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Foi depois do nascimento da sua filha que teve pela primeira vez a sensação de que não se sentia bem? Foi só a partir daí?
Especificamente em relação à depressão pós-parto, sim. Foi mais ou menos umas duas semanas, sensivelmente, depois do nascimento. Mas o meu historial em depressão não é uma novata, já vem de há muito tempo. Mas sim, piorou, ou melhor, por razões diferentes, depois do nascimento da minha filha. Sim, mais ou menos duas semanas depois.
Duas semanas depois, portanto já estava em casa. Quer dizer que a gravidez tinha sido feliz, normal e saudável e nada fazia crer, mesmo com esse historial, com esse passado e com outras experiências, que alguma coisa podia correr mal?
Não, eu tive uma gravidez santa. Fiquei muito feliz por estar grávida, era um desejo grande. E finalmente estava a concretizá-lo. Eu sempre quis ser mãe. Aliás, achava que ia ser mãe de três, coisa que já não vai acontecer. E portanto, em nenhuma altura previ ou pressenti que poderia acontecer isto comigo. Daí também acho que fui um bocadinho apanhada desprevenida em muitas coisas, mas também nessa.
O que se passa então ao fim de duas semanas de existência da filha, de ser mãe, o que é que começa a acontecer?
Conscientemente, aquilo que eu dei mais conta no momento, porque é um momento muito complexo, mesmo sendo depressão pós-parto, há o que se chama o baby blues, que acontece normalmente poucos dias depois do nascimento do bebê, em que a mulher de fato tem as hormonas todas viradas do avesso e portanto emocionalmente é um momento muito intenso. Há uma recuperação física do parto, da gravidez, enfim, passamos de filhas para mães de um dia para o outro. Não há curso pré-parto, nem de preparação para o parto, que prepare o que quer que seja a esse nível. Só passando por isso, só vivendo. E apesar de eu numa altura me sentir um bocadinho perdida e tentar pensar aquelas coisas: "Bolas, mas esta é a coisa mais antiga da humanidade, é nascerem bebês, eles criam-se em situações e contextos muito mais complexos, por que eu não estou a conseguir?" E basicamente o que eu sentia era um sentimento de impotência, de medo, de ansiedade, muita ansiedade. Aliás, eu tive alguns ataques de pânico que me levaram a ir ao hospital. Em episódios infelizes, na verdade, porque há muito desconhecimento também médico, não especializado, em relação ao que se pode fazer a uma mãe que esteja, por exemplo, a amamentar, como era o meu caso, e que passe por isto.
E portanto, medos. Tinha medo de quê? Era de estar com a bebê? Era de não conseguir estar à altura daquilo que a bebê precisava?
Eu acho que racionalmente eu tinha grande dificuldade em perceber o que era. Hoje em dia, sim. Acho que eu pus um grande peso no que era ser mãe e no que era cuidar de uma criança. Talvez tenha idealizado mais do que eu acho que se calhar acontece a qualquer mãe. É mais que humano e saudável, diria eu. E portanto, esse peso de repente caiu sobre mim e sentia-me muito angustiada. Muitas das vezes isto é aquilo que é menos dito, normalmente, porque não é bonito, porque não é suposto. Mas eu pensava muitas vezes: "Mas não era isto que eu queria, afinal? Não era bem."
Arrependeu-se?
Em momentos, era um sentimento de arrependimento, porque naqueles dias, como os dias parecem todos iguais, normalmente.
E grandes.
Grandes. E tudo à volta do bebê, de mudar fralda, de dar o banho, da amamentação, etc. Os dias pareciam todos iguais e portanto, a sensação era: "Eu não quero esta vida, não era esta vida que eu quero para mim. Onde é que está a minha vida? Onde é que estou eu? Não há tempo para a mãe." É ridículo às vezes pensar-se que não há tempo para tomar banho, mas pode acontecer. É tudo tão intenso, que é normal que a pessoa se perca, que a mulher se perca no processo.
Mas a Rita diz que teve ataques de ansiedade que a levaram ao hospital?
Sim.
O que se passava?
Basicamente a minha respiração, fisicamente, e se calhar é bom também para as pessoas que passarem por isso perceberem, eu não conseguia respirar normalmente, que é o típico de um ataque de pânico. Os pensamentos entram em loop e portanto não há a capacidade de me acalmar, de pensar racionalmente: "Ok, a bebê está bem, está tudo bem. Tens uma família, não há fome, não há frio, estão as condições reunidas." Todo este tipo de pensamentos não fazem sentido. Há uma aflição, uma angústia profunda, no meu caso, e de perda de controle emocional e racional. Eu preciso que alguém me pegue ao colo, que me dê colo Porque eu estou cheia de medo e porque não era isto que eu achei que ia viver.
