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Bem-vindo a este "Nem tudo o que vai à rede é bola", com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e comigo, Aníbal Rebelo. Hoje vamos falar de canoagem e dos atletas paralímpicos com Norberto Mourão, ele que este ano fez história ao arrecadar a primeira medalha para Portugal na estreia em Jogos Paralímpicos. Mas antes de irmos a essa conversa, que será na segunda parte deste programa, vamos à bola. Vamos olhar para o regresso do Campeonato Nacional depois dos compromissos das seleções, Mariana Fernandes.

Sim, uma jornada em que o Benfica acabou por sair enquanto principal beneficiado, porque tem agora quatro pontos de vantagem para os principais rivais, e cimentou essa liderança isolada do campeonato, graças ao empate entre o Sporting e o Porto, em Alvalade, no primeiro clássico da temporada. Os leões que não tinham os lesionados Potte, Gonçalo Inácio e também Tiago Tomás, começaram a ganhar com o gol de Nuno Santos e poderiam até ter ido para o intervalo a ganhar por mais, se não fosse uma enorme exibição de Diogo Costa, o jovem guarda-redes português que está a afirmar-se cada vez mais, não só como o futuro das balizas da Seleção Nacional, mas também como o guarda-redes titular de Sérgio Conceição para esta temporada, apanhando a boléia da lesão de Marchesín. Na segunda parte, Luís Dias, que está num momento de forma assinalável, mostrou também com a seleção da Colômbia e voltou a mostrá-lo neste clássico contra o Sporting, empatou com um grande gol. Ele que só tinha chegado ao focó do Porto, portanto, só tinha regressado a Portugal já na sexta-feira à noite, assim como Corona e como Uribe, mas parece que nem o jet lag o afetou e voltou novamente a fazer uma grande exibição e a resgatar este empate para o Porto já na segunda parte. Antes, nos Açores, o Benfica já tinha goleado o Santa Clara num jogo em que foi particularmente eficaz e marcou cinco gols, apesar de não ter feito uma exibição brilhante, principalmente na primeira parte. Pelo meio, é preciso falar do Estoril e continuamos a ter de falar do Estoril, que leva três vitórias, joga hoje ainda à noite com o Tondela e se ganhar, salta para o segundo lugar com mais dois pontos do que Sporting e focó do Porto.

Gostar particularmente atento a esse jogo. Agora, na Liga dos Campeões, Bruno Roseiro, temos o regresso dos três grandes à Liga Milionária. Já não tínhamos um arranque de época assim há algum tempo.

Salvo erro, há quatro anos que não tínhamos três equipas portuguesas na fase grupos da Liga dos Campeões e apesar de ser apenas a primeira jornada, portanto, ser prematuro estarmos a traçar grandes cenários, olhando para os jogos em causa, são jogos onde é muito importante, em alguns casos, ganhar ou pelo menos, em alguns casos, pontuar. Esta terça-feira começamos com a viagem do Benfica a Kiev, que por si só já é um facto complicado, numa altura em que o calendário está muito sobrecarregado. Ter de fazer estas viagens longas não é propriamente fácil, mas é um jogo onde o Benfica, se conseguir ou ganhar ou no mínimo pontuar, ganhará um outro conforto para a segunda jornada, que será na Luz com o Barcelona. E tudo parece, e olhando para o que é hoje o Barcelona e a realidade do Barcelona, que não será exagerado dizer que o Benfica poderá discutir este segundo lugar do grupo com o Barcelona, partindo do pressuposto que o Bayern continuará a confirmar o seu favoritismo, como tem feito em termos internacionais nas últimas épocas. Na quarta-feira temos o primeiro jogo do focó do Porto no grupo de morte da Liga dos Campeões, neste caso, em Madrid com o Atlético. O Atlético que na última jornada antes da paragem tinha empatado um jogo em casa que havia a Real aos 98 e agora ganhou aos 99, quase 100 minutos de jogo. É uma equipa que assusta pelo poderio ofensivo, mas ainda assim continua a ser uma equipa de ex-Maior, com tudo o que isso tem de bom e de mau. E parece-me que o focó do Porto, tendo Liverpool e Milan também no grupo, conseguindo pelo menos pontuar em Madrid, poderá ser um passo importante para depois discutir, sendo que os jogos do Dragão farão aqui toda a diferença numa possível passagem do focó do Porto aos oitavos. Por fim, temos também o Sporting que regressa à Liga dos Campeões com confronto em casa com o Ajax. Em condições normais e num plano teórico, Sporting e Ajax serão as equipas que irão disputar o segundo lugar, partindo do pressuposto que também o Borussia Dortmund confirmará o seu estatuto e poderá ficar em primeiro. Uma vitória do Sporting em casa com o Ajax poderá ser um passo importante para as jornadas que se seguem, nomeadamente até um outro conforto para a viagem a Dortmund na segunda jornada. Portanto, também por aí poderá ser importante. Duas outras notas, o destaque para outros jogos grandes que existirão nesta primeira jornada, nomeadamente o Liverpool com o Milan, no grupo do focó do Porto, e também o Inter com o Real Madrid. O grande jogo fica guardado para a segunda jornada, que é a receção do Paris Saint-Germain ao Manchester City. E também acrescentar que temos o Sporting Braga na Liga Europa, o único representante na Liga Europa vai começar com uma deslocação à Sérvia para defrontar o Estrela Vermelha, que eliminou o Santa Clara, que tem algum histórico já com equipas portuguesas. Não é um Estrela Vermelha como havia na década de 90, portanto, parece-me que o Sporting Braga poderá ter condições para passar. E temos também a Conference League, e aí sim, o Partizan, que eliminou o Santa Clara, numa fase de grupos onde quer a Roma do José Mourinho, quer o Tottenham do Nuno Espírito Santo partem como favoritos para esta nova prova da UEFA, que vamos ver se terá ou não futuro. Quando olho para aquelas equipas, não me parece que seja a coisa mais atrativa do mundo, mas veremos até que ponto a UEFA conseguirá dar a volta a isso.

