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Oi, vamos ouvir Rincon Sapiência com "Ponta de Lança", porque isto não passa na rádio.

Salve. Rincon Sapiência, conhecido também como Manicongo, certo? Quando alguém fala que eu não sou um MC acima da média, eu falo: "Não entendo nada, pai". A cultura do MC ainda vive, certo? Se depender de mim. Vambora! Meu verso é livre, ninguém me cancela. Tipo Mandela saindo da cela. Minhas linha voando, cheia de cerol e dá dó das cabeça quando rela nela. Partiu para o baile, fugiu da balela. Batemos tambores, eles panela. Roubamos a cena, não tem canivete, as paty derrete que nem mussarela. Quente que nem a chapinha no crespo. Não, crespos estão se armando. Faço questão de botar no meu texto que pretas e pretos estão se amando. Quente que nem o conhaque no copo. Sim, pro santo estamos derrubando aquele orgulho que já foi roubado, na bola de meia vai recuperando. Vários homem bomba pela quebrada, tentando ser certo na linha errada. Vários homem bomba, bumbum granada. Se tem permissão, estamos dando sarrada. Seu rap é ruim, na rua não tem as andança, porra nenhuma. Fica mais fácil fazer as tattoo e falar sobre a cor da erva que fuma. Raiz africana, fiz aliança, ponta de lança, um bárbara, uma. De um jeito ofensivo, falando que isso é tipo macumba. Espero que suma. Música preta, a gente assina. Funk é filho do gueto, assuma. Faço a trilha de quem vai dar dois e também faço a trilha de quem vai dar uma. Eu não faço o tipo de herói, nem uso máscara estilo Zorro. Música é dádiva, não quero dívida. Eu não nego que quero o torro. Eu não nego que gosto de ouro. Eu não curto levar desaforo. Nesse filme eu sou o vilão, 300, Rodrigo Santoro. Eu enfrento, coragem eu tomo. Me alimento nas ruas e somo. Restaurante, bares e motéis, é por esses lugares que como. Anjos e demônios me falaram: vamos. E no giro do louco nós fomos. A perdição, a salvação, a rua me serve tipo mordomo. Tô burlando lei, picadilha rock. Quando falo rei, não é Presley. Olha o meu naipe, eu tô bem Snipes. Tô safadão, tô Wesley. Eu tô bonitão, tá ligado, fei? Se o padrão é branco, eu erradiquei. O meu som é um produto pra embelezar, tipo Jequiti, tipo Mary Kay. Como MC, eu apareci. Pra me aparecer, eu ofereci umas rima quente como Hennessy. Pra ficar mais claro, eu escureci. Aquele passado não me esqueci. Vou cantar autoestima que nem Lecy. Às vezes eu acerto, às vezes eu falho. Aqui é trabalho igual Muricy. A noite é preta e maravilhosa, Lupita Nyong'o. Tô perto do fogo que nem o couro de tambor numa roda de jongo. Nesse sufoco, tô dando soco que nem lango-lango. Se a vida é um filme, meu Deus, é que nem Tarantino, eu tô tipo Django. Amores e confusões, curas e contusões. Fazendo minha mala, tô pique cigano, tô sempre mudando de corações. Luzes e decorações, sorriso amarelo nas ilusões. Os preto é chave, abram os portões. Quando eu vi a gravada, a linha de soco, eu falei: "porra".

Oi. Exatamente, acho que é caso para dizer oi. Isto já diz muito sobre o que vamos falar aqui hoje.

Bem-vindos a mais um Isto Não Passa na Rádio. Eu sou o Nelson Ferreira, comigo está o Diogo Lopes e o Gonçalo Correia.

Ora viva!

Bem-dispostos. Que sincronizados.

Não, parecia o Coro de Santa Marta do Lolla.

Incrível. Abrimos este programa de hoje com Rincon Sapiência. Já vamos falar dele, mas queremos explicar que, antes de tudo, estamos numa viagem no programa de hoje pela nova música do Brasil. E são muitas as músicas do Brasil que vamos destacar ao longo desta emissão, mas estamos à procura essencialmente de novos valores da música do Brasil, não de consagrados, mas Rincon Sapiência será um desses novos valores, que até já veio a Portugal há uns meses.

