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Sejam bem-vindos ao Nota 20, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação. Viva, professor Nuno Crato.

Ora viva!

Professor, esta semana vamos focar na aprendizagem da leitura, na forma como se contornam as dificuldades. É este o sumário do nosso programa. Mas antes vamos à pergunta que deixamos no Twitter na semana passada, e era a seguinte: para as crianças com dificuldades iniciais de leitura, é necessário ensino dirigido ou ler muito? Dois terços dos nossos ouvintes, 66%, responderam ensino dirigido. Professor Nuno Crato, os nossos ouvintes estão a ler bem a questão?

Eu julgo que sim, porque quando se têm grandes dificuldades iniciais de leitura, ler muito não é possível, porque não se consegue ler. Às vezes as pessoas insistem: "é preciso ler mais." Mas se as crianças leem e não conseguem decifrar o que estão a ler, desanimam, como é evidente. E esse é um problema grave que pode trazer problemas na escola. Ora, o que é preciso, de fato, é dirigi-las, ajudá-las a aprender a ler. E é para isso que temos hoje aqui uma convidada, com um programa que é um pouco diferente dos anteriores, porque nos programas anteriores nós discutimos muitas coisas, entre as quais o problema da leitura, e sendo este um programa em que a ciência fala com a educação, trouxemos nós cientistas e pessoas que discutem do ponto de vista teórico como as coisas se fazem. Nós hoje temos o privilégio de ter conosco uma professora do primeiro ciclo, que é professora tutora no programa Aprender a Ler, que nós desenvolvemos nos Açores e em muitos sítios do país, que a Iniciativa Educação ajuda a desenvolver. E como professora tutora, a sua função é ajudar jovens que têm extremas dificuldades de leitura a ultrapassar essas extremas dificuldades de leitura. Portanto, jovens que estão a perder-se em relação aos outros, que estão a ficar atrasados em relação aos outros. É uma tarefa importantíssima, que é guiada pela ciência, porque existe muita ciência de leitura, mas além da ciência, necessita de muita dedicação e muita experiência, eu creio que a professora que está conosco tem. Portanto, a professora que está conosco aplica um programa que está concebido de acordo com o que hoje melhor se sabe cientificamente sobre a leitura e aplicando esse programa, ajuda as nossas crianças a ultrapassar essas dificuldades.

Vamos então dar as boas-vindas à professora Catarina Medeiros, que é professora do primeiro ciclo na ilha de São Miguel, nos Açores. Professora, bem-vinda ao Nota 20 esta semana.

Olá, obrigada.

Bem-vinda, Catarina.

Obrigada.

O professor Nuno Crato já fez aqui uma meia apresentação da sua envolvência neste programa A a Z da Iniciativa Educação. Como é que funcionam estas tutorias?

Ora, nós temos um grupo de oito alunos, inicialmente do segundo ano, portanto, são alunos que têm dificuldades na leitura, como já foi aqui dito. São alunos que se encontram desmotivados, desinteressados, muitas vezes não querem ler, não gostam de ler. E estes alunos são retirados da sala de aula, um a um, portanto, nós temos o apoio muito individualizado, que é isto que se pretende agora, atacar o problema do aluno. Se é na leitura, vamos então pôr este aluno a ler. Então um a um, por vezes dois. Temos sessões de 45 minutos com eles, orientadas para a aprendizagem da leitura, muito focados nas suas dificuldades.

45 minutos por semana ou 45 minutos várias vezes por semana?

Várias vezes por semana, duas a três vezes por semana.

São retirados da sala de aula e depois regressam à sala de aula e tudo isso é coordenado com as professoras titulares.

Sim. Eles são retirados da sala de aula durante aqueles 45 minutos. Nós já temos tudo coordenado com as titulares de turma. Geralmente, durante aquele horário, a turma também está a trabalhar português para que o aluno não falhe, não esteja a faltar, digamos assim, à introdução de outras matérias e de outros conteúdos. Portanto, a turma também está a trabalhar português quando ele sai e vai trabalhar as suas dificuldades, vai trabalhar conosco aquilo que ele precisa de trabalhar de forma a ultrapassar as suas dificuldades e chegar ao nível da turma.

Professora Catarina, que dificuldades é que apresentam as crianças ao nível da leitura?