Vai ser uma semana cheia de futebol, com jogos praticamente todos os dias. E agora vamos às cartas com o Ás, o Joker e a carta fora. Bruno, vamos falar de ténis com o US Open e com os vencedores das finais desta prova este fim de semana.

Sim, sobretudo a surpresa aqui é não estarmos a falar do Djokovic. Em condições normais, estávamos aqui a desfilar todos os feitos do Djokovic, que seria nesta altura o maior dos maiores, o tenista com mais Grand Slams e também o primeiro desde Rod Laver, em 69, a conseguir ganhar os quatro torneios. Não foi isso que aconteceu. Diria que a grande dúvida que sai deste US Open de 2021 é se estamos a assistir apenas e só a uma surpresa, a uma edição que surpreendeu, ou se estamos a começar a assistir ao início de uma nova era. No setor feminino, começando por aí, tivemos a britânica Emma Raducanu a vencer a Leylah Fernandez na final, aquela final que por muitos foi apelidada de final Disney ou final de adolescentes. A Emma, que tem 18 anos, mas também tem apenas só mais três meses do que a Leylah. Estamos a falar de duas tenistas muito jovens. No caso da Emma, fez história porque foi a primeira a sair do qualifier e a conseguir ganhar um Grand Slam. A final em si foi uma final fantástica, que podia cair para qualquer um dos lados. E em termos de setor feminino, eu diria que esta edição do US Open mostra que quando nós estávamos a olhar para um conjunto de sete, oito jogadoras que entre si depois poderiam ir partilhando as vitórias no US Open, temos a Naomi Osaka, a Ashleigh Barty, a Barty, ou seja, um núcleo restrito de sete, oito jogadoras que pareciam ir dominar nos próximos anos, aparece já aqui uma nova geração que passa por cima dessa geração. E isso é bom para o ténis feminino, porque percebe-se que cada vez mais os Grand Slams são mais abertos e a competitividade é maior. No lado masculino, apesar de algumas surpresas que foram aparecendo, nomeadamente o Carlos Alcaraz de Espanha, que também aos 18 anos conseguiu chegar às quartas de final, na final estiveram os dois melhores do ranking, Djokovic e Medvedev. Para mim a grande surpresa foi não tanto a derrota, porque algum dia o Medvedev teria de ganhar um Grand Slam, não se pensava era que pudesse ser neste contexto em que o Djokovic poderia tornar-se o maior dos maiores, mas para mim a grande surpresa acabou por ser a forma como o Djokovic não conseguiu lidar claramente com a ansiedade de se poder tornar o maior dos maiores. E isso para mim foi a grande surpresa, sendo que depois há aqui também um outro lado que interessa destacar e que tem a ver com a perceção que o público tem de Djokovic. O Djokovic teve um azar, entre aspas, de coabitar na mesma era de Federer e Nadal. Foi isso que o tornou melhor. Foi isso também que muito provavelmente fez com que não seja tão adorado como é o Federer ou o Nadal, mas dentro da derrota que teve, a grande vitória foi ter o US Open e todo aquele corte rendido à exibição pobre do Djokovic, que foi uma das piores em finais de Grand Slam, e ele próprio não aguentar as lágrimas, ainda com o jogo a decorrer, e colocar a mão no peito e agradecer ao público por tudo aquilo que estava a acontecer. Diria que essa foi a sua vitória numa derrota que acaba por ser marcante, porque o impediu de fazer o quarto Grand Slam da temporada e que vai abrir também caminho para o Medvedev começar a consolidar a sua posição em termos de circuito ATP.

Bruno Rosetta, entregues os teus dois ases, Medvedev e Emma Raducanu. E agora Mariana, vamos ao teu. Vai sendo já um ás repetido. Podemos dar-lhe outra cor hoje ou vamos para o ás de copas, só?

