Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
"Melhor é Difícil" é um podcast em que Maria João Avelãs entrevista portugueses que são exemplos de excelência, que são os melhores nas suas áreas e contam como chegaram ao topo.
Herman José, muito bem-vindo. Eu lembro-me que houve uma geração formidável de cômicos, Vasco Santana, António Silva, Ribeiro, que enchiam os palcos e o país afogava-se em riso. Depois houve a revista, o Rolo Solnado, a Ivone Silva, o Humberto Madeira, e de repente você aparece e é quase disruptivo. Foi um ato quase revolucionário. Nesse sentido, tenho que começar por isto: foi pioneiro de um outro humor, de um outro tipo de humor. Acha que foi?
Para ser um pouquinho mais honesto, fui importador de um tipo de humor, porque a minha geração é formada no humor inglês. Começamos a ver na RTP2, algures, dois, três anos antes do 25 de abril, uns tipos absolutamente inacreditáveis chamados Monty Python. E as pessoas rebentavam, as entrevistas eram surrealistas, as mulheres eram elas próprias a fazer de travesti, com a mesma colocação de voz que eu mais tarde uso na Maximiana. Aquela coisa da mulher que falava assim: "They did it like this. Oh, eu acho lovely. Oh, não sei o quê". Portanto, há muita influência deles. E quando eu ia fazer as minhas revistas e as minhas peças, havia uma coisa que me irritava imenso, que era: "Eles depois aqui vão rir muito. Aqui podes fazer uma pausa, que eles vão achar muita piada". Mas estamos a trabalhar para pessoas atrasadas? Eles? Ou seja, eu não estou a achar piada nenhum.
E quem punha essas coisas?
Estava convencionado. Os autores.
Sim. Ok.
O próprio Nicolau, que era um tipo modernasso e giro que eu amava, tinha um double standard, as piadas em privado, giríssimas, que nós já vamos rir com ele, mas depois as piadas oficiais para fazer nos palcos de revista, que eram as coisas que eles gostavam. E isto fazia muita confusão.
E acabou com isso.
Não acabei. Um dia não houve dinheiro para fazer o Tony Silva com o Júlio Isidro, e eu disse: "Então, se não há dinheiro, eu próprio vou começar a fazer os meus textos, inspirado nestas coisas que me fazem rir a mim". E comecei a fazer piadas para mim e para o Júlio Isidro.
Isso é tão engraçado.
O Júlio chorava a rir, eu chorava a rir, e quando demos por nós, a maior parte de Portugal estava a rir conosco.
Claro.
Sobretudo as pessoas mais novas, como é óbvio, os mais velhos odiavam-me.
Não, odiavam, não, mas estavam talvez um pouco complexos.
Não gostavam nada, mas também já morreram todos, Maria João, portanto, agora as minhas plateias são de pessoas encantadas, de sorrisos, porque já não tenho os velhos do Restelo, já foram todos para os prazeres.
Oiça, você diz que eu ria, o Júlio ria, você ri consigo próprio.
Tenho que rir, se não rio comigo próprio, é que alguma coisa está a correr mal. Mesmo durante os meus espetáculos, são o meu core business e aquilo que eu mais gosto de fazer na vida, e que me dá uma coisa muito interessante chamada, como é que se diz? Dinheiro.
Dinheiro. Eu ia ajudar, dinheiro.
Eu estou a fazer um espetáculo e estou a divertir-me a mim. E se estou doente ou se estou cansado ou se está muito ruído e não me estou a divertir a mim, é porque não estou a fazer um bom trabalho. As pessoas acabam por gostar, porque a minha técnica já é tanta, que eu disfarço isso muito bem, mas para mim trabalhar só faz sentido divertindo-me a mim próprio.
Herman, como é que se descobre que se pode fazer rir os outros? O que teve que lhe acontecer a si para perceber que poderia fazer não só rir os outros, como fazê-lo muito bem?
Ser o representante da classe média remediada em um conjunto de ricos.
Ela é remediada, a classe média.
A minha classe média era remediada, que era muito boa na altura, a classe média dos anos 60 vivia nas Avenidas Novas com duas empregadas, atenção. Só que os meus amigos eram todos alarmemente ricos.
Sim.
E, portanto, a grande maneira que eu tinha de me integrar numa miríade de casas lindas e quintas e idas de avião para as caçadas, era ser extraordinariamente divertido e engraçado. E então quando eu chegava aos sítios, aquele é quem? "Ó tia, não interessa nada, mas é tão giro. Podemos pô-lo aqui ao pé de nós?" "Ponha, ponha". Portanto, é uma arma, acaba por ser uma arma para ser aceito. Aconteceu igual com o Noel Coward. O Noel Coward era um grande autor.
