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Os teus olhos são cor de pólvora e o teu cabelo é raspa. O teu modo de andar é uma forma eficaz de atrair saliva. A tua silhueta é um mistério da criação. Sobretudo, tens cara de anjo mau. Cara de anjo mau, tu metes tudo a correr. Basta um olhar teu e o chão começa a tremer. Cara de anjo mau, contigo é fácil cair. Quem te ensinou a ser sempre o último a rir? Que posso fazer ao ver-te acenar a fria universal? Que posso desejar ao avistar tão delicioso mal? Que posso pensar quando me sinto para mim? Que posso tentar se não ir até ao fim? Cara de anjo mau, tu metes tudo a perder. Basta um olhar teu que o chão começa a tremer. Cara de anjo mau, contigo é fácil cair. Quem te ensinou a ser sempre o último a rir?
"Cara de Anjo Mau", Jorge Palma, na Rádio Observador. Especial dedicado ao cantautor português que morreu esta semana. Tiago Pereira está comigo, é editor de cultura do Observador. Esta é também uma edição especial do Isto Não Passa Na Rádio. Tiago, muito boa tarde, bem-vindo.
Nelson.
Foste tu que escolheste isto para a abertura do nosso especial?
Fui.
Por quê? Não era um anjo mau, Jorge Palma.
Não, dependia do dia, era como tu.
Ou tu.
Exato.
Tinha esse lado do povo. Era uma pessoa muito próxima de qualquer um de nós. Transmitia essa imagem.
Transmitia essa imagem, digo eu que acho que não era-
Não era imagem.
Isso, não era fabricado. Além de ter outras semelhanças ou proximidades, se quiseres, com o Zé Pedro.
Sim.
O famoso Zé Pedro dos Xutos.
Uma das proximidades seria o projeto Palmas Gang, não é?
Exato, que são os rapazes que estão a tocar neste momento e que regravaram esta canção ao vivo no Johnny Guitarre e depois saiu em disco.
Em 1993.
Exato. Tenho ideia que talvez a última vez que tenha visto o Jorge Palma em palco tenha sido em 2022, acho eu, se bem em 2022, quando se reuniu o Palmas Gang no Capitólio e tocaram, por exemplo, o Cara de Anjo Mau. Mas o que eu estava a dizer? O Zé Pedro também tinha esta coisa de ser o tipo porreiro.
Sim.
E era aquele tipo que tu encontravas na rua ou num concerto, que gostava sempre de ver concertos, e ias lá, falavas com ele como se tivesses estado a beber umas cervejas com ele na noite anterior, tiravas uma foto. O Jorge Palma tinha esse lado também de como se fosse um super-herói, mas que andava a pé. Entendes? Um tipo especial, mas que se confundia na multidão. Além disso, esta canção eu acho que dá jeito num dia como este, que é um dia triste, e é muito fácil cairmos na melancolia, que também fazia muito parte da obra do Jorge Palma, mas também lembrar que havia muito rock and roll e que foi boa parte daquilo que o levou a fazer música, a fazer canções e a querer ir para a estrada.
É engraçado esse lado de rocker, porque estamos a falar de um músico que começa na clássica.
Sim.
É um aluno de conservatório.
E muitas vezes associamos, e bem, ao piano.
Sim.
Mas que ele apreciava bastante que lhe dessem uma guitarra elétrica com pedal de distorção e seguir em frente.
Já falamos mais um bocadinho de Jorge Palma nesta hora de rádio especial aqui na Rádio Observador. "Olá", cá estamos nós outra vez, Jorge Palma, agora em 2007.
