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Consegue ter noção ou identificar o primeiro momento em que pensou que, se calhar, o seu luto não era só uma fase ou uma tristeza e que precisava procurar ajuda para lidar com ele? Houve algum momento?

Eu não sei se sei identificar exatamente o momento. E acho que só identifiquei que de fato precisava de ajuda quando já estava a ter. Eu fui um pouco obrigada, fui um pouco empurrada a falar com alguém que não fosse alguém da minha família ou que não fosse alguém do meu círculo de amigos.

Empurrada por alguém?

Sim.

Não pelas circunstâncias. Houve alguém que ativamente lhe disse?

Sim, a minha mãe. Muito cedo. Ao fim de poucos dias, já estava com a conversa que não era uma coisa que se pudesse navegar sozinho. Ainda para mais, no meu caso, o primeiro luto que fiz foi uma coisa tão específica e que me consumiu de tal maneira, que toda gente à minha volta ficou muito assustada com como é que eu poderia reagir, que caminho é que eu iria escolher, porque é sempre uma escolha. E portanto começou a falar muito comigo de: "É preciso, se calhar, falarmos com alguém." E eu não queria, recusei durante um mês e meio, mas sentei-me na cadeira e percebi o porquê. Porque é muito mais fácil falar com alguém que não nos conhece, que não conhece a história, que não vai tomar nenhum partido, que está ali simplesmente para nos ouvir, para nos guiar e para nos ajudar a arrumar as gavetas que é preciso arrumar.

Esta tinha sido a sua primeira grande perda.

Sim.

Não tinha lidado com outra assim, então.

Não.

E quando a sua mãe identifica que, se calhar, e começa a ter essa conversa, foi só experiência de vida ou ela começou a ver em si que isto podia ser um caminho mais difícil ainda se não tivesse alguma ajuda?

Eu acho que foi experiência de vida e o medo natural de uma mãe, porque também para a minha família foi uma perda muito grande, porque era alguém que fazia parte das nossas vidas há muitos anos. Portanto, para a minha mãe não era um filho, mas era algo muito próximo.

Era o seu namorado, estava todos os dias também com a família, não era?

Sim, passava Natais, passava férias. Os meus sobrinhos tratavam-no por tio. Portanto, era alguém muito presente e já há muito tempo. Eu não sou mãe, mas não sei o que é ver um filho a sofrer daquela maneira. Portanto, eu acho que ela procurou todas as ferramentas que conseguiu enquanto mãe dar-me, mas há coisas que têm de ser externas e ela identificou isso muito cedo. E foi a melhor escolha que fizeram por mim e que depois eu continuei a fazê-la por mim.

E resistiu durante muito tempo?

Resisti durante esse tal mês e meio até me sentar a primeira vez. No final da primeira conversa, da primeira sessão de terapia, foi uma sessão de duas horas, saí de lá sem perceber o porquê de lá ter ido, porque fui lá, contei uma história e voltei para casa igual. Eu acho que só ao fim de umas quantas sessões é que percebi que aquilo me fazia bem de alguma maneira, porque uma coisa é tu contares a história a quem a conhece, outra coisa é contar a alguém que não estava lá. E, portanto, é alguém que faz perguntas que se calhar uma mãe ou um amigo não fazem, porque quer perceber melhor. E essas perguntas fazem-nos mergulhar ainda mais, o que é muito difícil e muito doloroso, mas obrigam-nos a mergulhar na descrição e no profundo sentimento, o que estamos a sentir e para onde é que vamos. E fez-me muito bem.

E resistiu nesse mês e meio, por quê? Porque achava que não era preciso? Ou porque sentiu algum estigma em relação à ideia de quem procura um terapeuta é maluco.

É maluco, sim.

E muita gente recusa porque: "Eu não sou maluco." Isso passou-lhe pela cabeça ou pura e simplesmente achou que não precisava?

Eu achei que não precisava, porque eu não tinha estigma nenhum, não tinha preconceito nenhum em ir a um psicólogo ou ir a um terapeuta, ou o que for. Mas eu achei: "Isto é uma coisa normal. Isto é uma coisa que acontece a toda a gente." A mim aconteceu-me muito cedo. Eu senti-me viúva com 29 anos. Mas a dor da perda é a dor mais universal. Toda a gente ao longo da sua vida, a menos que morra muito cedo, vai ter de fazer o luto de alguém que ama. Portanto, eu achei algures aqui dentro que estarão as ferramentas e a certa altura estamos tão dormentes que só queremos é estar quietos. E remoer e falar sobre isso é tão difícil, que a escolha mais fácil é ficar no silêncio e é tentar digerir isso sozinho. Não foi porque havia um estigma ou porque achei que não fazia sentido, foi porque eu não quero falar sobre isto, muito menos com alguém que não me conhece, muito menos com alguém que não o conhecia. E esse era um dos pontos. Esta pessoa não vai perceber, nunca esteve na presença dele, portanto, não vai perceber as minhas descrições, não vai perceber o porquê de tudo isto que eu estou a sentir, porque nunca esteve conosco. É só uma pessoa que está ali sentada.

Parecia quase desrespeitar o seu luto, ter de falar com alguém que não ia fazer ideia do que é que estava a dizer.

É quase como desrespeitar a pessoa que foi. Não que eu sentisse isso, mas se calhar inconscientemente é Eu vou abrir o jogo com alguém que nem sequer o conhecia, por quê? Vou falar sobre a vida de alguém que não está cá com uma pessoa que nem sequer o conhecia? Não faz sentido nenhum.

E a ideia de que aquela pessoa está ali para fazer ultrapassar uma coisa numa fase em que-

E não ultrapassar?

