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Não se fala de outra coisa do desafio do paracetamol. Ouviram falar?

Já.

É a nova moda, entre aspas. Vou fazer isto porque eu estou a fazer os gestinhos, já estou no TikTok. E que está a levar centenas de adolescentes ao hospital. O desafio é ingerir doses excessivas de paracetamol. Quem aguentar mais tempo até ser hospitalizado, ganha.

Olha que bom!

Que giro, não é?

É, é um belo desafio.

O problema é que, apesar de quase todos termos em casa, é de acesso fácil. Tal como outros medicamentos, pode ser fatal quando tomado em grandes quantidades. A sobredosagem pode causar vômitos, dores abdominais, sonolência, alterações de consciência, lesões irreversíveis no fígado e, nos casos mais extremos, pode mesmo levar à morte. Os sintomas surgem normalmente nas primeiras 24 horas depois da toma. A competição já é popular nos Estados Unidos, Argentina, em vários países da Europa: Espanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Suíça. Há relatos de adolescentes que ingeriram 10 gramas de uma só vez, corresponde a 20 comprimidos de 500 mg cada.

Claro.

Absurdo. Só pra termos uma ideia, segundo a ordem dos farmacêuticos, a dose máxima diária pra um adulto saudável é de 4 g e que devem ser ingeridas, conforme a dosagem, seja de 500 ou de 1000, de quatro a seis horas. Por isso, se perceber que alguém lá em casa resolveu participar deste estúpido desafio, porque é mesmo, deve ir logo pro hospital, mesmo que não haja sintomas. Isto porque quanto mais depressa for tratado, maiores são as hipóteses de recuperar. E tudo isso levanta mais uma vez a questão de quem é a responsabilidade. É preciso uma regulação séria das redes sociais e maior literacia nas escolas em relação aos perigos das plataformas digitais. Seguir o exemplo da Austrália, que limitou o acesso às redes a menores, será?

Não sei. Tenho muitas dúvidas.

Mas a discussão tem que ser feita.

Mas há uma questão de bom senso aqui também.

Também, claro, um equilíbrio.

Se não houvesse redes sociais, se fosse uma brincadeira na escola, os miúdos andam a tomar 20 comprimidos de uma vez, não sabem que isso faz mal a partir de uma certa idade.

Sim, mas aqui estão a ser incentivados a participar, a ganhar a competição.

A verdade é que estas coisas circulam e mesmo com bloqueios no acesso às redes sociais, hoje é muito difícil impedir que este tipo de informação circule.

Numa entrevista que deu ao Sic Notícias, o médico Francisco Aiena da Silva diz uma coisa que nos parece óbvia, mas nem sempre temos presente: as crianças são ensinadas pelos pais a não falarem com estranhos na rua, mas falam com estranhos nas redes sociais e ninguém vê, nem se preocupa com isso. São ensinadas a não ouvirem conselhos de estranhos, mas nas redes sociais, sentados em casa, ouvem conselhos e põem-nos em prática, como este desafio do TikTok com o paracetamol, que não é uma brincadeira, isto pode mesmo matar. É pra levar a sério. Vi uma frase que já não consigo atribuir o autor, que é: deixaríamos o nosso filho ter no quarto 20 desconhecidos?

É isso mesmo.

Eles têm mais do que 20.

E às vezes pode não ser o contato direto, por exemplo, num chat. Não tem que ser.

Não, não tem que ser.

Basta o vídeo, o vídeo de um influencer.

Sim, não há uma conversa, não é uma coisa personalizável, é um vídeo.

Exatamente, porque eles muitas vezes estão alertados para não conversarem com ninguém. Se estiverem, por exemplo, num jogo online, só conversem com os vossos amigos, com as pessoas que conhecem no mundo real, mas a influência vai muito pra além desse contato direto, porque eles são muito suscetíveis a todas as mensagens, são muito impressionáveis.

E estes vídeos são de consumo rápido, portanto, estão sempre a surgir. Estão constantemente a ser estimulados.