É verdade, mais do que uma vez. Até esteve no Music Box.

Muito recentemente. Gostava de ter visto.

Aliás, até podemos começar. Vamos fazer apresentações primeiro. Rincon Sapiência, na verdade, é um senhor chamado Dalino Albert Ambrósio. Percebe-se por que a alteração pra Rincon Sapiência. Basicamente, ele começou a fazer música no ano 2000, mas ninguém ligou nenhuma, pelo menos até 2009, que foi quando ele lança um single, uma canção chamada "Elegância", e foi aí que ele começou a dar os primeiros passos a ser ligeiramente mais conhecido, apesar de hoje em dia não ser assim tanto, mesmo assim. Pelo menos deste lado do Oceano Atlântico. Isto porque em 2017, o seu primeiro disco, chamado, a ver se eu não me engano, "Galanga Livre", foi classificado pela Rolling Stone brasileira como o disco do ano, relembro, em 2017. Mas este Rincon Sapiência tem uma história muito particular. Ele pertenceu a inúmeros grupos musicais. Durante algum tempo foi conhecido como o rei dos featurings, porque ele basicamente só se juntava a cantores já consagrados, fazendo muitas parcerias. Mas agora este "Galanga Livre" foi o seu primeiro passo a solo, a firmar-se como um artista a nome próprio. Resta só juntar a isto que ele teve pra ser futebolista profissional, e teve mesmo.

Cairão no Brasil.

Exato. Ele era segundo volante, isto mal comparado. Dentro do futbolês é um número oito, um médio defensivo.

Um box do box.

Exatamente. E chegou mesmo a ter treinos profissionais no clube da Portuguesa. Engraçado aqui esta giga jovem.

A Portuguesa dos desportos.

Exatamente.

Provavelmente o melhor equipamento de todo o planeta.

Vou só fazer um pequeno parêntesis, onde jogou um grande talento que passou pelo Sporting, que ia ser o novo Ronaldinho Gaúcho, mas não foi, Celso.

Ok.

Esse já não chegou lá.

Que maravilha. Mas ele depois numa entrevista disse que Chegou um momento, quando chegou à Portugal, em que pensou: eu tenho duas hipóteses, ou vou curtir a vida, como ele próprio diz, ou vou ser atleta e acordar cedo todos os dias e treinar. E ele preferiu curtir a vida.

Foi mais ou menos o que o Adriano Gladiador fez, mas já depois de ter iniciado carreira de futebolista.

Exatamente. A ligação a Portugal, só para terminar, que nós tínhamos falado no início, é que ele há muito pouco tempo fez uma canção, lá está o rei dos featurings, com Pedro, que é um projeto português de um rapaz que antigamente era conhecido como King Kong, uma onda meio eletrónica, afro house, e que faz parte da grande editora Enxofada, que é aqui de Lisboa.

O Pedro que fez uma versão espetacular do Só Tarraxo, uma Só Tarraxo remix para o mundo novo do Dino Santiago.

Não foi com o Pedro Mafama essa?

Acho que é a que tem voz de Pedro Mafama também.

Já sei. O Gonçalo já me mostrou.

É curioso o featuring dele com o Pedro, ele ter feito, porque ele aparece num dos episódios do Clube Atlas, do Branco, para a RTP, no episódio dedicado à música de São Paulo, o Rincon Sapiência aparece como embaixador da nova vibe musical de São Paulo.

Está tudo ligado. A primeira sugestão do Diogo Lopes nesta viagem ao Brasil, dos novos valores e dos emergentes, começou então com o Rincon Sapiência. E agora o Gonçalo Correia traz-nos aquela que poderá ser o nome mais espetacular de toda a emissão do programa de hoje.

Se calhar, passamos primeiro a música e depois revelávamos este nome.

O Gonçalo gosta de manter o suspense.

