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Há uma Liliana antes e uma Liliana depois da perda da tua mãe?
Há. E uma Liliana bem diferente, porque com a perda da minha mãe, eu me senti órfã. Nós usamos esta palavra muitas vezes ao longo da vida, mas só quando já não temos o pai e a mãe é que sentimos o que é realmente ser órfão. E ser órfão é: contas contigo. Só contas contigo. Aquelas pessoas que tu sabes que dariam a vida por ti, não que tu quisesses que dessem a vida por ti, mas que fariam tudo, já não estão cá. E tens amigos, tens marido, tens irmãos, mas pai e principalmente a mãe, quando partem, é um buraco. Quando a minha mãe partiu, ficou um buraco enorme, que eu tive que saber preencher. Ainda estou nesse processo. E a palavra órfão é muito triste.
É uma palavra muito pesada.
É muito pesada e é triste.
Porque a orfandade é a solidão, ficamos mais sós ou somos obrigados a ficar mais fortes? É por onde essa carga?
Eu acho que, no meu caso, foi só. Mesmo com os melhores amigos, com uma família, primos, e o meu irmão, e tendo a minha sobrinha, mas foi o ficar só. Eu tinha uma relação com a minha mãe, éramos muito uma com a outra. Eu ligava à minha mãe, por incrível que pareça, e na agitação da nossa vida, umas cinco ou seis vezes por dia, ou se não ligasse, eu ligava à mãe, e estava sempre com a minha mãe, todo o tempo que podia, mesmo em trabalhos que eu ia para fora, ficava fins de semana em trabalho. Se houvesse forma de levar a minha mãe comigo, eu levava a minha mãe comigo para o trabalho. Não ia exatamente para o sítio das reportagens ou para as apresentações de eventos, não ia, mas ia comigo, ficava no hotel, depois eu terminava e no dia seguinte íamos passear. E contava tudo. Imagina, hoje terminava esta entrevista, a primeira coisa que eu fazia era telefonar à minha mãe. E passado este tempo todo, nós estamos em televisão e sabemos a linguagem dos frames. Um segundo divide-se em 25 frames. Eu, por frames, ainda pego no telefone para ligar.
Passados seis anos.
Passados seis anos. No fundo, passados 10, porque quando a minha mãe teve um AVC e ficou completamente dependente, claro que eu nessa altura já não ligava para partilhar estas coisas. Durante os primeiros tempos ainda conseguia falar ao telefone, mas depois já não era possível.
Portanto, passaram seis anos da partida da tua mãe e quatro em que foste uma das cuidadoras.
Sim.
Quando é que começaste a sentir que isso estava a mexer com a tua saúde mental, com o teu equilíbrio?
Não senti logo, porque a correria que tu entras, a azáfama, a espiral. Entras numa espiral de querer estar presente, de que nada falhe, que te esqueces de ti, mas não te apercebes que te estás a esquecer de ti. Porque o que interessa naquela altura é que ali nada falhe e há muita coisa que pode falhar. Porque se tu queres dar todo o conforto e tudo aquilo que, não é o amor, mas mesmo materialmente, para que nada falhe, e tens que continuar a trabalhar e tens que continuar a sorrir. A tua vida continua, mas entretanto tens que ir ao médico pedir as receitas, tens que ir à Santa Casa comprar as fraldas, porque é mais barato, tens que ir à Liga dos Amigos do Hospital comprar os Protex, porque lá é mais barato. E quando eu digo mais barato, tu procuras sempre o mais barato, porque é tudo muito caro. Eu acho que as pessoas não fazem a mínima ideia, quando tu tens alguém acamado, completamente dependente e que queres ter contigo em casa. E se quiseres pôr num bom sítio, também é muito caro. E tens que continuar a trabalhar e não tens dinheiro. Não tens dinheiro, não tens ninguém que te ajude, não tens dinheiro de família. A minha mãe não tinha reforma, portanto, fica dependente também de ti financeiramente. Isso foi um choque muito grande perceber o dinheiro todo que tu ganhas no teu ordenado, praticamente é para ali, direciona-se para ali.
Portanto, havia o choque emocional de lidar com uma pessoa que já não era a mãe que conhecíamos, essa pressão financeira.
A pressão financeira.
Não havia tempo para pensar em ti.
Não. Se queres que eu te diga, o trabalho era o meu refúgio. Era onde eu era eu, um bocadinho. Porque passas a estar num alerta. Eu tive muitos problemas de sono, ainda tenho, porque o meu sono era um sono de alerta, o pânico do telemóvel tocar Mas durante aquelas horas que estás ali a trabalhar e que estás em direto ou que estás a gravar e que não tens o telemóvel ao pé de ti, se calhar era o único tempo em que tu não estás dependente de uma chamada telefónica. Mas mal faltava um minuto para acabar o que estás a fazer, "onde é que está o telemóvel? Que eu tenho que ir já ver." Portanto, tu estás com uma dependência terrível. Só quando estás a fazer um direto ou a gravar qualquer coisa é que sabes que não podes estar agarrada ao telemóvel. E portanto, o trabalho nessa altura foi um refúgio. E uma necessidade enorme que tudo corresse bem, porque aquele dinheiro era crucial para continuar a dar à minha mãe todo o conforto que ela merecia. E também, na altura, o meu irmão ficou desempregado. Eu acredito que as coisas não são por acaso. E acredito que o meu irmão ficou desempregado e a empresa dele deu insolvência, ele não recebeu indenização nenhuma. Mas para ele poder ficar em casa com a mãe, porque outro dos problemas com que eu me deparei foi: eu precisava de alguém que estivesse com a minha mãe durante o dia. Eu não tinha dinheiro para pagar uma pessoa que estivesse durante a noite, portanto, dividia com o meu irmão. Principalmente ele, porque eu trabalhava à noite, tarde da noite. E também foi numa altura que coincidiu com o divórcio dele e ele teve que voltar para a casa da minha mãe, exatamente pouco tempo antes da minha mãe ter o AVC. Acho que tudo se conjugou para ele estar lá.
