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Olá, sejam bem-vindos a mais um "Isto é Ser Mãe", um programa dedicado às maiores preocupações do dia a dia dos pais. Já sabem que aqui falamos de tudo sem filtros. Eu sou a Fabíola Carletis, consultora de moda e beleza da MAG e mãe da Francisca, de dois anos e meio.

E eu sou a Catarina Bolstero, jornalista da MAG e tenho uma filha com dois anos, a Carmen. Hoje temos conosco no "Isto é Ser Mãe" Constança Cordeiro Ferreira. Olá, Constança.

Olá.

Terapeuta de bebês, fundadora do Centro de Bebé, que já existe em Lisboa, em Viseu e em Cascais, e autora dos livros "Os Bebés Também Querem Dormir" e "O Livro da Magia das Mães". Para além disso, és mãe de três filhos, não é?

Sim.

Uma rapariga com 13 anos, um rapaz com 10 e uma bebê quase a fazer dois. Obrigada por teres aceito o nosso convite, Constança, e estás aqui conosco hoje.

Para falar de um tema que é um bocadinho mais sensível e polêmico no que diz respeito à maternidade: o sono. Por que achas que isto acontece? Por que isto é tão polêmico?

Boa pergunta. Eu às vezes também faço essa reflexão. O sono é uma necessidade vital. O sono é tão importante como comer, como beber água, como a função excretora. Dormir faz parte do conjunto de necessidades básicas. Por que é tão polêmico? Não devia ser, quando é algo que todos devíamos fazer o mais organicamente possível ou o mais naturalmente e facilmente possível. Porque como quase em tudo o que toca à parentalidade, está cheio de ideologia. Tem muitas questões acopladas, que têm a ver com o que se considera serem os preceitos de ser bom pai ou boa mãe. Tem uma série de conceitos muito baseados numa matriz comportamental, que inclusivamente se sabe, até do ponto de vista das neurociências, que está muito ultrapassado, mas que continua a ser o vigente. Está cheio de regras. Normalmente, se pensamos numa vertente fisiológica, nós pensamos: deve ser o mais natural possível, o mais fácil possível. Depois nós nos encarregamos. Nós não, porque essa culpa eu não assumo. Pelo contrário, tende a ser contra corrente. Mas enchemo-la de coisas muito difíceis de cumprir e de valores morais associados à maneira como se fazem as coisas e portanto tornou-se aqui um assunto muito sensível, principalmente porque é debatido normalmente por pessoas que não estão a ter suficiente.

É o primeiro passo para as coisas não correrem bem.

É o primeiro passo para as coisas não correrem bem. E portanto, realmente, eu considero que estamos aqui numa grande embrulhada no que toca ao sono.

Olha, Constança, desculpe interromper-te. Só para quem não conhece o teu trabalho, para quem não conhece os teus livros, principalmente "Os Bebés Também Querem Dormir", que apesar de ter sido lançado em 2015, continua a ser um livro a que muitos pais recorrem. Podes me dizer o que defendes em relação ao sono dos bebês, as linhas principais?

Oi. A primeira coisa que eu defendo é que pais e bebês durmam, ok? Essa é a primeira coisa que eu defendo, que durmam bem, que a transição para o sono seja cheia de... Vamos lá ver uma coisa, em termos fisiológicos, para se adormecer é necessário um pressuposto, e esse pressuposto é níveis de cortisol diminuídos. Cortisol é uma hormona associada ao estresse, mas também associado à atividade, à concentração, ao estímulo. Ora, para se adormecer, nós temos que ter esta hormona com uma redução.

Mais baixa.

Mais baixa. Quando temos níveis de cortisol aumentados, até o momento em que se adormece, o que vai acontecer? Vamos adormecer por exaustão. Portanto, a minha primeira defesa, em termos do sono, é que se adormeça da forma mais agradável, mais pacífica. Eu acho que os pais devem adorar dormir. Eu adoro dormir, estou sempre a tentar convencer meu marido a fazer uma sesta.

Eu também sou desse time.

Anda fazer uma sesta, é tão bom dormir. E portanto, se formos falar em termos muito latos, é isto. Ora, só a posicionar-me assim, já me estou a posicionar contra tudo o que vai fazer do sono um momento pesadelo. E isso quase sempre é dizer aqueles manuais intrincadíssimos e aquelas regras todas, porque para mim as únicas regras que devem existir no que toca ao sono, principalmente quando falamos de sono do lactente e consideramos o lactente o bebê até aos 12 meses, é a segurança. Há regras rígidas de segurança que têm que ser cumpridas, nomeadamente para a prevenção da síndrome da morte súbita do lactente. Posto isso, o sono e a transição para o sono devem ser o mais agradável possível, precisamente para nós podermos convocar aquele coquetel hormonal que, número um, nos vai dar sempre o registro de que é bom adormecer, que não há que ter medo de adormecer. Para um bebê, às vezes, é muito difícil adormecer, ou porque tem medo, ou porque a sua função é estar um bocadito mais alerta. Os pequeninos é protetor a algum nível de alerta. Ou porque passaram por coisas muito difíceis e a transição para o sono é difícil também por causa disso. Ou porque já são mais crescidos e o mundo é muito mais interessante.

