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Está no ar o "Mesa para 4", com o chef Leopoldo Calhau. À sexta-feira é sempre assim: pomos a mesa para quatro. Podem acompanhar este "Mesa para 4" também em vídeo no Facebook e no YouTube do Observador e no nosso site. Leopoldo, bem-vindo. Como é que estás?
Bem, talvez.
Quem sabe um dia.
Não tenho bem a certeza.
Mais logo vais saber.
Vou perguntar.
Leopoldo, vamos hoje falar de carabinheiro. Ai que bom! Isto é carote, não é? Ou não?
Dizem que sim e cada vez mais.
Por quê?
O IVA não baixou neste produto, coitado.
Que estranho.
É um bem essencial.
Um bem essencial.
Exato.
Todos os dias devíamos provar um.
Qual é a diferença do carabinheiro para os camarões, para os tigres lá no mercado?
Sabor.
Mas por quê?
Qualidade. A cabeça tem mais mar, tem mais profundidade, tem mais concentração de sabor na cabeça. É completamente diferente de qualquer camarão. Há um que se aproxima, que é o camarão listrado ou vermelho. Hoje em dia até prefiro, inclusivamente.
Esse não é do Algarve, não.
Também.
É um bocadinho mais listrado.
O carabinheiro é do Algarve.
É do sul, ali daquela zona. Zonas profundas do mar. E de facto tornou-se muito famoso e até talvez à exaustão. Houve uma altura que quase todos os restaurantes dos topo obrigatoriamente tinham que ter carabinheiro. Mas de facto é bom. Não convém comer muitas vezes, mas é bom.
Tem uma forma diferente de cozinhar do camarão ou tem um ponto de cozedura diferente?
Convém cozinhar melhor porque é mais caro. Portanto, não dá para banalizar e para estragar. Temos que ter cuidado a confeccionar.
Mas na chapa não é...?
Sim, não convém qualquer marisco. Em Portugal, de um modo geral, andamos a mudar isso, mas o marisco era quase todo cozinhado em excesso de tempo. A cozedura. Em Espanha aprendemos que não convém confeccionar muito tempo para que as propriedades organolépticas do-
Desculpa, organo...?
Podes repetir.
Organolépticas. Boa.
Estejam lá íntegras e não percamos o sabor. Ou seja, as fibras não apareçam. Um bocado como ao bacalhau, cozinham demais, aquilo depois fica fibroso e depois coitado, fica mal visto. Mas convém ter algum cuidado e cozinhar com o tempo e com o calor residual, é o conselho que dou, e nunca em demasia, que é para podermos aproveitar mesmo os sucos que estão na cabeça. No Ramiro eles quando abrem vão à cabeça e depois barram o lombo do carabinheiro com os sucos que estão na cabeça.
A sério?
Sim.
Eu já provei um prato maravilhoso que é a surda de carabinheiro. Não sei se conheces.
Nunca vi.
É na Mouraria.
Num tasco na Mouraria, que é espetacular.
Nós fazíamos isso, de facto, a surda de carabinheiro e correu muito bem esse prato quando fizemos, porque no fundo é um prato tradicional, a surda de gambas, e nós na altura demos um salto qualitativo, acho eu, e teve o seu período.
Ok, já não está na ementa nesta altura, mas fala-me um bocadinho de uma proposta que tu tinhas aqui que era sopa de carabinheiro com gelado de pistacho. Isto é uma sobremesa, é uma entrada, é o quê? Agora fiquei confuso.
É uma mistura de todas as coisas.
Exato.
Com tudo e em todo o lado ao mesmo tempo.
É um híbrido. De facto, há tempos tive que fazer um jantar para um chef que eu admiro, de Jaén, em Espanha, e eu ia lhe fazer um prato que até acho que já tínhamos falado aqui, que era com as cabeças de carabinheiro com o gelado. Só que cheguei ao restaurante e não tinha cabeças de carabinheiro, só tinha a bisque, que é o creme de carabinheiro feita, e mantive a ideia e servi com o tal gelado de pistacho da Unico, que é um gelado muito cremoso. E qual o meu espanto que aquilo correu bem. E ele depois veio me perguntar várias coisas sobre esse prato e ficou mesmo encantado com o que comeu, o que me deixou bastante feliz.
Estou curioso como é que isto é.
No fundo temos um prato, uma sopa tépida com gelado, que é frio.
Mas lá dentro?
Sim, no fundo eu faço uma quenelle.
Boa.
E no fundo, a ideia é termos ali um jogo de temperaturas, um jogo de texturas, um jogo de sabores.
Mas em termos não é muito papa? Não falta aí uma coisa qualquer?
Não, porque também a dose é pequena. Não pode ser muito generoso.
Ok. Mas não tem um crunchy qualquer?
Não, eu percebo. O crocante.
Estou a dar um ganho de Leopoldo Calhau. Não há aí nenhum elemento crocante?
Neste caso, não e pelos vistos ainda bem, porque foi só aquilo. E vou repetir isso no domingo. Vou fazer um trabalho e vou voltar a fazer esse prato.
Boa. Vai regressar à vida a sopa de carabinheiro com gelado de pistacho. Há algum sítio preferido para comer carabinheiro? Ou outra coisa.
Marisqueiras, em Lisboa.
O teu restaurante, diz.
Não vou dizer Taverna do Calhau. Não vou dizer.
Não digas. Pronto, então não digas a Taverna do Calhau.
Não, mas nós por acaso quando fazemos marisco, as pessoas até pedem. Mas em Lisboa diria o Relento, a Nunes, a Mariscaliza e o Ramiro. Em Lisboa. Outros sítios haverá, claro.
Mas fizeste isto em Espanha, que restaurante é esse?
O Cañá Botas. É um restaurante especializado em peixe e marisco incrível, em Sevilha, e lá tudo sai bem.
Recorda-me só o nome para apontar aqui.
Cañá Bota.
Cañá Bota.
Eu fui lá uma vez e acabei por almoçar duas vezes. Não consegui marcar no restaurante principal, então fui para a barra. Mas quando cheguei lá, havia lugares, então comi e pedi para atrasarem a reserva do outro lado e depois tive vergonha e comi nos dois sítios.
Olha, é um bom sítio. Melhor do que aqueles que reservam e não aparecem.
Dieta mediterrânica.
Maravilha. "Mesa para Four" é sempre à sexta-feira com o Leopoldo Calhau. Todos os episódios estão disponíveis em podcast e no nosso site. Hoje há uma semana, a ver se falamos de um outro ingrediente, de uma outra receita, de um outro restaurante com o Leopoldo Calhau. Obrigado, bom fim de semana.
Saudações.
Rádio Observador