Havia um gatilho para essas situações? Acontecia alguma coisa que lhe provocava essa sensação?
Em parte, o choro. E a minha bebé não chorava quase nada. Mas o choro é uma coisa muito aflitiva, precisamente porque só sabem chorar, portanto é a maneira que têm de se comunicar, mas para mim aquilo era o choro e eu não conseguir acalmar. Aquilo para mim era aterrador. Eu lembro-me de ter tido uma recuperação depois daquelas duas semanas, antes de pedir ajuda, mas depois houve uma tarde em que eu até me senti uma supermãe, até fui à rua, no canguru, com a minha filha. "Uau, já aprendi como é que isto se faz." E chego a casa e ela esteve a chorar três horas seguidas. E eu cantei, fui para a bola de pilates, apaguei luz, acendi luz, sei lá o que eu fiz, estava sozinha com ela. E pensei: "Eu não consigo ser mãe, eu não consigo acalmar a minha bebé. Se eu, que sou a mãe, não consigo, como é que é possível isto?" E ao fim de três horas ela acalmou-se. Eu sentei-me no sofá, entretanto o meu namorado chegou, olhou para mim e parecia que me tinha passado um camião por cima. E tinha, na verdade. E a partir daí a coisa intensificou-se, porque eu acho que o meu sentimento de incapacidade ficou exponenciado por aquele episódio e, portanto, o meu maior medo era ficar sozinha com a minha bebé.
Fugia de ficar sozinha com ela?
Eu cheguei a fazer horários semanais com o meu namorado e com a minha mãe, de forma a que eu não ficasse sozinha com ela. Não era medo de ter delírios, de fazer mal à bebé. Não era esse género de situação, mas era da minha incapacidade, se ela chorasse, de não a conseguir acalmar e de estar sozinha.
Isso acontece quando? Após o parto, duas semanas, começa a ter esses sinais. Quando chega a este ponto de precisar de pedir ajuda e de reconhecer que não consegue estar sozinha com a filha, quanto tempo passou? Já estávamos em que fase?
Eu penso que ela teria umas quatro semanas, talvez.
Estamos a falar ainda assim de um período muito curto, mas com uma intensidade de sentimentos sempre em crescendo.
Sim, sempre em crescendo. Aliás, estava agora a ter aqui uma memória da noite em que, de repente, eu me apercebi: "Eu não estou muito bem." Não se terá passado nada de extraordinário, apenas, e isto também acho que é importante dizer, um cansaço extremo, e isso não ajuda. A privação do sono é outra coisa que também não ajuda. E eu já comecei a ter pânico das noites, de saber que já não ia dormir e também isso me criava ansiedade, o saber que não ia descansar. E uma das noites, de facto, lembro-me de chegar à cama, ficar com a bebé ao lado e até ligar a televisão para ver se me distraía e pensar: "Mas eu não vou dormir, eu vou dormir um bocadinho, mas já não vou dormir mais." E comecei a entrar em loop com isto. E aí, sim, a pessoa perde o controle de conseguir acalmar-se e conseguir racionalizar.
Antes de perceber que aquilo não era só baby blues, disse que teve que ir ao hospital, teve que pedir ajuda urgente. O que é que lhe disseram no hospital? Chamaram-lhe a atenção que podia estar a passar por uma situação de depressão pós-parto?
Não. Eu fui às urgências, portanto, de um hospital.
A dizer que não se sentia bem, que estava angustiada.
Sim, atenção, um parêntesis, eu sou licenciada em Psicologia Clínica, portanto, eu sabia os sintomas e sabia explicar-me muito bem. Cheguei lá com uma explicação e o meu estado era notório, eu tinha muita dificuldade em respirar e estava mesmo muito alterada. E eu tinha este ponto, que era: eu tinha tido facilidade em amamentar e portanto não queria deixar de amamentar. Qualquer medicação que me pudessem dar não podia alterar o leite. E este era o meu maior desejo, mas precisava de ajuda. E então a médica recomendou-me beber chá de tília e de camomila, o que para uma pessoa em pânico é ainda mais assustador, porque é com chá? Isto não vai com chá. Impossível. E vim do hospital bastante preocupada a pensar: "Ok, eu não vou conseguir ter ajuda médica, eu não queria deixar de amamentar, mas eu também não posso estar assim, porque não estou disponível para a minha bebé 100%." E isso também deixou-me muito triste. Ainda pesou mais a ideia de que raio de mãe é que eu sou, que até para conseguir ser mãe tenho que deixar de amamentar, que é uma coisa que algumas mães não conseguem e queriam tanto. Foi toda uma carrasca para mim mesma.