Sim, no meio das dificuldades, houve algumas coisas que não correram tão mal.
Sim. Na altura, parecia que tudo estava a descambar. Foi muito difícil encontrar pessoas com currículos fantásticos, mas depois que na prática percebessem o que era importante para nós e principalmente para a minha mãe. E encontrei pessoas horríveis, más, e encontrei dois anjos, principalmente, que ficaram depois com a minha mãe até ao fim e a quem eu serei eternamente grata, porque a amavam. Aquilo não era o trabalho, porque muitas das outras pessoas era quase como se fosse um papel que estava ali, que podia ficar em cima da secretária e na segunda-feira voltavam a pegar no trabalho. Não. E não podias faltar ao trabalho só porque sim. Porque quando tu faltavas ao trabalho, havia uma pessoa que precisava de comer, da higiene, e eu, como estava a trabalhar, estava a contar com aquilo. Dos medicamentos, a princípio, também. E portanto, a partir de uma certa altura, eu e o meu irmão percebemos que um de nós tinha que estar sempre presente. E nunca largamos a minha mãe, ou ele ou eu. Mais ele, nessa parte de estar ali, e eu na logística toda de andar sempre para trás e para frente com médicos, hospitais, exames, chamar isto, chamar aquilo. É tanta coisa, Carla, que eu hoje em dia não sei como é que eu consegui. Porque eu hoje em dia não faço um terço da minha vida, das coisas que eu tinha que fazer. E se tivesse que fazer, eu não sei como é que eu conseguia gerir a agenda, porque estava sempre desde manhã até à noite numa correria louca.
E quem estava à tua volta nunca te alertou para isso? Começa a haver alguma sensibilidade para o papel do cuidador. Nunca ninguém te chamou a atenção para isso?
Não, porque as pessoas acham que ela trabalha em televisão, ganha muito dinheiro. Tem o marido que tem um resort nos Açores, portanto, não precisa. E as coisas não são assim. Tu sabes que em televisão contam-se pelos dedos das mãos, provavelmente, aqueles que têm ordenados milionários. E depois nós temos muitas vantagens, sim, tenho, agradeço. Tive oportunidades na vida de fazer coisas únicas, mas o nosso ordenado é talvez um bocadinho acima da maior parte das pessoas, mas não são ordenados milionários. E eu para poder ter a minha mãe com as condições que eu queria, eu tive que alugar a minha casa. E tive que vender outra casa, porque de repente fiquei sem os inquilinos e pensei: "Bem, eu não vou ter dinheiro para aguentar a pagar mais esta renda." Eu sou péssima em negócios. Péssima. E ali nunca vi ninguém vender uma casa e ainda ficar a perder dinheiro. Uma casa bem localizada.
Aconteceu-te.
Aconteceu-me. Com o pânico de ter que ficar com aquela despesa, mais uma despesa, quis tanto despachar aquilo que hoje em dia penso: "Meu Deus, que burra!" Mas eu não podia ter mais uma despesa a acrescentar, porque eu tinha o meu irmão desempregado, tinha a minha mãe naquelas condições. O meu irmão tem uma filha, que é o meu amor maior, que é a minha Carolina. E portanto, o dinheiro estava todo destinado. Qualquer coisa que fugisse do meu controle ia ser um problema.
Ao mesmo tempo, estavas numa corrida contra o tempo, foi uma expressão tua, porque ao mesmo tempo estavas a tentar engravidar.
Eu não estava logo a tentar engravidar quando isto... Sabes quando nós pensamos que temos tempo? Não temos tempo. Eu aconselho todas as mulheres, todas as senhoras, pelo menos a fazer uma coisa que eu gostaria que me tivessem alertado, que é congelar os óvulos a partir de uma determinada idade. Eu achei sempre que ia ser mãe Tenho um instinto maternal muito forte, gosto muito de crianças e achei sempre que ia ser mãe. Mas também das relações que eu tinha tido, eu não tinha encontrado aquela pessoa que achava que era o pai ideal para os meus filhos. Sempre fui muito de pensar. Se calhar, se não tivesse pensado tanto, as coisas tinham sido de outra forma. E entretanto, eu conheço o Rodrigo já há muitos anos. Eu e o Rodrigo apaixonámo-nos e está aqui o pai para os meus filhos. O Rodrigo já tinha dois filhos, mas também queria ter um filho comigo. Eu estava com 40 anos, tudo bem, hoje em dia já não era uma idade, mas hoje em dia as mulheres são mães mais tarde. Estávamos a viver um momento mesmo muito feliz, muita paixão, muita cumplicidade. E o Rodrigo conheceu a minha mãe num sábado e eu no sábado a seguir, do fim de semana a seguir, conheci os pais dele. E no domingo a minha mãe teve um AVC. E aí disseram que era grave. Mas como a recuperação naqueles primeiros tempos foi muito boa, eu nunca percebi que era tão grave. E portanto, aqueles primeiros tempos eu não sabia bem, foi: "Vamos viver juntos, já alugas a tua casa." E pronto. Ainda bem que assim foi, porque aquele dinheiro do aluguer da casa foi muito importante para todo o resto. E eu pensei: "Se calhar agora não é mesmo a melhor altura, se calhar mais um ano, espero." Só que a minha mãe piorava todos os dias um bocadinho. Dizem que há formas de cuidar, não é? De cuidar quando a pessoa está acamada, de tratar. E eu tive boas enfermeiras que me explicaram, mas o meu cérebro fez um reset a tudo aquilo que me explicavam. Portanto, eu fazia tudo com força, à base da força, mas não é, é à base do jeito. E o meu irmão soube fazê-lo à base do jeito. Para mim era muito extenuante. Eu saía cheia de lesões nas costas.
