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Começa agora o Linha da Beira Alta na Rádio Observador Viseu. É um programa em que damos voz a figuras e personalidades do distrito de Viseu. Eu sou o João Costa e Silva e ao longo da próxima hora convidamos todos os ouvintes a participar. Podem enviar a sua opinião, aquilo que pensa sobre o tema que vamos falar neste episódio, através do nosso número do WhatsApp 91 002 41 85 e também por e-mail viseu@observador.pt. No Linha da Beira Alta de hoje recebo Helena Rebelo, é presidente do Grupo de Alerta para a Segurança Infantil e Juvenil, a quem agradeço o fato de se juntar a nós neste Linha da Beira Alta. Muito obrigado.
Obrigada eu, eu é que agradeço a oportunidade.
Helena Rebelo, vamos começar por falar dos dados mais recentes da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, que indicam que nas estradas do distrito de Viseu, nos primeiros seis meses do ano, houve mais acidentes que fizeram mais vítimas mortais e feridos ligeiros, comparativamente a igual período do ano passado. E o que eu lhe pergunto é o que é que estes números explicam e o que é que pode ser feito para prevenir ainda mais a sinistralidade que tem invadido aqui o distrito de Viseu?
Eu vou começar por fazer um pequeno enquadramento do Grupo de Alerta para a Segurança, que é uma associação sem fins lucrativos, cujo principal objetivo é promover a segurança infantil e juvenil, reduzir a morbimortalidade por acidentes e contribuir para uma cultura de segurança na comunidade. Ou seja, nós dedicamos a todos os acidentes em geral. Porém, o fato da mortalidade ser muitíssimo mais elevada em termos rodoviários, dedicamos uma parte das nossas iniciativas, uma parte substancial, à prevenção de acidentes rodoviários. Não somos especialistas, somos profissionais de várias áreas. Eu sou enfermeira, mas temos professores e outros envolvidos, não só profissionais de saúde nesta área. Relativamente à questão que colocou, nós temos a noção que também tem havido um aumento de veículos em circulação de acordo com alguns dados. Portanto, aumentando o número de veículos, é natural que a probabilidade de acidentes aumente. Concretamente Viseu e Concelho de Viseu, que é a nossa área de influência, o que nos tem agora particularmente preocupados são os atropelamentos. Não sem dados oficiais ainda, mas temos uma noção de que cerca de 50 pessoas terão sido atropeladas no Concelho de Viseu. Algumas vítimas mortais e de feridos graves, porque preocupa-nos tanto as vítimas mortais como os feridos graves. Pelas sequelas com que ficam, e o atropelo que é também às famílias. Qualquer acidente tem danos irreversíveis no próprio e em famílias, e nas famílias, quando há mortes ou feridos graves. E em Viseu, sobretudo nesta área, mas também na circulação de trotinetes, começam a haver cada vez mais a circular e sem cumprir realmente as normas de segurança ou, por outro lado, as normas de segurança não são tão adequadas como deveriam ser, a obrigatoriedade.
Nesta questão das trotinetes, que aliás, é uma forma de deslocação que tem estado muito na moda pela Europa e que chegou claramente a Portugal. É preciso discutir a forma como estes equipamentos estão a circular neste momento na via pública e provocam, por vezes, transtornos?
Sem qualquer dúvida. O uso de roupa refletora e de capacete tem que ser obrigatório e essa obrigatoriedade tem que ser feita cumprir, porque não é invulgar vermos pessoas na via pública, onde há carros, a circular a velocidades de 180, 170. Mesmo dentro de localidades, ou vias de circulação externa, em Viseu nós designamos de circunvalação, e pessoas que vão sem capacete, sem uma roupa refletora que se veja ao longe ou clara. E há dias aconteceu-me à noite ver, nesta circunstância, mas à noite, uma trotinete que apenas uma luz reluzente ao longe se vislumbrava. Portanto, as pessoas põem-se em risco, sem necessidade também, porque há algumas medidas que podem minorar este elevado risco de acidente.
E nesse sentido, tem havido algumas alterações do Código da Estrada, contribuíram para a diminuição do número de mortos e pontualmente o número de acidentes, mas não é suficiente.