Quem estava à sua volta, o pai, a mãe, que teve que ajudar e acompanhá-la nessas situações em que não queria estar sozinha ou não conseguia estar sozinha com a bebé, perceberam o nível de sofrimento que a Rita estava a atravessar?
Eu acho que foram sensíveis a isso. Perceber, eu acho que só passando pela situação. Também há muitas depressões pós-parto nos pais. E isto é uma coisa ainda menos falada do que a depressão pós-parto das mães. Eu acho que os pais demoram um bocadinho mais de tempo a serem pais e, portanto, às vezes isso só se revela meses depois. Mas isso é para outra
É para outra conversa.
Para outra conversa. Mas a minha mãe não se lembra de ter passado por isto, portanto imagino que não tenha passado por isto. Lembra-se, obviamente, da dificuldade que é ter um bebê pequenino, todas as represálias, em parte, que vêm daí para a mulher, para a sua estabilidade e para o seu dia a dia. Mas acho que só mesmo passando por um processo assim é que se consegue compreender. E não é por mal. É compreensível que pessoas que não tenham passado por isto não entendam na sua profundidade, porque são sentimentos muito específicos, são dilemas muito internos, que mexem com muita coisa e, portanto, é difícil compreender. Agora, o apoio foi total.
Foi total, mas havia sempre a ideia de que são as hormonas, o baby blues, a privação de sono e, portanto, andou sempre ali, mesmo com essa formação em psicologia clínica. Rita, andou sempre a achar: "Isto vai passar com o tempo?" Ou a ideia de que era uma má mãe a perseguia?
Não, eu às tantas percebi: "Isto não vai passar com o tempo. Eu tenho que tomar uma decisão, eu tenho que pedir ajuda a alguém especializado", perceber, de facto, que teria que ser medicada. Aliás, eu já há muitos anos que tenho que ser medicada, porque os meus níveis de serotonina são sempre abaixo de cão e não é possível alguém funcionar e não estar deprimido se os níveis de serotonina não estiverem regulares. Eu durante a gravidez tomei medicação, uma medicação diferente, mas tomei medicação e na altura tinha falado logo com a obstetra sobre isto e ela recomendou-me fazer uma medicação, mas que naquele momento claramente eu percebi: "Isto não é suficiente". Acho que também o meu corpo se desequilibrou de tal maneira. Aliás, eu cheguei a fazer umas análises à serotonina quando depois fui pedir ajuda especializada e acho que o mínimo que devemos ter é 40 e tal, eu tinha sete.
Estava mesmo ali no limite. Ainda antes de decidir, e a decisão foi sua, já percebemos isso, antes do momento em que decide que precisa de ajuda, a Rita estava ao mesmo tempo a trabalhar. Aconteceu em simultâneo o facto de ter um disco para fazer, canções para escrever e para compor, foi em simultâneo?
Foi. Foi o disco que saiu há pouco tempo, portanto algumas canções eu tinha escrito ainda durante o processo de gravidez.
O lado solar.
E outras foram escritas nesse período pós-parto e depressão. Algumas das canções foram escritas com a minha bebê, eu a fazer a Avenida da República vezes sem conta para ela dormir, com o telemóvel a escrever letras, uma espécie de catarse. Sei lá, o "Vai Tristeza". Houve muitas canções que foram sobre isso, foi a maneira que eu tive de me autoajudar naquilo que conseguia, porque acho que não é possível, estando num processo destes sozinha, é muito difícil sair de lá. Por isso é que há mães que estão em depressão pós-parto anos. Se isto não for resolvido, não for tratado, pode ser muito prejudicial para a mulher. Mas eu às tantas percebi, de facto, que isto não ia lá.
Esse lado criativo, que é trabalho, é uma mãe que trabalha, mas é um lado criativo que pode servir de catarse ou não, ajudou? Era o seu momento de fuga ou sentia que era mais difícil ser a Rita Red Shoes, autora e a mãe ao mesmo tempo?
Eu senti uma espécie de manóbra. Acho que não me sentia sequer autora na altura, nem compositora, nem cantora. Sentia-me, sim, uma mãe fracassada. Acho que era isso que eu sentia. Uma mãe incapaz. Aliás, o tipo de pensamentos que tinha eram muito à volta disso, que era muito fraquinha como mãe e como pessoa, portanto depois isto vai alastrando e fica ali um pântano. Apesar de pensar essas coisas todas, o meu núcleo saudável ainda me empurrava para reagir de alguma maneira e a minha reação, de facto, era na escrita. Umas foram canções, outras foram apenas textos, outras foram formas que eu arranjei de organizar o meu pensamento minimamente, ou pelo menos de pôr cá para fora o tipo de coisas que ia sentindo, porque tinha muita vergonha também de as verbalizar. E escrito ficava ali comigo, ficava entre mim e o meu telefone. Lembro-me também de fazer muitas pesquisas sobre o assunto, de ler blogs de mães que tinham passado por isso e que me ajudaram. Outras que me assustaram imenso e que fiquei, até hoje, uma profunda empatia com esse processo, que é eu imaginar-me a passar isto sozinha. Eu e a minha bebê, só. Se eu não tivesse a minha mãe, não tivesse o meu namorado por perto. E sei que há mães a passarem por isso, mais do que o que se imagina, e é muito duro.