Fisicamente era mesmo muito exigente.
Exigente. E a minha mãe preferiu o meu irmão, porque ela sabia, sentia, que eu estressava muito com aquilo, com medo de magoar. Tentar protegê-la o máximo possível, fazia uma força completamente desnecessária. Mas eu não aprendi e hoje em dia não sei, também não quero saber como é que se faz. Mas tivemos momentos que eu me assustei. Uma vez estava a tentar virá-la e tive que agarrar nela e de repente caímos as duas e eu fiquei por baixo e estava só nós duas em casa. Comecei-me a rir, tipo a disfarçar. E a minha mãe tinha ausências, mas também tinha momentos muito presentes. Também se começou a rir. A minha mãe era muito magrinha, sempre foi. E depois com a doença ficou mais ainda, mas pesava muito, porque fica um peso morto. E aquele momento de pânico de: "Como é que eu vou tirar a minha mãe de cima de mim? Depois como é que eu a ponho na cama?" Lá conseguimos, mas fiquei fisicamente completamente exausta, mas o importante era que a minha mãe não passara o estresse pra minha mãe. Depois até consegui agarrar e disse: "Olha, já não danças há tanto tempo, vamos lá, não sei o quê." Foi assim uma coisa meia estranha, mas quando a vi deitada na cama novamente, foi assim tipo: "Consegui." Mas isto para te dizer que fisicamente pensei: "Não posso engravidar, porque eu tenho que fazer isto." Claro que podia ter engravidado. Claro que podia, porque o meu irmão estaria lá, as outras pessoas estariam lá, mas é o estar a adiar.
É o não se pôr em primeiro lugar.
Eu quando digo que podia ter engravidado, na verdade, eu não sabia se depois ia ter dificuldade ou não em engravidar, mas a ideia, se estivesse tudo bem, podia ter começado a tentar muito antes e provavelmente podia ou não ter acontecido, mas é sempre a pensar positivamente, que podia ter engravidado. E se não pudesse pegar na minha mãe, havia quem me ajudasse. Só que eu também sempre tive a mania que eu é que sei fazer as coisas. E esta conversa que eu te digo hoje em dia, que o meu irmão sabia fazer muito, isto foi mais tarde que eu constatei, porque eu tinha que estar lá. E isso foi outra das coisas que eu fazia diferente. Eu tive muito cedo que começar a tomar decisões difíceis, porque eu perdi o meu pai muito cedo. Com 24 anos. Fiquei eu a gerir uma casa, porque a minha mãe nunca tinha trabalhado, o meu irmão ainda estava a estudar, e eu tive essas responsabilidades. E então comecei a decidir coisas que nem sabia o que é que estava a decidir. É por aqui ou é por ali? É para ir por aqui, porque eu estou a dizer que é para ir por aqui. Estou te a falar, imagina, coisas como comprar uma casa. Nunca tive ninguém que me elucidasse exatamente: "É melhor por causa disto, do SPRE, agora não vou falar nada dessas coisas." Mas foi sempre conselhos do senhor do banco, que se calhar estava a me dizer aquilo que era melhor pra ele. Não tive um pai e a minha mãe também não percebia nada dessas coisas, portanto, eu é que decidia. E uma vez tive a conversa com o médico. Estavas a perguntar se me alertaram. Alertaram, os médicos alertaram que eu não podia deixar de viver a minha vida e que era importante não deixar passar a vida ao lado.
Mas não ouviste, portanto.
Não ouvi. Mas houve um neurologista a quem eu perguntei, porque as pessoas diziam: "Tu és muito chata com a mãe. Deixa-a." E eu perguntei ao médico e o médico disse que tem que haver sempre uma chata de serviço pra comer, pra beber, pra se sentar, pra mudar a posição. E eu aí era muito rigorosa, se é hora de comer, vai comer e vai comer isto tudo. Pelo menos isto tem que comer. E ficava horas ali até comer. Se é pra beber, tem que beber um litro d'água por dia. Não é um exagero, mas então tem que beber. Enquanto não bebia aquele copo d'água das 11:00 da manhã, eu não saía dali. Portanto, eu tinha que estar sempre presente em tudo.
Uma dedicação exclusiva. E foste te dedicando daquilo que eram os teus projetos pessoais.
Sim, mas não percebi que estava a abdicar.
Sim. Quando é que percebes?