Tanta coisa para fazer.

E se eles dormissem tanto quanto nós queremos, eu acho que eles ficariam sempre um bocadito mais totós do que aquilo que eventualmente seria do interesse deles. Porque chegamos a um momento de equilíbrio em que efetivamente é mais importante para o bebê estar muito ligado no mundo e ter aprendizagens e fazer processos neuronais de conhecimento e de exploração do que andar a ser adormecido a cada duas horas. E portanto, tem que haver aqui um compromisso, ou seja, tem que haver uma carga estimulatória, aprendizagens, exploratória e interessante para que o bebê diga: "Muito bem, missão cumprida, então agora vamos adormecer".

O que queres dizer com "Os Bebés Também Querem Dormir"?

Sabes que isso foi um título. Eu vou contar essa história em 30 segundos, porque o título do primeiro livro não era esse. Quem já leu o primeiro e o segundo livro sabe que eu falo do sono, mas eu pra falar do sono, eu tenho que integrar isto no que é o complexo universo de um bebê e de uma família. Aliás, o meu trabalho é esse. Uma das coisas que eu acho que serve pra agravar muito a frustração dos pais é as recomendações que eles recebem, como se o ato de dormir fosse um conjunto, um cockpit de botões que a gente toca e o bebê é pimba.

Se às vezes dava tanto jeito, não é?

Pois, acham.

Eu não posso queixar, que a minha filha sempre só ali, as primeiras três semanas é que foram más.

Quer dizer, todas nós temos aqui crianças naquela faixa dos dois anos e nós sabemos que é assim, eles são os vulcõezinhos. É do interesse deles serem assim. Às vezes não é tanto do nosso, mas o deles é certamente. Mas bom, por que isto surge? Porque eu escrevo o livro, e eu demorei muito tempo a escrever este livro. Por quê? Porque eu fui convidada muitas vezes pra escrever o primeiro livro e aquilo que me era proposto, pelas editoras que me contactavam, era uma espécie, novamente, um manual de instruções. Como é que se faz o bebê parar de chorar?

Isso não é assim tão-

Não motivava. Eu agradecia os convites, ficava a pensar neles um bocadinho, e depois nunca me sentava a escrever efetivamente. E depois, entretanto, começa a abundar muito a literatura de fazer as crianças dormirem de determinada maneira e que se chorar temos que aguentar. E eu pensava assim: "Pronto, o mercado gosta disto e eu não vou continuar. Não vale a pena, eu continuo com os meus bebês". E depois encontro, efetivamente, a matéria-prima que me diz assim: "Escreve o que quiseres. Escreves o que quiseres, nem preciso de ver a meio, entregas o livro e a seguir definimos". Pronto. E de fato, assim foi. Eu escrevi sobre o quê? Eu escrevi sobre o bebé. O primeiro livro é sobre o nascimento do bebê, é sobre o bebê humano e o que é a complexidade do bebê humano e o tipo de cuidados que um bebê humano está à espera de receber, que às vezes é diferente daquilo que a gente pensa que vai dar. E assim foi. Este livro tinha um título diferente.

Mas acabaram por chegar a este, talvez por ser mais direto?

Não, e depois acabou por ser lido o livro pela minha editora e ela disse: "É que a verdade é que é assim, os bebês não estão cá pra nos infernizar, não é? Eles também querem dormir". E eu pensei assim: "É verdade!" E eu lembro-me de estar a conversar com o pediatra e dizer assim: "Olha, o livro vai se chamar Os bebês também querem dormir". "Mas esse livro, por que não haveriam de querer?" E eu dizia assim: "Pois, mas às vezes parece que os pais acham mesmo que eles não querem, e eles querem." E então a ser ficamos.

A Francisca, se eu deixasse, ela passava dias sem dormir. Há tanta coisa interessante.

O mundo é interessante e a Francisca é uma criança muito à frente. Neste caso dos bebês pequeninos, ajuda também um bocadinho talvez a compreender do que é que vamos falar, que é o bebê, a transição pra o sono, compreendê-la que ela pode ser muito difícil pra o nosso bebê, por várias razões e todas elas diferentes, de acordo com cada bebê e de acordo com cada idade.