E é uma sobrecarga de estímulos. Eu ontem falava com os meus filhos a propósito deste caso do paracetamol. E às vezes coisas que nos parecem, de certa forma, inocentes, até parece só informação. É uma sobrecarga de estímulos, de informação com a qual eles não conseguem, de fato, ainda lidar, não estão preparados. Nem nós, às vezes, estamos preparados, nós adultos, para lidar com isso, quanto mais eles. É muita informação para cérebros ainda em desenvolvimento.

Sim, mas depois o Paulo também tem razão.

O equilíbrio.

Claro, proibir. E os grupos na escola também têm influência.

E têm suas dinâmicas.

Eu acho que isso parte tudo mais da informação, da literacia, o mais cedo possível, principalmente os miúdos começam a ter entendimento sobre estes perigos e outros quaisquer, no fundo.

Sim, mas aqui sabem que o paracetamol em excesso fará mal. Aqui o desafio é ver quem é que aguenta mais tempo até ir pro hospital. Quem ganhar mais.

Claro. Sim

Enfim.

Loucura. É uma loucura.

Mesmo.

Também não se fala de outra coisa da detenção do ex-príncipe, que é uma coisa que eu não sabia que existia. O ex-príncipe André. O ex-príncipe é muito estranho. Tudo é muito estranho.

O irmão do rei. O irmão do rei. O que é que vamos dizer, o André.

O André. Bem, é irmão do rei, isso é, não é ex-irmão, é irmão.

Isso ainda não dá para ser, mas se pudesse. Se pudesse.

Se a família real pudesse.

Era o ex-irmão.

E a discussão é sobre tudo e sobre o impacto que poderá ter e a que níveis, e a muitos. Eu socorro-me aqui de um artigo d'O Observador, porque fala com um politólogo, um especialista em monarquia e copresidente da Real Associação de Lisboa, e que falam brevemente sobre esta detenção e as opiniões completam-se e têm muito interesse por causa disso. O André Azevedo Alves, politólogo, professor na Católica e colunista d'O Observador, olha, sobretudo, e naturalmente o olhar dele para as implicações políticas e diz que esta detenção vai aumentar também muito a pressão sobre o próprio primeiro-ministro, Keir Starmer, que já está, por outras razões, com níveis de impopularidade historicamente altos e também está diretamente envolvido neste caso, isto por causa de Peter Mandelson e as alegações também relativas à proximidade com Epstein. Ele foi nomeado embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, já depois de conhecidas as ligações, o que levou já a várias demissões no governo britânico, de assessores e de pessoal próximo do primeiro-ministro e de ministros, e isto já começou a fazer aumentar os apelos à demissão do próprio líder do governo britânico. Será que vai cair também Keir Starmer? Não se sabe. Carlos Maria Bobone é autor do livro "Monarquia: História, Doutrinas e Heranças", e sempre que há algum acontecimento, sobretudo da família real britânica, a opinião do Carlos Maria Bobone é muito importante e ele lembra que não é preciso ir à Idade Média para encontrarmos irmãos de reis presos. A história britânica está cheia de golpes palacianos e ele lembra mesmo o próprio caso de Eduardo VII, que é muito mais do que um príncipe herdeiro que abdicou por amor, diz ele, só os ingênuos é que acham que é só isto que está a acontecer. E depois lembra também que as monarquias não costumam ter grandes problemas em condenar príncipes, coisa que, diz ele, até antropologicamente se percebe, porque um príncipe não herdeiro...

É sempre uma ameaça.

É sempre uma ameaça e não convém que ele seja um grande herói do povo. É muito curiosa esta abordagem. O João Távora, o presidente da Real Associação de Lisboa, olha para o copo meio cheio e é muito interessante. Obviamente, diz que isto é muito grave para a família britânica, para a ideia da monarquia, mas diz que isto é um sinal de que os britânicos podem confiar no seu sistema político, na monarquia, porque é um sistema onde ninguém está acima da lei. E ele diz quantas repúblicas por esse mundo fora, desde logo a nossa, poderia estar a assistir a uma coisa como esta. Isto é a prova que se está numa democracia extremamente evoluída e em que a justiça consegue funcionar de modo independente.

É o copo meio cheio.