Britânico fantástico.
Ele era namoradinho de um lorde qualquer coisa. O lorde qualquer coisa, antes de morrer, pediu se a sua amiga lady não sei quantas não tomava conta do miúdo. E ela tinha uma daquelas casas tipo Downton Abbey. E o miúdo ficou a viver numa daquelas casas periféricas. Mas era tão interessante e tão bom contador de histórias, que foi mudando de casa cada vez mais perto para a casa principal e acabou viver com a família. E então todas as peças dele são baseadas naquele mundo de upstairs que ele viveu por empréstimo. E o meu fenômeno é relativamente parecido, porque eu graças à minha maneira de ser, consegui depois chegar junto de todas as pessoas que me interessavam. E quando eu falasse em classes altas, falo também intelectuais e de vida e tudo isso.
Você chegou ao país, entre outras coisas.
Porque eu não queria estar confinado ali à pequenez do Parque Mayer e ao filho: "Ó filho, tu conheces". E, portanto, o humor para mim foi uma arma.
Foi uma arma. Benigna, claro, maravilhosa. Mas às vezes muito perigosa.
Sim, já apanhei uns sustos.
Exatamente. Perigosa.
No outro dia alguém me dizia: "Mas por que tu és mais agressivo hoje em dia?" Porque já não tenho espaço no colete antibalas. Levei tantos, que hoje em dia é só uma malhazinha. Portanto, deixo aos mais novos o privilégio de se meterem em guerras e lutas, que é muito cansativo.
Muito cansativo. Falou do Parque Mayer e eu lembro-me de uma coisa que era muito engraçada e que até era usada depois em caricaturas com as vossas figuras, em caricaturas de ministros, que era o Sr. Feliz e o Sr. Contente, e falámos do Nicolau, prestemos uma homenagem ao Nicolau Brafner, mas também àquela maravilha daquele duo, o Sr. Feliz e o Sr. Contente, que faziam uma troça enorme, uma enorme ironia sarcástica ou corrosiva.
Mas permita-me abrir um parêntesis, cada quadra daquelas era duramente negociada.
Com quem?
Com as entidades censórias vigentes.
Mas estamos a falar depois do 25 de abril.
Estamos. E a censura à esquerda é tão ou mais feroz que a censura à direita. E portanto, havia uma quantidade de coisas que voltavam para trás, a vermelho, a dizer: "Isto nem pensar. Não vamos pôr em causa o nosso general não sei quê". Ou: "Era o que faltava era brincarmos com isto". E o César Oliveira, muito inteligentemente, porque era adepto de uma coisa muito boa chamada Realpolitik, pegava nos textos e depois ia moldando aquilo ao gosto do freguês, para que nunca ninguém desse por isso e que parecesse uma coisa atrevida. Hoje em dia faz-se muito, eu às vezes tenho essa leitura. Vou lhe dar um exemplo pragmático. O Trump chegou a acordo com o vice-presidente da Venezuela e ela de vez em quando aparece a insurgir-se contra o império americano. "Estão a abusar de nós". Eu não tenho qualquer dúvida, são pequenas bolsas negociadas. Finges lá que és independente para toda a gente ficar contente. E as nossas quadras tinham muito disso. "Eles são tão corajosos". Não são nada. Era a coragem possível dentro do espaço que ficava ali. Quando eu comecei a contrariar isso nalgumas alturas, ia pagando esse atrevimento muito caro.
Herman, e quem é que, já agora, mas num segundo, porque eu tenho aqui muitas curiosidades, quem é que fazia o risco encarnado? Os autores. Não é preciso dizer os nomes, é os autores.
Não, havia os poderes, tem sempre os pequenos poderzinhos que fazem aquilo que acham que o patrão gostaria que fizesse. E muitas vezes são eles próprios. Eu tenho um programa que foi censurado em pleno cavaquismo, e enquanto os pequeninos Cavacos me censuravam o programa, o grande Cavaco recebia mensualmente para ver como é que íamos sair da situação, porque estava embaraçadíssimo. Ou seja, quem tinha feito o serviço eram aqueles que achavam que iam prestar um grande serviço ao líder. Enfim, a Maria João percebe melhor do que ninguém esta história.
Percebo, e acho que quem te está a ouvir também percebe. Acha que foi, sobretudo no Sr. Feliz e no Sr. Contente, ou estou enganadíssima, que se começou a dar por si como muito bom no país? Não é nos pequenos círculos de teatro.
Foi isso, sem dúvida, mas depois tive um susto, apanhei um susto muito grande, Maria João. Porque quando aquilo acabou, instalou-se uma espécie de esquecimento, que me assustou imenso.
Com certeza.
Do qual eu saí, sabe como?
Como?