Ok, podemos só revelar a música, chama-se "Promessas e Previsões", e já vamos saber de quem é esta canção. Belíssima a escolha de Gonçalo Correia, um nome estranhíssimo. Gonçalo, queres tu revelar a tua escolha?

Sim. A autora desta música, o nome artístico é Ana Frango Elétrico.

Ótimo, parece-me bem. Por que não?

Eu adoro este nome.

Na verdade, este nome, além de ter sido escolhido seguramente porque é engraçado, porque é fora do comum, deve-se ao apelido da Ana. Isto é muito complicado dizer, não vou acertar seguramente, mas parece que é Ana Feingold.

Ok.

Algo deste gênero. Portanto, ela adaptou isto para Frango Elétrico, para ser mais engraçado e para ser mais fácil.

Acho que uma criança de dois anos traduziria esse nome dessa forma e ela aproveitou.

Aproveitou, sim. É uma jovem artista, ela tem 21 anos. Este tema é do segundo disco dela, que foi lançado há poucas semanas. O disco chama-se "Little".

Também tinha aqui, agora também perdi, o disco de Ana Frango Elétrico, belíssima descoberta aqui do Gonçalo.

Na verdade, eu descobri através de um site na internet que se chama Reverb, que tem uma secção chamada "Eles Indicam", onde convidam alguns artistas mais conhecidos.

Little Electric Chicken Heart.

Exatamente. É precisamente isso.

Ok.

Estava a dizer: este site tem uma secção que é a "Eles Indicam", em que escolhem músicos já estabelecidos e artistas para sugerirem revelações, novos músicos que gostam.

Quem é que sugeriu a Ana?

A Clarice Falcão.

Ok, compreendo.

Que a descreveu como uma menina aqui do Rio, que tem um som meio psicodélia, meio poesia.

Psicodélico?

Psicodélico. E que disse que ela no palco lhe lembrava muito a Rita Lee na era Mutantes.

Percebo.

Sim. As referências que eu vi ela citar eram tão díspares como Jorge Ben Jor, Björk e David Bowie, mas ela tem apenas 21 anos e é um nome que aqui em Portugal ainda não é conhecido.

Nunca tinha ouvido falar.

Exatamente. Eu penso que ela ainda não terá atuado nunca em Portugal, mas parece-me que poderá ser um nome para explorarmos e também para aparecer em algumas salas de espetáculo.

Essa foi também uma das missões deste programa, falar um pouco disto. São tantos os artistas brasileiros que tocam em Portugal, não tantos portugueses que conseguem tocar no Brasil.

Por acaso é verdade.

É um movimento ainda um pouco unilateral por parte dos brasileiros. Mas isto também tem que ver um pouco com o apoio que é feito à música brasileira do lado de lá. O governo regional de Minas Gerais pode perfeitamente dar um subsídio a uma banda para que ela venha à Europa gravar e financia, por exemplo, as viagens todas e as estadias para estar na Europa.

Não, isso faz sentido, porque realmente há malta que vem da Goiânia e coisas assim, que é uma zona muito longe.

Isso tem que ver com esse tipo de apoio cultural que existe por parte do próprio governo, seja ele regional ou central, e que aqui em Portugal, nada.

Apesar de tudo, vai havendo uns lampejos. Eu penso que há um festival, não sei se é o Sim São Paulo, se é o Bananada.

Já ouvi falar disso.

Que tem levado alguns artistas portugueses.

Também houve uma coisa parecida em Barcelona, não é? Um festival com grandes nomes portugueses.

Sim, de exposição de artistas portugueses. Neste caso, eu penso que nem sequer está envolvido com fundos públicos ou com investimento português, tem a ver um pouco com as relações entre programadores de festivais brasileiros e alguns programadores portugueses.

Eu lembro-me que o Vinícius Terra, que é um rapper, tem feito o Terra do Rap e leva sempre rappers portugueses ao Brasil.

Sim, já foi o Keso, o NBC.

Sim, Capicua também.