Percebo quando, a nível da minha relação com o Rodrigo, começaram a dizer: "Vê lá, porque não estás tendo..." O que é que acontecia? Ao fim de semana nós não tínhamos lá ninguém. Portanto, os fins de semana era o sábado o meu irmão e o domingo era eu. Ou então, se havia alguma coisa, trocávamos, mas era eu. Estávamos os dois na mesma, mas imagina, se o Sporting jogava, o meu irmão queria ir ao jogo, então estava eu. Nunca ficava sozinha, a minha mãe nunca ficou sozinha um minuto que fosse. Sozinha, sem mim e sem o meu irmão, porque claro que tínhamos lá as senhoras.
Mas não tinhas tempo pra ti, nem pra tua vida pessoal, pra tua relação.
Nem pra minha relação. E descuidei muito aí, apesar de não me ter apercebido de nada disso. Pra mim, isso era secundário. Se me apercebesse, era: "Quer lá saber disso. O que me interessa agora é que isto é que é o meu foco." Mas não te vou dizer que era assim. Quando tinha, muitas vezes, que levantar pra ir pra lá pro domingo, que eu sabia que era mais difícil, eu não ia com o maior prazer do mundo. Tinha que ir. Depois de lá chegar, claro, via a minha mãe. A minha mãe era a pessoa mais serena e ternurenta que tu possas imaginar. Os próprios médicos diziam que a serenidade que a minha mãe tinha, ajudou muito para que se deixasse ser cuidada, porque nunca houve uma revolta, nunca houve um porquê. E achou sempre que ia melhorar. E isso também passava pra nós, porque de repente também dava por mim a achar que as coisas iam melhorar e quando melhorassem, eu ia ser mãe, ia ser muito feliz. Ia ser muito feliz porque ia ser mãe. Entretanto, o que eu comecei a sentir? Que comecei a ter falhas no período menstrual. Quando estava cá, nesta azáfama toda, tinha falhas. Imagina, depois conseguia ir de férias e consegui fazer férias uma semana, 15 dias, porque tinha uma prima minha, a quem também sou muito grata, que nessa altura ficava com meu irmão a tomar conta da minha mãe, quando o meu irmão, coitadinho dele, nem queria ir. Mas às vezes, sendo um fim de semana, ficava então a minha prima pra me ajudar, principalmente nessa parte da logística das fraldas e de tudo o que implicava virar e mudar. E aí quando eu estava descansada, se eu descansasse um bocadinho, esse mês já voltava a ser regular.
E, portanto, achavas que tinha a ver com o estresse, com o ritmo dele?
Completamente.
E não era.
Completamente. Não era. Uma parte pode ter sido, foi o que os médicos disseram, porque eu depois quando se soube que estava com uma menopausa precoce, também me disseram que era devido ao estresse que eu estava a viver naquela altura. E quando a médica me diz isso, a minha ginecologista me diz isso, eu ia sempre à médica, e disse: "Provável que esteja aqui com uma menopausa." E aquela palavra, quando eu ouvi aquela palavra.
Que idade tinhas, Liliana?
Tinha 43, ia fazer 44. Sabes que eu sou péssima com esta coisa dos anos. Como foi uma época tão dura, eu acho que quando eu fiz o reset a saber cuidar da minha mãe, também aos números. Eu não consigo localizar bem.
Sinto bem, mas tinhas 40 e poucos anos.
Sim, tinha 43, 44. Mas nessa altura a médica alertou-me e disse-me: "Se calhar, devia pensar aqui num tratamento de fertilização, se quer ser mãe." Fertilização, agora médicos, hospitais. Eu não saía do hospital com a minha mãe. E então fui ao médico, ao doutor Luís Vicente, que é um excelente especialista, e na altura eu ainda tinha óvulos, ainda fazia ovulação. E comecei a tomar umas injeções para acelerar a ovulação. Só que eu tinha que ir ao hospital praticamente dia sim, dia não, fazer uma ecografia. Para além das injeções que eu dava a mim mesma, fazia uma ecografia para ver se o óvulo estava a descolar, se estava a vir. E eu pensei: "Eu não tenho vida para isto. Eu não posso. Nesta fase, ainda vir mais eu para o hospital, sozinha." Mas eu fiz isso durante meses. E de repente, a minha mãe piora, fica pior, e eu penso que aquele tempo era precioso, o tempo de ir ao hospital e de tentar. Eu desisti. Porque depois dali, se aquele tratamento não desse, ainda há outros, há vários. Mas eu não tinha tempo. E então eu dei por mim um dia, era um massacre para mim ir ao hospital fazer aquilo, era um massacre para mim estar a dar as injeções à noite, porque eu já estava tão traumatizada com todos os tratamentos que nós tínhamos que fazer à minha mãe, porque de repente, a casa transformou-se num hospital. Mesmo num hospital, com a ajuda dos médicos do Hospital Garcia de Orta, a quem eu sou muito grata, que também foi uma experiência para eles. Mais tarde, eu falei com o doutor Tiago e para eles também foi ver até que ponto é que, para não terem as pessoas nos cuidados continuados, se a família quisesse ter o doente em casa, como é que conseguiam ou não, com a ajuda deles e dos enfermeiros. Nós, qualquer problema que houvesse, podíamos ligar a qualquer hora, que vinha um enfermeiro, a partir de uma determinada altura, porque estávamos sempre com atenção, estava a receber soro, estava a receber, agora esqueci-me, mas era também intravenoso. Nós tínhamos que estar sempre a controlar se estava a correr, se não estava a correr, a medir os níveis da coagulação do sangue. Nós, de repente, já éramos um bocadinho médicos, eu e o meu irmão já tínhamos que tomar, por vezes, decisões difíceis, a nível da coagulação do sangue. A minha mãe tomava Warfarin. O Warfarin é qualquer coisa, não um copo de água, mas imagina, uma salada, pode mudar-te a coagulação do sangue. E fazíamos as análises e aquilo tinha que estar entre o dois e o três. E então já sabíamos, se ultrapassasse, tínhamos que diminuir, já não sei se era bem assim, e se tivesse coisa, tínhamos que aumentar um bocadinho a dose. E havia alturas em que nós já fazíamos os dois sem perguntar ao médico: "Achas que sim?" Já discutíamos com base na nossa experiência anterior.