Com um anúncio à Água Castelo. Eu estava a fazer revista na altura. E entrava e era o: "É aquele. Este foi aquele que fez... Sim, que esteve com o Nicolau". Indiferente. De repente, o que começa a fazer um anúncio à Água Castelo, que foi um êxito na televisão. Uísque com Água Castelo, vermute com Água Castelo, não sei o quê com Água Castelo, tudo com Água Castelo, Água Castelo com tudo. E o anúncio serve de espoleta ao rebentamento da minha primeira fase, de trazer para a memória das pessoas: "Este era aquele miúdo que...". E lembro-me que nessa altura, em teatro, havia uma diferença tão grande, que a Ivone Silva tinha de esperar para falar, porque quando eu entrava, havia uma salva de palmas.
Claro.
Às quais ela não achava a mínima piava.
Mas depois há essas rivalidades e desamores.
A Ivone tinha tanto talento quanto defeito complicado.
Olhe, o que é capaz de ser um dom é fabricar o humor e depois praticá-lo, porque você, ao criar um personagem, já lá vamos, está a fabricá-lo, a criá-lo, mas depois pratica-o em cena.
Essas regras são muito curiosas.
Estas?
Essas regras são muito curiosas e muito variadas. Eu sempre achei que um grande autor, não tendo talento suficiente, não se pudesse tornar no grande intérprete das suas coisas. Só que com o tempo nós vamos percebendo que não. O primeiro caso que eu senti foi o Carlos Paião. O Carlos Paião escrevia coisas geniais e era um intérprete discreto, era um miúdo que cantava para nós em casa, para a gente, nem tinha mais ambições. E um dia, foi ao Festival da Canção com o Playback e torna-se um intérprete ao nível das suas criações. A Joana Marques igual. Quando eu conheci a Joana Marques, jamais sonharia sequer que aquela jovem eterna figura pudesse um dia aos microfones vender tão bem o seu papel. Com o Ricardo foi diferente. O Ricardo Ruiz Pereira traziam os textos à Antenor e líamos, porque eu andava tão ocupado que nem tinha tempo para ler nadaE eu diverti-me imenso com ele. Dava uma vontade de rir tão grande. E portanto, quando ele começou a aparecer, eu pensei: "Aha! Está certo, é isto", porque estava lá dentro o seu. Mas ao mesmo tempo posso lhe dar outros exemplos de intérpretes muito apagados e aparentemente sem chispa, que depois pegando nos seus magníficos textos, arranjam uma maneira de fazer uma deliverance. O exemplo mais extraordinário é o Woody Allen. O Woody Allen é feio, é pequenino, não tem qualquer jeito, era um grande autor e um dia começa a ir para os programas de televisão com aquele arzinho dele.
Era um ator irresistível.
E de repente toda a gente começou a adorá-lo. As regras aí são curiosamente muito variadas.
Herman, falou do Ricardo e do Carlos Paredes, tem nomeado pessoas, mas a partir de uma certa altura, você tinha um grupo de pessoas, as produções fictícias, que lhe escreviam.
As produções fictícias nascem porque eu queimei.
É isso que eu quero saber. Quando é que nasce?
Eu queimei por causa da rádio. O Rangel amava-me.
Você amava o Rangel. Era uma boa.
Enquanto a TSIAF não era legalizada, foi-me buscar. Eu estava a fazer programas na Antena 1, muito giros, ao fim de semana, a convite do meu querido João David Nunes e do saudoso Jaime Fernandes. Entretanto, deu-se aquela confusão do humor de perdição, aquela coisa desagradável. O Rangel puxa-me para a rádio e eu começo a fazer na rádio, diário, crónicas que paravam o país. Só que estive três anos a fazer e quando cheguei ao fim estava queimado. Não era capaz de escrever uma única linha. Quando comecei a fazer o "Parabéns" na RTP, convidei um jovem professor de português chamado Nuno Artur Silva, que escrevia uns textinhos muito engraçados, juntamente com outro jovem, e comecei a ter tanto trabalho que eles queriam as produções fictícias. As produções fictícias nascem pela minha incapacidade de continuar a escrever.
Mas é um honrar ter há mais de 50 anos as plateias do país a rir consigo ininterruptamente. Como é que você olha para isto? 50 anos, e talvez até não sei se um bocadinho antes.
Há um segredo muito interessante, que é: nunca parei um segundo para usar o passado como argumento para agradar no presente. Estou sempre a começar de novo todos os dias. O último espetáculo que fiz foi uma festa de aniversário, no Porto, de um fã que fazia 50 anos. A minha primeira preocupação, estava rodeado de 200 pessoas da geração dele que me adoravam, incondicionalmente, ou seja, era um ambiente que eu não precisava fazer nada, era chegar, "Olá, tudo bem".