Olá. Sempre apanhaste o tal comboio. Eu já perdi dois ou três. Entre o ócio e as esquinas
Ganhei o vício da estrada. Nesta outra encruzilhada. Talvez agora a coisa dê. O passado foi à história. Cá estamos nós outra vez. Conheço a tua cara. Mas não sei o teu nome. Escrevo já aqui. Não sei o quê. @.com. Eu vou-te reencontrar. Noutro bar de estação. Ou talvez quando perder mais um avião. O barco vai de saída. Tu estás tão bronzeada. É tão bom ver-te assim, ardendo. Tão queimada. Eu quero reencontrar-te. Noutra esquina qualquer. Sem saber o teu nome. Se ainda és mulher. Quero reconhecer-te. E beber um café. Dizer-te de onde venho. E perguntar-te porquê. Sorrir-te cá do fundo. Subir os degraus. Eu quero dar-te um beijo. A 50 e tal graus.
Faz parte do disco "Voo Noturno", saiu em 2007. "Olá, Cá Estamos Nós Outra Vez". Tiago, 2007 é uma altura boa na carreira do Jorge Palma. Eu tenho ideia que o próprio "Voo Noturno" é o disco mais vendido na discografia do Jorge Palma, muito por causa do grande sucesso "Encosta-te a Mim". Estamos aqui também a tentar fugir um bocadinho das óbvias que todos conhecemos e perceber quantas ótimas canções tinha Jorge Palma em todos estes discos.
É difícil. Este jogo hoje é difícil.
Eu gosto muito de "Encosta-te a Mim" porque tem um belíssimo videoclipe, em que está cheio de malta, um reininho. Parece um encontro de amigos.
Sim.
Foi feito um videoclipe do "Encosta-te a Mim", que é uma espécie de reunião de amigos daquela entourage do rock destas décadas, em que Jorge Palma também deixou a sua marca. E tem aquele piano, não é?
Sim, há uma coisa interessante, o "Voo Noturno" é um ótimo exemplo disso, que é o Jorge Palma podia, assim que voltou a ter uma atividade muito mais frequente, sobretudo nos palcos, podia ter-se dedicado à nostalgia, sem se preocupar com grande coisa. E ele nunca mostrou qualquer tipo de preocupação com isso. Ele foi sempre fazendo coisa. Notas aqui nesta canção, por exemplo, o tipo de arranjo, o tipo de canção que ele fez, os músicos com que se rodeou. Um bocadinho também, por exemplo, como fez o Sérgio Godinho. Teve esse percurso de autorredescoberta, se quiseres.
Sérgio Godinho tem os assessores, o Jorge Palma tinha os demitidos.
Exato.
Era a banda que o acompanhava nesta altura.
Constante ironia capitalista.
Sim. Escolheste "Assenta-te Aí" por quê?
Escolhi porque eu acho que há três fases no percurso do Jorge Palma, ou quatro, se quiseres. Há o início, nos anos 70, há a grande coleção de canções que se tornaram clássicos nos anos 80. Há os anos 90, que são feitos tanto de ausência como de experiência, e depois entram os 2000 e daí para frente, de regresso e reafirmação e reconquista de público antigo e descoberta de novo público. E nos anos 90, além do Palmas Gang, depois em 96, houve esta coisa dos Rio Grande. E ele é uma das vozes.
Ele pertence aos Rio Grande e depois ao outro projeto, As Cabeças no Ar.
Exato. Isso fez com que, além de ser um projeto muito singular e que marcou muita gente e diferentes gerações, porque tinha esse apelo, as músicas do João Gil e as letras do João Monge eram feitas de forma muito certeira. E esta canção, em que o Jorge Palma está a dar voz a um pai que está a dar um conselho a um filho, um conselho para a vida, assenta que nem uma luva naquele lado muito: "eu vou cantar a experiência de vida para quem me quiser ouvir". E ele, de facto, além de ser um grande compositor, era um extraordinário intérprete.
É por isso que muitos dizem que era um verdadeiro poeta, porque o poeta tem esse lado de observador daquilo que todos vemos nas nossas vidas normais, na rua, na cidade, no cotidiano, no mundano. Ele tinha esse lado.