Olha, Costanza, por falarmos nisso, o que que é um bebê que dorme mal? O que consideramos? É um bebê que dorme poucas horas, é um bebê que acorda muito, é um bebê que só dorme de dia? Há uma definição, digamos assim?

Vocês estão me a fazer perguntas muito complexas.

Mas descomplica.

Vou tentar descomplicar. Então, eu vou começar por dizer aquilo que é uma espécie de um mantra pra mim. Eu dou atenção ao que é um bebê que não dorme. Bom, o mais importante é que impacto é que a maneira como o bebê está a dormir está a ter nos pais, ok? Porque o bebê até pode estar, do ponto de vista fisiológico e do que é a literatura. Vamos ver uma coisa: os estudos não se dá drogas a um bebê pra dormir e depois se estuda o bebê. Os estudos são, acima de tudo, observacionais e muitos deles em contexto naturalista, são observadas como epóx percentis. Observam-se populações de bebês saudáveis e vai se ver quantas horas aqueles bebês dormem e com que distribuição. O que dá uma variação enorme do conceito de normalidade. Muitas vezes, tanto é normal o que está a dormir 15, como é normal o que dorme 18. E depois, aquelas coisas das redes sociais, das tabelas, enlouquecem muitas vezes os pais, porque mete-se tudo ali na bimby das médias e diz que todos os que têm seis meses deviam estar a dormir 14 horas distribuídas desta maneira. E no fundo, nós estamos a falar de uma média que tanto é normal naquele grupo observado, o que dorme mais e o que dorme menos.

Mas depois se calhar há pais que ficam um bocadinho ansiosos e se de repente não está a dormir 14 e está a dormir 12, entram um bocado em pânico.

Sim.

Fica aquela ideia que os bebês se desenvolvem mais quando dormem, não é?

Na verdade, é um conjunto, porque o sono tem uma função arquivadora. Ora, se não há nada pra arquivar, por que aquele bebê se há de deitar a dormir? E portanto, parece que hoje em dia, e a comunicação que é feita, e vocês sabem que as redes sociais dão aqui combustível exagerado a tudo.

Em qualquer tema.

Em qualquer tema, e é muito fácil as pessoas depois ficarem muito focadas quando têm um feed de Instagram ou de Facebook que é só sobre um tema e por acaso até é o tema que o nosso filho não está, achamos nós, a ser grande coisa nele, e então pronto, está lançado o caos. E é importante os pais saberem que hoje em dia, antes não se falava sobre o sono e tudo era normal, e dormes mal e aguenta, e hoje em dia é o contrário. Hoje em dia, porque há muita gente a viver do sono e há muito marketing relacionado com o sono.

E portanto, foi um tema que se tornou muito sensível e polêmico.

E, portanto, lá está. O que é dormir mal? Bom, talvez alguns pais fiquem um bocadinho surpreendidos. Há um estudo, um conjunto de observações, não é tão recente assim, mas que, por exemplo, a professora Helen Ball, que é uma das especialistas em nível europeu e mundial Que trabalha até com a UNICEF e com a NIS no Reino Unido. Ela cita muitas vezes que considera que dormir a noite inteira será dormir um bloco de cinco horas seguidas, algures no período entre as 10:00 da noite e as 06:00 da manhã. E portanto, se nós formos a pensar nisto, se calhar até há muitos bebés, de acordo com esta exceção, que o fazem.

Que dormem bem, afinal.

Pronto. O que é importante nós sabermos, acima de tudo? E agora estou a falar um pouquinho dos bebés mais velhos. Porque os bebés pequeninos têm algumas particularidades, nomeadamente o estabelecimento do ritmo circadiano, que muitas vezes ainda não está maduro e que se considera, em termos de literatura, que vai ser amadurecido nos primeiros seis meses.

Estamos a falar de crianças a partir dos seis meses?

Sim, por exemplo, ou até naquela fase em que se mexem mais, já gatinham. O que acontece? Nós temos bebés que os pais registam muitos despertares dos bebés, mas que muitas vezes para o bebé aquilo não são despertares, são semidespertares. O que está a acontecer é que o adulto está a ter um despertar completo. E portanto, quantos pais nos chegam e dizem: "Eu acordei de hora a hora, mas ele acorda de manhã fresco, maravilhoso, a rir-se". E isto, embora seja um bocadinho desesperante, é um bom sinal. O que é importante meter aqui nesta misturadora? O impacto que a maneira como o bebé está a dormir ou como a família está a dormir toda, tem. Isso tem que ser valorizado e temos que ajudar os pais a reduzir o impacto. Eu trabalho muito com base no conceito do sono familiar. Todos merecem dormir o melhor possível.