Certo, e que nem sequer está preparada para ultrapassar. Tinha aquela sensação de não só é normal eu estar assim, como é suposto eu estar assim.

É suposto estar assim. E por que ultrapassar uma coisa que eu não quero ultrapassar? Porque na nossa cabeça, ultrapassar a morte de alguém, tu vês isso como esquecer a pessoa, como fechar um capítulo que tu não queres fechar. Quando te falam da ideia de andar para frente. Andar para frente para onde? Se eu deixei de ter presente e futuro, eu não sei o que a minha vida vai ser, a minha vida neste momento não é nada. Portanto, por que eu vou querer avançar ou ter alguém a acompanhar-me a avançar num caminho que eu não quero fazer? E isso é uma escolha. A certa altura tem de se escolher: eu vou viver com uma nuvem negra em cima da cabeça ou eu vou, de alguma forma, arrumar isto, aprender com a tristeza e não ser um peso para os outros nem para mim própria? Vamos por onde? E inevitavelmente acabei por escolher ser feliz e tentar digerir isso. Mas a ideia de arrumar alguma coisa que para nós nem sequer faz sentido tocar, é muito difícil.

O que era mais evidente para si na altura? Era aquela dormência de que já falou, uma vontade de "eu não quero sair daqui, não me mexam, não falem comigo, não me obriguem a nada"? Ou essa sensação de ausência de presente e de futuro, de que falava, essa ideia de a minha vida deixou de fazer sentido. Era uma mistura das duas coisas?

Era uma mistura das duas coisas.

E o que se sente nesses momentos? É tristeza, é mais do que isso?

É muito mais do que isso. Eu acho que não existe uma palavra no vocabulário para esse sentimento. Não existe. Eu acho que só alguém que recebeu uma notícia como essa, da forma como eu a recebi, que também é toda uma outra história, sabe o que é deixar de existir, que era como eu me sentia. Eu tinha um coração em pedaços e eu deixei de ter alma. Eu não sentia que tivesse alma sequer. Eu deixei de ser uma pessoa. Eu era um vulto que vagamente se levantava de manhã, ia até à cozinha, sentava no sofá, voltava para a cama. Este foi o meu dia durante 15 dias. Até que me cansei das falinhas mansas. Eu acho que esse foi o meu clique. Começou-me a irritar, depois passa-se por várias fases. Começou-me a irritar o "está tudo bem, estás bem?" O falar baixinho começou-me a enervar de uma maneira, que eu só queria era sair de casa. E para mim, o sair de casa era ir trabalhar. Portanto, eu fui enterrar a tristeza num outro sítio. Fui tentar ser o mais produtiva que eu podia num campo que nada tinha a ver com a história que existia quando eu abria a porta de casa.

Isso visto a esta distância, foi um erro ou uma salvação?

Foi uma salvação. Foi uma salvação, mas que pode rapidamente tornar-se um erro se ficar nessa roda sem ajuda, sem uma vez por semana alguém nos sentar e dizer: "Ainda bem que o trabalho está a correr bem, que estamos a trabalhar 20 horas por dia. Mas e as outras quatro horas?"

A vida profissional, nesse momento, é uma salvação. A vida pessoal continuava a não existir.

Não.

Portanto, o regresso a casa era para esse nada.

Era tenebroso. A minha mãe ficou em minha casa durante um mês e meio. Só saiu quando eu lhe pedi para sair. Dormiu ao meu lado durante um mês e meio. Eu acho que para garantir, pelo menos, que eu não morria de coração partido. Não que eu fosse fazer alguma asneira ou que eu fosse cometer algum ato radical, não era isso. Eu acho que havia o profundo medo de eu, com tanta tristeza, algum fusível desligar. Portanto, ficou ali. Mas eu lembro-me de entrar em casa no primeiro dia em que a minha mãe já não estava e fechar a porta e desatar a chorar e pensar: "Será que foi cedo demais? Será que a mandei embora cedo demais?" Porque põe-se a chave à porta e as luzes estão apagadas. E é um silêncio ensurdecedor. E aí cai a ficha de que estamos sozinhos. E aí cai a ficha de que este é um caminho que se tem que fazer sozinho. Por muita companhia que tenhas à volta, por muita família incrível como eu tenho, por muitos amigos, uma terapeuta maravilhosa, é um caminho que se tem que fazer sozinho. E é um caminho muito longo. Demorou muito tempo e ainda hoje me comovo. Eu acho que nunca vai deixar de acontecer. Demora tempo até voltares a sentir que és quem eras. E ainda assim, nunca mais serás quem eras, porque depois de uma coisa dessas, é impossível. Por muito remendo, por muito que esteja tudo colado, por muito que as gavetas estejam arrumadas, nós já não somos a mesma pessoa, porque um dia o telefone tocou e nos disseram que a pessoa que mais amamos no mundo deixou de existir. E aí tu já não sabes quem és, não tens presente, não tens futuro e tudo o resto deixou de importar.

A certeza de que tinha acontecido só surgiu nesse dia em que se abre a porta e as luzes estão apagadas? Há alguma fase, não diria de negação, mas de quase esperança de que a pessoa abra os olhos e afinal já não aconteceu.

Sim. Eu sonhava que a porta de casa se abria e eu ouvia a voz. Eu ouvi durante muito tempo a voz dele. Toda a gente tem frases muito identificativas. Quando se está sentado à mesa e alguém diz qualquer coisa, se tu conheces bem uma pessoa, tu sabes exatamente o que é que essa pessoa vai responder. Quando estás a ver um filme que é uma valente porcaria, tu sabes exatamente qual é a expressão que a pessoa que está ao teu lado vai dizer, vai usar. E eu ouvi essas respostas durante muito tempo. E eu acho que não há exatamente um momento em que a ficha cai de a pessoa não vai voltar a aparecer. Eu acho que há é uma sucessão de desilusões. "Pois é, ele não está. Pois é, a porta não abre. Era agora a hora em que chegava e não chegou." E tu vives na constante desilusão, porque há aquela esperançazinha de que seja tudo um sonho. Mas acordas dia após dia e a primeira coisa que o teu cérebro te diz é: "É verdade, não é um sonho." E aprender a viver com essa realidade demora muito tempo.

