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O podcast Mentes Brilhantes faz parte de uma série sobre investigação científica de ponta e é uma parceria entre o Observador, a Fundação La Caixa e o BPI. Não se vê, não se sente, não damos por ele, mas é bem possível que todos os dias ele viaje para dentro dos nossos pulmões. Está na umidade das paredes, na comida em decomposição, no ar que respiramos. Chama-se Aspergillus e é um fungo muito comum nas nossas vidas. Na maior parte das pessoas, é facilmente derrotado pelo sistema imunitário. Mas para quem tem problemas respiratórios, como asma ou doença pulmonar ou obstrutiva crônica, este aparentemente inofensivo Aspergillus pode transformar-se numa temível aspergilose pulmonar crônica, uma infecção respiratória difícil de controlar e muitas vezes mortal. Na Universidade do Minho, Agostinho Carvalho está à procura de novas formas de diagnóstico e novos tratamentos para esta doença. Licenciado em Biologia Aplicada e especialista em imunologia e imunogenética fúngica, o cientista recebeu 1 milhão de euros da Fundação La Caixa para desenvolver uma investigação que pode salvar muitas vidas. Eu sou o Paulo Farinha. Este é o "Mentes Brilhantes". Agostinho Carvalho, bom dia, bem-vindo. Obrigado pela sua disponibilidade. No Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde da Escola de Medicina da Universidade do Minho, o Agostinho Carvalho e a equipa que está a coordenar desenvolve um projeto segundo o qual pretendem identificar, e agora estou a ler para não incorrer em erro, biomarcadores personalizados e alvos terapêuticos para aspergilose pulmonar crônica causada pelo fungo Aspergillus. De que falamos ao certo quando falamos da aspergilose pulmonar crônica?

Muito bom dia. Em primeiro lugar, muito obrigado pelo convite para estar aqui. De facto, aspergilose em si é um termo que identifica um conjunto bastante vasto de doenças infecciosas causadas pelo fungo que mencionou, o Aspergillus. E dentro dessas entidades, a aspergilose pulmonar crônica é caracterizada pela sua incidência mais particular em determinados tipos de doentes que têm já uma patologia pulmonar de base, como por exemplo, doentes com doença pulmonar obstrutiva crônica.

A DPOC.

Exatamente. A aspergilose pulmonar crônica é uma infeção, lá está, como o próprio nome indica, que é crônica, que é de muito difícil tratamento e que está associado também ao mau prognóstico da própria DPOC.

Portanto, a aspergilose vem, no fundo, aquilo que já é mau, que é ter um diagnóstico de DPOC, é piorado pela aspergilose e pelos efeitos que a aspergilose pode ter em doentes com DPOC?

É isso mesmo. Aliás, uma das questões que é comum em doentes com DPOC, que é o facto de desenvolverem exacerbações ao longo da vida e ao longo desta doença, e muitas dessas exacerbações sabe-se que estão associadas com a presença ou com a detecção deste fungo de que estamos a falar nas amostras biológicas destes doentes. Portanto, parece haver aqui uma correlação entre a presença deste fungo numa percentagem bastante significativa destes doentes e estas exacerbações da doença pulmonar de base.

E há outras doenças pulmonares de base cujo prognóstico pode ser ainda pior por causa da aspergilose? O caso da asma ou pegando no contexto pandêmico que vivemos atualmente, a própria Covid?

Sim, claramente. Como disse, o fungo, o Aspergillus, é capaz de causar um conjunto bastante diferente de patologias. Nós estamos a falar da aspergilose pulmonar crônica, mas há também síndromes mais alérgicos que acontecem em doentes com asma ou doentes com fibrose quística, mais normalmente. E agora, como referiu também a Covid-19, tem-se verificado, nomeadamente mais até ao nível dos países da Europa Central, na Bélgica e na Holanda, onde fazem um diagnóstico das infeções fúngicas um pouquinho mais agressivo do que nós fazemos aqui em Portugal, tem-se verificado agora uma incidência relativamente importante de aspergilose associada à Covid-19. Portanto, quando falamos de doentes que estão ou que são admitidos em cuidados intensivos, uma percentagem importante desses doentes muitas vezes é diagnosticada com aspergilose e, portanto, o desenvolvimento desta infeção nestes doentes críticos também contribui para efeitos associados à mortalidade, uma vez que são infeções muito difíceis, por um lado, de diagnosticar de uma forma rápida e que permita implementar uma terapia antifúngica adequada imediatamente ao desenvolvimento da infeção. E depois as próprias terapias nem sempre são eficazes, o que leva a que haja muitas vezes problemas no sentido de controlar esta infeção. E depois estamos a falar de doentes com o estado imunológico muito debilitado.

Já de base são imunocomprometidos.

Exatamente.

Este fungo, o Aspergillus, estou a dizer corretamente?

Sim.