Eu acho que ele gosta bastante de aqui estar e nós também gostamos bastante de o ter aqui. E a verdade é que não poderíamos falar de mais ninguém também sem ser de Cristiano Ronaldo, porque esta segunda estreia de Cristiano Ronaldo no Manchester United era o momento mais guardado do fim de semana. Existiam bilhetes a 3.000 €, como chegámos a dizer na semana passada. Nas primeiras 12 horas em que esteve à venda, a camisola sete com o nome do jogador português movimentou algo como 38 milhões de euros. Apesar de não se verificar aquilo que se chegou a falar, de que o Manchester United só com as camisolas ia abater os 15 milhões que teria de pagar à Juventus, porque temos aqui uma data de variantes envolvidas em que o dinheiro das camisolas não vai todo para o clube, tem de ser dividido também pela marca desportiva e pelos patrocinadores. A verdade é que foi um encaixe financeiro logo bastante grande e que provou também a quantidade de dinheiro e a quantidade de muita coisa para além do panorama desportivo que o Cristiano Ronaldo vai trazer ao clube inglês. No fim, como quase sempre, Ronaldo não desiludiu, foi titular depois de ter feito apenas alguns treinos. Solskajer tinha dito logo na antevisão que Ronaldo ia jogar de certeza, acabou também por ser titular. Abriu o marcador contra o Newcastle ainda na primeira parte, voltou a marcar já na segunda e devolveu a vantagem ao United depois do Newcastle ter empatado e ainda viu a equipa acabar por chegar a uma goleada por 4-1, que valeu a liderança da Premier League e que teve também um golo enorme de Bruno Fernandes para se juntar a este bis de Ronaldo. Ronaldo que já marcou agora em 20 temporadas diferentes na carreira, que começou da melhor maneira esta segunda aventura no Manchester United, sendo que amanhã já é dia também de Liga dos Campeões na Suíça contra o Young Boys, a sua competição por excelência. E ficou claro que os adeptos ingleses também mostraram que ainda se lembram perfeitamente de como é que se canta o nome do jogador português. Mas acima disso tudo, eu acho que está a ficar cada vez mais notório que Ronaldo vai dar uma injeção de profissionalismo a este Manchester United, que pode não ter o treinador para os conduzir, mas tem os jogadores, tem a qualidade e precisava aqui de um salto e de uma injeção de maturidade, digamos assim, de alguém habituado a ganhar. Tem tudo isso em Ronaldo, tem também tudo isso em Varane, que apesar de obviamente não ter a influência do jogador português, é um jogador que está habituado a ganhar há muitos anos, há muitos anos que vinha a ganhar no Real Madrid com Ronaldo também. É um Manchester United que dá um salto com estas duas contratações e que pode claramente discutir esta Premier League com o Chelsea nesta altura, também com o City e com o Liverpool.

E que levou muitas bandeiras portuguesas ao Old Trafford este fim de semana. E agora vamos ao teu joker, Mariana. Vamos chamar-lhe José Bolt Mourinho, é isso?

Sim, exatamente. Na antevisão daquilo que seria o milésimo jogo como treinador, ao longo de 21 anos de carreira, o Mourinho também já tinha falado da sensação de déjà vu que sente muitas vezes, de forma natural, porque já viveu muita coisa, e muita coisa às vezes parecida, ao longo destas duas décadas no futebol. E foi também com essa sensação que nos deixou a todos, aqueles que viram o jogo da Roma, porque festejou o gol da vitória já nos descontos do El Shaarawy com uma corrida pela linha lateral, portanto foi ter com os jogadores atrás da baliza para festejar, como tinha feito naquele gol da passagem do Futebol Clube do Porto, gol do empate em Old Trafford, o gol de costinha com o Manchester United em 2004, que valeria, como sabemos, no final da época, também a vitória na Liga dos Campeões. Apesar de ter sido o encontro mais difícil até o momento na Série A, frente a um Sassuolo, que continua a ser das equipas que melhor joga e que continua a ter grandes jogadores do meio-campo para a frente, apesar de ter perdido o Locatelli para a Juventus, a Roma somou a terceira vitória nos restantes jogos, portanto em três jornadas na Série A, tem três vitórias. Partilha a liderança da classificação nesta altura com o Milan e com o Nápoles, e mesmo sendo perceptível que o plantel que Mourinho tem à disposição não tem a profundidade de outros, não tem a profundidade dos principais rivais, a verdade é que Mourinho vai continuar nesta luta, pelo menos até conseguir pelos quatro primeiros lugares. Vai claramente estar na luta pelos lugares de acesso às competições europeias da próxima temporada. E voltou a ser feliz, porque voltou a viver os jogos como gosta, com toda esta emoção, e nota-se que voltou a ser idolatrado por adeptos. Os adeptos da Roma veem Mourinho o autêntico ídolo, estão muito contentes por ter lá Mourinho, e a verdade é que eu acho que Mourinho também não se sentia tão acarinhado há bastante tempo.

E como ele gosta. Bruno Rosário, vamos ao triplo com o Pedro Pablo Pichardo.

Sim, também de forma inevitável, está aqui como joker, poderia estar como ás. Ele completou aquele que foi o seu grande ano desde que optou por naturalizar-se português. Conseguiu agora ganhar a Liga Diamante, a final da Liga Diamante em Zurique, que ele já tinha ganho também as duas provas em que tinha participado da Liga Diamante em 2021. Voltou a demonstrar que está claramente acima de toda a concorrência, até pela maneira como ele dominou esta prova. Este ano já tinha ganho os Europeus de pista coberta e também a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, foi aquele expoente máximo desta temporada. Já está a pensar em 2022, porque no atletismo o calendário vai ser mais cheio do que é normal, porque vamos ter Mundiais de pista coberta, Mundiais ao ar livre e ainda os Europeus ao ar livre. E aquilo que fica é a clara perceção de que, um, em 2022, o Pichardo, a não ser que o Christian Taylor apareça muito forte depois da lesão gravíssima que contraiu, vai continuar a dominar o triplo salto. Dois, ele vai continuar à procura daquela marca acima dos 18 metros e, se possível, que se consiga aproximar do recorde mundial. Não aconteceu ainda em Zurique, onde fez 17.70, mas ele vai continuar em busca dessa marca e depois tem no seu horizonte, como é óbvio, os Jogos de Paris 2024, onde tentará ser o primeiro português a revalidar o título olímpico.