O que é pior? Quando as pessoas não dizem nada ou quando as pessoas dizem: "Vai passar, vai ficar tudo bem."?

Nenhuma das duas é boa, mas é preferível que falem a não dizerem nada. Eu recebi muitas mensagens, muito tempo depois, de pessoas que me eram próximas, a pedir desculpa por não terem dito nada. E eu acho que ainda há uma grande dificuldade em lidar com a morte. Ainda há uma grande dificuldade em estar sentado em silêncio. Eu não preciso que me digam nada, mas sentem-se ao meu lado, só para eu saber que aí estão. E houve muita gente que não soube o que dizer e por não saber o que dizer, preferiu não dizer nada. E essa nunca é a melhor escolha. Mas aquela coisa do: "Estás bem? Queres mais alguma coisa?" É infernal.

Isso é que não.

É infernal. Mas faz parte. E depois tu dás por ti a acompanhar o luto de outra pessoa e a dizer exatamente as mesmas coisas e a perguntar as mesmas coisas, porque é aquilo que se faz, é a tentativa de mostrar que estou aqui e preocupo-me. Mas mói muito.

Não desistiu depois da primeira consulta, que não fez grande sentido, nem fez bem, nem fez mal, mas depois quando, como dizia, se começa a ir ao fundo e é difícil, em algum momento pensou: "É melhor parar isto, porque isto pode ser pior o remédio do que a cura."

Acho que há um momento em que eu pensei: "Agora abri a caixa de Pandora e isto agora vai ser uma chatice."

Como é que eram para si esses momentos de estar na terapia, tem um desconhecido à frente. Foi imediatamente fácil, pelo menos falar sobre as coisas?

Foi.

E foi logo com a primeira pessoa que conheceu?

Eu tive muita sorte. A pessoa que me indicaram é maravilhosa. Não é muito mais velha do que eu. Tem a idade de um dos meus irmãos mais velhos, portanto, havia ali alguma proximidade, pelo menos de idade. E agora olhando para trás, a minha primeira abordagem foi desastrosa, porque eu sentei-me contrariada e eu quebro o gelo com muita facilidade. E sentei-me e disse: "Olá, boa tarde, então é assim. Olhe, eu nasci em 84, me aconteceu isto. Aos 10 anos o meu pai..." Eu de repente fiz uma minibiografia em três minutos e o meu namorado morreu talvez há 12 horas. E agora? Ela olhou para mim e disse: "E agora uma coisa de cada vez." Eu: "Ah, já dei demais, já não vou sair desta cadeira nos próximos meses." "Vamos uma coisa de cada vez. Vamos então a este último episódio." E aí tu começas a descascar essa cebola. E a certa altura, é inevitável que vás tocando num ponto da tua vida, que vás tocando num assunto aqui e ali, e essas pessoas são muitíssimo inteligentes e sabem guiar a coisa muito bem. E quando um capítulo se está a fechar, "então, mas e aqui há uns tempos falou-me disto" e tu: "Ah, sacana. Pois é, ainda há mais essa gaveta." E vais arrumando. Foi dos processos mais difíceis. Eu saía de lá e muitas vezes ia o caminho inteiro para casa a chorar e passava a noite a chorar e pensava: "Por que eu estou a fazer isto? Por que eu me estou a submeter a ainda mais tristeza? Isto não me está a fazer bem." Mas depois acordas no dia seguinte um bocadinho mais leve. E havia dias que eu passei a ter uma profunda necessidade de lá ir, quase de apontar: eu tenho que falar sobre isto. Eu tenho que falar da falta que me faz o som do abrir uma Coca-Cola, tão simples quanto isto, porque era um som que eu ouvia todas as noites e de repente ninguém à minha volta A minha mãe não bebe refrigerantes e era quem estava em minha casa e de repente saiu de minha casa. Eu também não bebo refrigerantes, fui allá e não havia ninguém ao meu lado a abrir uma lata. E aquele fazia-me falta. E é muito estranho que coisas tão pequenas, de repente se tornem bichos de sete cabeças. Ou isso faz-me falta, mas depois vou jantar com amigos e alguém pede um refrigerante e eu ouço esse som. E esse som é um gatilho pra toda uma tristeza. Quando isto é uma pescadinha de rabo na boca, e às vezes eu estou a dar em louca, eu quero ouvir o som ou não quero ouvir o som? Em que é que ficamos? E é arrumar essas pequenas coisas.

Essa apatia inicial também facilmente se transforma em ansiedade com esses gatilhos.

Sim. No meu caso, não sei se descreveria como ansiedade, mas há um nó no estômago. Há um pequeno murrozinho no estômago cada vez que se toca num assunto, cada vez que se ouve aquela música, cada vez que se ouve aquele som, ou alguém diz uma piada, e aí entra a culpa. E esse também é um ponto interessante do luto, que é: não importa como é que a pessoa morreu, não importa. Há sempre um momento em que se sente culpa. A primeira gargalhada é dos piores momentos, porque é um live de felicidade e ao mesmo tempo, quem és tu pra ser feliz? Quando esta pessoa já não está, quando esta pessoa já não pode rir, quando esta pessoa tinha uma gargalhada tão característica que fazia uma sala inteira rir em uníssono, e tu agora atreves-te a ter esses momentos sem ele. Carregas uma culpa de continuar a viver, mas ao mesmo tempo sabes que tens de o fazer, mas carregas contigo um peso. E é a tal pescadinha de rabo na boca, de onde é difícil muitas vezes sair. Parece um hamster numa rodinha. Andas, andas, andas, mas não sais do mesmo sítio.