Ou seja, ainda antes de pedir ajuda técnica especializada, andou à procura de ajuda também na internet. E dizia que tinha vergonha de assumir o que sentia.
Tinha, porque também tinha medo que me dissessem: "Sim, tu como mãe estás a falhar." Claro que ninguém me disse isso. Aliás, diziam-me o contrário, mas eu não queria essa confirmação externa. Já bastava a minha. Mas o facto ajudou-me no sentido em que eu não me senti tão sozinha no processo. E ajudou-me duas amigas, conhecidas, que entretanto criámos uma intimidade maior, porque também tinham sido mães há pouquíssimo tempo, quase seguidas. E às tantas houve um dia em que o meu humor estava um pouco melhor e eu mandei mensagem a uma delas a dizer: "Isto é assim tão mau quanto me parece? Estou sozinha nisto?" E do lado lá vem uma resposta: "Não, isto é horrível." E nesse dia, apesar do mal todo, eu vi assim um: "Espera, pelo menos não sou só eu com isto. Ok." E ajudou-me ter essa partilha com essas duas amigas, diária quase, às vezes era eu que perguntava, outras vezes eram elas, e era muito semelhante o tipo de pensamentos que se tinha. Enfim, era menos mau. Uma pessoa ia partilhando, ok, não estou sozinha, sou terrível, mas não sou só eu, não sou a única.
Ainda assim não chegou. Houve essa partilha. Quando é que percebe que não chega, nem assim, nem procurando na internet e percebendo que há histórias muito parecidas com a sua, nem partilhando esses desabafos mais íntimos com mães que estão na mesma situação? Por que ainda não chegou?
Porque quando se entra num buraco, apesar de haver alturas e dias em que se consegue começar a trepar para vir ver a luz do dia outra vez, um buraco é um buraco. E é muito difícil se não tivermos uma corda, se não tivermos alguém lá a puxar, porque já se entrou lá e é muito difícil. E estou a falar de um buraco profundo, porque de facto, depressão pós-parto é uma coisa grave. E havia dias em que eu estava um bocadinho melhor, em que eu conseguia pensar um bocadinho mais racionalmente, mas depois havia muitos momentos, e eram muitos, em que era um autêntico inferno para mim, eu só chorava. E passar os dias assim, dias e dias e dias, a minha sensação de que não estava disponível para a minha filha assombrava-me, porque era o que eu menos queria. Eu queria estar disponível, eu queria quase deixar de existir para só existir como mãe, para estar disponível para ela. E às tantas não estava nem para mim, nem para ela.
Deixa-me fazer-lhe uma pergunta horrível: chegou a não gostar da sua filha, de olhar para ela e ela não lhe suscitar amor?
Eu senti isso um dia. E aliás, foi duro não só porque é um sentimento horrível de se ter, mas porque o meu namorado apercebeu-se disso. Ou seja, eu estava um bocadinho em negação de estar com ela. E ele chamou-me a atenção para isso e foi horrível. Mas não era ela, eu depois percebi, não era ela, era a situação, era eu não estar a conseguir lidar com aquilo. E quando temos uma coisa destas à frente, queremos tirar o problema. Houve um dia assim, mas ao mesmo tempo foi bom encarar logo com aquilo de frente, porque pensei: "Não, isto não, porque eu também não quero isto, não quero entrar por aí sequer." Foi momentâneo, mas normalmente as depressões pós-parto têm muito disso, têm muito o rejeitar o bebê. E é legítimo, só que é terrível para uma mãe.
É o buraco. Quando é que tem um clique para pedir a tal corda para sair do buraco ou foi empurrada para essa situação?
Eu queria muito encontrar alguém que me ajudasse e tive a sorte de uma destas duas minhas amigas com quem eu trocava mensagens me falar de um livro, que eu achei: "Agora um livro, um livro sobre bebês, técnicas de bebês e demais. Não estás a perceber, eu estou mesmo mal." Mas de facto esse livro mudou bastante o percurso da minha história. O livro é da Constança Cordeiro Ferreira e chama-se "Os bebês também querem dormir". E pareceu-me ok.
Concorda.