Já tinha ganho antes de chegar.
Nem pensar.
Já tinha ganho antes de chegar.
A minha obsessão é: vou começar do zero e daqui a uma hora eles vão ter a perceção se viram um grande espetáculo ou não viram. E eu sempre vivi assim. A minha preocupação é sempre no presente. Nunca descansei. E depois, como felizmente nunca enriqueci, tive sempre uma capacidade.
Mas dizia-se que você tinha dinheiro, tinha aquilo que os portugueses consideram sinais exteriores de riqueza, barcos e mais do que uma casa.
E tenho uma vida extraordinária, só que é um iceberg só com a ponta. A diferença entre nós, pessoas como eu, e os ricos, é que nós aparentemente temos os mesmos carros, as mesmas casas, o mesmo nível de vida. Só que no nosso caso, vê-se a ponta do iceberg e por baixo não há nada. Se não continuarmos a trabalhar, o iceberg desaparece. Os ricos não. Têm a sua estrutura e depois aparece a pontinha do iceberg. E portanto, essa inquietação foi-me sempre muito criadora, porque eu não posso deixar de trabalhar, porque para continuar a ter as alegrias que quero ter.
De ter ido agora passar férias ao Dubai, onde gosta tanto de ir, e ter voltado dois ou três dias antes do que lá aconteceu.
Sem dúvida. Isso foi uma sorte. Ou de ter sítios muito bonitos onde vivo, ou de ter colaboradores que recebem bem, a quem eu muito respeito, quer dizer, tenho mesmo de trabalhar, porque senão o iceberg começa a derreter e fica um bloquinho de gelo igual aos demais.
Mas agora não está a fazer nada.
Na RTP estou numa espécie de lay-off, com consentido de ambas as partes, que um dia destes há de acabar.
Mas era por causa da reforma?
Digamos que há pequenos buziles burocráticos que estão neste momento a ser resolvidos. E que têm de ser respeitados.
Claro. A lei é a lei.
A lei é a lei, não há vítimas, há pessoas a ver o que é que se pode fazer em função daquilo que está feito. Entramos em conversação sem qualquer pressão. E tenho uma dívida de gratidão nestes últimos anos gigantesca com a RTP. E em fases complicadíssimas. Fase da Covid, nós nunca deixámos de trabalhar, nem nunca deixámos de receber. Chegámos a fazer os programas em casa com o telemóvel, uma coisa notável.
São coisas que não se esquecem.
De maneira nenhuma. A balança a favor da RTP é uma coisa gigantesca. O que eu tenho realmente, que adoro e faço, são os meus espetáculos, que continuam a ser a minha grande fonte de rendimento.
Tem uma gente a quem se telefona, fala-se para si.
Sim. Eu trabalho muito. Eu não trabalho mais porque não quero. O problema é meu, eu preciso de ter tempo também para mim.
E o que é ter tempo para si?
Olha, por exemplo, ir como fui agora 10 dias passear, ou estar aqui consigo e a seguir ir à fisioterapia por causa do ombro de um acidente que tive, e à noite jantar com amigos e não ir outra vez a correr para Vila Nova de Gaia fazer um espetáculo para uma empresa.
E pergunta que público é quando o convidam para festas de aniversário. Que interessante!
Hoje em dia eu estou de tal maneiraDeixe-me ser imodesto um bocadinho.
Eu gosto imenso que seja imodesto.
Eu estou de tal maneira na posse das minhas faculdades artísticas, que eu chego ao sítio, faço tipo um scan e vou em direção às pessoas fazer precisamente aquilo que eu sei.
Que elas querem, esperam.
Que elas querem e as vão deixar felizes. E isso é fantástico. Seja uma festa de uma empresa de advogados, seja uma festa de uma aldeia nos arredores de Coimbra ou de Trás-os-Montes.
Gosta de ser transversal, orgulha-se de ser transversal.
E tenho repertório para tudo. Tenho músicas populares, tenho histórias de vida, tenho histórias picantes, ou seja, sou um multiusos maravilhoso. Sou o artista que eu gostaria de ter numa festa minha.
Boa, isso é que é uma bela frase. Chama-se o sentido da frase. "Le sens de la formule". Muito bem, vamos fazer aqui um intervalo de um segundo. Esperem por nós. Voltamos já já a seguir. Eu lembro-me de ter visto ao vivo e em direto, ao longo de muitos anos, o seu génio, se quiser, a sua excelência, pelo lado da alucinante diversidade na criação dos seus personagens. É algo que, para mim, o distingue absolutamente no panorama do humor português, desde há muito tempo a esta parte, antes do 25 de abril, inclusivamente, que é a capacidade de criar personagens tão diversos quanto o Esteves e a Maximina e o "Eu Sou Mais Bolos" e o Esteves, etc. O Nelinho, o Nelito. Pode ser um processo rápido chegar-se à perfeição com que se criam estes personagens ou é uma coisa que se vai aos solavancos até descobrir: "É isto mesmo"?