Tinha esse lado e depois tinha um lado que fazia isso também de dentro para fora. Pode parecer lugar-comum, mas nós às vezes esquecemos que estas pessoas, como diz o outro, são pessoas como nós.
São pessoas como nós.
E portanto, fazem aquele exercício. Ou melhor, nós quando ouvimos as canções, por que nos identificamos? Na verdade, na maior parte das vezes, dói no mesmo sítio. E portanto, quando ele aperta a ferida
Para alguém que estudou no conservatório, que vem da música clássica e se converte ao rock, depois também há um percurso de rua, de tocador do metro. Também contempla essa imagem o próprio Jorge Palma. Um bocadinho de cowboy solitário. Meio fora-da-lei, cavalgando essa ideia de relativamente desalinhado da indústria.
Ele tinha aquela canção famosa do Jeremias, o fora-da-lei. Para todos os efeitos, ele era o Jeremias. Acho que para a maior parte dos fãs, ele era o Jeremias. Mas esta canção, ainda que não tenha sido escrita pelo Jorge Palma, como eu dizia, é um conselho, é uma lição de vida. E o que o Jorge Palma também despertou em muita gente foi uma espécie de sentimento de agradecimento. Há muita gente que tem uma canção como banda sonora de um momento de vida. Ou quando ouve determinada canção ou a voz do Palma a cantar, regressa a certos sítios, a certas épocas, a certas pessoas.
Eu tenho essa relação com muitas das canções do Palma. É algo que está mesmo muito lá atrás, na minha infância.
É uma memória afectiva e emocional e ao mesmo tempo estavas sempre disposto a descobrir novas canções, a ir ao concerto e ver as coisas novas e os discos que já não são do teu tempo, entre aspas, e ele conseguia fazer essa mistura na perfeição.
"Senta-te Aí", Jorge Palma, num especial do Isto Não Passa na Rádio, aqui na Rádio Observador. Já vamos regressar às canções de Jorge Palma.
"Senta-te Aí". Está na hora de ouvires o teu pai. Puxa para ti essa cadeira. Cada qual é que escolhe aonde vai hora a hora ir. Durante a vida inteira. Podes ter uma luta que é só tua. Ou então ir e vir com as marés. Se perderes a direção da Lua. Olha a sombra que tens colada aos pés. Estou cansado, aceita o testemunho. Não tenho o teu caminho para escrever. Tens de ser tu com o teu próprio punho. E era isto que eu te queria dizer. Sou uma metade do que era. Com mais outro tanto de cidade. Vou-me embora que o coração não espera. À procura da mais velha metade. Está na hora de ouvires o teu pai. Puxa para ti essa cadeira. Cada qual é que escolhe aonde vai hora a hora ir. Durante a vida inteira. Os serões habituais. E as conversas sempre iguais. Os horóscopos, os signos e ascendentes. Mais a vida da outra sussurrada entre dentes. Os convites nos olhos embriagados. E os encontros de novo adiados. Nos ouvidos cansados ecoa a canção de Lisboa. Não está só a solidão. Há tristeza e compaixão. Quando o sono acalma os corpos agitados. Pela noite atirados contra colchões errados. Há o silêncio de quem não ri, nem chora Há divórcio entre o dentro e o fora. Há quem diga que nunca foi boa a canção de Lisboa. Mamã, mamã, onde estás tu, mamã? Nós sem ti não sabemos, mamã, libertar-nos do mal. Mamã, mamã, onde estás tu, mamã? Nós sem ti não sabemos, mamã, libertar-nos do mal. A urgência de agarrar qualquer coisa pra mostrar que afinal nós também temos mão na vida, mesmo que seja à custa de a vivermos fingida. Um estatuto pra impressionar o mundo não precisa de ser mais profundo que o marasmo que nos atordoa, ó canção de Lisboa. As vielas de néon e as guitarras já sem som vão mantendo viva a tradição da fome que a memória deturpa e o orgulho consome. Entre o orgasmo na gruta ainda fria e o abandono da carne vazia, cada um no seu canto entoa a canção de Lisboa. Mamã, mamã, onde estás tu, mamã? Nós sem ti não sabemos, mamã, libertar-nos do mal. Mamã, mamã, onde estás tu, mamã? Nós sem ti não sabemos, mamã, libertar-nos do mal.
