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Quatro. Chef Leopoldo Calhau à sexta. Pomos aqui a mesa para quatro e ele já traz as folhas, ouviram? Ele está folheado. Bruno Vieira Amaral. Ele trouxe também uma erva daninha para falarmos hoje. O Bruno Vieira Amaral está-
Conheço muito bem isso, porque eu já tive uma horta também.
E tinhas beldroegas?
Oh, sim, senhor.
Beldroegas é melhor que rúcula ou não?
Não tem nada a ver.
Não? É que eu olho para aquilo e vejo que são coisas que nascem do chão sem ser preciso grande coisa. Nisso são relativamente parecidas. Leopoldo, o que é que são beldroegas?
Beldroega é mais parecida com canónigos.
Sim, boa tarde. Beldroegas, para quem é do Alentejo e do Algarve, é uma erva muito familiar, acho que quase todos conhecemos. No Norte, dava-se aos animais. No Alentejo e no Algarve, comia-se. Sobretudo nesta altura, junho, julho.
É sazonal.
Completamente. Mais uma vez, um ingrediente da saudade, que deixa saudade e no receituário alentejano praticamente só há um prato. Hoje em dia já se usa também em saladas. Pode-se comer crua ou cozinhada.
Aquilo é meio esponjoso.
É.
Suculento. Mais do que outra erva.
E tem um sabor ácido, que proporciona uns caldos bastante intensos e saborosos.
Quando falas do prato principal com beldroegas é sopa, não é?
É uma sopa alentejana à base de azeite, cebola, cabeças de alho inteiras, tira-se só aquela pele por fora e depois deixa-se fazer o refogado durante muito tempo, lentamente e tapado. O alho vai acabar por cozer, às tantas juntam-se as batatas e no final a água. E deixa-se ferver ali um pouco e fica realmente incrível o sabor e o caldo.
Quando é que vais as beldroegas nisso?
Eu ponho logo no início. A seguir à cebola, ponho porque elas cozinham e libertam o sabor e fica logo no refogado e quando juntamos a água já está praticamente o trabalho feito.
E essa característica ácida que tu dizias é contornável? É boa e deixa-se estar ou nessa cozedura também se procura que se perca?
Não, isso depois vai para o caldo. Ou seja, dilui-se um pouco no caldo, mas não é uma acidez do outro mundo. É bastante equilibrado e suave.
Bruno, já alguma vez fizeste sopa de beldroegas?
Não, mas já comi muitas vezes. Claro, quando era miúdo não gostava nada.
É uma coisa que os miúdos não gostam.
Sobretudo os alentejanos.
Exato.
Eu dava-me ao trabalho de separar folha a folha quando era miúdo, ou seja, quando toda a família acabava de comer, eu começava a comer. Mas adorava o sabor do caldo.
Engraçado.
E há um dia-
Do caldo, claro, mas as folhas não. Quer dizer, era tudo o que fosse ou nabios, ou espinafres, ou as beldroegas, não é propriamente children friendly.
Exato, pois é.
Este corpinho não foi feito com essas folhas. Mas só para te explicar, uma vez fiz e há um dia que começas a comer as beldroegas e a saborear e pensas realmente muito parvo este trabalho inglório toda a vida.
É quando a pessoa se torna adulta, ó Leopoldo.
Vê a luz, não é?
Isso representa dar passagem para a idade adulta.
Exato. Foi tarde.
Ainda não cheguei lá, no que toca a beldroegas, ainda estou na infância.
Tu já comeste?
Que me lembre, não.
Então, mas...
Por isso é que ainda estou neste-
Ainda está na infância, que é: "Nem como, não gosto".
Pré-adolescência tramada.
Exato. Estou pronto a provar. Nunca aconteceu, nunca cruzei. Tu costumas ter este prato?
Sim, fazemos todos os anos.
É?
Olha, e em saladas.
Também dá.
E vai assim cru?
Vai cru, não é?
E aí, pronto, substitui as rúculas da vida. Dá para fazer uma salada de verdes, podem levar-te às beldroegas. Convém lavar bem, ou seja, água, e depois deixá-las repousar e depois tirar. Que a terra vai abaixo.
Olha, na tua sugestão de restaurante ou de viagem, fazes uma viagem mais curta hoje. Vamos até Benfica falar d'O Galito. Por que O Galito? Tem beldroegas?
Cozinha alentejana, sobretudo, ou essencialmente, e tem as sopas alentejanas e creio que também fazem beldroegas na altura delas. Claramente. Eu já não vou há algum tempo, mas já lá comi coisas quase parecidas às de casa e familiar.
O que come mais n'O Galito? O que é mais tradicional?
Sopa de tomate, lembro-me. Açorda de bacalhau, açorda de alho também. E depois também tem as migas e essas coisas.
Boa. O Alentejo em Benfica. Dá pelo nome de O Galito. Muito bem, o chef Leopoldo Calhau está todas as sextas-feiras na Rádio Observador. Podem acompanhar também todos os episódios nas plataformas podcast e no nosso site em observador.pt. Procurem pelo "Mesa para 4" com o chef Leopoldo Calhau. Vais de férias ou são só os teus estabelecimentos que vão de férias? Ou só alguns?
O Schwett vai de férias, a Taberna continua e eu não digo.
Ok. Logo vemos para a semana se temos Leopoldo Calhau ou não. Leopoldo, obrigado por teres vindo. Um grande abraço. Bom fim de semana.
Obrigado