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Isto quer dizer que está no ar a "Mesa para Quatro", sempre com o chef Leopoldo Calhau, aqui às sextas-feiras na Rádio Observador. Leopoldo, já tinha saudades tuas. 15 dias sem te ver.

E conseguiste.

E consegui, e sobrevivi.

Sobreviveste.

Estás aí.

Sem receitas e sem sugestões de restaurante.

É verdade. E o Leopoldo hoje esmerou-se, trouxe uma coisa que eu adoro. Ostras, vamos falar de ostras.

Só não devias ter ido à emissão em Aveiro. É só isso que eu tenho para te dizer.

Estavas lá se eu não estive a comer ostras exatamente na mesma altura. Não, por acaso também não. Ostras, não é fácil. Eu próprio passei muito tempo sem achar muita piada a ostras, até que insisti um bocadinho e depois passei a gostar. É assim as ostras.

Só para dares peso a isso. O que é que eu te disse?

Foi uma coisa que acrescentei à minha vida e que não me caiu nada bem.

É um trauma. Como é que te converteste, Nelson? Conta lá. Quem te ajudou?

Não sei.

Quem te levou pela mão?

Passei a gostar daquele sabor amargo, parece que estou a comer sargaço ou uma coisa assim.

Mas melhor.

Mas é melhor.

Mas é bom.

Mas tens esta experiência, há muita gente que não gosta de ostras.

Sim, mas também é um molusco que, apesar de termos produção em Portugal há muitos anos, só há poucos anos é que começámos a ter mais presente na mesa.

As ostras são caras, há esse mito.

Há.

E é verdade.

É que eu já ouvi dizer.

O quilo é o mais barato do que a ameijoa, por exemplo.

Era isso que eu ia dizer.

É tudo uma questão de comparação. É o custo-benefício.

Mas há de facto uma produção nacional?

Uma ostra custa 1,5 € ou 2 €, custo mesmo de aquisição, que obviamente nos restaurantes é um pouco mais caro.

Nós temos de Viveiro muitas, não é?

É quase tudo.

Produzimos?

Sim. Temos várias zonas.

Aveiro saberia disto.

Tens em Aveiro, tens na Ria Formosa, tens em Alvor, tens no Sado.

Tens uma favorita?

As que eu comi ontem eram de Alvor. Não, Ria Formosa, por acaso.

O gosto é diferente, não é?

Sim.

É muito diferente, mas é muito fácil montar?

Varia com a zona, se é rio ou mar, portanto mar sempre mais salgado. As texturas também vão variando.

E quanto à confeção?

Maioritariamente as pessoas querem cruas com sumo de limão e depois agora pode-se pôr um picante.

Umas salinhas.

E grelhadinhas.

Eu gosto de confeccionar também.

Como é que fazes isso?

Tempura de ostra em pão de brioche com mostarda e malagueta é de comer e de chorar por mais.

Super comia isso.

Repete lá.

Já servimos isso na Nota A.

Disseste tempura?

Oh, yeah.

Então é frito?

É frito, sim, exato. Mas já fizemos na Taberna isso, e é bom.

Repete lá, tempura.

Taberna do Calhau.

Sim, essa eu conheço. Tempura com?

De ostra.

Certo.

E depois mostarda e malagueta, pickle de malagueta, aquele que já falámos cá, Joel. Vai lá atrás ver as cábulas.

Estou super curioso. Há mais formas de fazer ostras?

Sim.

Grelhadas?

Podemos fazer tudo. Grelhadas, elas abrem e ficam tépidas, e também são muito boas.

E são deliciosas.

Mas vão a grelhar fechadas?

Sim, depois faz aquele barulho e já estão prontas.

Abrir uma ostra também tem uma certa técnica, não é? Tem que ser aquela faquinha.

Tem que ter uma faquinha muito gira.

Se vai partindo e vai-se comprando outras, é sempre assim. Mas é interessante para começar uma refeição com um bom vinho e uma boa companhia.