"Onde estás tu, mamã?", "Canção de Lisboa", Jorge Palma, em 1984, no disco "Asas e Penas". Se há pouco, Tiago Pereira, trazias aqui uma canção em que ele fazia de pai, a dar conselhos a um filho, agora temos essa evocação de uma criança que olha pra alguém que o pode salvar ou ajudar.
As personagens iam mudando consoante o estado de espírito. E depois também este exercício constante do corta e cola de palavras. Ele tinha um lado muito obsessivo com as palavras, com o espaço, onde é que certa palavra cabia ou não.
É um grandessíssimo letrista e esta canção que acabamos de ouvir é uma das que eu mais gosto nesse capítulo, num disco que até acaba por ter outros êxitos, principalmente a "Estrela do Mar", talvez seja das que mais se recorda desse "Asas e Penas" de 84.
Eu escolhi aqui outra canção. Esta faz parte do álbum do "Bairro do Amor", é a "Minha Senhora da Solidão", que tem várias curiosidades. É uma canção que parece uma oração. Começa logo pelo título, que é o primeiro verso. É um clamor, quase que imaginamos alguém de mãos postas ou de joelhos a fazer uma súplica. Ao mesmo tempo, é uma canção num tom elevado, é uma canção que ao vivo era cantada em coro, como aqueles hinos que parece que são feitos de propósito pro estádio. Não foi o caso, mas depois ganhou esse corpo.
Aquelas músicas em que se acendem os isqueiros?
Mas aqui não, porque tinha esse lado dramático. Tinha um forte dramatismo esta canção, e tem. E depois cada um se apropriava da sua dor para fazer dessa oração coisa sua, com muita intensidade. Vê-se logo depois pelo início também que tem a ver com a técnica, com o estudo, tem um lado barroco no piano. Nada era por acaso. E é mais uma prova de que tudo aquilo que foi influência, que foi referência e que foi aprendizagem do Jorge Palma, ele foi sempre usando ao longo de toda a vida, de forma singular.
Minha Senhora da Solidão, minha Senhora das Dores, quanto tempo falta pra te ver sorrir? Quantas misérias ainda vais exibir? Quanto tempo mais vou ter de te ouvir queixar? Odeio ver-te sempre de luto. Gostava de ver o teu olhar enxuto. De descobrir alguma graça no teu andar. O teu crucifixo não me ilumina. E o teu sacrifício não me pode fazer bem. Não é bom para ninguém. Não ajudas ninguém. Minha senhora da solidão. Minha senhora dos prantos. Tens um ai encravado na boca. Que dia após dia te sufoca. Precisas de bem mais que uma simples oração. Minha senhora da solidão. Minha senhora das culpas. Tenho que evitar o teu contágio. Não quero mais saber do teu naufrágio. A praia esteve sempre ao alcance da tua mão. O teu crucifixo não me ilumina. E o teu sacrifício não me pode fazer bem. Não é bom para ninguém. Não ajudas ninguém.
Morreu esta segunda-feira, Jorge Palma, aos 76 anos. Está a ser aqui homenageado na Rádio Observador, numa hora especial. Isto não passa na rádio, eu sou o Nelson Ferreira, tenho comigo o Tiago Pereira, que recordou esta "Minha Senhora da Solidão". Uma vida muito preenchida. Esta manhã estive a ler algumas coisas do Jorge Palma e surpreendem-me sempre informações que me eram desconhecidas, inclusive o número de países onde viveu e por onde viajou. O número de bandas e projetos em que ingressou ainda antes de começar a carreira como Jorge Palma. É alguém que trilhou um caminho na música que não aparece de um momento para o outro, à guitarra ou ao piano. Um cantautor começa com as suas canções. Há um trajeto que foi feito, que o trouxe até aqui, desde o Sindicato e outros projetos.