Antes dessa primeira gargalhada que saiu espontaneamente, deu por si a conter outras gargalhadas, porque ainda não podia ser.

Ainda não podia ser. E o que é que as pessoas vão dizer se me virem a rir? Porque depois é não só o que tu vais pensar de ti próprio, que já carregas a culpa do: "Eu quase que tive vontade de rir". Não. Acama isso, deita isso um bocadinho abaixo. E depois é: e se eu soltar uma gargalhada, o que é que estas pessoas que estão à minha volta vão achar? Um: vão achar que eu me esqueci, que não é verdade. Dois: vão achar que eu estou bem, que não é verdade. Três: vão achar que eu já ultrapassei, que não é verdade. Quatro: vão achar que não precisam de me perguntar se eu estou bem ou não, porque estou ótima, pelos vistos, porque me estou a rir. Portanto, de repente, pequenos gestos que são inatos, não é?

Espontâneos.

Espontâneos, começamos a controlá-los. E no dia em que não me perguntarem? No dia em que não me fizerem a pergunta se eu estou bem? Vão achar que isto tudo já passou, mas sabem lá eles o que vai aqui dentro.

Esse momento também significa que é possível que a culpa da gargalhada dada altura se transfira pra culpa da lágrima. Há um momento em que é constrangedor ainda chorar, porque as pessoas à nossa volta devem estar a pensar: "Vá lá, já passou algum tempo. Não é suposto estares assim. Já devias estar melhor."

Ainda estás assim, não é? Eu acho que nunca senti culpa das lágrimas, porque eu sei que há muita gente que sabe exatamente o que é, anos depois, ainda sentires vontade de chorar. Portanto, as lágrimas eram um bocadinho indiferente. E acho que nunca pensei nisso, nunca pensei no: "As pessoas vão achar que eu sou fraca e que ainda estou a sofrer." Isso não me importava muito, sinceramente. Mas lá está, porque se calhar na altura ainda era muito recente, mas agora sete anos depois, acredito que haja pessoas que se perguntem: "Ainda faz sentido ela comover-se com isto?" No dia em que morrer o vosso marido, eu faço-vos a mesma pergunta. Sete anos depois. Faz sempre sentido, porque só quer dizer que é um amor que está presente. Estará sempre.

Nessa fase, naquela primeira fase, ou em todas as que se seguiram das várias fases desse ciclo, em termos de funcionamento humano, conseguia ainda assim estar funcional?

Sim.

Dormia, comia? Houve ali fases em que até isso era um esforço demasiado grande? Tirando talvez aqueles primeiros 15 dias, direi...

Os primeiros 15 dias eu apaguei.

Autómata.

Sim. Somos robôs. Somos perfeitos robôs. Levantamo-nos porque tem de ser, tomamos banho porque alguém nos disse que tem que ser. Vestimo-nos sempre a pensar: "Por que eu não estou de pijama? Porque não faz sentido." Comemos porque alguém nos põe um prato à frente. É tudo automático. Depois, eu acho que o piloto automático continua durante bastante tempo. Pra mim, foi um ano e meio, dois anos em piloto automático. Mas eu orgulho-me de poder dizer que estive sempre lúcida, completamente lúcida, em todo o processo. E uma coisa que recusei sempre foi qualquer tipo de antidepressivo, qualquer tipo de calmante.

Por quê?

Porque eu não queria deixar de sentir E sei que isto se calhar não é a melhor mensagem que posso deixar, mas era aquilo que para mim fazia sentido, porque eu soube muito cedo que isto era um processo que tinha várias fases e que se eu saltasse alguma fase, mais à frente, eu ia ter que me confrontar com isso. Viria atrás de mim algum obstáculo que eu não ultrapassei devidamente, eu iria encontrá-lo mais à frente. Eu não queria deixar capítulos por ler. Portanto, eu quis sempre estar o mais lúcida possível. Se era para gritar, gritava, se era para chorar, chorava, se era para dar um murro numa porta, eu dava um murro na porta. Tomei um único comprimido, que foi na primeira noite para dormir. Praticamente obrigada, mais uma vez, pela minha mãe. Depois eu acho que adormecia de cansaço profundo. É tão desgastante emocionalmente que uma pessoa acaba por desmaiar. Acho que não adormecemos, desmaiamos a certa altura. Mas a rotina do voltar ao trabalho tão pouco tempo depois, para mim foi importante para ganhar ritmo, ter uma hora para acordar, ter um objetivo, ter um sítio para onde ir, ter um trabalho para cumprir, ter um horário foi importante.

Mesmo que esse trabalho seja entrar em casa das pessoas com sorriso nos lábios, como se a pior coisa da vida não tivesse acontecido.

Eu acho que é um pau de dois bicos, porque se por um lado, durante algum tempo as pessoas não sabiam o que tinha acontecido. A notícia demorou um bocadinho a sair, portanto, eu tive ali uma margem de defesa. E depois quando se soube, eu já estava um bocadinho mais forte. Pouco, mas estava. Mas o entrar em casa das pessoas e o fato de ter de estar feliz, porque essa é a minha profissão, é trazer felicidade aos outros, de alguma maneira.

Mas isso estava a fazer o curto-circuito, não é?