E agora vamos às vossas cartas fora. Bruno, começamos com as tuas. Vão dois: Verstappen e Hamilton, pelo episódio deste fim de semana.

Pelo episódio deste fim de semana e não só. Ou seja, nós estamos muito focados naquilo que aconteceu. Graças a Deus, existe o "hal" agora na Fórmula 1, que evitou que nesta altura estivéssemos apenas a falar do choque e não das consequências do mesmo. Portanto, em termos de investigação, os comissários já decidiram que a culpa foi de Verstappen e já o puniram com três posições na grelha na próxima partida. Portanto, por aí, acho que não vale muito a pena falar. Vale a pena recordar que o próprio Hamilton, na própria saída e depois da primeira curva, ele próprio também força uma ultrapassagem ao Verstappen, que lhe fecha a porta, e ele depois começou-se a queixar, mas aquilo foi de tal maneira que nem os próprios comissários decidiram abrir a investigação, portanto, consideraram que foi tudo normal. Aquilo que me parece é que esta rivalidade e a ânsia de chegar ao título mundial já está a começar a passar um bocadinho a fronteira, como já tivemos N casos na Fórmula 1 no passado. Há muito tempo que não tínhamos isto. E está a prejudicar os dois pilotos, e nomeadamente o Hamilton, que é um piloto bem mais experiente e que já foi sete vezes campeão do mundo. Basta recordar que no Azerbaijão, depois do Max Verstappen ter tido aquele azar de lhe rebentar o pneu quando ele estava na frente e muito provavelmente iria ganhar, o Hamilton tem a segunda posição garantida, tenta forçar uma ultrapassagem ao Sérgio Pérez e acaba por também ele ficar fora da corrida. Portanto, percebe-se que isto também está a mexer com o Hamilton. Oxalá as coisas continuem dentro das linhas, que foram ultrapassadas agora em Itália, e sobretudo, oxalá que possamos falar também de aquilo que aconteceu de bom no Grande Prêmio, nomeadamente uma prestação fabulosa da McLaren, que consegue fazer a dobradinha mais de 10 anos depois, e da vitória daquele que é o piloto mais cool e que eu tenho muita sensação que aquela série da Netflix tornou muito mais próximo das pessoas, que é o Daniel Ricciardo, que passado três anos provou que está ali para as curvas, literalmente, que conseguiu voltar a vencer e que é sempre um piloto a ter em conta.

Também gosto muito dele. Vamos, Mariana, agora apelo também aqui um pouquinho ao vosso poder de síntese. Vamos falar da tua carta fora, que vai para a Juventus, que por este caminho está fora. Está complicada a vidinha para os italianos.

Exatamente. Muito rapidamente. A Juventus, como dizes, não parece estar sequer numa espiral de maus resultados, está só numa queda livre de maus resultados. A cúpula do clube continua a dizer que o plano para o pós-Ronaldo já estava feito, que era para ser aplicado em 2022 e que foi simplesmente antecipado para esta temporada. Mas a verdade é que aquilo que transparece é que voltou a não existir um plano a partir da contratação de Cristiano Ronaldo. O objetivo sempre foi uma Liga dos Campeões. Essa Liga dos Campeões não chegou a acontecer e sem esse objetivo, a Juventus perdeu por completo o norte e perdeu há muito, desde a saída de Allegri, desde Sarri, desde Pirlo e agora com o regresso de Allegri, não existe uma ideia consolidada de jogo e nunca existiu. Este fim de semana a Juventus perdeu com o Nápoles depois de ter estado a ganhar. Teve até a particularidade de ter sido Moise Kean, aquele jogador que tinha sido vendido ao Everton em 2019 e que agora foi recontratado à última hora depois da saída do Ronaldo, a errar num pontapé de canto e a permitir o gol de Koulibaly, que deu a vitória dos napolitanos. Ao fim de três jornadas na Série A, a Juventus tem um ponto, duas derrotas, um empate, está no 16º lugar, sendo que joga com o Milan no próximo fim de semana e que pelo meio tem uma deslocação aos suecos do Malmö na primeira jornada da Liga dos Campeões.

E agora vamos até ao túnel. Porque, Bruno Roseiro, o que é isto do cartão de adepto que está a inflamar tanto os adeptos e as claques de futebol?