Concordo. Se eles também querem dormir, ótimo, vou descobrir como. E além do livro ser obviamente bastante bom, com explicações muito interessantes sobre a ligação mãe-bebê, coisas ancestrais e tudo, aquilo que mais me tocou foi o prefácio dela, em que ela falava deste tipo de coisas. Quando foi mãe pela primeira vez, e a Constança é mãe de três, de não conseguir, a filha chorava imenso e ela não conseguia acalmar. Ela passava noites em claro, sozinha, a olhar pela janela e às vezes tinha que a pôr no berço porque já não aguentava o choro e pensar: "Mas como é que eu dou a volta a isto? Como é que é ser mãe? Ninguém ensinou esta parte." E aquilo tocou-me profundamente e então aí fui explorar. E existem mais, mas eu recomendo sempre o Centro do Bebé, que é onde a Constança trabalha, que tem uma equipa especializada no pré-parto e no pós-parto e que dão primazia ao bem-estar da mãe, não tanto do bebê. Quer dizer, obviamente do bebê, mas primeiro, ela disse-me, na altura eu falei com ela ao telefone e ela disse-me: "Não, primeiro vamos tratar de ti, porque a Rosa está bem, está a comer, dorme quando pode, está tudo a funcionar bem, a pediatra diz que ela está bem. Ok, então quem precisa de ser cuidada és tu." E essa equipe ajudou-me imenso, porque a equipe tem psiquiatra, tem psicólogos que acompanham, tanto mães como pais. Tinha a Constança, que dava muitas dicas de como lidar com algumas destas questões.
Avisou lá em casa: "Eu vou pedir ajuda, porque não estou a aguentar mais?"
Sim. Eu disse: "Não, eu preciso de ajuda, isto não vai lá assim." E, portanto, sim. Aliás, o Bruno, o meu namorado, foi comigo à primeira consulta com a psiquiatra, para também perceber do que é que estávamos ali a falar. Isso era muito importante.
E nunca lhe disse: "Que disparate, isto acontece e vai passar." Não?
Não, ele dizia-me que achava que eu tinha todas as capacidades e mais algumas para ser uma mãe incrível e que, portanto, isto seria um período de adaptação. Mas não era só um período de adaptação.
E então vai a esse primeiro contacto, não sei se lhe chamo consulta, um primeiro encontro. Foi consulta?
Sim, foi por telefone. Eu estava muito aflita, estava muito angustiada. E falei com a senhora da receção, a Paula, e disse-lhe: "Não está a perceber, mas é que eu estou mesmo aflita." E estava a chorar e ela do lado de lá percebeu: "Ok, está aqui uma mãe em aflição." Pôs-me em contacto com a Constança, e a Constança disse-me isto, que primeiramente era eu que precisava de ajuda e pôs-me a falar com a psicóloga que me tem acompanhado até hoje e que me ajudou logo naquele telefonema, ajudou-me bastante. Pediu-me uma coisa muito simples e que me pareceu: "Ai, que bom!" Que foi: "Vá comer qualquer coisa da qual goste muito e vá tomar um banho, peça para ficarem com a sua filha, vá tomar um banho a ouvir a música que mais gosta." E aquilo, no meio do caos que é para uma mãe, aquilo foi tão reconfortante para mim, dizer assim: "Pois, eu também tenho direito a fazer estas coisas antes. E eu preciso de um bocadinho de colo para mim."
O que é que comeu e o que é que ouviu, lembra-se?
Sim, comi um croissant com doce de ovo, que eu adoro, e fui tomar um banho que durou para aí 20 minutos a ouvir uma playlist das músicas que eu prefiro. E aquilo soube-me pela vida. Cheguei à sala: "Ok, já estou um bocadinho melhor." Sabia, porém, que tinha um longo processo pela frente, mas só o facto de ter alguém que compreendeu o que se estava a passar comigo e que me deu ali, pelo menos duas coisas: faz isto e isto, porque é mesmo muito útil alguém de repente olhar para nós, dizer: "Ok, é isso, já percebemos que estamos aqui neste sítio, vamos fazer isto, isto e isto, vamos fazer aqui um plano para sair daqui e vamos sair. E vamos começar com coisas muito simples." E aquilo deu-me esperança. Depois dessa consulta com a psicóloga, fui então rapidamente vista pela psiquiatra do Centro do Bebé, que obviamente me ajudou, ouviu, fez-me muitas perguntas. Estamos a falar de pessoas especializadas que quase todos os dias lidam com mães muito aflitas, e famílias. E que me disse, alterou-me a medicação, disse: "Tem que dormir, tem que descansar, porque senão não se consegue sair deste ciclo." Alterou-me a medicação. Ajudou-me muito o facto de eu poder tomar medicação e continuar a amamentar a Rosa, sem que houvesse repercussões para ela. Isso tirou-me um peso enorme de cima. E a verdade é que com a medicação e com a psicoterapia, de falar sobre o assunto, estive ainda um mês e meio mais assim na fossa, mas depois comecei a conseguir respirar e a usufruir da Rosa, que era esse o meu grande desejo.