Portanto, não havia espaço para pensar em mais nada?
Não havia.
E passou o tempo.
E passou o tempo. E na altura, quando a minha mãe partiu, a minha ginecologista aconselhou-me a ir à doutora Ana Peixinho, que é uma psiquiatra, porque ela percebeu que eu já não estava bem. E que ia ficar pior.
Não era só um processo de luto agravado com este confronto com a provável impossibilidade de ser mãe. Já havia mais sinais. Era isso.
Para a doutora, provavelmente, com a experiência dela, ela percebeu o meu desgaste físico, porque eu estava muito magra. Embora eu me obrigasse a comer, porque eu sabia que tinha que andar. Por muito que me apetecesse ficar na cama, eu nunca tive aqueles sintomas de não me vou levantar, não podia. E sabes que em relação a este tipo de sintomas, eu achava que isto era um luxo. Eu era daquelas pessoas, como perdi o meu pai nova, e tive que ir para a frente, eu achava que quem tinha depressões era quem tinha tempo para ter depressões. E eu não podia dar esse luxo de agora pensar que vou ter uma depressão. E, na verdade, também achava que era uma coisa para pessoas mais fracas. Esta é a realidade. Depois, quando fui confrontada com o diagnóstico de uma depressão, tive que pensar e repensar muita coisa na minha vida. E hoje em dia, graças a Deus, que se fala muito mais da saúde mental e as pessoas assumem, muitas pessoas conhecidas assumem para que as outras se revejam nelas e percebam: "Não sou só eu." Eu não posso dizer que achava que lidava bem. Não, também para mim as doenças mentais também eram algo que eu nem tinha parado para pensar muito bem quem estava com uma depressão, o que estava a sentir, de que forma é que podia estar a ser afetada. Sabia. Tudo bem, é grave, mas se a pessoa quiser, não vai ficar na cama. Tem que se levantar, tem que ir, tem que fazer, tem que fazer as coisas acontecerem. Claro que se ficar na cama, nada vai mudar.
Quando foste confrontada com esse diagnóstico?
Quando sou confrontada, eu fui à doutora Ana. A doutora Ana acompanha muitas mulheres na menopausa e na depressão pós-parto. E eu gostei muito logo dela, que também é muito importante. Quando tu és confrontada com um diagnóstico destes, que tenhas alguma empatia com a pessoa que te está a dizer. E ela disse-me e eu acreditei, porque se calhar uma Liliana de há dois ou três anos antes disso era capaz de dizer: "Pronto, agora toda a gente tem doença, a depressão é a doença dos nervos, serve para tudo." Que era aquelas frases feitas e escritas que tu lês.
Ali acreditaste.
Acreditei, e acreditei que tinha que começar a tratar de mim.
E isso foi o quê? Tratar de ti.
Tratar de mim era, para já, com medicação, para dormir, porque eu fiz o disparate de me automedicar para dormir com os medicamentos da minha mãe. Como eu não dormia, tudo aquilo é assim, todo aquele rol de coisas que tu não podes fazer, eu fiz. Então, automediquei-me com comprimidos que não eram para mim, tipo: "Eu não durmo, se a minha mãe dorme tão bem com isto, deixa-me cá tomar isto para ver se durmo umas horas." E de repente estava viciada naqueles comprimidos para dormir. Portanto, foi trabalhar isto em conjunto com a médica. Estava viciada e nem dormia as horas necessárias. Eu já pensava na minha cabeça, tipo: "Se eu não tenho aquilo, eu não vou dormir." Depois, para mim o importante era conseguir dormir, porque eu achava que ia dar em maluca, de não conseguir dormir. E foi começar a trabalhar a dor. Eu tive a ajuda da doutora Ana Peixinho, mas eu também já tinha tido uma perda muito importante na minha vida, que foi a minha tia, que foi uma segunda mãe para mim, minha tia São, que eu também acompanhei a doença dela, morreu com um cancro nos pulmões. E também tinha tido esse período muito difícil, porque era a irmã da minha mãe, a irmã mais velha, a matriarca da família, que viveu sempre conosco. E eu tinha que estar ao lado dela, mesmo. E nessa altura comecei a fazer Reiki, comecei a fazer terapias complementares e senti uma grande ajuda. Com a partida da minha mãe, depois deixei disso tudo. O que eu devia ter feito era ter arranjado para mim, durante uma hora por semana, nem que fosse uma hora, porque eu sabia as vantagens que o Reiki, a meditação, tinham, porque eu já tinha passado por um período difícil e tinha percebido o quão aquilo tinha sido importante para me ajudar. Mas como eu achei que não tinha tempo para nada, mas nós não podemos achar que não temos tempo para nada, porque quando estamos mal, não podemos ajudar as outras pessoas como queremos. Portanto, não é ser egoísta, mas é priorizar-te um bocadinho e dizer: "Não, eu pelo menos estas duas horas por semana ou três são minhas e eu vou usá-las desta forma, a fazer coisas que eu sei que me fazem bem." Se eu teria capacidade com a agitação interna com que eu estava, de parar para meditar? Provavelmente não. Mas não devemos desistir. Não consegues naquele dia, consegues no outro. Se não conseguires, ficas ali aquele bocadinho contigo. Devia ter me dado esse espaço e esse tempo.
