi agora uma letra para uma cantora que me pediu e não estava completamente convencido e ela com dois detalhes que fizeram toda a diferença. Vai desde isso a conselhos simples na vida. Ela é uma conselheira exímia. Conselhos na vida conjugal ou conselhos em qualquer coisa.
Na vida prática.
Sim, na vida prática, que ela é uma pessoa muito prática e muito sensata e ao mesmo tempo emocional. Até nisso ela consegue equilibrar as coisas. O mundo emocional e o mundo consciente.
Salvador, vamos fazer aqui uma pausa. Já voltamos à conversa.
Até já.
Salvador, há bocadinho falávamos da Luísa mana e agora também gostava de falar da Luísa mãe, que é uma mulherassa também e que fez coisas absolutamente extraordinárias. Não sei se as pessoas todas sabem, mas as que sabem, sabem, e as que não sabem, ficam a saber, que foi ela a mãe daquele grande projeto social solidário que era o Arredonda.
Sim, exatamente.
E as pessoas iam ao supermercado e arredondavam o troco e isso rendeu muitos milhares, não sei se até não milhões de euros.
Foi ela que trouxe a ideia, mas depois essa cadeia de supermercados logo adotou a ideia como se fosse deles, mas foi ela que trouxe.
E isto reverteu para causas sociais e tudo, e isso é extraordinário. Além de ser uma mulher de causas.
Entre mil outras coisas. Foi ela que introduziu o product placement em Portugal. Foi ela a primeira pessoa a pôr, acho que foi um frigorífico da Singer, no "Médico de Família". Lembras-te do "Médico de Família"?
Sim, estou a lembrar-me.
Foi ela que pôs um frigorífico que tinha limões e que depois esgotou nas lojas, porque as pessoas adoraram aquele frigorífico. Foi ela a primeira pessoa a fazer product placement em Portugal. Ela é a boss do marketing.
Visionária.
Sim.
E é um abraço gigante. A tua mãe é a pessoa que mais e melhor abraça na tua família, é incrível.
É uma verdadeira mulher de armas.
Uma mulher de armas e de uma doçura enorme e de uma firmeza enorme. E o teu pai?
O meu pai é um louco controlado. É aquele hippie.
Sofá, santo e guitarra.
Praticamente, sim. É o maior músico que eu já conheci na minha vida, sem o ser. Nem profissionalmente, ele não sabe nada de música na sua teoria, o que é ótimo.
Não tem vícios.
Não tem vícios e tem uma relação completamente descomprometida com a música, não depende dela para viver, e então só ama verdadeiramente a música pelo que ela é.
O que é que isso se traduz no dia a dia?
Em ouvir música todo o dia, toda a noite, em gostar mesmo de: "Olha esta palavra que ele diz". Não é só a música, é as letras dos Beatles, que ele nos traduzia e explicava por que ele dizia isto. Foi tão importante essa influência de alguém que não tinha absolutamente nenhum tipo de rancor.
Amargura.
Amargura com a música, nada.
Sentimento.
Zero.
E aberto a todos os tipos de música ou especialmente a...?
Completamente. Eu já ouvi desde Bach até metal eu acho que ele nunca ouviu. Mas reggae e tudo.
Ainda pode ouvir.
Sim.
Ainda está a tempo.
Ainda está a tempo de ouvir metal. Mas de tudo, ele não tem qualquer tipo de preconceito com a música.
E tu tens?
Tenho aquele preconceito do Kellington, que diz que só há dois tipos de música: a boa e a má. Eu estou um bocadinho de acordo com isso no sentido de profundidade da música. E quem diz música, diz cinema, diz pintura.
Literatura, tudo.
Tudo, literatura. Eu acredito na profundidade da arte e com coisas com conteúdo.
Substância e mensagem.
Quando descobri o cinema que verdadeiramente dizia alguma coisa e nos deixava pensar, eu flipei, que era a mesma coisa que senti com a música.
Não é um cinema de entretenimento.
Não é um cinema que dá aquele estímulo contínuo sem parar e acaba de repente e ficou nada. Aquela coisa do "faço music" que eu dizia, serve para o faço arte no geral.