O Aspergillus não é uma espécie, é um género. E usando a classificação habitual e para quem nos está a ouvir, antes de chegarmos à espécie, vem o género e antes do género, a família e antes disso a ordem, e por aí fora. Mas o que quer dizer que estamos a falar de um número muito grande de espécies deste fungo e que, por isso mesmo, ou também por isso, está presente em muitas situações do nosso dia a dia, muito mais do que poderíamos supor, não é verdade?

Isso é inteiramente correto. O género Aspergillus inclui muitas espécies, embora haja uma que esteja particularmente associada às infecções em humanos, que é a Aspergillus fumigatus. Mas claramente, é um fungo com o qual contactamos no dia a dia. Há estudos que estimam que, em média, cada um de nós inala cerca de 200 a 300 esporos deste fungo todos os dias. Obviamente, em pessoas que têm o seu sistema imunitário perfeitamente normal, portanto, são as chamadas pessoas imunocompetentes, este sistema imunitário é capaz de muito rapidamente eliminar este fungo que contacta conosco. E por isso é que normalmente para desenvolver estas infecções causadas por este fungo tem de haver uma patologia de base, seja, como estivemos a dizer, a DPOC, seja a asma, seja a Covid-19.

Ou seja, quem não tem esses problemas de base, o organismo consegue, sem grandes dificuldades, debelar este fungo tão frequente ele é no nosso dia a dia.

Exatamente. Esse é o caso.

Onde é que ele está presente? Está no ar, está no bolor, está na umidade? Onde é que ele se encontra?

Os esporos deste fungo são de dimensões muito reduzidas e dispersam-se muito facilmente pelo ar. Nós normalmente inalamos, basta estarmos ao ar livre para inalarmos esporos deste fungo, mas normalmente ele encontra-se em maiores concentrações, ou em material em decomposição, nos bolores, muitas vezes também das nossas casas. Há estudos que estão a decorrer atualmente em alguns centros em Portugal, centros hospitalares em que estão a tentar perceber de que forma é que esses bolores contêm estes fungos que podem ser clinicamente relevantes, mas essencialmente são essas as circunstâncias onde conseguimos contactar, onde contactamos com este fungo.

E há alguma altura do ano, estamos agora no inverno e o momento da Covid-19 que atravessamos atualmente, com a vaga que atravessamos, confirma também isso ou acrescenta ainda mais esse dado, mas este momento de inverno até fevereiro é mais propício a que este fungo esteja no ar ou é relativamente constante ao longo do ano?

Sim, claramente. Penso que da mesma forma que outras partículas se dispersam no ar, também se as condições forem adequadas para essa dispersão, também no caso deste fungo, essas condições são mais importantes nesta altura do ano, não só pela possibilidade de dispersão, mas também, como referiu, condições de humidade que são relativamente propícias a que este fungo possa estar presente e desenvolver-se e, portanto, contactar mais frequentemente conosco.

No caso concreto do projeto que está a coordenar no ICVS e para o qual recebeu um financiamento, concorreu e foi selecionado para um financiamento da Fundação "la Caixa". Aquilo que o seu grupo pretende provar é exatamente o quê? A que conclusões esperam chegar?

Muito bem. Como eu disse no início, um dos principais problemas associados a estas infecções é obter um diagnóstico rápido que permita a implementação de uma terapia adequada, de forma a evitar a progressão da doença até uma fase que depois impeça a sua eliminação. Aquilo que nós pretendemos fazer neste projeto é, tirando partido da informação que existe e que se sabe que, e neste caso em particular neste projeto, os doentes de DPOC, nem todos desenvolvem infecção, portanto, são uma população de doentes que têm um risco elevado, mas há doentes que desenvolvem e outros que não desenvolvem, é tirar partido dessa população mais heterogênea de doentes e tentar perceber quais são os fatores que estão na base da predisposição de alguns deles à infecção. E portanto, ao fazermos isso e ao identificarmos esses fatores, aquilo que nós pretendemos fazer ou obter é informação que nos permita pensar em estratégias mais personalizadas, quer de diagnóstico, quer de terapia. E obviamente, faremos isto com recurso a um conjunto de avaliações funcionais do sistema imunitário destes doentes com DPOC, no sentido de perceber quais são os fatores que influenciam a resposta imunitária a este fungo, ao Aspergillus, e que de alguma forma possam ser usados como critérios de diagnóstico ou eventualmente, no futuro, até como alvos terapêuticos.

Então o objetivo é melhorar a prevenção, melhorar o diagnóstico e No futuro, se tudo correr ainda melhor, desenvolver novos fármacos para combater a aspergilose em doentes com DPOC?

Exatamente. Aquilo que nós pretendemos é, numa forma mais geral, caracterizar inicialmente o perfil genético destes doentes. Eu não vou entrar em grandes detalhes porque a abordagem experimental é relativamente complexa.

Sim, eu próprio reconheço e boa parte dos nossos ouvintes poderão até não entender algumas especificidades, mas cá estamos para as traduzir, para as tentar explicar.

