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Bem-vindos à quinta e última conversa sobre o mundo do trabalho, com o apoio da Intelcia. Nas últimas semanas abordamos temas como os contact center ou a inteligência artificial e a forma como esta tecnologia está a mudar as nossas vidas. Hoje medimos o impacto da formação e da requalificação. São convidados para esta conversa Luís Alves Monteiro, presidente do Conselho Consultivo da Associação de Atletas Olímpicos de Portugal. Viva, Luís Alves Monteiro.
Olá, boa tarde.
E também Miguel Azevedo, diretor de operações da Intelcia. Olá, Miguel.
Olá, Pedro. Tudo bem?
Luís, talvez começasse por si. As pessoas estarão a questionar-se: por que convidaram o responsável da Associação de Atletas Olímpicos? A resposta parece fácil, porque são pessoas que se dedicaram ou que dedicaram muito tempo à carreira desportiva e a determinada altura tiveram de mudar para outra carreira. Portanto, que desafios, Luís, é que enfrenta um atleta olímpico quando decide pendurar de vez o fato de treino e vestir o fato de profissional de uma outra área, seja ela qual for.
Para já, obrigado à Intelcia. E de facto eu ia começar exatamente como começou. Parece um bocado improvável eu estar aqui e a pergunta pode ser essa: o que é que está aqui a fazer uma pessoa ligada aos atletas olímpicos? Mas há um problema a resolver, como em tudo no mundo, quando fazemos projetos, temos que identificar o problema. E o problema é mesmo esse. Estes atletas dedicam uma vida inteira exclusiva ao mundo da competição. E curiosamente, ainda bem do ponto de vista desportivo, as carreiras deles terminam cada vez mais tarde, até pelos avanços científicos, avanços tecnológicos, etc. E depois têm um problema muito grave que é de enquadramento no mercado de trabalho, porque não basta ter as qualificações, e devo fazer aqui uma ressalva, os atletas hoje em dia têm literacia muito superior àquilo que tinham anteriormente, mas depois têm uma falta de enquadramento no mercado de trabalho, porque precisam daquelas soft skills pra perceber quais são as dinâmicas. Eles estão habituados uma vida inteira a receberem instruções, a treinarem e estarem nessa bolha. Mas o mundo do trabalho é um mundo completamente diferente, em que há as qualificações, há os departamentos, há uma orgânica completamente diferente. E eu digo, no final, existem as pessoas com as suas dinâmicas, com a sua forma de relacionamento. E essa é uma situação que nós, enquanto Associação dos Atletas Olímpicos, tentamos minimizar. Por um lado, diminuir o estigma do atleta olímpico ou do atleta de alto rendimento, ou do desportista, porque há um estigma da sociedade que pensa que fez tanto desporto que não tem capacidade suficiente pra não lhe chamar outra coisa. E, por outro lado, dar-lhes a hipótese de enquadrarem o mercado de trabalho. E isso é o que temos feito, nomeadamente com a Intelcia.
Muito bem. Miguel Azevedo, a Intelcia e a Associação de Atletas Olímpicos assinaram no ano passado um protocolo de cooperação. O que é que visa esse protocolo?
Mais uma vez, como o Luís disse, e bem, parece um protocolo improvável. Uma empresa de serviços assinar um protocolo com uma associação de atletas olímpicos. Mas a verdade, isto não deixa de ser, ainda que enquadrado na política de responsabilidade social da Intelcia, não deixa de ser também, por um lado, um reconhecimento aos atletas olímpicos que durante muito tempo elevaram o nome do país no exterior, mas conseguir dotá-los, num período em que vivemos escassez de recursos humanos, conseguir dotá-los de competências, dotá-los de formação, para que mais à frente possam visar uma entrada mais fácil, mais ténue no mercado de trabalho. Obviamente, sempre alinhado com a estratégia que a Intelcia tem e obviamente tentando construir um futuro passo a passo com os ex-atletas olímpicos.
E esse protocolo, o que é que visa?