Sabes que a Sophia Mel Bryner, que estamos a atravessar o centenário da Sophia, um dia perguntaram, com aquele ar muito eloquente: "Como é que arruma os seus livros nas estantes?" E ela, com o seu ar de sempre, disse: "É muito fácil, os bons e os maus".
Claro.
Alguém ia tentar estudar como é que a Sophia arrumava os livros e os autores. E é extraordinário isso, os bons e os maus. Agora, a fronteira entre o bom e mau é individual e é íntima.
Exatamente.
Cada um sente que é melhor ou pior.
Mas eu acho que a profundidade é uma coisa universal. Acho que se percebe, se uma coisa é profunda e dada genuinamente e com verdade.
E é interessante porque a profundidade dá sempre a dimensão da altura, da elevação. Ou seja, uma pessoa quanto mais profundo é o mergulho, mais alto é o salto de consciência, de conhecimento, de paixão.
De abertura, sim, completamente.
Há bocadinho falaste de Bach e a minha pergunta é: qual é a tua relação com a música clássica?
É curiosa essa pergunta. Não foi nunca muito grande e agora justamente a Jena estuda piano clássico e então eu ouço todos os dias em casa Bach.
Que sorte!
Sim, e o meu pai também é um grande amante e comecei a ouvir mais e a concentrar mais e também a ouvir os pianistas contemporâneos, o Kissing, o Trifonov, fui ver à Gulbenkian. O Valter Hugo Mãe disse num livro, já não sei qual é que foi, eu faço uma obsessão com o Valter Hugo Mãe.
Acho que tu fazes tuas obsessões.
Na "Apocalipse dos Trabalhadores", em que ele diz: "Quem inventou a música foi Bach". Depois ele morreu, chegou ao céu e contou a Deus o que era a música. E tudo sobre a música. E Deus ouvia como uma criança super interessada, uma criança que está a aprender uma coisa nova. Estás a ver os olhinhos de Deus completamente apaixonado. E depois disso, Deus ensinou a todos os humanos o que era a música, baseado no que Bach lhe tinha dito. Isto é o Valter Hugo Mãe.
É bonito.
É bonito.
Só imaginar os olhinhos de criança de Deus já é uma imagem maravilhosa.
É verdade.
Eu sei que se calhar é chato estar-te a pedir sempre para tocares, mas há uma coisa que as pessoas adoram, e desculpa, se te peço. Há uma coisa que as pessoas adoram, até atropelo as palavras, que é quando tu fazes o air trumpet, quando tu tocas trompete sem trompete. Achas que podes fazer isso?
Claro, se tu pedes. Vamos lá ver.
Bravo. Eu já te vi competir com trompetes reais e a conversa e a dança era maravilhosa.
Ainda ontem no Titanic estava a cantar e estava um trompetista também.
Que maravilha. E os duetos são fabulosos. Os duetos que tu fazes, seja um dueto, não sei se podemos chamar um dueto com o Júlio Resende.
Sim, também.
Mas estes duetos que tu fazes, eu conheci-te a fazer duetos com o Henrique Janeiro e vocês pareciam que tinham nascido da barriga da mesma mãe.
Sempre tive um preconceito um bocadinho com os duetos, por causa daqueles programas de talentos, em que eles cantam os dois e estão a olhar um para o outro. "I love you". E eu achava sempre aquilo fuleiro e pensei: "Não, duetos, não". Mas claro, com a minha irmã sempre fiz naturalmente. Depois foi com o Henrique que eu percebi: "Pode-se fazer duetos sem ser fuleiro".
Não, com o Henrique Janeiro, vocês têm uma combinação de vozes.
Agora temos que dizer Janeiro.
Com o Janeiro, pois é. O Janeiro que me perdoa.
Exato.
Já estamos em junho, ainda estou antes do janeiro. Não, com o Janeiro, de facto, vocês parecem, digo e repito, parece que nasceram na mesma barriga e a combinação é mais que perfeita, é incrível. Quando é que descobriram isso?
Quando é que descobrimos isso? Foi quando nos conhecemos. Ele não cantava quando nos conhecemos.
Só tocava.