Mas em termos muito generalistas, aquilo que nós pretendemos fazer é caracterizar o perfil genético destes doentes e correlacionar esses perfis genéticos com uma capacidade normal ou uma capacidade diminuída de eliminar este fungo. E ao identificarmos estas variantes genéticas, vamos conseguir chegar também aos genes que estão envolvidos. E isto pode funcionar não só do ponto de vista diagnóstico, porque vamos conseguir verificar que um doente com um determinado perfil genético de risco, estando mais a risco, irá beneficiar, se calhar, de uma abordagem diagnóstica mais intensiva ou eventualmente, dependendo dos casos, até de uma profilaxia antifúngica antes do diagnóstico de infeção. E, por outro lado, chegando à identificação desses genes, podemos também, ao pensar na função destes genes na nossa resposta imunitária, podemos pensar em abordagens terapêuticas ou até mais precisamente imunoterapêuticas, isto é, pensar em abordagens que de alguma forma favoreçam o desenvolvimento de uma resposta imunitária adequada. Portanto, ao fazermos um boost do nosso sistema imunitário, do sistema imunitário destes doentes, para melhor combaterem estas infeções.

A médio e longo prazo, isto poderá significar uma redução da gravidade da aspergilose e das consequências nefastas que podem daí vir, nomeadamente a morte dos doentes?

Esse é o nosso objetivo primário, é efetivamente contribuir de alguma forma para, por um lado, reduzir a incidência desta aspergilose pulmonar crónica. Se nós conseguirmos diagnosticar atempadamente.

Quanto mais cedo se diagnosticar, mais cedo se ataca.

Exatamente. Completamente de acordo e portanto pode eliminar-se muito mais cedo. E, por outro lado, é nos casos onde isso não for possível e onde efetivamente a infeção se estabeleça, é de alguma forma obter informação que nos permita pensar em estratégias imunoterapêuticas. Eu vou só dar exemplo muito prático. Durante este projeto nós já identificamos uma deficiência numa molécula muito importante no nosso sistema imunitário e agora estamos a desenhar um primeiro ensaio clínico nestes doentes, no sentido de perceber se a suplementação desta molécula nestes doentes pode ter um efeito terapêutico no que diz respeito à aspergilose pulmonar. Portanto, tenho a sensação de que efetivamente esta informação pode ser muito relevante no sentido de lidarmos com esta infeção no futuro.

Há números para a incidência da DPOC em Portugal?

Há números, quer dizer, do ponto de vista global, a DPOC é neste momento a terceira causa de morte a nível mundial. As infeções respiratórias têm a incidência aumentado e, portanto, do ponto de vista de mortalidade, é uma das causas mais importantes. E como a incidência tem vindo a aumentar, espera-se que nos próximos 10, 20 anos, a importância da DPOC possa ainda subir neste ranking. Em Portugal, há algumas informações também que parecem ser compatíveis com esta importância, já que no que diz respeito à aspergilose pulmonar crónica, os números não são-

Essa era a pergunta seguinte que eu lhe ia fazer, exatamente.

Ah, ok. Não são tão estudados como noutros países da Europa. Há algumas estimativas efetuadas de maneira indireta, tendo em conta por base os números de doentes com DPOC em Portugal, mas efetivamente estudos epidemiológicos sobre aspergilose pulmonar crónica em Portugal não são ainda-

Mas esses números que são conhecidos noutras realidades europeias, o que nos dizem?

Estamos a falar de cerca de 10% a 15% de doentes com DPOC que efetivamente têm aspergilose pulmonar. E portanto, se pensarmos que a doença de base tem números muito grandes a nível mundial, podemos também pensar que, se calhar, os números de doentes com aspergilose pulmonar crónica também são elevados. Estamos é que se calhar, pelo menos no caso português, a fazer uma subestimativa por causa de não termos esses dados.

Claro, há os dos dados internacionais que são conhecidos. Agostinho Carvalho, eu quero agradecer-lhe o tempo que nos concedeu e as explicações que nos trouxe e desejar-lhe boa sorte para a continuação deste trabalho, para o desenvolvimento deste boost do sistema imunitário, se é que posso colocar as coisas desta forma, e que daqui a uns anos tenhamos boas novidades para dar aos doentes com doença pulmonar obstrutiva crônica, para que desta forma estejam menos suscetíveis à aspergilose pulmonar crônica. Muito obrigado.

Muito obrigado. Muito obrigado eu mais uma vez pelo convite e pela oportunidade de poder trazer aqui aquilo que nós fazemos.

Obrigado. É impossível saber quanto tempo passará até que este eventual boost do sistema imunitário esteja disponível para doentes com problemas respiratórios que se cruzem com um fungo banal, mas que pode fazer tanto mal. Há muitas dúvidas, muitas variáveis, muitos caminhos por onde seguir. Muitas portas fechadas que a investigação científica tem de abrir para procurar novos caminhos para novos desafios. Mas entretanto, na Universidade do Minho, a equipa de Agostinho Carvalho continua a desbravar alguns desses caminhos. Eu sou o Paulo Farinha, este foi o "Mentes Brilhantes".

O podcast "Mentes Brilhantes" faz parte de uma série sobre investigação científica de ponta e é uma parceria entre o Observador, a Fundação La Caixa e o BPI.