Estava a fazer o curto-circuito. E o ter de estar feliz pelos outros, eu acho que foi o melhor que me podia acontecer. Se calhar tem a ver com a minha personalidade e se calhar não estou por acaso na profissão em que estou, porque durante aquele tempo em que eu estava no ar, não era sobre mim. Eu não podia chorar, eu não podia ir abaixo, eu não podia sentar-me no chão a balançar tipo criança. Não era sobre mim, era sobre quem estava em casa a querer ver um programa de televisão para estar entretido. Portanto, eu durante essa hora e meia, duas horas, eu estava sã, mesmo. Estava sharp, como sempre estive. Mas saía do ar e aí a história era diferente. E antes de entrar no ar era um bocadinho diferente. Mas o facto de ter coisas para fazer foi uma boia de salvação, claramente.

E as pessoas à sua volta sabiam o que tinha acontecido profissionalmente, que são as pessoas com quem nós trabalhamos todos os dias, mas que podem não ser as pessoas mais próximas. Essas pessoas sabiam.

Sabiam.

Quando a notícia se torna pública, sentiu-se a dar uns passinhos para trás, como se tivesse acabado de acontecer, porque se tornou pública.

Sim, porque de repente está numa revista. E porque de repente enche-se a caixa de mensagens de pessoas que não conhecemos a partilhar 1001 histórias de perda. E se por um lado isso nos aproxima, por outro lado, é difícil ler a história de outra pessoa, porque no fundo não tem nada a ver com a minha. Mas ao mesmo tempo eu sei o que aquela pessoa está a sentir e entendo a identificação do finalmente há alguém que está a passar pelo mesmo que eu. E rapidamente se cria uma corrente de pessoas, muitas delas que ainda hoje me escrevem, e que acaba por ser um suporte, porque são pessoas que percebem exatamente aquilo que estamos a passar. Comparando com a morte do meu pai, por exemplo, eu não fui a única que perdeu um pai no dia em que o meu pai morreu, porque tenho muitos irmãos e todos eles perderam o pai. E por muito que todos nós tivéssemos relações diferentes, que é normal, porque cada um tem a sua personalidade, uns são mais próximos, todos perdemos o pai. Uns tinham melhor relação, outros menos, mas era pai. Quando eu perdi o meu namorado/futuro marido, mais ninguém perdeu o namorado/futuro marido. A minha sogra perdeu um filho, os meus irmãos perderam quase que um irmão ou um amigo, os amigos dele perderam um amigo, os meus amigos perderam um amigo, os primos perderam um primo, mas mais ninguém perdeu o futuro marido. E isso é muito solitário. E no caso do meu pai é mais fácil, porque existe esse grupo, existe esse suporte de alguém que está a sentir exatamente a mesma dor. Mas quando as coisas se tornam públicas, automaticamente é-se inundado de mensagens que são maravilhosas de ler, mas que às vezes se tornam quase uma obrigação de ser o exemplo de que as coisas se ultrapassam e de dar uma palavra de apoio e se calhar estamos um bocadinho mais à frente no processo e as pessoas pedem-nos conselhos e conseguimos indicar-lhes um caminho, mas de repente há um peso de responsabilidade de fazer o luto perfeito. Mas agora, no final das contas, ainda bem que foi assim, porque eu continuo a receber mensagens diariamente de pessoas a dizerem: "Aconteceu-me o mesmo agora "Estive a ler e a ver todas as suas entrevistas e sei que é a única pessoa neste momento que me vai perceber. Preciso de ajuda." E tu não tens como dizer que não. Não dá. E traças ou tentas traçar um plano, tentas dizer aquilo que gostavas que te tivessem dito, mas às vezes está mesmo pesado. E o facto de ser público às vezes não é fácil de gerir.

O facto de as pessoas terem dificuldade em lidar com a dor dos outros, da morte ser um tema difícil e da perda ser um tema difícil, faz com que, de facto, as pessoas às vezes não digam aquilo que nós precisamos que nos digam. O que é que aprendeu ou disse alguém que gostava que lhe tivessem dito a si?

Que todos os clichês são verdade, exceto o clichê do tempo. É verdade que é possível ficar tudo bem. É verdade que é possível ultrapassar. É verdade que no final do túnel há uma luz. É verdade que é possível refazer a vida. É verdade que vamos voltar a rir sem culpa, que vamos voltar a ser felizes. É verdade que as saudades se tornam menos pesadas, que as memórias que ficam são as boas. Tudo isso é verdade, exceto o "tempo tudo cura". Isso é completamente mentira, é mito. O tempo, a única coisa que faz é ajudar a que tenhamos distância do livro, que no primeiro dia está colado no nosso nariz. Assim que alguém que nos é peça essencial do coração e da alma morre, fica-se sem chão, sem presente, sem futuro, como já disse, mas fica-se com um livro aberto colado à frente do nariz. É impossível ler. É impossível perceber para onde é que a história vai. É impossível perceber como é que isto se vai tudo processar. O tempo, a única coisa que faz é ir afastando esse livro e um dia é possível ler. E um dia é possível perceber o que é que aconteceu, o que sentimos, o que foi necessário para nós para continuar o caminho. Mas não cura absolutamente nada. E isso eu faço questão de dizer às pessoas que me escrevem, porque as pessoas dizem sempre: "Alguém me disse que isto com o tempo..." Não, é uma escolha. Nós temos de escolher ser felizes. Nós temos de escolher guardar essa pessoa para sempre num cantinho do coração. Estará sempre na nossa memória, mas nós temos de escolher não viver presos a isso.

E em quanto tempo, não esse do clichê, mas quando é que começou a cumprir os outros clichês? Quando é que as saudades começaram a ficar mais suportáveis? Isso vai acontecendo?

Vai acontecendo.

Eles cumprem-se todos ao mesmo tempo? E sobretudo nesse processo de terapia em que sai destruída, mas no dia a seguir até está mais leve, há revés e há recaídas ou é um caminho mais...?