Capicua. Bom, e depois teríamos de ir, claro, ao sucesso dos portugueses no Brasil. Há uma área, na área do fado e na área da canção, onde há um grande impacto. Por exemplo, o António Zambujo tem um grande impacto no Brasil, Carminho tem um grande impacto no Brasil.

A Mariza também deve ter.

Penso que sim.

Roberto Leal também deve ter. Era isso que eu ia dizer.

No caso da Carminho e do António Zambujo, também tem a ver um pouco com eles fazerem álbuns de homenagem. No caso do António Zambujo, ao Chico Buarque, e no caso da Carminho, não sei exatamente quem foi, mas já voltarei, fez uma homenagem a um grande, penso que foi ao Tom Jobim.

Sim.

Portanto, isso também ajudou um bocadinho a torná-los conhecidos no Brasil.

Não, porque é facto que nós nunca recebemos um artista brasileiro porque ele fez uma homenagem a António Variações ou a outro qualquer. Eles vêm com a sua música.

E depois a dimensão dos mercados também é o que é. A quantidade de artistas que o Brasil tem e a capacidade que tem para se dar a conhecer no mundo é muito maior do que a capacidade dos músicos portugueses de chegarem além-fronteira.

Gostei muito desta sugestão do Gonçalo. Chama-se Ana Frango Elétrico. Ouvimos o tema "Promessas e Previsões". Eu vou continuar no feminino, na minha primeira escolha para o Isto Não Passa na Rádio desta semana. Estamos aqui às voltas com os novos valores da música brasileira e há um que me interessa particularmente, é a Lé Trux, Letícia Novaes, ela que é uma atriz, escritora, compositora, que já começou a carreira há alguns anos. Ela teve uma primeira banda chamada Letuce, mas entretanto atribuiu-lhe um X e ficou Lé Trux agora nesse seu projeto a solo.

Se calhar pela semelhança com alface em inglês.

Pois, se calhar. Sei que o disco, que é uma espécie de estreia em longas durações a solo de Lé Trux, é de 2017, ganhou um prémio de melhor álbum do Brasil numa estação de televisão, já não me recordo se uma revista ou uma estação de televisão. A Rolling Stone no Brasil, por exemplo, elegeu como o décimo melhor álbum brasileiro de 2017. Chama-se Lé Trux, "100 Noite de Climão". Estamos aqui a falar também de uma ativista pelos direitos LGBT, um tema que no Brasil tem particular importância nestes últimos meses, anos, com as convulsões sociais e políticas que se têm assistido no país. Mas eu acho que ela é, de facto, uma artista que foge bastante dos parâmetros, mesmo ainda Ana Frango Elétrico?

Elétrico.

Ana Frango Elétrico. Tu reconheces ali uma certa brasileirice?

Sim, uma tradição do tropicalismo, de MPB, uma mistura.

A Lé Trux é apaixonada por escritores portugueses e é mais dada ao rock, alguma eletrónica. Ela tem um colaborador que lhe dá umas sonoridades mais eletrónicas e produzidas às suas canções. E de Lé Trux, "100 Noite de Climão", para mim, o melhor disco brasileiro de 2017. Vamos escutar agora "Flirt Revival" e daqui a pouco já regressamos até para as despedidas desta primeira parte do Isto Não Passa Na Rádio.

Eu te vi nas artes plásticas. Cê mexeu demais comigo. Tu é o revival do marinheiro. Cê sabe circular. Meu look eu pensei o dia inteiro só pra te encontrar. Menino, tu é um perigo. Me avisaram, mas não deu tempo. Eu fico na pista o set inteiro dançando como se seu corpo estivesse junto do meu, marinheiro. Eu te vi nas artes plásticas. Cê mexeu demais comigo. Tu é o revival do marinheiro. Cê sabe circular. Meu look eu pensei o dia inteiro só pra te encontrar. É que, menino, tu é um perigo.

Sou viciado neste disco de Lé Trux. Lé Trux em "Noite de Climão", "Flirt Revival". É um disco cheio de momentos lascivos. Todas as letras dela apelam a esse sentido um pouco de festa, de romance.