Este protocolo visa dotá-los de formação, prepará-los pro mercado de trabalho. Nós sabemos que são pessoas que viveram muito focadas no desporto. Permita-me aqui a comparação. O saudoso Gabriel Alves falava muito da técnica da força e da força da técnica. Estes atletas não há dúvida nenhuma que em termos de hard skills, eles têm tudo lá. E voltando aqui um bocadinho às soft skills que o Luís falava, é algo que nós devemos trabalhar e que nós devemos dotá-los para o mercado de trabalho. O mercado de trabalho hoje em dia é um mercado escasso, é um mercado escasso em termos de recursos. Se nós, por um lado, conseguimos ajudar os atletas olímpicos a entrar no mercado de trabalho e, por outro lado, enquadrá-los e formá-los dentro das academias de talentos que a Intelcia tem, que já participaram em vários programas de formação. E essas academias permitem-nos também, a nós Intelcia, fazer uma retenção de talentos das nossas equipas e obviamente que de mãos dadas com a associação, penso que é um caminho frutuoso.
Como é que a Intelcia, Miguel, trabalha o tema da formação e da requalificação? Falou da academia de talentos. O que é que faz esta academia?
Hoje em dia, e isto é uma mensagem que nós passamos muito às nossas equipas, nós hoje temos que nos manter relevantes no mercado de trabalho. E o mercado de trabalho nós não devemos, o velho conceito de um emprego pra toda vida hoje em dia já não existe. Nós devemos entrar no mercado de trabalho e temos que ter o mindset, nos mantemos relevantes na atividade que fazemos, porque o que era relevante no dia de ontem pode não ser relevante no dia de amanhã. E sabemos que o mercado de trabalho está em constante transformação. Esta academia que a Intelcia tem, permite olhar pra o potencial de recursos humanos dentro da empresa e dotá-los, fazê-los crescer. Ou seja, seja em programas de mentoria, onde eles podem aportar valor a outras áreas sem ser propriamente a área onde estão a trabalhar hoje em dia, mas permite crescer em termos de competências, porque muitas vezes nós estamos um bocadinho fechados no nosso quadrado e por falta de oportunidades na empresa, não conseguimos visualizar que há ali um potencial. E essa academia visa trabalhar todos os talentos que nós temos dentro de portas, reter talentos, que hoje em dia
Dentro desta escassez de recursos e talento, o mais importante hoje em dia será mesmo propriamente as estratégias de retenção de talentos. Portanto, esta academia visa promover esta evolução de todos os nossos recursos.
Luís Alves Monteiro, como é que a Associação de Atletas Olímpicos apoia e prepara os seus membros para novos papéis profissionais?
Por acaso estávamos em off a falar sobre a associação e nós temos três pilares estratégicos para os atletas, pelos atletas, para a sociedade. Explicando muito rapidamente, porque queremos ajudar os atletas tentarem definir quem são e fazer a segmentação correta desta massa de associados que temos, cada um com o seu valor acrescentado. Uns falam bem, outros têm cursos específicos, etc. Portanto, fazer essa segmentação. Depois dar-lhes formação e depois prepará-los para ser, nós dizemos que são role models, e têm que efetivamente investir o seu tempo também na sociedade. E esta parceria com a Intelcia tem isso tudo. Nós, como o Miguel diz, e bem, tentámos fazer aqui uma parceria win-win, portanto não fomos de mão estendida pedir só contribuição. Também contribuímos, porque a Intelcia tem responsabilidade social e tem métricas para atingir na responsabilidade social. E isto, obviamente, do ponto de vista inspiracional e até do report que apresentam de sustentabilidade, cabe dentro desta equação. E por outro lado, em relação aos atletas, nós sabemos que eles têm características muito específicas, características que podem ser aproveitadas pelas empresas, nomeadamente na área comercial. São indivíduos muito focados, abnegados, obsessivos e isso tudo bem aproveitado.
Focados no resultado.
Focados no resultado. Portanto, isso tudo bem aproveitado, pode dar um resultado espetacular e podem ser, de facto, um valor acrescentado nos recursos humanos.
O facto de a carreira desportiva ter um fim, isso é uma coisa presente na cabeça de todos os atletas. Isso tolda o seu pensamento, Luís?
Sim, nitidamente. Quando chegamos ao fim da carreira, eu também sou atleta olímpico, quando chegamos ao fim da carreira, começamos a perder, porque há aqui uma envolvente também, que eu chamava de bolha, não é só do treino, é também as luzes, os holofotes, a ribalta e tudo isso se perde com o fim da carreira. Portanto, essa adaptação, há aqui momento de saúde mental que também precisa de ser tratado, e nós tanto tentamos minimizar esse impacto no final da carreira, como dar-lhes e proporcionar-lhes ferramentas, juntamente com as empresas, neste caso, com a Intelcia. Eu vou lhe dar um exemplo muito concreto e que acho que é muito bom nesta altura. O presidente atual da Federação Portuguesa de Atletismo, fez um curso de formação na Intelcia, o Domingos Castro. E podemos perguntar: "Ah, foi o resultado direto?" Não, mas contribuiu. Contribuiu, de facto, dele estar numa formação, estar dentro da empresa, perceber as dinâmicas.