É o tema grande no desporto nacional que não tem sido debatido, que me parece que até depois daquilo que aconteceu em Alvalade deve ser debatido. É a justificação para haver estádios como o Estádio da Luz ou o Estádio de Alvalade que continuam com bancadas completamente em aberto, que pura e simplesmente não têm ninguém. E é um problema que para as pessoas perceberem, tem vários lados da barricada e nenhum deles vai ceder. Ou seja, da parte do governo, que recorda sempre que o cartão de adepto entrou em vigor o ano passado, mas como o ano passado não havia público, vai manter-se a ideia de que esta é a melhor forma para mitigar fenômenos de violência no desporto e que todas as críticas que têm aparecido são apenas e só de pessoas que querem continuar a fazer aquilo que faziam nos estádios. Da parte do lado dos clubes, continuam a cumprir-se as regras. Ou seja, existe nesta altura um novo modelo, nomeadamente o Sporting só podia vender bilhetes a quem tivesse cartões de adepto e isso provocou também problemas por parte dos adeptos do Foco do Porto na compra dos bilhetes e também algumas críticas por parte do Foco do Porto, porque depois esses bilhetes têm uma taxa incorporada. E nesta altura, aquilo que está a acontecer é que estamos todos a enfiar a cabeça na areia sem perceber o que se está a passar. E as mesmas claques e os mesmos adeptos que não estão a fazer o cartão de adepto continuam a ir ao estádio, continuam a alocar-se, mas em outras zonas do recinto, como aconteceu, por exemplo, com as claques do Sporting que estão na bancada B da mesma superior que costumavam ocupar e aquele adepto que caiu foi porque uma placa de acrílico acabou por ceder e ele acabou por cair. A própria polícia tem mais dificuldades em controlar as coisas, porque os adeptos estão agora mais espalhados pela bancada e existem até mais focos de problema de adeptos de duas equipas que já levaram à intervenção das autoridades em alguns jogos da Primeira Liga. E acho que de uma vez por todas, todas as partes têm de sentar, porque aquilo que está a acontecer é exatamente aquilo que sempre aconteceu no futebol, mas fechando uma parte da bancada. E eu diria que isso não é solução para aqueles que defendem o cartão de adepto.

E ainda o campeonato vai no início. Na segunda parte deste programa vamos falar sobre canoagem e vai estar conosco Norberto Mourão. Bem-vindo a esta segunda parte do Nem Tudo Que Vem à Rede é Bola. Junta-se a esta emissão Norberto Mourão, que conquistou o bronze nos Jogos Paralímpicos em Tóquio este ano. Antes de mais, obrigado por esta oportunidade. Sei que está a preparar-se para outra prova, também ela bastante importante, mas obrigado por estar aqui conosco, aqui na Rádio Observador. Para já, pergunto-lhe qual é que foi a importância desta medalha, nesta que foi a primeira participação que teve nos Jogos Paralímpicos aos 40 anos.

Muito bom dia, muito obrigado pelo convite e pela oportunidade de vir falar um pouco sobre esta medalidade que é fantástica. Esta medalha foi fantástica, é o ponto alto de uma carreira com cerca de 10 anos. Comecei em 2011, já há mais de 10 anos, e tive momentos muito complicados, momentos em que falhei, até que houve uma mudança para a canoa e felizmente as coisas começaram a correr bem. Este ano foi extraordinário. Está a ser extraordinário até este momento e esperemos que continue agora no resto desta semana, que vamos fazer a última prova, mas é uma sensação indescritível a medalha alcançada em Tóquio, porque é uma prova diferente de todas as outras e é algo que nos enche de orgulho.

O Norberto esteve também naqueles que foram os Jogos Paralímpicos, e também já tinham sido Olímpicos, mais atípicos de sempre, também pelo contexto da pandemia. Não havia público, as regras, pelo menos nos Olímpicos, e eu penso que os Paralímpicos seriam igual, eram muito mais apertadas e restritas do que é normal. Tinham também o problema do clima e da humidade, que era uma coisa que se fazia muito sentir. Perguntava-lhe, globalmente, que ideia é que ficou da organização destes Jogos Paralímpicos em Tóquio E ao mesmo tempo, se ficou triste por haver essas restrições que acabaram também por condicionar as sensações de viver uma primeira experiência nesses Jogos Paralímpicos.

A organização foi excelente, extraordinária. A forma como o Japão segue as regras, eles não mudam um centímetro pra cada lado. O que está pensado é exatamente aquilo que é executado. E dessa forma, foi possível ter os Jogos Olímpicos e os Jogos Paralímpicos em segurança e as restrições pros atletas eram muitas. Embora seja uma prova extraordinária, acabou por ficar muito por viver. Não podíamos ir ver as provas dos outros atletas portugueses, ou seja, eu só poderia ir ver as da canoagem, os outros atletas só podiam ir ver as da sua modalidade. O povo japonês segue muito as regras a 100% e não permitia mesmo que nós fôssemos pra outros lados. Nesse sentido, a falta de liberdade foi muito grande, mas também era a única forma de manter a segurança com estas questões do Covid. E só dessa forma foi mesmo possível realizar tudo em segurança. Agora, deixa uma esperança que pra Paris seja tudo totalmente diferente, que haja liberdade e nós precisamos das pessoas nos estádios, pra quem faz as provas nos estádios, nós na pista, nas bancadas, ver as bancadas cheias é algo extraordinário e sentimos um pouco essa falta e acredito que agora depois pra Paris vamos todos com muito mais vontade e que irá ser tudo muito mais intenso e vivido a 100%.

O Norberto, antes da final, teve também a oportunidade de falar com várias pessoas, incluindo o já medalhado olímpico, Fernando Pimenta, que lhe ligou a dar conselhos. Perguntava-lhe qual é a sua convivência com ele e que ligação é que criaram ao longo dos estágios e ao longo das provas nestes anos.