Dá pra perceber o climão, a utilização da palavra climão.

Claro que sim. Eu acho que está um pouco implícito e esta "Flirt Revival" é um dos melhores exemplos. Aqui fica uma das sugestões do Isto Não Passa Na Rádio. Lé Trux devia passar mais na rádio. É uma das que mais gostamos da nova vaga da música brasileira. E daqui a pouco, eu, o Diogo Lopes e o Gonçalo Correia regressamos para a segunda parte de hoje.

É isso mesmo.

Carregou tudo com ela, menos minha dentadura. Vai ser um bocado dura a vida distante dela. Se a boca ainda se segura, o peito ficou banguela. Carregou tudo com ela.

Segunda parte do Isto Não Passa Na Rádio arranca com Keshu e Luargel, "Peito Banguela". Escolha do Diogo Lopes. Obrigado.

Isto é uma grande canção.

Obrigado por teres trazido isto É uma belíssima canção e é também um cruzamento de um brasileiro com um portuense, mas um brasileiro que vive no Porto já há alguns anos.

É verdade. Eu acho que se nota uma certa portugalidade neste beat, porque a parte da produção ficou entregue ao rapper portuense, conhecido como Quezo, que quem não conhece seriamente devia investir nisto, porque vale muito a pena. É um dos rappers mais talentosos da atualidade hoje em dia. "Da atualidade hoje em dia."

Foi para forçar.

Exato. Mas este Lu Cargelle é um brasileiro, como o Nelson dizia, é do Rio de Janeiro, mas mudou-se para Portugal, para o Porto, mais precisamente há relativamente pouco tempo, acho eu, há uns anos. E não só é músico e letrista, como também é poeta. Aliás, a formação académica dele é dentro das Letras. Ele tem um mestrado em Literatura pela Universidade do Porto e tudo mais, e também vagueia muito pela onda mais sambista da coisa. Aliás, ele está envolvido, por exemplo, nos grupos de Samba Sem Fronteiras, a Orquestra Bamba Social, tudo isto rodas de samba, chamadas rodas de samba, que agora estão muito na moda. Mas ele faz parte disso também no Porto. Agora, em relação a esta música, o Nelson estava a dizer que banguela remete a uma pessoa sem dentes, dizias, não é?

Sim, peito banguela, peito sem dentes. Dócil, diria eu.

Faz sentido. Estava aqui a ver uma entrevista do Quezo onde ele fala sobre esta canção, onde ele explica que a música é, e agora vou citar, dedicada a todas as mulheres e homens que sabem perder paixões e seguir o seu caminho.

A letra, há que dizê-lo, também é do Aldir Blanc, um escritor brasileiro, já com uma idade.

Um septuagenário.

Sim, um septuagenário brasileiro, um cronista, e escreveu letras para muitos artistas da música popular brasileira. E ele é que assina este "Peito Banguela", que foi extraordinariamente interpretado pelo Lu Cargelle e pelo Quezo, de quem vamos ter novidades em breve, porque isto é um primeiro avanço de um disco que os dois vão editar.

Porque entretanto até já saiu outra canção há pouquíssimo tempo, também a juntar os dois artistas, chamada "Senhor do Bom Feeling". Quem tiver curiosidade pode ir espreitar, já está no Spotify e seguramente no YouTube também a deve encontrar. Mas é isto, foi esta a sugestão que eu deixo para vocês desfrutarem. Já vi que aqui fez sucesso, espero que aí fora também.

O Lu Cargelle é um tipo que colabora com muita gente. Eu lembro-me de ele ter um projeto com a Ana Deus, por exemplo.

É verdade. Sim, numa altura em que Ana Deus andava um bocadinho desaparecida.

Sim, mas é relativamente recente. Isto é do ano passado, uma coisa do género.

Sim, dois anos, talvez.

Talvez, esse projeto da Ana Deus e Lu Cargelle. Vamos seguir em frente no Isto Não Passa na Rádio. Esta semana estamos a olhar os novos valores da música brasileira ou aqueles, pelo menos, que nos têm chamado mais a atenção. E agora vamos aqui olhar para uma sugestão do Gonçalo Correia, chamada Dônica.