Não, há sempre recaídas. Os clichês vão acontecendo e às vezes só damos por eles depois de acontecerem duas ou três vezes. "Pois é, aquilo que me tinham dito há dois anos, que eu odiei e que achei que estavam a gozar comigo, é mesmo verdade. Afinal, eles tinham razão. Afinal, eu posso rir e não sentir culpa. Afinal, eu posso estar com amigos sem sentir que estou a trair alguém." Tudo isso é possível, mas há dias que são difíceis de explicar para quem não está na nossa pele, em que quase que sentimos tudo como se fosse o primeiro dia, porque por alguma razão acordámos virados para ali ou porque os dias de anos são complicados. O dia da morte é muito complicado. O Natal, essas grandes datas são difíceis. O ir a um casamento é horrível. Durante 10 anos vai-se a um casamento com aquela pessoa ao lado e vai-se sonhando com o dia.

E está-se já na fase de planear.

De planear, claro, o dia. E de repente, estamos a presenciar a celebração do amor entre duas pessoas e não está ninguém ao nosso lado. É muito complicado. E depois há aquela parte muito estúpida nos casamentos, que é o lançamento do buquê. E de repente olham para ti e tu pensas: "Perderam a cabeça. Eu não sou solteira." Não, és viúva, mas uma viúva é uma solteira, de alguma forma. Mas eu não quero ir para ali dar um saltinho e tentar apanhar um ramo de flores que não me vai dizer nada. São coisas tão pequenas e tão parvas quanto estas, em que as pessoas não pensam. Agem naturalmente, porque tu estás bem. Olham para nós e estamos bem, estamos felizes, porque não veem o que se passa cá dentro. E de repente: "Não, vai lá." Eu não vou lá nenhum, eu não quero apanhar ramo nenhum, eu não me quero casar. Acabou. Esse capítulo está arrumado. Eu não vou ter mais nenhum namorado. Eu não vou amar mais ninguém como amei aquela pessoa. Portanto, não me venham com conversas. Quando começam a dizer: "O não sei quantos perguntou por ti." E então? Podes dizer que estou viva e a trabalhar. Não me interessa. São coisas que vão acontecendo, que são normais, mas que para alguém que ainda está tão preso a uma ideia de futuro que é difícil largar, é difícil de aceitar. E é até difícil de digerir.

É mais ofensivo.

É ofensivo. Às vezes roça o ofensivo. E fazer as pessoas perceberem que é ofensivo, porque no limite não é. São as pessoas a torcer pela nossa felicidade. Vem de um sítio de amor, vem de um sítio tão genuíno "Queremos ver-te bem. Imagina só que eu não sei quantos perguntou por ti." E tu pensas: "Então, mas o que eu vivi tudo, vocês já se esqueceram?" Parece que tenho que andar com uma T-shirt a dizer: "Hello!", porque as pessoas parece que se esquecem, mas não se esquecem. Estão simplesmente a tentar torcer por ti, de alguma maneira.

As datas de que falávamos são só as datas, as recaídas acontecem nessas datas ou às vezes acontecem por coisa nenhuma?

Acontecem por coisa nenhuma, muitas vezes. Acordamos assim. Ou porque sonhámos com a pessoa ou porque simplesmente acordamos com saudades. Eu tenho saudades até hoje destes dois grandes pilares que eu perdi e terei sempre. Mas hoje em dia quando tenho saudades, raramente choro. São mais as vezes que me lembro e sorrio do que as vezes que choro. Mas acontece e não nos podemos culpar, disso faz parte do processo. Eu acho que vai acontecer sempre. Há dias em que dói mais.

O que se pensa quando se ouve de um terapeuta, de um médico, uma espécie de "está curada", não é um está curada, mas um: "Nós não temos mais a discutir sobre este tema e sobre o seu luto, isso está arrumado para si." Percebe-se que sim, com alívio, ou é estranho demais?

É estranho, porque aquela pessoa torna-se um bocadinho parte de nós e torna-se parte do processo e portanto, dizerem-nos: "Pronto, por mim está feito." Começamos logo a inventar coisas. Não, não está, porque eu ainda ontem. Mas esse ainda ontem pensei, ainda ontem chorei, ainda ontem me lembrei, estarão sempre presentes. Mas ao mesmo tempo é um momento de orgulho, porque não há uma conversa que se espera ter. Simplesmente há um dia em que nos dizem: "Posso hoje dar-lhe alta do seu luto. Acho que está cumprido." E é alguém que percebe daquilo muito melhor do que nós, validar que o caminho que fizemos foi bem feito, que a missão foi cumprida e que temos as ferramentas para continuar a viver. Mas eu volto lá muitas vezes. Tenho saudades da pessoa com quem me sentava todas aquelas semanas seguidas.

Isso, neste caso, aconteceu quanto tempo depois da primeira consulta?

Demorou pelo menos dois anos. Dois anos, dois anos e tal. Sendo que quando eu comecei a fazer o desmame, por assim dizer, primeiro ia todas as semanas, muito tempo depois passei a ir de 15 em 15 dias, depois passou a ser uma vez por mês, depois já era um bocadinho quando me apetecia, quando eu sentia falta, e depois morreu o meu pai. E aí, não se começa do início, mas é todo um processo que tem que voltar a acontecer, por muito que seja acelerado, por muito que seja diferente, porque era outra pessoa, porque a relação era diferente, etc. É um processo que tem de ser feito de forma metódica e com a mesma vontade de chegar ao fim e sentir essa missão cumprida.

No dia em que o terapeuta lhe disse que lhe pedia dar alta desse seu primeiro luto, quando chegou a casa as luzes ainda estavam apagadas, como no dia em que a sua mãe foi embora?