Eu já conheço o Pimenta desde que eu tive a minha primeira prova na pista em 2011. Ele veio nos cumprimentar, na altura, muito mais por causa de uma atleta que é a Carla Ferreira, com paralisia cerebral, que foi a primeira atleta da paracanoagem nacional. E temos ao longo dos anos convivido muitas vezes. Ele está muitas vezes em Montemor, onde eu também treino. E nas provas, fazemos as provas sempre juntos. Ele não me ligou antes da prova, mandou uma mensagem a desejar boa sorte e antes de eu ir pro Japão, tivemos a oportunidade de falar um pouco, onde acabei por falar mais até com o treinador dele, o Hélio Lucas, onde ele me explicou as condições que eles apanharam lá em Tóquio, que se eu apanhasse as condições que eles apanharam, ia ser extraordinário. Acabou por ser totalmente diferente as condições, porque as coisas vão mudando, as condições climatéricas vão mudando e então isso mudou bastante, mas essencialmente o Pimenta vai aí desejando boa sorte a mim, como desejei a todos, assim como todos os atletas da seleção nacional, onde eu destaco claramente o João Ribeiro, que nos fez uma videochamada pra dar apoio a toda a equipa.

Houve depois também aquele momento da chegada, o Norberto já estava à espera, digamos assim, de uma receção como aconteceu no aeroporto, mas depois acabou por ter também uma surpresa na sua aldeia, inclusivamente com o seu irmão, pelo que eu li, que veio de França. São esses momentos que quase que marcam tanto como ganhar uma medalha. Ou seja, são esses momentos e essas homenagens que fazem valer a pena todo o esforço que os atletas têm de fazer pra chegar àquela competição.

Sem dúvida. O apoio é fundamental. Nós lá em Tóquio tivemos sempre o apoio de toda a gente. No aeroporto sabíamos que íamos ter alguma receção, não a receção que nós tivemos, acabou por ser muito maior do que aquela que estávamos à espera, onde eu destaco claramente os bombeiros voluntários de Camarate que tiveram sempre do nosso lado. Aqui na aldeia foi mesmo uma surpresa, porque não estava a contar. O meu irmão chegou no mesmo dia que eu cheguei e no dia a seguir, quando ele disse que tinha de me deslocar lá à parte de baixo da aldeia pra ir ver a minha avó, e eu ia pra ir ter com a minha avó, e até fiz questão hoje de meter uma fotografia que tirei com ela nas minhas redes sociais. E então fui lá para a ver e quando cheguei lá embaixo estava muita gente mesmo, pensava inicialmente que era a missa, uma vez que a casa da minha tia é ao pé da capela, mas ao ver os carros da comunicação social aqui local, apercebi-me então dessa receção muito calorosa e foi algo extraordinário. E é bom sentir esse apoio, não só por palavras, que isso vamos tendo sempre muitas, mas as pessoas virem ter conosco e darem-nos apoio e sentirem também como nós sentimos na pele todas estas conquistas. É algo fantástico, é algo que fica marcado pra vida toda.

Em 2016, em caiaque, o Norberto não conseguiu a qualificação pra ir aos Jogos do Rio de Janeiro, na altura por milésimos. Perguntava-lhe de que forma é que essa desilusão o motivou pra se superar agora também em Tóquio.

Essa foi mais uma das desilusões, porque na vida não é só vitórias e eu comecei a ter as minhas desilusões na paracanoagem. A primeira foi em 2012, fiz a minha primeira prova internacional e passei direto à final e acabei por me virar nos últimos 10 metros. 2013 tive um problema no lembe que não me permitiu conseguir o resultado que poderia ser ao nível dos que tenho vindo a alcançar Foi desilusões e aprendizagem. Com as desilusões e com estas falhas vamos nos tornando mais fortes e vamos aprendendo. Só dessa forma foi possível ultrapassar todas as dificuldades. E só essas desilusões é que me permitiram ganhar coragem para mudar do caiaque pra canoagem, que foi uma aposta acertada, felizmente.

Entretanto, o Norberto tem já a seguir o mundial, mas ainda assim, o próximo ciclo olímpico vai ser mais curto, vão ser três anos e não quatro, como é habitual. O fato de ter ganho uma medalha, o fato de não ter vivido, devido a este contexto pandêmico, a aldeia olímpica e todo o espírito paralímpico da maneira como é normal. O fato de haver Jogos Olímpicos em 2024 em Paris, que também tem todas as condições para haver um maior apoio aos atletas portugueses, também durante a prova. Tudo isso faz com que esteja já a pensar, ainda com mais vontade, em chegar já aos próximos Jogos Paralímpicos?

Sim, sem dúvida. Uma das questões, para já, é porque meu irmão vive em Paris. Certamente eu vou querer estar num sítio, na cidade onde ele vive e sei que irei ter todo o apoio dos portugueses, que são muitos em Paris, que já me vão dando muito apoio. Por isso irá ser algo extraordinário. E viver os jogos na sua plenitude, algo que não tivemos a possibilidade agora em Tóquio e estamos todos ansiosos. Acabamos por sentir a falta do público, tal como no futebol, se sente a falta de ter as bancadas cheias, nós acabamos por sentir também essa necessidade de viver tudo na sua plenitude. Por isso, Paris é um objetivo para o futuro, é continuar a trabalhar forte para alcançar uma das vagas. Em princípio, serão 10 vagas como foi agora, e é lutar pra lá estar, porque faltou viver muito Tóquio e esperemos viver tudo ou muito mais intensamente ainda em Paris.