Dônica. Gosto de dizer este nome, Dônica.

Vocês estão supersincronizados, como é que conseguem hoje? Conseguem falar ao mesmo tempo.

Nós estivemos a treinar enquanto tu estavas a fazer emissão.

Dônica, eu não sei o que querá dizer, mas tem, de facto, um timbre já brasileiro em si. Dônica. Faz lembrar quando os Roupa Nova cantavam a Dona. Lembram-se dessa música?

Não me lembro.

Vocês são muito novos. Vocês não viram novelas brasileiras nos anos 90.

Calma que isso dava para um outro programa. Por acaso está aí um bom tema. Novelas brasileiras, pode ser uma mina por explorar.

Mas vamos lá aos Dônica. Itamonte é a tua escolha. Quem é este agrupamento?

Olha, há duas formas de colocar isto. Acho que a mais direta e provavelmente a que tornará a banda mais conhecida é dizer que é a banda do Tom Veloso, um dos filhos do Caetano Veloso, que faz música. Outra maneira de colocar a questão é: o Tom Veloso, na verdade, é guitarrista desta banda. Não é o principal compositor e não é o vocalista. Esse chama-se Ibarra. É uma banda, uma jovem banda brasileira.

Ibarra, como o jogador de futebol?

Como o jogador de futebol. O saudoso jogador de futebol. Eles estão numa fase inicial de carreira. Lançaram um primeiro álbum chamado "Continuidade dos Parques".

2015?

2015. 2015 ou 2016? 2015, exatamente. Mas voltaram agora, este Itamonte é o primeiro single do próximo disco, que virá aí brevemente.

Que vai ser o segundo, não é?

Vai ser o segundo disco deles. O primeiro, apesar de ser uma nova banda, talvez pelas relações naturais do Tom Veloso com a cena musical brasileira, já tinha contributos, por exemplo, o Milton Nascimento canta no disco, e foi uma boa entrada da banda nesse mercado musical. A crítica prestou-lhes alguma atenção no Brasil. Cá eles ainda não tiveram, de facto, um grande impacto, apesar das vindas do Tom Veloso com o pai, Caetano, para uma série de concertos.

Do Tom e do Zeca também.

Do Tom e do Zeca, exatamente.

Será que eles dizem Tom ou Tom?

Tom. Eu penso que será Tom.

É Tom Veloso. Tom Jobim, Tom Angerry.

Exatamente.

Major Tom.

Tom Sawyer. Podíamos ficar aqui.

E podíamos continuar.

Tom Cruise.

Exato. Bom, é um quinteto. Esta música foi lançada este ano. É um single. Se o primeiro disco era um bocadinho mais virado para o psicadelismo e com muitos tons rock, este próximo parece que será bastante diferente. O single não será representativo do disco. A banda já veio dizer que será uma espécie de meio-termo entre as duas coisas, mas ouviríamos agora Itamonte com Dônica.

Caminhos abertos de vento lavando o quintal sob o sol. Folhas no riacho de vidro levando um jornal pela vida. Fotos e brinquedos do tempo tentando voltar outra vez. Fornos e fogueiras queimando, fazendo jantar. Olha a hora. Anoiteceu. É o vapor, cortina e sal. Saudade. Minha mãe vestida de homem e eu de mulher. Olha só. No país do beijo molhado, bochecha de mel. Acredito. Anoiteceu, esfriou. Voltei a ser eu. Pedaços de mim. Perdidos no tempo. Flores de girassol. Pedaços de mim. Outrora no vento. Hoje no vendaval.

Mais um novo valor da música do Brasil, chamam-se Dônica. Esta Itamonte é avanço para um álbum que já não deve tardar. Escolha do Gonçalo Correia neste Isto Não Passa na Rádio.

Exatamente.

E gostei muito de conhecer os Dônica. Não consigo dizer de outra maneira, a não ser Dônica.

Dônica.