Claro!

E portanto, os ajustes têm que ser individuais para aquela família. E há aqui coisas loucas que eu já fiz. E depois, efetivamente, os sinais do bebé, porque há bebés que andam rabugentos porque estão a dormir pouco.

E é preciso estar atento a esses sinais, não é?

É, muito. Porque reduz a qualidade de vida, reduz a qualidade da relação parental, porque também é difícil tirar alegria depois da parte estimulatória, se estamos com privação de sono, nós e os bebés. São bebés muitas vezes mais rabugentos, são bebés que a hora de deitar é um pesadelo.

Uma coisa influencia a outra.

Imenso. Depois andamos aqui num ciclo sem fim. Não dormem bem de dia, porque provavelmente não vão dormir bem de noite e o sono torna-se um monstro, que é o que nós não queremos de todo que aconteça.

E depois também temos pais rabugentos, não é?

Muito.

E estes pais, o que procuram em ti? Ou seja, o que eles esperam quando te procuram?

Eu tenho a minha-

Um milagre, às vezes.

Às vezes.

Uma fórmula mágica.

Não, eu acho que os pais que chegam a mim, porque eu nisso sou um bocadinho assertiva, na maneira como trabalho, já trabalho há 10 anos com bebés, na maneira como vejo o sono, nos livros que escrevi, se está patente, qual é a minha abordagem. Então os pais que chegam a mim já sabem um bocadinho o que nós vamos trabalhar. Eu faço uma história completíssima do bebé. Eu quero saber tudo e depois faço muita observação. Eu gosto muito de ver os bebés, tenho que olhar muito para eles e gosto de saber muitas coisas sobre eles. Eu gosto de saber como é que eles estão a reagir do ponto de vista sensorial, gosto de saber os limites sensoriais, gosto de saber carga estimulatória, como é que eles lidam com ela, gosto de saber isso tudo. E portanto, depois, o que fazemos? Depende. Há pais que chegam a mim, não é por questões de sono, o sono é uma fatia grande, mas há pais que chegam, por exemplo, porque um bebé grita de uma maneira que não grita em mais situação nenhuma, por exemplo, para vestir um body ou para mudar uma fralda, ou porque o bebé chora inconsolavelmente, ou porque o bebé tem muitas cólicas, ou porque eles sentem que ainda não houve ali um clique entre eles e o bebé. E depois, a parte disto, muito também por causa do sono. E portanto, o que nós fazemos? Nós vamos trabalhar o complexo universo do bebé. E isto pode parecer que demora muito, mas não demora muito tempo. Muitas vezes é para começar a dormir melhor logo no próprio dia. Agora, o que é importante nós termos presente, seja para qual tema for, é: o que o bebé consegue fazer? Isso tem que ser a nossa base de partida. O que o bebé consegue fazer? E aquilo que o bebé não consegue fazer hoje, pode conseguir fazer daqui a uma semana, daqui a um mês. Nós acreditamos em pleno potencial do bebé. Trabalhamos melhor no que o bebé não consegue fazer. Nós vamos a meio do caminho e encontramo-nos com ele. Ao invés de estarmos na outra ponta da estrada à espera que ele atravesse sozinho. Isso é só para enlouquecermos nós e o bebé.

Olha, gosta assim, diz uma coisa. Cada caso é um caso, cada bebé é um bebé. Já disseste que és contra regras e guias, mas naquela questão quase eterna: o bebé chora, devemos ir lá, devemos pegar ao colo ou devemos deixá-lo na cama sozinho?

Deves sempre ir lá. Nós devemos tratar os bebés como tratamos qualquer pessoa. Os bebés não são um grupo à parte, os bebés são pessoas. Portanto, um bebé que chora e quando uma mãe, ou uma pessoa, ou Catarina, como tu me dizes, o bebé chora, à partida, nós estamos a falar de um bebé que está a chorar. Obviamente, não estamos a falar de um bebé Não é isto. Vamos ser francos. Quando dizes: "Ah, porque as mães são umas exageradas". Por amor de Deus, nós todas sabemos distinguir. Não é para tolerarmos nenhum choro ativo, não é suposto sequer biologicamente, senão nenhum de nós hoje estaria aqui. E portanto, eu gosto de dizer às mães e aos pais: se vocês estivessem a agir apenas com uma visão limpa do que fariam se fossem vocês e o vosso bebé e não existisse aqui as regras todas ou os livros que leram para aí fora, o que fariam? Isto para mim é o melhor indicador. É o melhor indicador, porque estamos a trabalhar com o coquetel hormonal, neuro hormonal de ligação mãe-bebê, que é o escudo à prova de bala de que aquele bebê será protegido. É o melhor reconhecedor de perigo. Se a mãe entende, tenho três filhos, eles não são todos atendidos ao mesmo tempo.