O Norberto teve em 2019 um acidente de moto que o deixou biamputado nos membros inferiores. Perguntava-lhe se até aí, se já tinha ligação ao desporto federado ou não, e o que sentiu de diferente naquela experiência de mergulho, de paracanoagem, pra gostar tanto, que depois decidiu começar a praticar a modalidade e chegou até agora a ser medalhado nos Jogos Paralímpicos. Em 2009, aliás, corrijo.

O acidente foi em 2009 e a primeira experiência de canoagem, que era um evento de canoagem de mergulho, foi em setembro de 2010. Nessa altura, acabei por experimentar só mesmo a canoagem, deixei o mergulho pra mais tarde e foi algo que eu gostei bastante. E como tudo na vida, nós precisamos de nos sentir motivados. E a forma de eu me sentir motivado e querer continuar, foi entrar na competição. E felizmente as coisas foram correndo bem e os resultados foram aparecendo. Claro que numa primeira fase, não estava à espera desta evolução. Nunca pensei chegar a uma medalha nos Jogos Paralímpicos, nem sequer mesmo a participação nos Jogos Paralímpicos estava na mente quando comecei, mas felizmente tudo isso se proporcionou e é algo que estamos a viver agora de uma forma indescritível. É fantástico.

E houve alguma razão para ter sido para a canoagem? Ou seja, o Norberto na altura tinha de trabalhar os membros superiores também, mas houve algum incentivo ou alguma vontade especial que tivesse para ser a paracanoagem, ou foi apenas e só uma modalidade que pensou que poderia ser boa e que se tornou aquilo que se tornou?

Eu, quando tive o acidente e precisava de fortalecer os braços, e há pouco acabei por não referir a parte do desporto, que eu sempre gostei de praticar desporto, mas nunca fiz nada a nível federado, mas sempre gostei de praticar e sempre gostei de ver na televisão, principalmente os Jogos Olímpicos e os Jogos Paralímpicos, infelizmente passam muito pouco. Quando comecei a paracanoagem, a experiência foi porque em contato com alguns amigos que eu fui conhecendo, também alguns amputados, no caso havia um jovem lá no centro onde eu estava, eu estava no Hospital dos Capuchos, na unidade de amputados, então um rapaz de lá, que é o Anderson, falou-me de uma rapariga que fazia paracanoagem, que é a Carla Ferreira, foi a primeira atleta nacional a fazer paracanoagem. E então, em conversa com ela, ela falou-me desse evento. A minha ideia pra um desporto passou sempre por fortalecer os braços, porque eu pra usar as próteses, ia precisar sempre ter muita força nos braços. E na altura pensei no remo e na canoagem. Tive então a possibilidade de experimentar a canoagem e adorei. O fato de sermos completamente independentes dentro d'água, isso dá-nos uma liberdade que é fantástico. E por esse motivo optei pela paracanoagem ou canoagem.

Pra além do remo, pra além da canoagem, também como já referiu, experimentou mais modalidades ou pensou nisso ao longo destes 10 anos? Ou seja, teve ideia de experimentar uma outra modalidade pra além daquelas que já praticava?

Eu fui experimentando bastantes. Experimentei o kitesurf durante cerca de um ano e qualquer coisa. Também o surf, com um amigo meu, Nuno Vitorino, tem uma associação, a Surf Addict, e então fiz umas experiências bastante espartanas com eles e cheguei a federar-me pelo surf, mas eu estava focado 100% Canagem. Fui experimentando outras pelo meio, mas ainda fiz uns treinos com a equipa de andebol em cadeira de rodas do Sporting, na altura que eu representei. Mas o foco era só canoagem, porque a canoagem é a única onde eu me sentia completamente independente. A partir do momento em que tinha o barco na água, eu conseguia fazer tudo sozinho, vou onde quero, como quero. E no surf já tinha alguma dependência para passar a zona da arrebentação, no kitesurf também. Acontecia o mesmo no andebol em que eu penso que me sentia muito limitado àquele espaço ali daquele canto. Não havia dúvida nenhuma que para canoagem é a modalidade certa.

O Norberto também a seguir ao acidente, foi conseguindo quebrar todas as melhores previsões que havia por parte dos médicos, depois desse grave acidente. Perguntava-lhe que importância é que teve para si essas semanas em que esteve internado e como é que se consegue dar a volta, porque nas entrevistas que eu fui vendo, não houve uma única palavra ou uma única linha para pensar e lamentar o que sucedeu. Ou seja, o Norberto foi sempre olhando pra frente, foi sempre à procura de desafios, foi sempre à procura de tentar quebrar essas melhores previsões que haviam e que foi conseguindo. Qual foi a importância que teve, não só pra parte desportiva, mas também enquanto pessoa, essas semanas em que esteve internado?