Mas eu penso que é mesmo assim que se diz. Apesar de eu ter dito mal, eu penso que é Dônica.

Quando nos lançamos nesta epopeia de tentar trazer aqui ao Isto Não Passa na Rádio valores novos ou da música brasileira que não sejam ainda propriamente consagrados e que não passem na rádio.

Exato, também é importante.

O conceito. Quer dizer, tínhamos matéria para fazer provavelmente 10 programas.

Completamente, é impressionante a quantidade de coisas que existem.

Pode ser que ainda haja um volume dois.

Eu acho que nós dizemos isso a todos os programas, de todos os temas. Bem, mas eu agora queria falar de Soltas Bruxa. Gostam desse nome? Soltas Bruxa.

Nós estamos muito fortes nos nomes de bandas e canções.

Depois de Frango Elétrico, Soltas Bruxa. Sim, Soltas Bruxas é o nome do disco de Francisco el Hombre, que já por si também é um nome bem castiço e se calhar pouco brasileiro, diria, mas isso dá-se pelo facto de o projeto Francisco el Hombre, que já passou por Portugal, eu acho que até em duas ocasiões, agora recentemente, ter na sua formação dois irmãos que nasceram no México, mas que vivem em Campinas. Isto aqui já traz alguma confluência de estilos e é precisamente essa confluência de estilos que eu queria trazer também ao Isto Não Passa na Rádio, através de Francisco el Hombre. É um dos projetos mais interessantes da nova música brasileira que eu descobri nos últimos tempos. Descobri também muito por ter vindo a Portugal. Recordo-me que eles tocaram no Cais do Sodré, agora já não me lembro se foi no Music Box ou num outro espaço ou no Beleza.

Eu penso que foi no Beleza.

Foi no Beleza, pois eu agora também estava a pensar nisso.

E fiquei com pena de não os ver na altura, mas ao vivo é uma verdadeira festa que tem nos géneros muito mais do que música brasileira. O facto de haver dois mexicanos pode ajudar. Eles são, ainda assim, apresentados como uma banda rock. Uma banda rock que chega do Brasil.

Pode-se dizer que é um rock mexicano, no caso.

É um rock mexicano, mas é bem estranho e vocês já vão perceber o que eu digo nesta Calor da Rua. É uma das faixas desse Soltas Bruxa, o último disco de Francisco el Hombre.

Vai Maria, cansada de apanhar. Não sou pedra, mas posso endurecer. Vai José se arrastar pela cidade. Não sou lenha, mas eu incendeio. Vai Maria encontrar com seu José, se afogar no refúgio da cachaça. Santo Oco uma hora vai quebrar. Não sou pedra, mas posso endurecer

Não sou pedra, mas posso endurecer.

E aí, cole pra baixo do tapete.

Não sou lenha, mas eu incendeio.

Vai, Maria, encontrar com seu José. Paz e glória na terra da falácia, que é oco, uma hora vai quebrar.

Não sou pedra, mas posso endurecer. Não sou pedra, mas posso endurecer.

Já sei pra onde vou. Eu vou sentir o calor da rua. Já sei pra onde vou. Eu vou sentir o calor da rua. Já sei pra onde vou. Eu vou sentir o calor da rua. Vai, Maria, cansada de rezar.

Não sou pedra, mas posso endurecer.

Chama o Zé com olhar de gasolina.

Não sou lenha, mas eu incendeio.

Vai, Maria, encontrar com seu José, que já recebe contrato de polícia. Santo oco, uma hora há de quebrar.

Não sou pedra, mas posso endurecer. Não sou pedra, mas posso endurecer. Não sou pedra, mas posso endurecer. Não sou pedra, mas posso endurecer. Não sou pedra, mas posso endurecer.

Já sei pra onde vou. Eu vou sentir o calor da rua. Já sei pra onde vou. Eu vou sentir o calor da rua.

E na boa, agora uma festa com Francisco, el Hombre, pra ouvir isto.

Bela surpresa, isso.

Tem belíssimo vídeo também.

Podemos inventar nós a própria festa aqui à saída do programa.