E ouviu o diagnóstico? Está a sofrer de depressão pós-parto. Ouviu esse diagnóstico?
Sim, de uma forma muito natural. A depressão para mim não era uma novidade, como já disse. Era uma novidade naquele contexto, mas o tipo de sentimentos que eu tinha muitas das vezes eram semelhantes àquilo que eu também já conhecia. Eu acho que é capaz de ser até bastante mais assustador para uma mãe que nunca tenha passado por um processo depressivo, de repente entrar num filme destes. No meu caso, havia muitas coisas que eu conseguia nomear. E, portanto, não tive esse choque de ouvir: "Ok, está com uma depressão pós-parto." Até porque eu já desconfiava que fosse assim. Mas mais do que o diagnóstico em si, é o desmistificar isso e tirar o peso de cima da mãe de que não é por passar por uma depressão pós-parto que se é pior mãe. De todo.
Houve momentos em que pensou isso?
Sim.
Mesmo depois de diagnosticado, pensou: "Isto é porque não fui desenhada para ser mãe."
Sim, eu dizia muitas vezes na terapia que o sentimento de culpabilidade que eu tinha era esse, era de deixar marcas na Rosa, de uma mãe ausente, de uma mãe que de alguma forma ela pressentisse que não era desejada, porque me tinha deixado naquele estado. Essa foi a minha maior batalha, mesmo em terapia, foi ultrapassar isso. Hoje em dia não sinto isso, e isso é o bom. Não sinto nada disso e não sinto que a Rosa tenha ficado traumatizada, falando assim de uma forma muito simples, com o meu processo. Porque, na verdade
Apesar de se poder passar por estes processos, e há processos mais complicados do que o meu foi, obviamente, mas o amor está lá e a relação está a ser construída, não é uma ausência de relação. Pode não ter corrido logo às mil maravilhas, mas não há ausência de relação e, portanto, o bebê sente isso. E se calhar até tem o que precisa naquele momento, que é comida, tem um colo e não precisa de muito mais. Essa terapia foi um mês e meio, está a dizer?
Não, essa terapia dura até hoje. Dura até três anos.
Dura até hoje.
Sim.
O que diria que foi? Primeiro impacto, descobriu que podia ter tempo para si e ter o tal colo. O que é que mudou mais? O que é que aprendeu a fazer?
Uma depressão pós-parto tem a questão de todas as alterações hormonais e que se podem dar também a outros níveis.
É uma questão fisiológica. Mas era mais do que isso.
É mais do que isso. Eu creio que, não acontece a toda a gente, e também há um motivo para isso, provavelmente. Eu acho que pode ter a ver com o peso que a mãe pode dar a este papel. Pode ter que ver com um mergulho profundo, que se faz depois de se ser mãe, interno, e que mexe com uma data de coisas, nomeadamente com a nossa infância, com a relação que tivemos com as nossas mães, pais ou educadores, enfim, tudo. E de repente, numa terapia, em que se vai com este foco, vai-se tratar a Rita pequenina. Portanto, muitas das vezes, o que eu aprendi a fazer foi ouvir, dar atenção à Rita pequenina, para ela não me incomodar mais, porque agora já não sou pequenina, apesar de gostar muito de colo na mesma. Mas foi ouvir-me, de forma a deixar essas questões resolvidas na minha infância e de agora ser mãe e de saber que as histórias não se repetem. E a Rosa é diferente de mim e vai ter uma história diferente, porque eu vou ser uma mãe diferente, porque todas as dinâmicas à volta são diferentes. Esse é um tesouro neste processo, que é o encontro conosco mesmas, o respeito que ganhamos e todos esses fantasmas, empecilhos e dúvidas se de facto fomos amados incondicionalmente quando éramos pequeninos e essas coisas todas que são fulcrais no nosso crescimento, pensar, ter tempo para pensar sobre isso, ir lá a esse sítio onde fomos bebês, que também pode ser doloroso, e resolvermo-nos enquanto crianças.
Quando é que dispensa a avó e o pai de estarem consigo e com a sua filha?