Eu não creio que seja pela legislação, à exceção da obrigatoriedade da roupa refletora e do capacete, mas é, sobretudo, fazer cumprir o que já está estabelecido legalmente aos vários níveis. Não é só nas trotinetes, os motociclos a mesma coisa, com os peões a mesma coisa. Portanto, há aqui uma necessidade de maior fiscalização. A sensibilização tem sido feita, mas se calhar temos que retornar a uma sensibilização mais massiva, através dos meios de comunicação da expansão nacional, porque nós continuamos a ter cerca de 400 e tal, 500 mortos por ano. E o número de feridos graves é enorme, cerca de 2 mil. Como é que nós podemos ficar tranquilos e não falar deste assunto, que é gravíssimo, com consequências terríveis em termos económicos também, sem que haja medidas mais visíveis, mais efetivas? É que quando deixamos de falar das coisas na comunicação social Todos nós relevamos. Parece que deixou de ser um problema e não é, continua a ser um problema gravíssimo o número de vítimas nas estradas. Só para lhe dizer que 2019, que é o ano de referência pra União Europeia, teve 474 vítimas mortais. Isto a nível nacional, 2301 feridos graves. Ano passado, tivemos 467 vítimas mortais e 2437 feridos graves, ou seja, sendo o objetivo da União Europeia fazer uma redução de 50%, nós até 2030, estamos, neste momento, praticamente sem redução nenhuma. No primeiro semestre deste ano continuamos com valores na casa dos 220 mortos, vítimas mortais, e 1300 e tal feridos graves, ou seja, no final do ano teremos com certeza o dobro, os números são idênticos aos de 2019. Certo que há aumento de circulação, mas isso é sempre um dado que é muito difícil ser muito específico em relação a esse dado, o número de viaturas que circulam. Mas que há medidas a tomar, há, a nível central, a nível local, não há dúvida que sim.
Estes números que falava, claro que chamam a atenção até pelo nível de preocupação que assim o exigem. Falando aqui das campanhas de sensibilização, que são muito importantes neste sentido, sente que também com o avançar das novas tecnologias, com a chegada de novas formas de comunicação, as campanhas de sensibilização também têm de se adaptar cada vez mais às necessidades, aos jovens que eventualmente estão também-
Isso tudo é essa forma de chegar aos jovens, sem dúvida que sim.
É o mais exigente, não é?
Claro que sim.
Falo disto, claro, relacionado também com campanhas de prevenção que eventualmente fazem em escolas, deve ser o público mais exigente.
Eu ia exatamente falar disso. Um dos nossos projetos mais emblemáticos, já começou com o início desta associação em 2004, no Hospital de Viseu, foi na sequência de umas operações stop que realizamos, porque no hospital, a pediatria, verificavam que havia inúmeras crianças vítimas de acidentes, nomeadamente rodoviários, e que tínhamos que fazer alguma coisa. E foi daí que surge a associação, através de um grupo que existia, e que existe, que é a Unidade Coordenadora Funcional das Crianças e do Adolescente, e que engloba pessoas do hospital e dos cuidados de saúde primários, profissionais de saúde, e definiu-se como um dos objetivos prioritários a prevenção de acidentes. Daí surgir esta associação para ir buscar pessoas à sociedade civil também e outros organismos, que não da saúde exclusivamente, porque é um problema transversal. E o nosso primeiro projeto foi o Alta Segura. O Alta Segura foi instituído na Maternidade de Viseu à época. Hoje não é um projeto, é um programa consolidado e que visava e visa que todo recém-nascido que sai do hospital, saia numa cadeira adequada, uma cadeira automóvel, portanto, um sistema de retenção para crianças adequado e adequadamente colocado no automóvel e a criança adequadamente colocada nesta cadeira. Para isso é feito, num simulador de bancos de automóvel, uma sensibilização, uma sessão de educação para a saúde aos pais ou tutores legais, para aprenderem como colocar. Não temos dúvidas que é uma mais-valia e que se tem repercutido no transporte de crianças. Porém, não é só nesta fase. Isto tem que ser repetido. Dizem que a repetição é a mãe da retenção. Portanto, só com a repetição é que nós vamos mudando as atitudes, que é a parte mais difícil. E indo ao encontro daquilo que eu estava a dizer atrás, nas escolas, temos um projeto que é o Prevenir Mais e que temos implementado em escolas aqui do Conselho de Viseu, e visa a prevenção de todo o tipo de acidentes em crianças do primeiro ciclo ou segundo ciclo. Nós criamos um acrônimo que é o ICA, e que passa exatamente o que estávamos a falar. Primeiro que tudo é ensinar, é identificar o risco ou o perigo. As crianças têm que saber onde é que há situações de risco ou de maior perigo. Depois conhecer as medidas de segurança a adotar. E depois, por fim, adotar ou agir de acordo com estas medidas, que aí é que é o busílis da questão. As pessoas até conhecem, mas não adotam. E isso é que é um trabalho que tem que ser de todos, dos próprios, da família, das forças de segurança, dos professores, todos os intervenientes, dos profissionais de saúde, enfermeiros, médicos, toda gente tem que participar nesta parte, que é solidificar este comportamento, um comportamento seguro, criar a tal cultura de segurança, que ela esteja dentro de nós e que não façamos uma travessia de peões a olhar para o telemóvel ou a não olhar para os carros ou a não parar antes de atravessar. Portanto, são atitudes e comportamentos que têm que obrigatoriamente ser incorporados no nosso dia a dia.