Passa de atleta a executivo do desporto.
Passa atleta a executivo do desporto. Exatamente. Tem uma federação com um budget grande e tem que saber geri-la, e esse é um bom resultado e a Intelcia faz parte desse resultado.
Que estratégias é que devem os atletas adotar durante a sua carreira desportiva para fazerem depois uma transição pacífica e também sólida para outra atividade profissional?
O maior conselho, que é o mais difícil de dizer é fácil, o mais difícil de praticar, é durante a carreira desportiva preparar o pós-carreira.
Coitados.
É difícil.
Já têm de gerir uma carreira desportiva que é muito exigente.
É verdade, mas é fundamental perceber. Aliás, vou lhe dar um dado. Atletas profissionais que ganham do beisebol americano, do basquetebol, etc, 97% ou 98%, cinco anos depois do fim da carreira, vão à falência. E são multimilionários. Não se prepararam, não têm até do ponto de vista financeiro, cultura financeira, etc, para poder enfrentar, porque aquele período não dura sempre. E esse é um dos constrangimentos. Portanto, nós, de facto, como me pedi, em relação à sua pergunta, tentamos preparar o melhor possível os atletas durante a carreira para o pós-carreira.
Miguel, a minha próxima pergunta ia no mesmo sentido, mas aqui dirigida aos trabalhadores em geral. O que eles devem fazer para terem uma transição suave para outra carreira ou para se prepararem para mudar de carreira?
Essa é uma pergunta que não tem uma resposta correta. Como o Luís diz-
Correta tem. Certa não tem.
Não é como fazer um bolo que nós temos os ingredientes certos e o resultado é sempre bom. Aqui, obviamente, como o Luís diz, e bem, a preparação é, de facto, um fator preponderante, mas obviamente nós devemos ser capazes de perceber quais são as nossas limitações para esta mudança de carreira. Não é um processo, obviamente, fácil. Todos nós, sempre que falamos de conceito de mudança, seja ele no contexto profissional, ou seja, no contexto pessoal, é sempre algo que nos traz aqui alguns dissabores e não há nada melhor do que a preparação. E a preparação faz-se no contexto de trabalho, faz-se com alguma preparação, faz-se com muita formação. E obviamente, dizer que esta formação que o Domingos Castro fez e que o Luís referiu, e bem, é exatamente uma formação igual à que nós damos aos nossos trabalhadores, portanto, uma formação que permite às pessoas crescerem e estarem preparadas para o dia de amanhã. Porque eu volto a dizer que o dia de amanhã É muito diferente do dia de hoje. Nós temos que estar preparados para essas constantes mudanças e, obviamente, é só com muita formação, tendo sempre os limites das nossas capacidades, porque eu gostava muito de ser um Cristiano Ronaldo, mas nesta idade, se calhar, já vai um bocadinho tarde. E há um conjunto de limitações. Temos que ser capazes de perceber as nossas limitações.
Limitações. Luís, já há pouco falou um pouquinho das características e das competências dos atletas, não só olímpicos, mas atletas em geral de alta competição ou de alto rendimento. O que é que levam estes atletas para o mundo do trabalho? Que competências é que eles adquiriram ao longo da sua carreira desportiva que os possam eventualmente tornar apetecíveis pelo mercado?
Certo. Eu costumo ensinar, porque eu tive uma carreira profissional também nestas empresas multinacionais, e costumo ensinar que as coisas mais simples são aquelas que a maior parte das pessoas não fazem. Portanto, 5% das pessoas é que fazem: "Olhe, eu telefono e amanhã telefona". Faz o to-do list. Esse é um pequeno grupo que depois faz a diferença. E os atletas olímpicos têm isso. Têm método, têm disciplina.
Rigor.
Rigor. Obedecem, não no sentido de serem obedientes, mas ouvem.
Na cabeça deles, um segundo é uma eternidade.
Exatamente. Planificam. Portanto, têm aquilo tudo que nós, às vezes, temos muita dificuldade em passar para os trabalhadores. E fazem as coisas simples bem feitas, são pragmáticos. Portanto, tudo isto é fundamental para um ambiente de trabalho. E eles trazem isso. E são abnegados, quase obsessivos.