Ainda demorou algum tempo. E tenho que admitir que ainda hoje, se eu sei que vou ficar sozinha com a minha filha durante muito tempo, passar dois dias, três, ainda penso nesses dias, ainda penso: "Será que eu vou ser capaz?" Mas não é uma coisa aflitiva. Qualquer pessoa pensa: "Será que vou resistir a uma criança de três anos que não para durante dois dias?" Mas a dada altura, e passaram ainda uns meses, consegui fazer uma coisa muito importante para mim, que foi dizer à minha mãe, foi quando a Rosa fez seis meses, dizer: "Mamã, eu preciso de trabalhar. E então tenho uma proposta, que é em vez de tu vires cá para casa, porque senão a Rosa está sempre a querer a minha e estar comigo, eu vou deixá-la tua casa e venho para casa trabalhar e depois vou buscá-la." E assim foi. E isso ajudou-me muito a voltar um bocadinho à minha rotina, àquilo que eu também sou enquanto pessoa, enquanto adulta, enquanto mulher. E também dar esse passo. Eu acho que não teria sido capaz. Se não tivesse outro remédio, teria custado muito ter que deixar a Rosa aos seis meses num infantário, numa creche. Eu acho que deve ser muito duro para as mães. Foi menos mal porque ficou com a minha mãe, mas foi importante para as duas, eu acho. Começar a viver a vida como ela era e é, e vai ter que ser, porque eu tenho que trabalhar, mas agora com a Rosa.
Portanto, é como se as duas tivessem já o lugar certo, o espaço certo.
Sim. Trata-se mesmo disso, de negociação de espaço. E de encontrarmos o espaço e o tempo para podermos também termos tempo para nós. Para depois sermos melhores mães, e lembro-me da minha terapeuta me dizer muitas vezes que eu seria melhor mãe se continuasse a ser artista, do que se desistisse para ficar só com a Rosa. Isso tocou-me muito.
Porque chegou a considerar isso? À procura de ser essa mãe perfeita?
Passou-me pela cabeça. Sabia que eu não ia aguentar isso durante muito tempo, mas passou-me pela cabeça, de repente estar só disponível para a minha filha. E também porque me sentia fragilizada e ir dar concertos com aquele peso da depressão era duro.
Isso chegou a acontecer?
Chegou.
Ter que subir ao palco com esse sofrimento todo para trás.
Chegou. Chegou agora e muitos anos para trás também. Mas fez-me sempre melhor do que pior, porque o palco e a música têm esse poder de ser um confronto comigo mesma, ao mesmo tempo partilhado com outras pessoas. Portanto, há uma luta interna da qual eu sinto que venci no final, mas onde não estou sozinha. Tenho os músicos, tenho a música, tenho o público.
Mas está sempre a desafiar-se quando passa por isso.
Sim. É um desafio que eu sei que vou ter para o resto da minha vida. Mas também sentia isso. Quando eu voltava para casa depois dos concertos para a Rosa, eu estava mais inteira. Não estava tão despedaçada, porque tinha ido cumprir uma das partes que eu acho que é uma missão da minha vida também, além de ser mãe.
Diz que ainda está a fazer terapia e quando um dia lhe disserem: "Podes ir, já não precisas das rodinhas."
Tem acontecido. Agora faço pontualmente, já não é uma coisa semanal. A dada altura, quando eu arrumei a minha Rita pequenina, a minha terapeuta disse: "Agora está na altura de virar à vida." E foi um processo que eu acho que é importante ser uma coisa também.
É um desmame.
Um desmame, completamente. E hoje em dia tenho pontualmente momentos em que já não se prende propriamente com a questão da maternidade, mas com outras questões internas e que algumas também ainda vêm de infância, recorro à terapia e é sempre um bom momento, porque, de facto, uma pessoa entra em contacto consigo mesma. E às vezes, quando estamos sozinhos, fugimos um bocadinho disso. E eu acho que é importante para qualquer mãe que passe por isso, sem dúvida, além da medicação, uma terapia.
E manter esse laço, essa ponte. Já disse que a ideia de ficar dois, três dias com a Rosa pode ser desafiante. As crianças fazem birras, não fazem sempre o que queremos. Sente que há momentos em que recorda essa fase difícil ou já estamos noutro plano completamente diferente?
Estamos noutro plano, mas uma vez passando por ali, não é possível esquecer. Eu tenho muitas memórias daquele tempo em que estive profundamente deprimida e em que a Rosa era muito pequenina. Não acho que me vá esquecer disso. Aliás, pergunto-me muitas vezes se eu quero voltar a ser mãe.
Era a minha próxima pergunta.
E vem esse fantasma, como é óbvio, vou passar pela mesma coisa. Pela mesma não seria. Mas não vou dizer que não tenho esse medo. Tenho.
Portanto, não acha que adquiriu os instrumentos, as estratégias para conseguir lidar com esse buraco que já conheceu tão bem? Não tem a garantia de que possa voltar a recorrer à estratégia que usou com a Rosa numa eventual próxima maternidade.