E não deste, só depois dessa primeira consulta.
Não foi logo na primeira consulta. Não foi, porque quando a minha mãe partiu, eu que queria tempo, depois tinha todo o tempo e não sabia o que havia de fazer com ele. Aí fica esse buraco enorme. Eu que tinha tempo para ficar a descansar, para ficar na ronha, para ficar a ver séries ou a ver um filme, eu não queria ver nada, não queria nada. Nada me conseguia satisfazer e eu só chorava. Aliás, durante a doença da minha mãe, eu chorei muito. E eu acho que me fez bem. Na verdade, dizem que é pôr cá para fora, deixar sair tudo o que está cá dentro, mas eu própria já não aguentava sempre a chorar também, na verdade, era isso. Mas não é que eu acho que tenha feito mal chorar, acho que até me fez bem. E durante aquele tempo que se seguiu, não era fácil para as pessoas que estavam comigo, para o Rodrigo não era fácil, porque eu não queria fazer nada. E aí, sim, estás com a depressão.
Foi o teu pior momento, foi esse?
A seguir à partida da minha mãe, sim. Porque quando a minha mãe partiu, eu própria já pedia a Deus para a levar, porque o sofrimento já era muito, o sofrimento em que a minha mãe estava. Depois começaram a abrir as escaras. Isso é das coisas mais horríveis e mais terríveis que tu podes ver uma pessoa que tu amas, veres a carne a rasgar como se fosse papel. E com isso eu não conseguia lidar. Eu estava a tratar dela e chorava. Mas a minha mãe acho que já não percebia. Mas percebe, porque as mães percebem sempre tudo. E aí eu já pedia a Deus para a levar. Eu sou católica, sou praticante e acredito, já disse aqui. E tive muita fé, sempre, e ajudou-me muito a fé que eu tive para não desistir. Claro que eu também não tinha hipótese de desistir, desistir não era opção.
Para continuar com a mesma determinação.
Sim, o ritmo foi sempre o mesmo, até uma semana depois da minha mãe ter partido. Porque depois quando a minha mãe partiu, eu quis ir agradecer a todos os médicos. A minha mãe partiu dia 3 de janeiro. Esse Natal foi horrível. E o Natal nunca mais voltou a ser para mim aquilo que era, que era uma alegria e era uma festa fantástica de família e partilha. Porque somos católicos, portanto o Natal era a celebração do nascimento de Jesus e era uma festa tipo casamento cigano, de três dias, vinham os primos. E a minha mãe ainda era o elemento agregador dessa festa. Mas o último Natal foi tão triste e a minha mãe estava mesmo muito doente. E isso é uma das coisas que eu ainda estou a trabalhar, é conseguir voltar a viver o Natal como fui ensinada e como eu sei que a minha mãe deseja que volte a ser. E quando digo o Natal, há outros momentos que ainda são muito duros, mas o Natal porque a vi sofrer muito e porque me fui muito abaixo. Também porque pude ir abaixo, porque a família veio. E então como eu tenho uma prima minha que foi criada pela minha mãe, que é enfermeira, mas que vive em Santo André, ela estava lá nesses dias e eu senti que podia ir abaixo. E há uma coisa que aconteceu, como te disse, eu ou o meu irmão estávamos sempre presentes. E na noite que a minha mãe partiu, nem um nem outro estava. Eu não sei se isto para as pessoas é estranho, mas eu acho que a minha mãe esperou que nós não estivéssemos para partir, porque nós, de uma forma egoísta, prendíamo-la ali conosco. E nesse dia, como estavam as minhas primas, o meu irmão tinha ido ao futebol, que era a única coisa que ele fazia, e eu tinha ido passar uns dias com o Rodrigo fora. E sempre controlar tudo através do telefone. Outra coisa que aconteceu. A minha mãe esteve sempre em casa, mas já estava muito mal e três dias antes teve que ir para os cuidados continuados. E na verdade, eu acho que ela também não quis partir em casa para não ficar aquela-
Essa memória.
Para quem depois fica lá. Passaram-se seis anos e quando a minha mãe partiu, eu quis mudar a casa toda por causa do meu irmão e da minha sobrinha. Casa toda, quer dizer, dentro dos limites, mudar as almofadas, pintar, mudar o quarto da minha mãe para ser outra coisa, para não ficar ali aquela imagem. E depois nunca mais consegui entrar lá em casa. Nem hoje. É outra coisa que eu tenho que resolver em mim, porque eles vivem lá. Eu no início tratei de tudo, não sabia, mas era para não ir lá tão cedo. E entretanto, já se passaram seis anos e eu sei que eu tenho que ir lá agora, que uma sobrinha e um homem a tomar conta daquilo, apesar da pessoa que vai lá a casa limpar ser das pessoas que eu mais confio deste mundo, preciso de ir lá eu tratar até mesmo das coisas da minha mãe.
Portanto, Liliana, ainda estás num processo muito profundo. Ainda tens muitas coisas para resolver nesta altura, mas o caminho já foi percorrido.