É uma característica genética que vem conosco da infância.
No seu caso, o seu pai o filmava. Era um cineasta amador.
Vou lhe dar um exemplo. Quando a jovem Maria João Pires, aos quatro anos, se sentava ao piano e com umas mãozinhas pequeninas, que nem era um pianista, desatava a fazer coisas.
Ia tocar Mozart.
Ficava tudo bom. Está aqui qualquer coisa que não é normal. Teve depois a felicidade de alguém que pegasse nela e a pusesse a aprender música. Quando o jovem Cristiano Ronaldo, no meio de uma infinita pobreza e tristeza e quase fome, fazia coisas inenarráveis com a bola no meio de um grupo de miúdos maiores, mais seguros, mais alimentados, alguma coisa estava a acontecer. E quando eu, aos quatro, cinco anos, tinha a capacidade, nas festas de Natal da escola alemã, ter plateias de 300 e 400 pessoas paradas em silêncio a ouvir os meus disparates e a rir desamadamente. Temos aqui uma configuração genética que te vai definir o resto da vida.
O cimento.
Sim, porque eu fazia com os professores aquilo que faço com essas figuras todas que disse.
Mas, por exemplo, com quatro anos, o que é que você podia fazer num palco que despertasse esse pânico?
Imitava os professores. Era genial. Inventava coisas. Quatro, cinco, seis, quatro talvez no máximo. E era o protagonista das peças e era verdadeiramente genial. E cantava genialmente, porque antes de mudar de voz, tinha uma voz de soprano, tipo pequeno cantor de Viena.
Mas você canta muito bem.
Sim, mas medíocre em relação àquilo que eu era antes de mudar de voz. Tinha uma voz preciosa de soprano, tipo pequeno cantor de Viena. Ouviendo absoluto, com uma afinação incrível. Depois, a mãe natureza é tramada, disse: "Vou te dar isto tudo e agora vou te retirar toda e qualquer capacidade de fazer seja o que for com uma bola". Eu sou o maior zero à esquerda, dá-me uma bola e eu aponto para si e vai parar àquela porta. Eu não consigo dominar. O que na escola era terrível, porque eles adoravam, os meus colegas adoravam, mas quando era para jogar a bola, rezavam para que eu tropeçasse ou me constipasse ou desaparecesse simplesmente, porque não tinha qualquer talento. É engraçado isto.
E depois, o que foi fazendo disso aos nove, 10, 13, 14, 15 anos?
Continuei sempre e quando finalmente achei que ia ser músico, o Pedro Osório adorava-me, foi o primeiro a dar-me a mão.
E com que idade?
17, 18, 19, para eu me tornar músico de estúdio. Comecei a ser caríssimo aos estúdios, porque eu só fazia disparates e as pessoas riam e não se gravava, porque o meu instinto era fazer disparates.
Fazer humor.
Tudo me prestava para fazer humor. Vou lhe dar um exemplo. Antigamente gravava-se analogicamente. Agora que é tudo digital. Quando a pessoa se enganava e punha a fita ao contrário, aquilo fazia . Um dos meus passatempos era: tínhamos um coro para gravar coisas, dirigido pelo Till Kraessmann, por exemplo, eu punha-me sem ninguém ver ao microfone a fazer .E quando olhava para a janela, estavam os técnicos todos de rabo para fora à procura qual era a variável.
Pensando que era verdade.
Portanto, quem disse isso e as milhares de outras coisas. Imitar os cantores com quem gravava, imitar os fadistas, imitar a Amália, etc. A Amália rebolava no chão com as imitações que eu fazia do Vasco Rafael.
É verdade, eu lembro-me disso. Eu lembro-me de você me contar isso.
"Passa lá só mais um bocadinho". E eu: "No ó, pergões em Lisboa". E ela acabava no chão, literalmente a rir.
Há uma marca, Herman, em relevo na história do humor português. Uma marca! O Cristiano Ronaldo é uma marca, evidentemente.
Talvez sim.
Certo ou errado, quer dizer, no caso da criatividade, da diversidade.
Eu acho que sim. Agora é a Maria João que me está a obrigar a ser modesto com a sua pergunta. Acho que sim, acho que há. E sinto isso.
Eu acho que as pessoas de vez em quando têm que ser imodestas.
É verdade.
Estamos a falar de excelência. Por isso é que você aqui está.