Estavam.

Teve aquele medo de: "Agora sim, eu estou sozinha", ou já não foi a mesma coisa?

Não, já não foi a mesma coisa. Eu habituei-me à luz apagada. Ainda hoje quando entro a luz está apagada. Passou a ser o meu normal. E mantive-me na mesma casa, que foi uma coisa que me questionaram muito no início, foi se eu não queria sair daquela casa, se eu não queria ir viver para outro sítio. E na altura não me fez sentido e agora olhando para trás, acho que tomei uma boa decisão. Aquela casa não me engoliu, eu não fiquei ali a remoer. Aquela casa tornou-se o meu cantinho e eu já passei mais tempo sozinha naquela casa do que acompanhada.

Mas teve de mudar alguma coisa, por exemplo?

Fui acrescentando. A casa não estava completamente decorada, as coisas não estavam completamente acabadas quando a morte se deu. Portanto, neste momento, há peças fulcrais que são as mesmas, o sofá é o mesmo, a televisão é a mesma, essas coisas assim maiores, a cama é a mesma, mas fui adicionando memórias, fui adicionando objetos, fui adicionando fotografias de viagem. E as fotografias é outro ponto. As fotografias é outro momento muito difícil, o momento em que se decide se vai ou não retirar as fotografias que estão expostas. E cada pessoa tem o seu timing. Não há: "Ao fim de um ano e meio está na hora." Não está na hora. Está na hora quando a pessoa achar que está na hora e quando essa for a vontade. Mas lá está, vem um grande sentimento de culpa quando se pega numa moldura e se pensa: "Esta fotografia já não faz sentido aqui. Se calhar vou mudá-la." Começamos por mudar as coisas de sítio. E devagarinho vamos arrumando.

Retirar coisas, arrumar coisas, arrumar roupas. Isso, no seu caso, foi tudo rompante? Foi um dia em que aconteceu e é preciso fazer isto, ou teve de ser devagarinho?

Teve de ser devagarinho, sendo que a roupa estava praticamente feito. Porque ia acontecer uma mudança, íamos fazer uma viagem, e portanto a roupa estava praticamente toda arrumada. Eu deixei ficar o saco intacto, mas ao fim de dois, três dias, a roupa saiu. Uma semana, talvez. Os objetos, para mim, foi mais difícil. Eu fiquei com duas ou três peças de roupa, porque nós queremos o cheiro da pessoa. Houve coisas que eu guardei, mas para mim foi mais difícil os objetos. As fotografias foram mais difícil. Muito mais difícil, porque uma fotografia é o eternizar de um momento. E há aquele sentimento que se eu arrumar esta fotografia, eu estou a pôr numa gaveta este momento também. E distinguir isso nem sempre é fácil.

Quando acontece a alta, é imediata a sensação de "eu já estou bem. Não estou igual, não vai acontecer, mas eu já estou bem" ou ainda assim há mais dúvidas do que certezas em relação a isso?

Há mais dúvidas do que certezas, mas temos de confiar na certeza do profissional. Se o profissional nos diz: "A meu ver, este capítulo está encerrado." Nem é bem encerrado, é para já está tudo feito. Se entretanto surgir alguma coisa, algum tema, podemos sempre voltar a abrir esta gaveta. Mas há sempre uma dúvida que fica, porque eu acho que é mais fácil para os outros profissionais identificarem se o processo foi todo feito e se não ficou nenhuma ponta solta, do que se calhar nós, porque dentro da nossa cabeça é tudo tão frenético que é mais difícil de identificar. Mas eu acho que está feito, agora sim, sete anos depois está feito, está bem feito, mas ainda tenho os meus momentos e acho que terei sempre.

O que mudou em si? O que passou a fazer que não fazia? Como é que passou a viver que não vivia? E o que definitivamente deixou para trás?

Eu passei a despedir-me das pessoas de maneira diferente. Acho que essa foi a maior mudança. É um clichê dizer, mas é mesmo verdade. Acho que passamos a dar valor a coisas diferentes. Passamos a dar mais valor ao tempo que passamos com as pessoas, mas para mim o momento da despedida tornou-se diferente, porque eu agora tenho a perfeita noção, todos os dias, de que esta pode ser a última vez que nós estamos as duas frente a frente. Pode mesmo ser, porque eu posso sair daquela porta e levar com um autocarro. Portanto, quando saímos daqui, eu faço questão de olhar as pessoas nos olhos e a última imagem que tento deixar, apesar de agora estar em lágrimas, é um sorriso, porque se eu sair daquela porta e levar com um autocarro, eu quero que amanhã se lembrem: "Mas ainda ontem ela esteve conosco. Que fixe que foi, que boa energia que deixou." Acho que essa foi a principal mudança. O que eu deixei para trás, eu acho que não deixei para trás grande coisa. Eu acho que adicionei foi coisas à lista. Tempo, sobretudo, a importância do tempo.

Já falou aqui depois da morte do seu pai, e vem outra perda importante, diferente, mas importante. A forma como lidou com essa perda foi muito determinada por tudo que já tinha vivido antes? E tem essa consciência?

Tenho, perfeita consciência. Se o meu pai tivesse morrido primeiro, eu teria sofrido muito mais, porque seria a primeira vez que eu ia ter de lidar com um grande luto que tinha de fazer. Sendo que o meu pai foi depois, lá está, eu já tinha algumas ferramentas e há algures no nosso cérebro um ficheiro, que por muito que ainda não o tenhamos aberto, nós temos a noção que está escrito em algum lado na nossa cabeça de que os nossos pais irão primeiro. A menos que alguma tragédia aconteça. Portanto, eu acho que há um pequeno chip em nós que já está preparado para ser ativado quando o nosso pai ou a nossa mãe morrem. É a lei natural da vida, é difícil, mas é o que tinha que acontecer. Aconteceu o que tinha que acontecer pela ordem que tinha que acontecer. E foi mais fácil, exatamente como dizia há bocadinho, porque tinha os meus irmãos, porque havia outras pessoas a sentir o mesmo do que eu. Não foi tão solitário. Acho que essa foi a maior diferença, não foi tão solitário.