As nossas crianças, as que chegam até nós, as crianças do segundo ano, são aquelas que já trabalharam um pouco a leitura. Durante o primeiro ano, eles tiveram dificuldades, atrasaram-se em relação ao grupo. As dificuldades dessas crianças muitas vezes é o nível da consciência fonológica, portanto, é uma criança que saberá, por exemplo, a diferença entre gato e pato, não tem dificuldades nisso, mas depois não saberá distinguir qual é o som que distingue as duas palavras. Ele dá um significado ao pato e ao gato, mas depois não vai saber dizer que uma começa por G, a outra começa por P, por exemplo. E nós temos que trabalhar aqui isso. Como eles poderão não saber a parte final da palavra, as rimas, que também são muito importantes. São crianças que às vezes têm dificuldades ao nível da consciência fonológica. Depois temos as outras crianças, e é se calhar a maioria delas, que têm dificuldades a nível da descodificação. Portanto, eles não são capazes de olhar para o grafema e transformar no fonema.

Grafema é não conseguem olhar para a letra e fazer corresponder o som exato da letra, não é?

Exatamente.

O B é o B, o P é o P, o V é o V.

Exatamente. O maior problema será este: a descodificação. Portanto, o aluno vai olhar para o P, para o L e não vai conseguir transformar aquilo num som, tem dificuldades. Assim como tem dificuldades na sílaba.

Depois, perante esse diagnóstico, professora Catarina Medeiros, o que faz com os alunos nesses 45 minutos? Queremos muito saber.

Nós temos uma sessão muito organizada, temos sete pontos. Como o professor Nuno Crato disse há pouco, já foi amplamente discutida toda esta situação teórica. Toda a teoria já foi amplamente discutida. Na prática, o que nós fazemos? Nós começamos por ler em voz alta para estes alunos. Nós começamos com uma leitura de diversos textos. Temos leitura de enciclopédias infantis, claro, leitura de fábulas, leitura de poemas. Nós tentamos diversificar a tipologia do texto apresentado ao aluno. E lemos em voz alta.

Peço desculpa por interromper, por que é importante ler em voz alta?

Modelamos a leitura, incentivamos pra leitura, damos-lhe vocabulário e, acima de tudo, nós tentamos motivá-los para a leitura. Aquilo que nós realmente tentamos é que a criança, ao ouvir ler, ao perceber que o adulto está a ter prazer nesta leitura, nós estamos a modelar, estamos a tentar que ele também se motive, que ele também tente tirar prazer da leitura, tirar conhecimentos, aprender: "Olha, com isto que a professora acabou de ler, eu aprendi qualquer coisa. Aprendi uma palavra nova, aprendi sobre este assunto. Portanto, através da tua leitura, eu consegui retirar alguma coisa". E esta parte é muito importante pra nós.

E depois da leitura do texto, o que se segue?

O que se segue? Depois da leitura do texto, nós fazemos sempre uma revisão sobre a sessão anterior. Portanto, o aluno já sabe que vai ser questionado sobre o que aconteceu na sessão anterior. E isto é importante pra nós, porque ele aí vai estar atento, porque já sabe que na sessão seguinte: "Ela vai me perguntar o que é que aconteceu, o que é que nós trabalhamos. Deixa eu pensar aqui um pouco". O aluno acaba por se concentrar um pouco mais naquilo que vamos fazer. Nós ganhamos a sua atenção, porque ele sabe que vamos perguntar isto todas as vezes. "Pois, eu já sei que vais perguntar isto, professora. E eu sei que a semana passada nós trabalhamos, ou ontem nós fizemos isto ou aquilo".

Portanto, o aluno repensa aquilo que foi dito e aquilo que repensa fica na memória. Até há quem diga que a memória é o resíduo do pensamento, é aquilo que fica do que nós estamos a pensar. E por isso é tão importante que as crianças voltem a pensar sobre aquilo que a professora lhes ensinou da outra vez. Catarina, desculpe só agora fazer o papel de jornalista.

Não, faz favor.

Queria fazer uma pergunta. As crianças gostam de aprender, gostam de saber coisas novas, palavras novas?

Elas adoram. A criança adora aprender. E quando uma criança me diz que não gosta da escola, não gosta de aprender, é completamente falso. Ela está é desmotivada, porque aprender, claro que ela gosta. Toda gente gosta de ter sucesso.

Está desmotivada pelo insucesso, não é? Muitas vezes as pessoas seguem uma estratégia que é um pouco o contrário, que é pôr muitas bonecadas, muitas coisas, ver se as crianças se entusiasmam. As crianças entusiasmam-se é quando começam a ter sucesso, não é? É o que a sua experiência diz.

O sucesso é o único motor da motivação. Assim que a criança começa a ter sucesso, não precisa de bonecos, não precisa de brincar, não precisamos aqui de andar a fazer a cambalhota. Precisamos é de pô-los a ler, precisamos é de pô-los a ter sucesso e o resto surge naturalmente.