Sim. Eu quando fechava os olhos, eu disse que ficou um buraco enorme. Eu quando fechava os olhos, eu só via sofrimento. E a minha mãe não era sofrimento. A minha mãe era amor. Era amor. Eu acho que a minha mãe é amor, era amor. E portanto, eu não podia guardar dentro de mim as memórias que estavam. Eu tive que as substituir, daquela dor toda, daqueles quatro anos. Porque eu fechava os olhos e eu só via dor, só via sofrimento, só via aquelas feridas, só via aquilo tudo. E então eu tive que fazer este trabalho, e ainda estou a fazê-lo, de substituir estas imagens pelas imagens dos momentos felizes. Da minha mãe conosco, feliz, a cantar, que ela gostava muito de cantar e cantava muito bem. Adorava ópera e eu na altura achava uma seca a ópera Até tinha vergonha quando ia lá os meus amigos à casa e a minha mãe estava a ouvir ópera. Isto já mais velha, ainda estava a minha mãe bem. Comecei a ir à ópera com a minha mãe porque ela gostava, não era porque eu gostasse. E hoje dou por mim a gostar de ópera, porque acho que estou mais perto dela quando ouço ópera. E lamento imenso não ter falado mais com ela sobre outras áreas de ópera, para ela me dizer o que sentia para poder comparar. Outra coisa, eu nunca gostei de azul escuro. Isto é ridículo lá para casa, mas a minha mãe adorava azul escuro. O branco e o azul escuro eram as cores preferidas dela e eu achava o azul escuro uma cor muito beta. A minha mãe dizia: "Fica-te tão bem! O azul é o pó de arroz das morenas." Quer dizer que todas as morenas com azul ficam bem. E eu dei por mim a começar a comprar peças azul escuras. Primeiro pijamas e hoje em dia tenho muita roupa azul escura, porque eu sei que onde está, está feliz de me ver de azul escuro. Hoje não vim de azul escuro, mas está feliz de me ver de azul escuro e eu já gosto de me ver de azul escuro.
Portanto, o teu processo de superação da depressão é uma reconciliação com as memórias da tua mãe, é uma forma de te aproximares dela.
Eu experimentei uma terapia complementar, que se chama constelações familiares, que te ajuda a perceber qual é que é o teu papel. Ninguém te diz nada, tu é que chegas lá. E o porquê. Porque tive muitos porquês. Porque é que eu não fui mãe? Porque é que Deus não quis que eu fosse mãe? Porque é que a minha mãe, que é só a melhor pessoa que eu conheci no mundo e que toda a gente diz a mesma coisa, teve que sofrer tanto? Porque é que quando eu encontrei o Rodrigo e queria tanto ter vivido o início desta relação de uma forma plena, não tive essa oportunidade? Porque é que eu não consegui construir no início aquela relação que era preciso também com estar presente, com ele, com os filhos dele? Porque é que tudo me aconteceu? Mas depois, tudo tem um propósito.
Já encontraste respostas para esses porquês?
Para tudo, não. Nem acho que nunca vou encontrar. Mas já há uma parte de mim que apaziguou a dor. Já consegui, como estavas a dizer, fechar os olhos e conseguir ver a minha mãe como ela era, embora não seja sempre. Aqueles momentos ainda estão dentro de mim. Eu também não sei se alguma vez vão desaparecer, porque fazem parte da minha vivência. Fazem parte do pior período da minha vida, portanto eu não sei se alguma vez esses momentos vão desaparecer. Mas para além de ter as consultas com a psiquiatra, para além de ter estado com a psicóloga, eu também encontrei muita ajuda nestas terapias complementares. E de repente eu pensava: "Não, eu estou a ocupar o tempo, porque eu de repente já tenho que ir aqui, já tenho que ir à psicóloga, já tenho que ir à Joana, que era a minha terapeuta das constelações, já vou fazer reiki, já vou fazer meditação, eu já estou a ocupar o meu tempo." E isso ajudou-me muito.
Ainda tomas medicação para dormires?
Para dormir, sim.
Sim, é a única?
É a única, sim. Eu a nível da medicação que tomei para a depressão, não estive muito tempo medicada. Fiz o desmame rapidamente. Para dormir, já não estou com aquela medicação forte. Consigo muitas vezes à base de coisas naturais, mas tenho que ter comigo aqueles medicamentos mais fortes. Eu não consigo perceber porquê, porque entretanto já estive em clínicas do sono a tentar perceber, passar lá a noite toda ligada para conseguirem perceber o que é que ainda mexe com o meu sono, porque não é a dormir. Eu não tenho insónias, eu não acordo ao meio da noite. Eu tenho muita dificuldade em adormecer. Mas aí também a parte hormonal, que tem a ver com a menopausa, também teve muita influência. Foi tudo.
Houve uma conjugação de fatores. Essa Liliana mais só, será apesar de tudo, seis anos depois, uma Liliana mais forte? Que se conhece melhor?
Que se conhece melhor, sim. Mais forte, depende daquilo que nós temos como forte. Eu já não quero ser forte. Eu já fui forte e não foi o melhor. Portanto, eu já não quero ser forte.
Então agora queres ser o quê?