Nada disso era feito numa perspectiva de investimento, acho eu, de grande plano para construir uma carreira que passasse do ponto A ao ponto B para chegar ao C, que seria a consagração e a glória, etc.
Parece-me também que era um músico muito generoso nas colaborações, porque há muito mais colaborações das que eu me recordava quando comecei a olhar melhor para a carreira do Jorge Palma. Há Mafalda Veiga, há o projeto com os Palmas Gang, Rio Grande, Cabeças no Ar. Há no último disco Rui Reininho e Manuela Azevedo numa canção. Era um artista colaborativo nesse sentido e mais recentemente também com os dois filhos, um espetáculo de julho que acabou por ser adiado, já por razões de saúde de Jorge Palma, mas que deveria ter acontecido este ano.
É engraçado, não é que tenha graça especial. O Jorge Palma tinha esse lado de vagabundo, se quiseres, ou de fora da lei ou de cowboy. Cada um depois aplica o nome que quiser. Mas depois tinha este lado muito terno, efetivo e de regresso, sempre que era necessário ou sempre que era quase instintivo, de voltar a uma base segura, de voltar a um porto seguro. Neste caso, os filhos foram decididamente essa base e esse porto. E depois, quase dando uma volta completa, de fazer desse porto esse tal agente de colaboração. Passaram a ser quase como se fossem colegas de ofício. Quase como se esse fosse o desígnio que era suposto, uma espécie de destino pré-traçado.
Ainda assim, continuamos também a recordá-lo sempre como alguém boémio, com pontos de contacto, por exemplo, com Shane MacGowan ou Lou Reed, alguém que também tira prazer desse lado mais bon vivant da vida.
Tira prazer, mas que também reconheceu quando depois passou do prazer para uma relação Nada saudável, bem pelo contrário, e que isso influenciou as decisões que tomou na vida, influenciou também depois a obra e a criatividade. E cada passo dessa intimidade tinha depois uma banda sonora associada, tinha um disco associado, tinha um resultado associado, tinha uma forma de estar em palco associada. E quem o acompanhou ao longo dos anos foi vivendo esses diferentes estados, ficando mais apreensivo, mais descansado, mais em espírito de celebração. Dependia também do dia e da noite, sobretudo.
Vamos a esta canção de vida que ele escreveu para o Carlos do Carmo, que o Carlos do Carmo chegou a gravar e que faz parte do "Vida", o último trabalho discográfico do Jorge Palma, de 2023.
Nascemos tão furiosamente sábios. Dispensamos a razão. Corremos com sorrisos nos lábios. De encontro ao mundo em contramão. Crescemos descortinando o nosso fado. Desvendando a nossa voz. Mantemos bem acondicionado. O fugitivo que há em nós. E tu, tu que nem sempre me entendes. Mas que tão bem sabes aconchegar aquele que eu sou. Talvez nalgum instante ao olhares-me. Consigas simplesmente sem pudor rever-te em mim. Às vezes nada nos pode causar medo. Tudo corre de feição. Às vezes também constrói num enredo. Pois não há bela sem senão. Mais tarde valorizamos a inocência. E o que dela resta em nós. Mais tarde temos plena consciência. De que o final é sempre a sós. E tu, tu que nem sempre me entendes. Mas que tão bem sabes aconchegar aquele que eu sou. Talvez de vez em quando ao olhares-me. Consigas simplesmente sem pudor rever-te em mim. Talvez nalgum instante ao olhares-me. Consigas simplesmente sem pudor rever-te em mim.