Sei que tenho ajuda, sei onde procurar e tenho ferramentas. Se vou conseguir ultrapassar isso de forma airosa, não tenho a certeza. Não tenho garantia disso. Nem acho que se possa ter.
Porque é que as mulheres não contam estas coisas umas às outras?
Isso era o que eu me perguntava muitas vezes. Mas que raio de coisa, isto não é só lacinhos e cheira a bebé. Não, isto é uma dureza. Eu evito. Acho que há um bocadinho de pudor. Sei lá, agora a minha cunhada está grávida, deve estar a nascer o bebé esta semana para a semana, e eu evito ter este tipo de conversas com ela, porque não a quero assustar, obviamente. Não sei se é essa a questão que não leva as mulheres a falarem disso no pré, antes do bebé nascer, não sei se será. Será um instinto de sobrevivência que as mulheres têm. Não vamos dizer que isto é assim tão mau, porque senão de repente não há mais crianças no mundo. Mas é muitas vezes um tabu. Porque também tem a ver, obviamente, com o papel da mulher na sociedade e com supostamente a mulher vai ser mãe, como se fosse um dado adquirido. Nascem para ser mães e para cuidar da família, portanto, isto é uma coisa que não tem que saber. As mulheres são isso. Vêm com isso, vêm com essa programação para cumprir. Só que não é assim. Não é de todo assim. E os pais também não. Só que os pais, durante muito tempo, em muitas sociedades e ainda hoje, se demitem muito de algumas das tarefas e do que é de facto passar um dia com um bebé recém-nascido em casa. Que é muito duro. Tem momentos muito bonitos, mas quer dizer, os bebés, falando agora aqui com um bocadinho de humor, só começam a ter alguma piada aos quatro meses, porque até lá não se passa grande coisa. A pessoa fala para o ar, imagina que o bebé ouve e que entende alguma coisa. Não dá para brincar. Por muitas coisas que eu imaginasse, por exemplo, fazer aqui atividades Não há reação e tudo isso é muito frustrante, porque não há um retorno direto, só há trabalho. Esse lado é que ninguém nos diz: "Ao início, isto é uma chatice terrível."
Mas está a evitar dizer isso à sua cunhada.
É verdade. Eu vou dizendo umas coisas às vezes horríveis, mas vou tentando precaver. E já lhe disse: "Eu estou cá, o meu telefone vai estar 24 horas ligado, o que for, tu dizes." E já tive uma amiga que foi mãe depois de eu já ter passado por isto tudo e creio que a ajudei com as minhas partilhas e no momento. Porque eu acho que também há um lado que só quando se tem ali o bebê é que se percebe. Acho que há coisas que se eu disser a alguém que ainda não é mãe, que não tem um bebê, parecem um bocadinho esotéricas, não fazem sentido. Mas acho que se deve falar socialmente, sem particularizar, acho que devia ser muito mais falado, muito mais conversado o que é isto. Sobretudo tirar o peso de cima das mães.
A sua relação com a Rosa nesta altura é perfeita?
Eu acho que sim. Eu sou muito orgulhosa da relação que tenho com a minha filha e sou muito orgulhosa da minha filha. E acho que temos uma ligação muito forte. Se ela me vai odiar daqui a uns anos, é provável, faz parte e é até saudável. Mas não sinto, por exemplo, que a Rosa, que era também um medo meu, se sente insegura comigo, ou seja, que não sou um porto seguro. Não, qualquer coisa, mãe. Então, acho que represento qualquer coisa suficientemente consistente para qualquer perigo, é para a mãe que eu vou correr. E eu acho que isso é um sinal bom. Ao mesmo tempo, é superautónoma, que também é outro sinal ótimo. Ou seja, eu também não quero que a minha filha seja dependente de mim, de todo. Tem a sua autonomia, mas se houver um perigo ou um desconhecido: "Mãe?" E eu: "Ok, está tudo certo."
Vai correr bem. Quando olha para trás, o que é que sente? O que é que pensa?
Hoje em dia já não penso tanto naquilo que eu passei, mas fico muito atenta e sensibilizada quando vejo alguém grávida, quando vejo uma mãe sozinha com um bebê, um carrinho, sensibiliza-me muito. E aquela mãe pode estar impecável, não ter passado nem nada e ser completamente feliz naquele contexto todo. Mas é inevitável que eu regresse às minhas memórias nessa altura e é inevitável que eu me sinta automaticamente alerta e disponível para alguém a passar por esse momento. Acho que é isso que eu guardo mais, neste momento, de toda a experiência que tive. E também dizer que ter sido mãe foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. E agora vou tentar não me emocionar nesta parte. E que faria tudo outra vez, passaria tudo para chegar aqui.
Obrigada.