Eu também não quero fazer aqui o papel de sindicalista dos alunos, mas professora Catarina, esse método que aplica de ajuda suplementar aos alunos que têm dificuldades na leitura, e a pergunta é muito provocatória: não é um bocadinho rotineiro ou a rotina que é amiga da aprendizagem?

A rotina é amiga da aprendizagem, sem sombra de dúvida. A criança gosta de rotina, a rotina traz segurança. A criança quando sabe exatamente o que se espera dela, sente segurança. A criança sabe o que é que vai fazer a seguir, ela sabe exatamente o que é que vai acontecer, e isto dá à criança muita segurança, sem sombra de dúvida. A criança não precisa de muitas coisas. A criança precisa de saber exatamente o que é que vai fazer agora e a seguir o que é que eu vou fazer, e toda esta rotina cria segurança, não cria desmotivação, de forma alguma. E as crianças gostam destas rotinas, gostam de repetir, gostam de ouvir novamente a mesma coisa, porque depois, à segunda e à terceira e à quarta, eles já dominam aquilo. Portanto, gostam.

E nesse sentido, e nessas aulas quase dirigidas que dá a um ou dois alunos, que têm as tais dificuldades de aprendizagem, não se fica apenas pela leitura de um texto ou pela matéria que vai dar na aula seguinte. Faz exercícios com eles, executa exercícios ou não?

É já a seguir. Agora nós começamos a parte dos exercícios, propriamente ditos.

E que exercícios é que desenvolve com crianças que têm dificuldades de aprendizagem no domínio da leitura, professora Catarina Medeiros?

Nós começamos pela leitura de palavras repetidas. Nós começamos pela leitura repetida.

O que é leitura repetida? Peço desculpa estar a ser insistente.

Não, nós temos uma lista. Poderá ser uma lista de palavras, em que a criança vai ler aquela lista de palavras, pode ser no texto, podemos selecionar, sublinhar algumas palavras e ele vai ler apenas aquelas palavras. E ele vai repetir aquelas leituras. E vai repetir duas, três vezes, conforme aquilo que ele necessitar. E isso ajuda também. Diga.

São leituras repetidas padrão, ou seja, valem para todas as crianças que têm dificuldades na aprendizagem da leitura, ou são leituras repetidas de palavras que Que têm dificuldade acrescida para essa criança.

Exatamente. São palavras dirigidas para estas crianças. Cada criança tem as suas palavras, a sua lista, conforme as suas necessidades. Ela poderá estar no nível de consoante-vogal, portanto ele só faz leitura de sílabas de consoante-vogal, ou consoante-vogal-vogal, e aí a lista de palavras da criança, imagina que está em consoante-vogal, vai ter só caneca, panela, portanto, as sílabas serão só consoante-vogal. Depois, passamos à consoante-vogal-vogal, aí já entram os ditongos. E depois temos as outras crianças que já estão a trabalhar os padrões ortográficos, os pre, os ple, o nh, o lh. Portanto, as listas de palavras são quase personalizadas, de acordo com a dificuldade que aquela criança tem e em que nível de leitura ela está.

A tarefa que a professora Catarina Medeiros desempenha é quase um privilégio, porque trabalha diretamente com um ou dois alunos, isso é fantástico. Os alunos reconhecem o esforço que a professora Catarina emprega no seu dia a dia?

Claro que sim, eles adoram. Não é por ser comigo, acho que eles devem gostar de todas as tutoras, porque, na realidade, nós quando aparecemos na vida escolar destes alunos, eles acabam por perceber que "esta pessoa vai me ajudar, esta pessoa está aqui não para se rir", como se calhar na sala de aula, eles já experienciaram situações em que a dificuldade deles foi demasiado exposta. Portanto, ele teve muitas dificuldades na leitura de determinada palavra ou de determinado texto, pura e simplesmente não conseguiu ler de forma alguma, não dispôs de outro método.

E os colegas riem-se às vezes, não é? Sabemos que as crianças às vezes são um bocadinho cruéis.

As crianças são muito cruéis. A turma é um núcleo muito cruel. A sala de aula é um espaço extremamente cruel para estas crianças que têm dificuldades, por exemplo.

É um bloqueio? Os outros alunos podem bloquear o processo de aprendizagem de uma criança que tem dificuldades manifestas?