Só tocava. E depois eu incentivava e ele também tinha essa vontade. E então começamos a fazer pequenos duetos, mas o primeiro dueto que fizemos foi a canção do Jorge Drexler, "La Samba de Olvidado".
Espetacular.
Que fizemos os dois. E é curioso, porque num dueto uma pessoa tem que se libertar completamente do ego. Diz: "Estamos aqui os dois". E isso às vezes nos cantores é difícil, porque eles querem sempre o protagonismo.
Se sobrepor.
Claro, sobrepor-se. E ali estamos os dois para o mesmo e temos os dois completamente iguais. E então os volumes das vozes têm que estar sempre equilibrados. Se eu sinto que ele vai um pouquinho mais intenso, então eu vou com ele e vice-versa. E é um jogo muito interessante de libertação do ego.
Que maravilha. E vocês eram muito amigos ou começaram por ser muito amigos?
Sim, logo quando nos conhecemos, eu disse a ele que ele ia ser um dos meus melhores amigos, e confirmou-se. Eu vejo logo nas pessoas quem é que vai ser minha amiga.
És uma pessoa impressionista. É à primeira impressão.
Sim. No amor também. No amor também é logo à primeira.
É? Que giro. E não te enganas?
Até agora não, mas vamos lá ver.
O que te apaixonou na Jenna? Além de ela ser uma brasa. Tecnicamente, cataloga.
Não quero ser esotérico, mas eu acho que foi a luz dela. O próprio cabelo dela é um reflexo da luz que ela tem interior. Imagina, eu entrei na Tasca do Chico, um sítio soturno, fado. Mas de repente está ali um cabelo ruivo enorme a brilhar e ela própria a brilhar. Eu pensei: "Vou falar com ela, senão não vou dormir esta noite e eu tenho que descansar". E pronto, fui lá.
Isso é muito pragmático.
É verdade.
E ela já te conhecia? Já conhecia a tua voz?
Não, zero. Isto foi em 2016, muito antes da Eurovisão.
Voltando aos duetos.
Foi a primeira miúda que gostou de mim sem eu ter que cantar. Desde que eu tenho 20 anos, todas as miúdas que eu engatava era pela minha voz.
Cativavas, conquistavas.
Sim, engatar é vulgar.
Não, é que tu tens imensa elegância de maneiras, de modos, a maneira sensível como tu és, sensível à sensibilidade dos outros. Só por isso é que eu corrijo.
Claro. Mas eu gosto de vez em quando destes termos. Mas sim, foi a primeira vez, em Maiorca, em Barcelona. Eu via uma miúda que achava interessante e pensava: "Ok, tenho que ir cantar". Então pedia aos músicos que estavam a tocar, dizia: "Deixa-me cantar pra eu ver se coisa". Era assim sempre. E ela não foi, foi a primeira vez, eu não cantei na Tasca do Chico, que eu não sei cantar fado. E ela interessou-se, sabe-se lá por quê.
E ela também não sabia de todo quem tu eras.
Zero. E eu também não sabia quem ela era.
Que maravilha. Então voltando aqui aos duetos, tu disseste essa combinação mais que perfeita, o despojar-se do ego, se calhar foi isso também que aconteceu no festival com a tua irmã. Sem querer voltar muito ao Festival da Eurovisão, mas é que tem que se voltar, porque a música é tão bonita. Aquilo é tão apaixonante, ainda por cima vocês irmãos com uma afinação maravilhosa de voz e com essa calibragem, é impossível não falar e é impossível também que aquilo não tenha marcado um antes e um depois. Esta grande decisão.
E ficaremos para sempre ligados àquilo. E ainda bem, porque imagina que eu tinha feito alguma coisa que me comprometesse. Eu fui lá fazer uma canção que ainda hoje adoro e faço nos concertos, e nós estávamos lá com aquele sentido de missão, nada modesta. É uma missão que a gente sentia, que tínhamos que levar música com um bocadinho de conteúdo àquele sítio onde não havia música de conteúdo. E então esse sentimento de missão também era bom. Estávamos ali por algo juntos, os dois, os irmãos.
E um conteúdo que toca o coração das pessoas, não é?
Exato.
E tu ainda cantas essa música?
Sempre, nos concertos, sempre.