A ostra mastiga-se ou engole-se?

Boa pergunta.

Isso é uma pergunta tipo a hóstia, não é? A hóstia mastiga-se?

Tem o seu critério.

Há pessoas que no início não gostam muito de ostras.

Os devotos da ostra engolem logo.

Exatamente.

Como é que é?

Não podem mastigar o corpo de uma ostra.

Há umas mais carnudas que até é bom de sentir, portanto trinca-se. Mastigar é sempre o melhor.

Eu também acho que sim. Trazes um prato que é ostras e beterraba. O que é isto?

Foi um prato que eu fiz a primeira vez no São Valentim em 2020.

Que amoroso, Leopoldo.

Porque é afrodisíaco, pelo menos consta.

Então é uma versão.

Consta, exatamente.

Será a propriedade, será o aspeto.

Nunca concluí os efeitos secundários. Mas fiz esse prato na altura, tipo mar e terra, aquela coisa que se vê muito por aí. Faço um doce de beterraba, depois vai reduzindo, não trituro, e ela fica tipo uma goma de beterraba.

É goma com goma.

Goma com a ostra e o líquido da beterraba, da calda do açúcar com a água do mar, fica avermelhado.

Mas fica colorido.

Mas o engraçado é que a ostra é predominante. Depois temos um agridoce.

Sobrepõe-se à beterraba, que é superforte.

Exatamente. O salgado, e eu posso comprovar, porque tive o prazer de comer algo que fiz, que é raro.

"Tive o prazer de comer algo que fiz."

É raríssimo.

E de facto funciona.

Este programa esta semana está a ser uma tortura. Eu vou-me embora daqui a nada.

Tu gostas de ostras?

Gosto.

Também gosto.

Finalmente temos um ingrediente.

Que é quase unânime. Quer dizer, não sabíamos. Sim.

Claro.

Tenho muitas faquinhas.

Isso é que eu nunca tentei. É fácil?

Super fácil.

Eu tenho ideia que vou lançar um dedo rapidamente com essa manobra.

Mas depois paras e isso continua-se. Também não faz mal ao mundo.

Paras antes do dedo. É isso.

Restaurante Casa da Igreja, em Cacela Velha. Vamos para sul.

Estamos no Algarve.

Tem ostras?

Sempre, ou quase sempre. E final de tarde, uma cervejinha, nesse caso, lá na esplanada.

É o que eu digo, a ostra já é uma tortura.

E elas vão e vêm e passamos lá um bom tempo.

Também gostas mais com cerveja ou com vinho? Eu gosto muito com vinho branco.

Eu gosto com vinho.

Eu também.

Sempre. Vinho, espumante, champanhe.

Espumante fica bem.

Já me aconteceu uma coisa.

Com borburras fica bem.

Já me aconteceu uma coisa muito engraçada.

Borburras de amor.

Juan Luís Guerra. Quando trazem, por exemplo, um prato de ostras e que tem várias proveniências. São três ou quatro ostras de três ou quatro sítios diferentes e tu estás a beber o mesmo vinho, mas consoante vais provando.

Vais sabendo melhor.

Vais sabendo diferente o vinho. Parece que estás a fazer um pairing com a ostra.

Também deve funcionar com um garrafão.

Se calhar. Mas isso é uma das características muito engraçadas. Para além das ostras, come-se mais alguma coisa que recomendes na Casa da Igreja, em Cacela Velha?

Tem também as conquilhas e as ameijoas.

Pois é, isso é muito algarvio.

As conquilhas, aquela zona é muito conquilha.

É verdade, tenho saudades. Muito bem, falamos de ostras no "Mesa para Quatro" esta semana com o Leopoldo Calhau. Ostra e beterraba foi a receita que nos deixou e esta sugestão ao Casa da Igreja em Cacela Velha, para quem andar pelos Algarves. Fiquei nervoso, estou a salivar de tanta qualidade. Obrigado, Leopoldo. Bom fim de semana.

Obrigado, um abraço.