Os jovens humoristas vêm ter comigo e todos eles me têm como referência, mesmo aqueles que têm como carreira 10% da minha vida. E mesmo assim, eles têm-me como referência. Também é muito mercê do momento maravilhoso que vivemos agora graças a isto.
Sim.
O telemóvel e às redes, onde se vai buscar tudo, todas as épocas. Ainda hoje recebi uma coisa minha giríssima, mandada por um jovem fã. O sketch tem 30 anos. Daquelas brincadeiras que eu fiz algures, tem 30 anos. Foi o Elisabete Walem quando diz o Zé Luis, que é de um programa de 91.
Sim, extraordinário.
Este miúdo nasceu em 2006. Portanto, os pais tinham a idade dele quando eu fiz aquilo. E acho maravilhosa.
Agora diga-me lá uma coisa, é capaz de definir essa marca sua se eu disser criatividade, imaginação, inspiração, liberdade? Ou as coisas são o que são e você é criativo e ponto?
Não, acabou de dar a receita com a sua pergunta, está lá a receita toda, porque está tudo ligado. Porque se não houver muita preguiça, também não se faz nada com o talento. Nada valeria a Maria João, volto a ela, porque gosto muito dela, o seu talento, se ela não trabalhasse horas e horas.
Horas e horas.
Nós tivemos uma fase muito indie nos anos 80 e eu bem via o que ela trabalhava e o que sofria, e portanto, não é fácil ser sensacional. Eu também trabalho muito, escrevi muito e queimei muitas pestanas para fazer muitas coisas. Mas depois, lá está, se não houver o talento e também se não houver essa necessidade, essa exigência que haja um certo ordenamento na vida, para que as carpetes não estejam sujas.
Eu percebi exatamente, claro.
Para que o microfone não esteja estragado aqui, mudar o coiso para que fique bonito. A vida tem que ter uma estética, porque senão é insuportável.
Tem esse sentido, essa exigência.
Eu estou a ficar pior. Eu não aguento. Por isso é que eu gosto tanto do Dubai sendo uma mentira. No Dubai não há grafites, não há seremís debaixo dos viadutos, há flores. Mas isso é tudo mentira, não me interessa.
Pois não.
Vendam-me esta mentira maravilhosa em que o pão seja fresco e a manteiga não seja rançosa.
Está bem.
Da última vez que estive nas Seychelles, num sítio caríssimo, a manteiga estava toda rançosa. Eles são preguiçosos.
Preguiçosinhos.
E não frigorificaram aquilo bem.
Claro, exatamente. Mas estou-me a lembrar de sítios com flores, Provence, com aqueles cheiros maravilhosos a jasmins.
Mas são micro sítios. Eu também adoro Monte Carlo e adoro aquela praçazinha em frente ao Hotel de Paris, também muito arrumada, muito bonita. Depois a gente vai para os arredores e é assaltada a caminho de Nice, por um gangue armado.
Eu fui assaltada no sul de França.
E uns amigos meus também.
Exatamente.
Pensaram que iam fazer a viagem de rollo, do Hermitage Cap d'Antibes até Monte Carlo, e então houve um gangue que os travou em frente, atrás, e roubaram-lhes tudo o que eles tinham.
Tudo o que eles tinham. Tem os mesmos amigos de sempre? São os mesmos? Ou alguns mesmos?
Há uns que eu não tenho, porque uns desapareceram.
Sim.
E os que deixei de ter é porque a vida os mudou. Eu não mudei. Eu sou rigorosamente o mesmo. Eu sempre fui interclassista, bem-disposto, sempre gostei de toda a gente. Temos isso em comum, Maria João, deve-me dizer. Se me é permitido fazer-lhe um elogio.
Não, eu aprecio as suas afirmações.
A Maria João vem de uma classe privilegiada, aliás, como as suas irmãs, que eu conheci muito bem, e o resto da família. Há uma necessidade gigantesca de tratar toda a gente bem, de misturar toda a gente, de ter uma perceção, de saber por que se é de esquerda, por que se é de direita, por que se luta por uma coisa, por que se luta por outra. Isso eu não perdi. Agora, há muitos interlocutores meus que perderam. Uns radicalizaram-se, outros envelheceram. O envelhecimento é, porventura, a maior desgraça da nossa geração.
Mas ouça, mas há uma defesa, que é a gente pôr-se em serviço para não nos deixarmos envelhecer mal.
Mas somos muito poucos.
Talvez. Isso tem razão.
Eu não sei se hoje estou aqui por respeito a si, mas também por respeito ao que a Maria João representa nesse sentido, que é: não há idades.
Não, não há idade. A idade está na cabeça.