Muito bem. Miguel, o fato dos atletas olímpicos serem pessoas viajadas, em contato regular com pessoas muito diversas, isso é valorizado ou não?
Claro que sim. A juntar a todos estes ingredientes que o Luís tem vindo a salientar, do foco, da resiliência, da abnegação, obviamente que a experiência não deixa de ser um passaporte de entrada onde quer que nós estejamos. E a experiência e o aporte que estes atletas ou ex-atletas olímpicos trazem para as empresas não deixa de ser um exemplo que nós próprios damos ao resto da população por todo o foco que eles viveram. Porque obviamente eu, nunca tendo sido um atleta olímpico, nem com aspirações a isso, eu reconheço que o foco que estas equipas têm e o mindset colaborativo e de resiliência é obviamente algo a salientar. E essa experiência multicultural hoje em dia é mais do que valorizada, porque hoje em dia é impossível nós mensurarmos a experiência, mas tudo que é experiência e que nos permite ter uma visão diferente ou aportar coisas diferentes às empresas, é obviamente algo a salientar.
Uma pergunta para os dois: os atletas têm déficit de competências digitais? E se sim, o que é que pode ser feito para eles apanharem o comboio das tecnologias?
Não, hoje em dia, como eu lhe disse há bocado, a literacia é muito superior, portanto, e a literacia também informática também é superior, porque até do ponto de vista do planeamento dos treinos, da interação com treinadores, há bocado falávamos de pessoas que treinam fora, no estrangeiro. Hoje temos indivíduos a treinar em Portugal e com treinadores no estrangeiro. E se não houver tecnologias, não há comunicação. Portanto, eu penso que esse é o fator menos relevante, mais a questão das soft skills, de perceberem o ambiente de trabalho. Deixe-me só dar-lhe um ingrediente, também falei do Domingos Castro, mas há também aqui uma questão inspiracional para as empresas. O Francis Obikwelu visitou a Intelcia e contou a sua história de vida e as pessoas saíram de lá impressionadas, em lágrimas, a chorar e impressionadas e não esqueceram aquele momento. Portanto, há uma questão inspiracional que também é muito importante.
Muito bem. Miguel?
Corroboro o que o Luís diz. Não diria que há uma literacia tecnológica, diria que mais do ponto de vista das soft skills. E lembrava-me de umas declarações esta semana do Rúben Amorim, quando falava que havia um conjunto de jogadores que ele tinha deixado fora porque havia falta de compromisso com a equipa. Ou seja, a chamada técnica da força e a festa da técnica com certeza está lá, mas depois todas estas competências, estas soft skills, que são precisas trabalhar. E é curioso este exemplo que o Luís dá do Francis, porque ele participou num summer camp que nós fazemos com filhos de nossos funcionários e, de facto, as pessoas choraram ao ouvir a história inspiradora do Francis.
Saiu de lá com vontade de praticar atletismo.
É parte, é parte.
É uma boa questão. Mas fiquei solidário com a história do Francis, tenho certeza que toda gente ficou.
Claro que sim. Muito bem. Luís, a Associação de Atletas Olímpicos desenvolve iniciativas neste sentido, dotar os atletas olímpicos de competências digitais também?
Também. Já tivemos ações de formação nesse sentido. Aliás, nós desenvolvemos dois cursos de formação de empreendedorismo e gestão de negócio com uma universidade, em que tem precisamente as competências digitais e das redes sociais, que também são fundamentais. Eles hoje para comunicarem utilizam muito as redes sociais, o LinkedIn, a forma como se utiliza o LinkedIn, etc. E também tivemos estes conceitos na formação da Intelcia, como o Miguel disse, e bem, no fundo, o curso não foi diferente. Foi o curso que promovem internamente e que os atletas frequentaram e com muitos resultados.
E desenvolve também iniciativas no sentido de integrar os atletas olímpicos no mercado de trabalho, em geral?
Sim, em geral. Nós trabalhamos com algumas empresas que têm essa sensibilidade. Também temos o foco em trabalhar com empresas que têm as questões de sustentabilidade bem apreendidas e fazem parte até do seu ADN. E sim, fazemos muito isso.
Muito bem. Luís e Miguel, muito obrigado aos dois por terem vindo a este último episódio da série de cinco conversas sobre o mundo do trabalho, com o apoio da Intelcia. Muito obrigado por nos ter acompanhados. Esperamos que tenham sido conversas enriquecedoras. Eu sou o João Miguel Santos, foi um gosto estar deste lado. Até à próxima.
Muito obrigado.
Muito obrigado.