"Canção de Vida", na versão para Carlos do Carmo, a que faz parte do disco "Vida", o último de Jorge Palma, editado em 2023. Há pouco estava me a recordar quantas são as canções que têm esse lado mais boêmio, divertido, mordaz, sexy, diria. Canções como o "Dame Lum", por exemplo. Eu vi esta semana uma história interessantíssima de uma entrevista do Jorge Palma, eu creio que foi ao Fernando Alvim, em que ele explicava que a "Dame Lum" já existia. Ele escreveu-a em Paris para uma americana que conheceu, que era a Jenny. E ele cantou um pouquinho da música dizendo: "You came in my life like a magic balloon in a glass of champagne". E eu fiquei supercurioso, porque agora apetecia-me saber como é que a "Dame Lum" seria escrita em inglês, ele que escreveu as primeiras canções em inglês antes de se dedicar ao português. Mas tem esse lado de deixar rir. Tem esse lado atrevido. Parece um engate que estamos ali a sentir nos nossos ouvidos e que esperamos que corra bem no final. Tem esse lado também mordaz, irônico e sedutor em muitas dessas canções. O "Portugal, Portugal", por exemplo, falavas dessa coisa das músicas que ecoam da nossa infância ou que nos ficam na memória coletiva, é uma dessas canções. Eu adorava a canção em miúdo, e ainda adoro, mas tem esse lado também do observador.
Esse tom, sobretudo, de crítica, não é?
De crítica. Nunca sendo um cantor de intervenção.
Sim, claro.
Nunca ficando conotado com essa facção artística, digamos assim. Enfim, escolheste a canção "O Fim" para fecharmos esta edição especial do "Isto Não Passa na Rádio".
Tem uma curiosidade, que é a canção que fecha o primeiro álbum em 1975, com o "Uma Viagem na Palma da Mão", e que depois foi recuperada. Foi uma das canções que foi recuperada para o álbum "Só", editada em 91, que é o álbum que faz a ponte geracional entre diferentes-
O "Só" ao vivo, depois é um grande sucesso também anos mais tarde.
Também, sim. E é uma canção
Tem vários discos ao vivo.
Sim, tem de vários períodos, com vários objectivos, mais ou menos sozinho, com mais ou menos banda.
Mas é alguém que reconhecemos essa característica. São músicas de ao vivo.
Claro.
Ele tinha particular prazer nisso.
E ele fez há poucos anos-
É um performer
... aquela celebração. Fez vários concertos em que cada concerto era a recuperação de um álbum específico. Fez essa maratona, às vezes até parecia que os discos surgiam para justificar depois um regresso ao palco, uma presença constante no palco.
Não o considero um músico de estúdio.
Sim.
Parece que as canções já nascem para serem tocadas.
Percebo. É claro que isso são tudo conclusões que nós tiramos a partir do nosso egoísmo saudável, eu diria. Tal como compreender, dizermos com toda a convicção, que certa canção foi escrita a pensar em determinada situação ou para ilustrar um particular sentimento ou emoção. Pode ter sido, pode não ter sido, tal como esta canção, "O Fim", parece obviamente uma canção de despedida, parece uma canção perfeita para este momento, agora. Pode não ter sido. E eu acho que isso é que também é a magia, mas seja ou não seja, é uma canção melancólica extraordinária.
Jorge Palma, num especial de rádio comigo, Nelson Ferreira, e com o Tiago Pereira, um Isto Não Passa na Rádio, que olhou para este músico agora desaparecido. Vai deixar muita saudade, mas também nos deixou grandes lemas como: "Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar". Obrigado, Tiago. Um abraço.
Até para a semana.
Ontem julguei ter visto a luz. Nas horas brancas conduzi o despertar. E fui subindo a escada que me separa do meu fim. Abandonei quem já passou. Fechei os olhos e previ o que encontrei. E foi nesta viagem que eu percebi que não estou só.