Podem. Isto pode acontecer, porque a criança, quando começa a ler, e se não lê de uma forma minimamente fluente, aproximada ao nível do grupo, quando ele está a ler e não sai a palavra, ele olha à sua volta e sabe perfeitamente: "Olha, eu estou abaixo deles, da minha turma. A minha turma já consegue e eu não". E o que é que faz? A criança já não quer ler. Se isto acontecer na segunda-feira, na terça ele vai evitar ler, vai pedir para ir à casa de banho na hora da leitura, vai dizer que está mal disposto, por exemplo, ou que tem dores de cabeça, porque não vai querer ler em voz alta novamente. E claro, quanto menos lê, o insucesso começa a chegar. O desfasamento entre a turma e este aluno com dificuldades vai aumentando, e depois os conteúdos também vão sendo lecionados, está tudo relacionado com a leitura e com a escrita, e o fosso vai se aumentando. E claro que o grupo é muito importante. O grupo e a titular de turma.

Portanto, o programa, essencialmente, o que faz é olhar para as crianças e dizer: todas elas têm que chegar a um patamar satisfatório, um bom patamar, um patamar de excelência, de preferência. E há uns que não estão a chegar. Em vez de dizer: "Bem, vamos aguardar que eles cheguem", vai dar uma ajuda especial a esses.

Exatamente.

E essa ajuda é, de facto, decisiva, porque uma das coisas que se sabe bem, e que a professora Catarina acabou de explicar, é que este tipo de desfasamentos não tende a diminuir, tende a aumentar. Alguns jovens que têm essas dificuldades tendem a aumentar o desfasamento em relação à turma, portanto, isto é fundamental para eles. E muitas vezes essas coisas esquecem-se, nós falamos de coisas muito grandiosas e esquecemo-nos destas crianças, que são uma percentagem grande da população nestas idades, infelizmente.

Professora Catarina, estamos quase na reta final do nosso programa. Há muitos pais que nos estão a ouvir e que já estão a fazer o balanço do ano letivo que está a acabar ou os mais zelosos já a antecipar o próximo. Que conselhos é que pode dar aos pais que estão muito preocupados com o desempenho dos seus filhos no domínio da leitura? Há coisas que os pais podem fazer?

Há muitas coisas que os pais podem fazer, felizmente. E há muitos pais realmente muito preocupados com a leitura dos alunos. Por acaso há pouco eu estava a me lembrar disto. Nós não nos podemos esquecer que logo no início, quando a criança entra pra escola, passado alguns meses, a pergunta que ela mais ouve é: "Já sabes ler?" E esta também é uma grande pressão pra criança, porque depois, em casa, a família começa a conversar, o primo já sabe, a outra já aprendeu, e é uma pressão enorme para estas crianças, uma desmotivação enorme. Os pais, o que é que podem fazer para ajudar os seus filhos a ler?

Rápido, professora Catarina.

Muito rápido. Eu costumo dizer, em primeiro lugar, conversem com os vossos filhos. É muito importante que haja um bom diálogo em casa. "O que é que aprendeste? O que fizeste? O que é que estás a aprender? O que é que estás a dar na escola? Gostaste desta matéria, não gostaste?" É fundamental. Depois, claro, tentar oferecer um livro lá de vez em quando, no lugar de outras coisas que nós compramos. Vamos tentar oferecer livros às crianças. O nosso discurso oral jamais substituirá a riqueza de uma literatura infantil, como é óbvio. Portanto, vamos tentar fazer jogos de palavras, jogos simples. "Estamos no carro, vamos numa viagem, vamos fazer aqui um jogo. Palavras que comecem por F, o som F, vamos embora. Palavras que terminem em AR." Portanto, coisas simples e que podemos fazer, não gastamos dinheiro e as crianças adoram, porque têm a atenção dos pais também para si um bocadinho.

Fantástico. Professora Catarina Medeiros, foi um gosto tê-la no "Nota 20" desta semana. Obrigado pela disponibilidade e também pela paixão que entrega nessa fascinante e importante tarefa que é pôr as crianças a ler.

É isso. Vamos a isto. Obrigada.

Obrigado. Professor Nuno Crato, a principal conclusão que podemos tirar do testemunho da professora Catarina Medeiros é o de que, apesar de tudo, e corrija-me se estou enganado, aprender a ler bem não é uma missão impossível.

Não, não é uma missão impossível e é uma missão nobre que muitas vezes é esquecida. E eu diria que foi um programa interessantíssimo, porque nos mostrou como é que isto funciona na prática com crianças que têm dificuldades, mas que depois ultrapassam essas dificuldades.

Muito bem. O programa da próxima semana é sobre como estudar. A pergunta que deixamos no Twitter aos nossos ouvintes é a seguinte: quando estudamos, qual a melhor forma de aprender? Testar ou reler? Eu vou ter muita curiosidade neste programa. Professor Nuno Crato, até para a semana.

Até para a semana.