Quero só ser. Eu tinha essa necessidade de ser forte para tomar conta da minha mãe, para tomar conta do meu irmão, para provar que era capaz, para que nada falhasse. Vivia numa ansiedade enorme, mesmo antes de a minha mãe estar doente, para que nada falhasse. Isso também tem muito a ver com a tua forma de ser. Há pessoas que não são assim. E de cumprir. Cumprir, não vacilar. Isso ajudou-me numa determinada altura, mas também sinto que se eu não tivesse a mania que era forte, se calhar podia ter deixado que tomassem um bocadinho mais conta de mim. E não deixei. E não liguei nenhuma àquilo que os médicos diziam, e não deixei, quando as pessoas se aproximavam, a dizer qualquer coisa do tipo: "Vocês nem fazem a mínima ideia, não imaginam, portanto nem quero saber do que estão a dizer." E hoje em dia, porque tenho falado com pessoas que são cuidadoras, a primeira coisa que eu digo é para cuidarem delas também, para não se deixarem sugar por essa espiral em que se entra e que é muito fácil entrar. É muito fácil. O difícil depois é sair. Portanto, é sempre o conselho que eu dou, embora saiba que muitas vezes não é possível, porque é tanto tipo de preocupações e não há ajudas, Carla, neste país para os cuidadores. E por isso é que nós vimos também que os nossos velhotes são muito maltratados. Eu muitas vezes estava com a minha mãe no hospital, mas eu podia levar a minha mãe ao hospital. E eu via os senhores e as senhoras de manhã, naquelas consultas muito cedo, a subirem aquela rampa e só me apetecia ajudar todos. E hoje em dia eu penso: se me saísse o Euromilhões. Não me vai sair, porque eu não jogo. Portanto, é sempre aquela coisa. Mas se eu fosse rica, há muitas pessoas que precisam. As crianças, os animais, mas eu lidei de perto, durante muitos anos, com os velhotes. E velhote é uma palavra que eu gosto muito. Para mim, um velho não é uma coisa desinteressante. Para mim, velhote é sabedoria. E vi tanta necessidade. A minha mãe às vezes ficava internada. Uma senhora ao pé de quem a minha mãe ficou, fingia que estava pior para o médico não lhe dar alta, porque ela não queria ir para casa. E vi outros que ligavam 500 vezes para os filhos os irem buscar e não iam. E vi outros que os filhos não tinham como os ter e tinham que os colocar em lares sem condições nenhumas. Há de tudo. E nós agora vivemos mais anos e não nos preocupamos com a qualidade de vida que vamos ter. E tu vês as pensões miseráveis que existem e no nosso tempo vai ser pior, porque da forma como está a Segurança Social. E vamos viver mais com menos qualidade de vida. E isso para mim é muito assustador, porque eu estive presente, estive em contacto com esta realidade muito tempo. E durante a pandemia, eu fiz voluntariado com velhotes, através da paróquia, e convivi muito com eles, chatos, querendo fazer as coisas à maneira deles e depois de género. Havia aqueles: "Não me importo de morrer, se morrer, morri, já não estou cá a fazer nada." E eu assim: "Está bem, mas depois não é a forma como morre, é que não vai poder ter os seus filhos, não vai conseguir respirar", meter-lhes medo. E depois tinhas aqueles que tinham tanto medo que mal respiravam. E eu não sentia que era a pessoa indicada. Eu podia fazer os recados, que eles não podiam vir à rua. Estou mesmo a falar do primeiro confinamento, porque eu podia conduzir, como estava a trabalhar. Quando eu digo chato, eu ia ao supermercado às compras, que eu detesto ir às compras, mas como eles precisavam, ia. E então dizia: "Dona Antónia," não era Antónia, mas não vou dizer o nome das pessoas, "não tem aqui o detergente que disse que queria." "Menina, tem que ir ao outro lado." Eu assim: "Eu não posso ir ao outro lado, tenho que levar o que está aqui." E coisas destas, mas que depois quando estava a conversar com eles, eram de um carinho e de uma sabedoria tão enorme e eu pensava assim: "Eu não vou aguentar mais." Quando me pediram para fazer mais um mês, eu assim: "Não aguento mais um mês." Mas depois aquilo que tu trazes é tão maior do que aquilo que tu dás, que valeu a pena. Mas eu optei por estar a fazer voluntariado com as pessoas mais velhotas, porque acho que elas precisam mesmo de muito apoio. E os cuidadores, saiu esta lei, mas são muito poucos aqueles que usufruem, porque são tantos os requisitos e tanta a burocracia, que a maior parte das pessoas desiste de recorrer.
E passaste na pele por essa experiência na primeira pessoa.
Passei.
E percebes que é preciso mudar ainda muita coisa.
É preciso mudar muita coisa. Mas há uma coisa que lá em casa não sabem e que eu descobri, que há uma lei que, para o cuidador poder descansar, durante um mês, há um sítio onde a pessoa que é cuidada pode ficar, porque a lei reconhece que é necessário o cuidador descansar. Isto por quê? Porque houve uma altura que a minha mãe precisou de ir para os cuidados continuados e não havia vagas, nem a pagar. Estava tudo cheio. E depois lá alguém se lembrou: "Espera lá, e se vocês disserem que o seu irmão, porque eu estava a trabalhar, quer ir de férias e que precisa urgentemente, porque a nível de saúde mental precisa desta ajuda, nós conseguimos arranjar um sítio para a sua mãe ficar." E foi assim que a minha mãe conseguiu ir para os cuidados continuados naqueles últimos dias. Portanto, eu também desconhecia que existia esta lei.
Luísiana, muito obrigada.
Obrigada eu.