Com a tua irmã ou sem a tua irmã, ou só podes cantar com ela?
Não, sempre sem ela. Ela tem os concertos dela, eu tenho os meus. Quando é os concertos em meu nome, eu canto sempre a canção. Agora, se for com outros grupos, o Mutramé, que é o grupo de música tradicional madeirense, obviamente não vou cantar esse. E o de Alma Nuestra, que nós temos muitos concertos também com Alma Nuestra, o grupo dos boleros. Não sei se tu já foste ver um concerto de Alma Nuestra.
Não, mas vamos. Eu e todos os que nos estão a ouvir.
Exato. Alma Nuestra é um grupo que tenho, que fazemos só música da América Latina, com arranjos mais jazzísticos. E ao princípio do concerto, às vezes digo às pessoas: "Este concerto é de Alma Nuestra, que é um grupo de boleros. O 'Amar pelos Dois' não foi escrito em Cuba e não foi nos anos 40, portanto, essa não consta no repertório". Mas de resto, a gente faz sempre nos concertos em meu nome, fazemos sempre.
Que giro. E quando se liga pra tua mãe, e se ela não atende, a música que está-
É verdade. Não, a espera, quando é aquela música cipíque.
Quando está em espera, é a música que ela tem. É maravilhoso
Eu tenho sempre vergonha quando estou a ligar a ela à frente de outras pessoas, que elas oiçam. "Mas ele está a ouvir a própria música, o 'Amar pelos Dois'".
Salvador, o tempo vai escoando. Tu estás antes de turnês internacionais. Já foram os Coliseus, que foi maravilhoso. Tens legiões de fãs e uma multiplicação de likes nas redes sociais. És uma pessoa muito amada, és muito amada. Não são só as irmãzinhas em Santiago de Compostela que dizem que rezam por ti, ou aquela pessoa que te interpela na rua, ou aquela miúda que se sente estranha e que tatua a frase que tu lhe dás. De facto, tu tens uma capacidade de chegar às pessoas, ainda que às vezes também digas coisas que as pessoas ficam sem saber o que hão de pensar. Mas cada vez menos.
Tu achas que essa ligação das pessoas, às vezes penso que não é só pela música. Acho que tudo isto que me aconteceu na vida, acho que também fez as pessoas... isto que aconteceu, um transplante de coração, não há nada mais romântico do que isso. Se fosse o fígado, era zero poético. Não era nada poético, um transplante de fígado ou de rim.
Não, sobretudo um transplante de coração romântico, porque o diagnóstico era que o teu coração era demasiado grande.
Claro, tudo isso eu acho que cria uma espécie de uma mitificação.
Não necessariamente, porque eu acho que as pessoas realmente amam ouvir a tua voz e gostam desse teu lado boys, desse teu lado criança, desse teu lado que não se consegue apanhar, as pessoas não te conseguem definir, não te conseguem catalogar. E isso é fabuloso. E isso é muito "attirante".
Exato.
É muito sedutor. Este sentires-te muito amado, e voltamos ao princípio, e voltamos ao teu coração, e tudo isto passa pelo coração, sentires-te muito amado também te dá alguma responsabilidade, algum imperativo ético, humano, que no fundo é: eu recebo tanto. Tu tens algum imperativo? Para dar muito para além da tua música?
Para além da minha música, talvez eu sinta uma missão também com essa situação do coração. Às vezes sinto uma missão de fazer campanha com tudo que me aconteceu. E sou padrinho de uma campanha que fizemos da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Há essa missão, mas que não estou ainda muito preparado também para assumi-la e fazer cara, porque foi uma coisa muito intensa e se calhar tenho que esperar.
Estás no teu período de luto do teu coração velho.
E de resto, sinto que tenho sempre que ser sincero comigo mesmo e com a música que quero fazer, porque há esse lado de ter que agradar as pessoas, porque elas gostam de mim, mas nunca posso deixar que isso comprometa a música que faço. E até agora não tem acontecido e temos visto as pessoas a reagirem bem a intros de contrabaixo de oito minutos. As pessoas têm reagido bem e gostam da música que é dada com verdade. Quando eu a dou com verdade, é o que eu tenho visto, que as pessoas gostam e sentem essa verdade.