Há um grande ator, que é o Dick Van Dyke, que fez agora 99 anos, ou fez 100 anos, e que mesmo assim diz numa entrevista que nós temos a idade da nossa saúde. Como eu ando, como penso, como mexo e como rio, tenho uma idade ótima. Não é a que está no papel. Da mesma maneira que há miúdos de 30 que já são muito velhos.
Muito velhos.
Ou porque tiveram azar com a saúde, coitados, ou porque a cabeça envelheceu.
Nem mais. Olhe, ainda sobre os personagensÉ difícil perguntar, porque você dava-se tanto a cada um deles, cuidava tanto do personagem no modo de falar, na maneira como ele falava e o que dizia, eles ou elas, nos endereços. É difícil, com certeza, escolher um.
Agora é fácil, sabe por quê? Por causa de uma grande marca. Uma grande marca de supermercados resolveu reavivar a Super Tia, com o Vasquinho, o querido Pereira Coutinho, que faz também a sua Tia Bli. E eu descobri que aquela tia que eu fazia, que era a Super Tia, que quando eu a fiz-
Não era a cozinheira.
Não, isso era a Filipa.
Isso era a Filipa, exatamente.
Era uma Super Tia que eu fiz em 97, na Enciclopédia. Ela tem a minha idade que eu tenho agora. Portanto, eu ponho a minha blusinha de Hermès, com a minha cavaleira, e a rapidez de pensamento, a ultraleveza, que é tudo indiferente. E ficou tão divertido.
Diga só uma frase, para ver, não me estou a lembrar.
"Olhe, Super Tia, Super Tia, o melhor que a vida tem é catraiera. Que vão estalo". Era uma tia que era a Super Tia, que punha a capa e voava, com o Monchique que fazia de Robinha. Isto nesse programa. E agora o Vasco faz comigo uma espécie de acompanhante. E a rapidez com tudo que se passa. A minha Super Tia é a súmula de todas as mães, daquelas mulheres maiores que a vida, que eu conheci nos anos 50, 60, 70.
Mas também havia aquela composição verdadeiramente extraordinária do Esteves e havia a cozinheira, a Filipa.
Sem dúvida, mas a Maria João perguntou-me agora qual é que eu sinto mais presente, é essa. Porque agora quando eu a fiz nos filminhos que nós fizemos, ela estava tão verdadeira. A rapidez de pensamento e, sobretudo, a felicidade, porque uma tia que tenha saúde, que tenha roupa, que vive numa casa linda, é tudo indiferente. É tudo indiferente, está a ver? Ai, que bom! Ai, croissant! Ai, que maravilha! Ai, que delícia! Olha ali não sei o quê. Um caixote de lixo é uma instalação de Cabrita Reis, é tudo fantástico.
A instalação de Cabrita Reis é ótimo.
E, portanto, o que eu me diverti a fazer essa personagem, e foi um êxito muito grande na campanha que foi feita pra Net, um dos filmes teve 4 milhões e 500 mil visualizações. Qual é o programa de televisão que tem 4 milhões e 500 mil espetadores hoje em dia em Portugal?
Está bem, mas também aquilo que aconteceu em Portugal com o Tal Canal e com o Hermanías, enfim, foi uma coisa admirável, porque o país parava, toda a gente discutia, era a coisa mais transversal. Eu lembro-me de uma coisa, que foi um dia num encontro com o doutor Álvaro Cunhal, eu às vezes ia lá a Soeiro Pereira Gomes, ainda conto isto esta semana na minha crônica. E eu ter lhe falado de tal maneira do último Hermanías em relação ao último Tal Canal, em relação ao dia em que estávamos a conversar o doutor Cunhal e eu, e de eu dizer: "Ai, mas eu trago-lhe cá uma cassete". E uma cassete VHS, que é uma coisa que ninguém com menos de 50 anos sabe o que é uma cassete VHS. Eu levei lá a cassete e ele achou quase natural, ou seja, era tão natural ser seu espetador e tão bom, e tão divertido, e depois discutir isso a semana inteira, tudo isso. Tem a consciência disso?
É fascinante. E pode ser também que na sequência disso, eu acabei um dia por ser convidado pelo próprio doutor Álvaro Cunhal. Ele queria a minha opinião sobre o que a esquerda deveria fazer para ser mais atrativa para a juventude.
Chamou-o para lhe dizer: "Ai, está a fazer agora um..."
Não, estou a falar sério. O nosso interlocutor foi o Fernando Tordo. Que ia me ouvir. E eu fiz um esforço enorme para não ser previsível, e também não dizer precisamente tudo aquilo que eu pensava, porque obviamente, uma pessoa que está apaixonada pelo sistema comunista e que tem uma ligação à União Soviética, e que acredita verdadeiramente, como ele acreditava, que o futuro da felicidade passava por ali, eu não tinha o direito de ir lá dizer: "Olhe, desculpe, que isso é tudo aquilo que a juventude não quer ouvir", que são regras.