E que ferramentas é que para si foram mais fundamentais? A capacidade de já saber quais são os clichês que existem e que não existem, ou de focar numa recuperação que sabia que era possível acontecer?

Tudo isso. É saber que o tempo não cura, mas que ajuda a ganhar distância. É saber que é uma escolha ultrapassar aquilo que nos está a acontecer. É ter a profunda certeza de que eles não quereriam que nós ficássemos a viver agarrados à tristeza. E é não sentir culpa, porque já aprendemos essa lição, de voltarmos a rir, de voltarmos a ser felizes, e saber eternizá-los de alguma maneira. Falar sobre eles não tem de ser uma coisa triste. Acontece muitas vezes entre irmãos, alguém dizer: "E o pai agora? Ouvir-te dizer isso. E o que o pai agora diria de...? O que o pai ia achar?" Há sempre alguém que se sai com uma frase dessas, que normalmente arranca gargalhadas, porque todos nós sabemos exatamente o que o meu pai diria, o que o meu pai faria, que resposta iria dar. Isso atenua. Acho que manter as pessoas vivas nas conversas ajuda a senti-las aqui.

Mas uma segunda perda também prova que não há uma fórmula.

Sim. Eu acho que prova que é difícil pra caracas. E prova que vamos sentir isto mais do que uma vez. E eu não sei se estou preparada para isso. Sei que tenho as ferramentas, sei que cá estão, sei que a minha terapeuta estará sempre à minha espera. Mas caramba, a certa altura, já chega. Já chega de o telefone tocar e me dizerem que mais uma pessoa deixou de existir. É muito duro.

Também é um engano pensar que um processo destes nos torna mais resilientes, porque quando as coisas acontecem, pelo menos naquele primeiro momento, é como se tivéssemos recuado a todos os outros momentos.

Recuamos à fragilidade. Eu senti da primeira vez e senti da segunda vez exatamente. Houve uma coisa muito comum, no exato momento em que me deram as duas notícias. Eu voltei a sentir a fragilidade de ser criança. Eu voltei a ser uma criança. E das duas vezes, eu só queria a minha mãe. E agora a questão é: e quando for a minha mãe? Vou me agarrar a quê? Se calhar, vou me agarrar aos meus filhos, se já tiver a sorte de ser mãe. Mas voltamos a um sítio tão visceral e tão pequenino, porque é isso que nós nos sentimos. O que nós somos no meio disto tudo? Não somos nada, somos insignificantes e queremos o colo e ouvir a voz de alguém que nós sempre vimos como sendo maior que nós. Alguém que vestiu sempre a capa. E essa pessoa é a mãe ou é o pai. E é muito difícil quando um deles vai. E agora o super-herói já não existe, já só existe a super-heroína, que vai ter que aguentar o barco pelos dois. É difícil de descrever para alguém que nunca passou por isso, mas nós voltamos a ser crianças, nesse momento, mesmo.

Nestes dois processos, teve sempre a noção de que aquilo que estava em risco era a sua saúde mental ou não pensou nisso nesse sentido?

Pensei. Porque naquela altura das falinhas mansas e da mãozinha no ombro, sem palavras, nessa altura eu pensei: "Se eu fico aqui mais tempo, sentadinha a beber chá, eu vou dar em louca, eu vou mesmo enlouquecer." E aí percebi mesmo. Isto tem de ser uma escolha algures aqui dentro, porque se há dois cabos que se ligam no fusível errado, isto vai entrar em curto-circuito e eu não vou conseguir recuperar. Eu sabia que tinha que fazer isso por mim, para me manter viva, para me manter sã.

E foi a primeira vez que lidou com a sua saúde mental e que teve que a proteger de alguma forma?

Foi, eu acho que sim. De forma consciente, sim. Eu acho que há outros momentos em que há coisas aqui dentro, há ficheiros que já cá estão, que nos vão amparando noutras situações. Mas eu nunca tinha sido confrontada de uma maneira tão brusca com: "Tu tens que salvar a tua sanidade. A tua saúde mental é importante nesta equação, porque se isto falha, se o cérebro vai ao ar, então aí é que já não há mão em nada, já não vamos conseguir agarrar nada." Mas o que ao mesmo tempo traz-nos a uma realidade tão básica. Caramba, se nós perdermos esta saúde nesta parte tão específica, nós perdemo-nos. Nós deixamos de existir, porque de repente fica-se perdido num buraco negro, algures, a tentar sobreviver ou nem isso. Portanto, eu acho que foi superesclarecedor.

E faz com que agora até esteja mais atenta a outros riscos?

Sim. E estou sempre a recomendar às pessoas que façam terapia, que se sentem com algo: "Mas eu não perdi ninguém, mas eu estou ótima." Ainda bem, mas tens aí dentro coisas por resolver, que um dia mais tarde se vão refletir num grito que se dá a um filho, numa reação que se tem de um namorado que fechou a porta com mais força, do que for. Todos nós temos gavetas que precisam, pelo menos, de ser abertas, olhadas com mais atenção, arrumadas e fechadas outra vez. Eu ganhei outra clareza.

Não acontece só aos outros.

Não, definitivamente não. Acontece a todos. Infelizmente, vai nos acontecer a todos. Sim.

Obrigada.

Obrigada eu.