Sim, impossível. Tem que tirar a senha.

A de 13 tem um limite de tolerância de espera. Bom, agora se calhar não tanto, mas provavelmente superior à da irmã de dois. A de dois tem um limite de espera em que eu já digo: "Amélia, espera um bocadinho". E ela sabe esperar, um bocadito frustrada, mas espera. Conseguiria fazê-lo com um mês de vida? Pois possivelmente que não, porque ainda não há sequer circuitos neuronais para fazer. E perguntam-me se deve ir lá. Pois claro que deve, o que a mãe quer fazer? O que a mãe lhe apetece fazer? O que o organismo da mãe lhe diz para fazer? É isso mesmo que deve fazer. Agora, Catarina, eu neste momento já vi quase 4 mil bebés. E obviamente que há regras de segurança e eu já tenho, de alguma forma, alguma metodologia. Agora, a diferença é que os bebés devem-se deitar cedo, os bebés devem acordar quando em termos circadianos há essa sinalização, devem ter uma boa higiene do sono. Não é ausência total de guias. Até porque o sono Não é um freestyle completo. É um freestyle em cada família, mas para mim é a individualidade daquele bebé, eu sabendo que eu quero que aquele bebé durma bem e os pais também. Portanto, não é uma anarquia. As pessoas às vezes confundem isto e faz-se um discurso um bocadinho malicioso do: "Pronto, então é o caos. Então depois vejam como é que vai ser quando tiverem dois anos, três anos e não dormem". Isto é mesmo para efeitos de marketing, porque obviamente não é assim, pelo menos eu que estou a trabalhar. Eu não digo: "Vai-se deitar quando quiser, não se manda para a cama, come chocolate todos os dias ao jantar". Isso é para enviesar um bocadinho este debate. Mas não é isso que se trata.

E a cama dos pais, que é sempre tão tentadora para os miúdos, devem evitar? Como é que se deve gerir isso?

Isso é uma gestão familiar. A cama dos pais, a mí, a única questão que eu tenho sobre ela é que quero que os pais saibam os critérios de segurança. Há alguma contraindicação em casos específicos, por exemplo, não devemos partilhar a mesma superfície de sono com o bebé se a mãe fumou na gravidez ou se um dos adultos é fumador. A cama dos pais, à partida, não é um sítio seguro para o bebé, tem que ser tornado seguro. E essa informação, se em algum momento da noite o bebé está a vir para a cama dos pais, da noite ou do dia. A pior coisa é a partilha de cama acidental, é a que não é pensada, é aquela que está toda a gente em negação. "Não, é no berço dele", e depois às 05:00 a.m não fica no berço. Isso não pode ser. E se o bebé está a vir para a nossa cama, tem que se informar dos critérios de segurança.

Tem que se assumir as coisas.

Exatamente, e preparar tudo. Eu já trabalhei com pais a pôr tudo no chão. Já desmontamos camas. O que eu acho em relação ao resto? Não acho nada, acho que o mais importante é dormirem. "Mas depois vai lá ficar até aos 18 anos". Bom, eu tenho uma filha de 13 que gosta muito da sua independência. Não foi o caso. Nós temos que pensar nisto como um acordo. Está bom agora, está bom para todos, é o que possibilita dormir, vai deixar de estar bom daqui a um mês, mas nós temos condições para conversar com o nosso filho e nos organizarmos para começar a propor estratégias diferentes. Tudo isto não é um alien que aterrou lá em casa e que agora é essa matriz comportamental, que é o que fizemos hoje vai ficar para sempre. Não é verdade. Acomodem-se para dormir todos o melhor possível, em segurança e em paz.

Constança Cordeiro Ferreira, terapeuta de bebés e autora do livro "Os bebés também querem dormir". Muito obrigada por ter se juntado a nós no "Isto é Ser Mãe". Podem voltar a ouvir-nos em observador.pt ou em mago.pt. Eu e a Catarina estamos de volta no próximo sábado às 10:30 com um novo tema e um novo convidado.

Até lá, queremos saber o que acharam da emissão desta semana com a Constança Cordeiro Ferreira. Comentem nas nossas redes sociais ou enviem-nos um e-mail para istoésermae@observador.pt. Eu e a Fabíola voltamos para a semana, de preferência bem dormidas.

Gostava muito.

À mesma hora. Um bom resto de fim de semana.

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