Claro. Mas correu bem. Ele fez algum caso?
Não, foi fantástico.
Não, se fez algum caso do que você lhe disse.
Fez. Ouviu-me com a maior atenção.
Ah, bom, está bem.
Porque eu também disse-lhe em tons de-- eu faço sempre o exercício, que é: eu ponho no sítio, no papel do meu interlocutor. Portanto, o meu conteúdo ia de encontro àquilo que eu acho que ele gostaria de ouvir, porque eu tenho a certeza absoluta que se começasse a ser duro demais na minha análise do paraíso soviético russo, soviético, que ele teria ficado com aquele olhar branco e entrava por um lado e saía pelo outro. Não foi o caso.
Não foi o caso, mas você gostou de ter sido, gostou no sentido nacional do termo, de ser português, não, ter sido condecorado pelos poderes. Gostou?
Gostei.
Que é uma distinção nacional, tem a ver com o seu país.
Aproveito também o boleio dessa pergunta pra dizer o seguinte: a primeira vez foi pelo Mário Soares, em 92, agora recentemente o professor Marcelo Rebelo de Sousa, e assim por baixo, uma coisa que eu ouvi dizer, acho que no podcast do Júlio Isidro, em que assumiu frontalmente o seu orgulho por ter tido um presidente como o Marcelo, e se ter sentido sempre muito bem representada.
Sim, eu tenho muitas discordâncias em maneira política.
Quanto à grandeza dele enquanto personalidade.
Sim.
E eu tenho precisamente a mesma opinião. Eu acho que dificilmente voltaremos a ter uma figura tão completa, tão culta e tão especial.
Sim, mas tenho que assumir aqui que de vez em quando escrevi críticas duras, que é pra não pensar que agora, exato, que agora tenho duas caras e como ele se vai embora, então estou a aligeirar as coisas.
Não, as críticas que faz é de certas fórmulas que achava que não deviam ter sido, mas que não põe em causa a dimensão que ele tem.
Não, não põe em causa o brilhantismo intelectual e a maneira como nos representou.
Como com Mário Soares, eu sou um fã soalista louco e, no entanto, tive muitos momentos em que-
Está bem, e agora tenho dois minutos e meio.
Ficávamos aqui um dia inteiro, nós.
Ficávamos, mas ouça, há outra diversidade em si, que é a sua capacidade, e que é também de excelência, que é a sua capacidade de ser autor, ator, músico, apresentador, realizador ou produtor, seja no teatro, na televisão, na rádio. Está sempre como um peixe na água, no humorSeja com que instrumento for. Tem a absoluta noção disso. Pode cantar, produzir, representar, interpretar, escrever.
E sou muito feliz nessa diversidade. Aliás, a diversidade faz-me feliz em muitas coisas. Também, por exemplo, na alta cozinha ou na cozinha geral, que é uma coisa que eu adoro.
Você é cozinheiro.
Sou cozinheiro e tenho o maior respeito por um vol-au-vent de lavagante dos Secoá Club, como pelas pataniscas. Umas pataniscas de uma tasca ou por um bife que eu faço muito bem.
Melhor ainda a patanisca.
Portanto, acho que na diversidade é que está a grande alegria.
Qual é o seu grande prato?
O meu grande prato?
Sim.
Lulas recheadas com carne, lulas pequeninas recheadas com carne, molho de tomate, servidas com extraordinário puré de batata.
Extraordinário feito por si.
Para ser extraordinário tem de ser feito com batata, com manteiga, com um pouquinho de nata e muita noz-moscada.
Já está a receita. O que o emociona por dentro? Já sei que há o hábito de anos e anos, mas não interessa, também há um coração. Como é que o seu coração se emociona quando você está num palco com centenas de pessoas à frente a rirem? Emociona-se? Move-se?
Não, emoção aí, não. É uma coisa quase gastronómica também. É como a primeira dentada numa grande sandes de pão. Naquelas baguetes francesas. Quando nós estamos com fome ou um grande gole de sumo de laranja quando estamos com sede ao pé da praia. É uma golfada de prazer.
Ai, que bom! Uma golfada de prazer. Olhe, Herman, agradeço porque acho excelente mesmo. Gostei imenso de falar aqui este bocadinho consigo. Pareceu tão pequenino. Ficávamos aqui até às 20:00.
Ficávamos.
Depois ficávamos, eu sei. Mas há de haver outras ocasiões. Parabéns, fez-me rir a mim, aos meus filhos e aos meus netos, a quem mostro as suas coisas há anos. Um beijinho.
Um beijinho grande também.