Eu acho que mesmo nas horas más, nós temos que saber tirar partido das coisas boas. É claro que poderão pensar: "Mas o que é que existe de positivo quando se perde as duas pernas?" O que existe de positivo é o que vem pra frente, é a mudança de vida, o agarrar as oportunidades. E foi sempre nesse sentido que eu enfrentei a vida. Nos momentos que eu estive internado, inicialmente, a minha primeira preocupação era perceber exatamente o que eu tinha e estava focado em que todas as pessoas que me vinham visitar acabavam por sair dali com um sorriso no rosto, porque pra mim era importante que toda a gente estivesse bem pro caso de um dia eu estar mal, eles poderem me dar todo o apoio que eu precisava. E depois aos poucos fui evoluindo, fui aprendendo, reaprendendo a fazer tudo. Houve momentos complicados. Lembro, por exemplo, eu tinha pedido autorização aos médicos pra me deixarem ir a casa na altura que eu ainda estava internado. Eu tive um acidente um mês antes de fazer anos. No dia em que eu fiz anos, fui à casa e ao chegar me senti necessidade pra ir à casa de banho antes de almoçar. E foi o momento mais complicado em que meu pai pegou em mim ao colo pra me botar na casa de banho e depois foi-me lá buscar ao colo e aí então fez o clique. Foi mesmo o momento mais complicado e que fez com que eu ainda agarrasse todas as possibilidades e reaprendesse tudo mais rapidamente. reaprender a fazer tudo sozinho. Ensinaram-me bastantes coisas, tudo o que era possível no tempo que estive internado. Ao todo, foi cerca de um mês e uma semana. E depois o momento de reabilitação que se seguiu no Hospital dos Capuchos, na unidade de amputados, que infelizmente fechou e passou para o Hospital Henrique Cabral. Tudo o que eu aprendi lá foi algo extraordinário e algo que me fez ganhar mais força pra enfrentar o que vinha a seguir. E depois é o trabalho, a dedicação e o querer ser melhor, evoluir. Acho que aí é que está mais o segredo. Não fique limitado na altura do acidente, fique sempre a olhar pra frente e o que está pra frente é o que interessa.

Ali até ao acidente, o Norberto trabalhava numa pastelaria, até acabar o 12º ano, a convite do seu irmão, acabou por ficar nove anos. Perguntava-lhe se ganhou algum gosto especial e se alguma vez, nestes 10 anos, voltou à pastelaria.

Eu gosto muito do trabalho na pastelaria. Não gosto nada de fazer bolos em casa, que eu não sei fazer, porque é algo que nunca gostei. Mas o trabalho na pastelaria é algo fantástico, é algo que eu fazia com muito amor e com muita dedicação, e foram nove anos como pasteleiro. Inicialmente, a convite do meu irmão, que precisou de um ajudante. Depois, quando deixou de ter algo pra me ensinar, eu então mudei pra uma outra pastelaria pra aprender algo diferente. Mas desde daí, o meu irmão tem pastelaria em França, já lá fui, já fiz uns bolos, alguma decoração, mas não é a mesma coisa. Nem tenho a posição vertical que eu precisava de ter pra fazer bolos. Já não consigo essa posição ou se meter as próteses é algo pra não ser confortável, mas tenho um grande amor àquela profissão e vou conhecendo bastante as pessoas da área. Muitos deles dão bastante apoio, principalmente do Centro de Formação da Pontinha, onde eu fiz 10 cursos de aperfeiçoamento, na altura que era pasteleiro, e criamos ligações bastante fortes.

Olhando agora para a frente, e para a frente é já para o próximo fim de semana, temos os mundiais de canoagem. O Norberto esteve alguns dias sem treinar depois daquele alívio e alegria de ganhar aquela medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos. Pergunto-lhe se é fácil recuperar o foco e quais são os objetivos com que parte para estes mundiais em Copenhague.

Não é fácil manter o foco nesta altura, porque foi muito tempo no Japão, cerca de três semanas. Vivemos tudo muito intensamente. Agora regressamos a casa finalmente e tivemos uns dias pra descansar, mas também nos dias pra descansar não tive tempo para treinar, até porque não tenho canoa. Uma canoa está a vir do Japão, a outra canoa está a ir pra Dinamarca, então não tinha mesmo forma de treinar. Só vou treinar na quarta-feira, quando chegarmos à pista em Copenhague e vou ter a prova logo na quinta-feira. Se não estou em erro, as minhas provas vão ser quinta e sexta e só vou fazer um, dois treinos no máximo na água, mas o objetivo acaba por ser sempre o mesmo: integrar a final, dar tudo e depois nas finais é acreditar até o fim e dar o máximo. O objetivo passa por isso. Sei que isto que eu estou a viver agora de pouco treino, está acontecendo com todos os atletas. Houve atletas que tiveram até viagens maiores, como por exemplo, os atletas do Brasil. Chegaram só ao Brasil uma semana depois e ontem já estavam a sair do Brasil pra ir pra Copenhague e nós ainda estamos a descansar.

Muito obrigado, Norberto Mourão. Boa sorte para estes mundiais de canoagem e para a preparação dos Jogos Olímpicos de Paris. Termina por hoje este "Nem Tudo o Que Vai a Rede é Bola". Daqui a pouco em observador.pt já pode ouvir este programa em podcast. Até já.