E Helena Rebelo, como começamos esta conversa também para falar aqui com o Grupo de Alerta e para Segurança, falou aqui da missão, que é promover a segurança infantil e juvenil na comunidade. Deixando agora aqui um bocadinho de parte a sinistralidade rodoviária, que outras iniciativas têm neste momento a acontecer e quais são os principais problemas que levantam aqui, não queria dizer mais bandeiras, mas mais preocupações para este grupo?
Nós, em termos globais, gostávamos de ter um trabalho de maior proximidade com a autarquia, porque em termos de conselho municipal de segurança, nunca houve. Creio que ele foi criado, mas nós realmente nunca tivemos uma participação ativa e creio que seria o local certo para debatermos estas situações e as soluções Não sendo nós especialistas em traçados rodoviários nem outros tipos de medidas, mas temos conhecimentos para que possamos sugerir algumas alterações à via, algumas medidas em conjunto, porque nós fizemos e tencionamos continuar a fazer, por exemplo, as operações stop com a PSP e GNR, numa perspectiva de sensibilização. E continuamos a detetar muitas situações de transporte incorreto de crianças, por exemplo, ou dos próprios, dos adultos. E vou lhe dar o exemplo, no banco de trás, neste momento, se alguém nos estiver a ouvir, tem o cinto de segurança? É a pergunta que se impõe. Tem o encosto de cabeça colocado? E continuamos a ver isso todos os dias. As pessoas vão para o banco de trás e não colocam.
São questões às vezes tão básicas que achamos que já estão-
Tão básicas. Que não entraram. Que já estão incorporadas e consolidadas, mas não estão. No banco da frente, sim, até porque as coimas, a fiscalização tem atuado, no banco de trás, porque se esconde. As pessoas, como se fosse a coima, o motivo por que devemos usar estes sistemas de retenção. O objetivo não é esse, é estarmos mesmo o mais seguros possível. E nós tivemos, em tempos, a Escola Móvel de Trânsito, com o apoio do então governo civil, mas até gostaríamos muito que não fosse uma escola móvel de trânsito, mas uma escola fixa de trânsito, à semelhança do que existe noutras autarquias, noutros concelhos, em que as crianças se pudessem deslocar e treinar ali, desde pequenas, as regras de circulação rodoviária, por exemplo, de uma forma lúdica. Atividades lúdico-pedagógicas, que são melhor incorporadas pelas crianças. Nós até temos um lema que é: "A brincar é que se aprende". Começa-se desde pequenino e de uma forma constante, sistemática.
Muito bem. Helena Rebelo é a presidente do Grupo de Alerta para a Segurança Infantil e Juvenil. Queria lhe agradecer o facto de ter estado aqui conosco na Linha da Beira Alta.
Eu é que agradeço em nome do GASI.
Esperemos que esta conversa, se alguém nos vai ouvir neste momento no carro, sirva também para despertar alguns alertas e algumas coisas que às vezes nós achamos que são tão básicas, mas que no final do dia são mesmo muito importantes. Muito obrigado por isso e até uma próxima.
Foi um prazer. Muito obrigada.
Obrigado.
Obrigada eu por me ter convidado.