As pessoas gostam dessa verdade. E tu, o que é que gostas mais nas pessoas?
Que elas estejam abertas a tudo o que pode acontecer, não só no palco, mas na vida, que tenhamos uma mente aberta e que tenhamos bom senso.
Sem julgamento, sem essa inclinação julgamentosa que nós temos.
Exatamente. Uma abertura.
Eu ouvi, não sei se foi na BBC, que um grande sonho que tu tens era criar uma rádio. É verdade? Queres concorrer com esta rádio.
Exatamente.
Ainda agora aqui chegaste, ainda agora estamos a inaugurar esta rádio e o teu sonho já é concorrer.
Claro, eu vou fazer uma rádio de esquerda para concorrer.
Isto não é uma rádio de direita. Esquerda e direita é uma coisa hoje em dia também já muito old fashioned, já é muito old school.
Ainda bem.
A abertura de coração e de cabeça não deixam pôr rótulos, não achas?
Espero que sim.
Mas tens esse sonho de criar uma rádio?
É o meu grande sonho. Estou a juntar dinheiro para um dia poder abrir.
Já estás rico ou não?
Não, ainda não. Especialmente vou perder muito dinheiro com este projeto de abrir a primeira rádio de jazz em Portugal. Não sei se vou conseguir, mas ainda faltam uns anos, mas gostava muito de ter uma rádio só dedicada a jazz.
Podes começar por fazer um programa de jazz.
Claro, isso é que eu gostava muito.
Aí se calhar já não tinha que ser na concorrência, se calhar já podias começar.
Exato.
Mas eu não mando nada aqui.
Fazer um primeiro passo com programa, acho que isso é uma boa ideia.
Os propósitos, a regra dos quatro Ps: poucos, pequenos, progressivos e possíveis. Estás a ver?
Uau, não conhecia essa regra.
Pês uma mesa com quatro pernas é uma coisa sustentável. E portanto é isso, é a regra dos quatro Ps: poucos, pequenos, progressivos e possíveis. Não, possíveis e progressivos.
Fixe, agora não conhecia.
Se tu pudesses ressuscitar algum destes teus ídolos do jazz, quem é que tu ressuscitaria e porias aqui ao teu lado, agora, neste momento?
À partida diria logo o Chet Baker, mas tenho medo que ele se agarre logo à droga, pois é uma chatice. Eu ressuscitei e ele vai voltar à droga. Eu digo: "Então, eu ressuscitei-te e tu voltaste à droga?"
Isso é uma coisa que a ti te dói também.
Não me apetecia que ele voltasse, depois tinha que andar atrás dele, que é complicado esse vício. Mas se calhar ele, já que ressuscitou, ia estar agradecido e não ia voltar à droga e podia-nos regalar com música.
E sobretudo, ressuscitado por uma pessoa que passou o que tu passaste, se calhar não ia voltar à droga.
Quem sabe.
E mais quem? Quem é que tu trarias de volta?
Quem é que eu traria de volta? Talvez o Miles, para continuar a criar, do jazz. A Ella Regina, podíamos trazê-la também. Quem é que podíamos mais trazer?
E vivos? Quem é que tu trarias e porias no teu dia a dia, no teu quotidiano? O Caetano?
Sim, eu já conheci praticamente todos os que eu gostava de conhecer. Gostava de conhecer o Chico, que me falta ainda. Agora vou conhecer um grande ídolo meu, que é o Tim Bernardes, vou ter o prazer de o conhecer. O Jorge Drexler, gostava de tê-lo aqui ao meu lado, Silvia Pérez Cruz, cada um numa cadeira.
Que maravilha!
Sim.
Temos que acabar.
Que pena.
Acabamos a pensar.
Temos de trazer a Amália também. O que é que achas?
Amália era maravilhoso também. Não era? Uma força incrível. Obrigada, Salvador. Obrigada, sobretudo, por vires de coração aberto e com essa verdade incrível e com essa atitude maravilhosa, que casa com essa tua pele luminosa. Nunca te vi tão bem, tão luminoso como agora. Obrigada. E muitos parabéns por este casamento feliz.
Obrigada a mim por me trazeres aqui.
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