Agora desligamos os micros. Fizemos um pouco de festa enquanto escutávamos esta "Calor da Rua" de Francisco, el Hombre. Estamos no Isto Não Passa na Rádio, a destacar os projetos que achamos que são os mais interessantes da nova música brasileira, aqueles que normalmente não passam na rádio. Já estamos quase a chegar ao final da emissão de hoje e o Diogo Lopes tem honras de fecho. O que é que nos trazes?

Antes de mais, obrigado por este privilégio.

Sempre considerável.

Para continuarmos agora nesta cena das bandas e das músicas com nomes interessantes, vamos falar dos Carne Doce, que é um grupo precisamente de Goiânia, como já tínhamos falado, que formou-se em 2013 e inicialmente só com o casal, que ainda continua na banda, que é a Salma e o McLoides. O senhor chama-se McLoides Aquino.

Ok. Foi inspirado num ator qualquer americano, não é?

Com certeza.

MacLeod? Quem era o MacLeod?

É o Duncan MacLeod.

A sério?

É mesmo. Pesquisem, vale a pena. Duncan MacLeod.

Maicon é Maicon Douglas.

Exatamente, Maicon Douglas, por isso vem daí. É como aquele jogador de futebol, o David, que era David.

Sim.

Um grande avançado. Mas voltando então aqui ao tema, temos estes Carne Doce, como já vos tinha dito. Entretanto, este grupo cresceu, não só a nível de reputação, mas também no número de integrantes. E acho que vou vos deixar agora a ouvir, acho que é uma boa despedida, esta canção que se chama "Comida Amarga".

Exato, estava a olhar, é de um disco chamado "Tômus", também com acento circunflexo no O, como quase tudo no Brasil.

"Tômus".

"Tômus".

Exatamente.

"Tônus". Aliás, "tônus". É uma abreviação de "estou no". É tônus.

Mas olha que é provável, porque eles têm também um bocadinho este universo lascivo, é uma coisa que eles exploram muito. Aliás, e também como tu já tinhas dito, este grupo também está muito associado aos movimentos feministas também e de defesa das comunidades LGBTI. Aliás, quem ouvir a música, por exemplo, a "Falo" ou "Artemisa", pode perceber um bocadinho melhor o porquê desta associação. E acho que com a palavra "falo" me despeço.

Obrigado, Diogo Lopes, por isto. Relembrar ainda que esta escolha do Diogo Lopes, Carne Doce, aliás, estamos a escutar aqui em fundo a "Comida Amarga", que vai fechar o Isto Não Passa na Rádio. Dizer que podem ver os Carne Doce em Portugal, Music Box Lisboa, no próximo dia 23 de outubro.

É verdade.

Os Carne Doce vão estar em Portugal e havia matéria para ficarmos aqui mais duas horas. Por exemplo, faltou-me falar de John Uker, que gosto muito, de Felipe e Rodrigo, que também assinam como Fat Neutrónico. Lembras-te de alguma coisa que tenha ficado das tuas escolhas?

Olha, por exemplo, o Giovani Cidreira, que é um miúdo novo também, que apareceu agora. Gonçalo, lembras-te de alguma?

Lembro-me, o Rubel, que também já passei aqui. E os Venga Venga, que estão neste momento, hão de estar numa festa, na terceira festa da residência mensal que têm agora no Music Box. É uma dupla brasileira que está a viver em Portugal.

Neste momento, convém dizer que é esta sexta-feira.

Neste momento, pra quem ouvir em direto, exatamente, esta sexta-feira estarão a atuar.

Se vos estiverem a ouvir em direto, ouvissem.

Podem ir a correr se estiverem a ouvir em direto.

Ficaram aqui ainda outros nomes que não cabem neste Isto Não Passa na Rádio dedicado aos novos valores do Brasil. Fechamos com Carne Doce, escolha do Diogo Lopes, e regressamos eu, Nelson Ferreira, o Diogo Lopes e o Gonçalo Correia de hoje a uma semana. Bom fim de semana.

Bom fim de semana.

Bom fim de semana.

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