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Bem-vindos ao Nota 20, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação. Viva, professor Nuno Crato.
Viva.
Professor, estamos em contagem decrescente para o regresso às salas de milhares de crianças do pré-escolar. Frequentar este nível de educação compensa? Já vamos à resposta mais à frente com o convidado desta semana. Para já, as conclusões da sondagem on-line. Professor Nuno Crato, perguntamos aos nossos ouvintes: o pré-escolar tem impacto no desempenho cognitivo futuro dos alunos ou é uma forma de os preparar socialmente e de ajudar os pais? As opções de resposta eram: sim, tem impacto, e a outra era: não, é uma ajuda aos pais. E não há grandes dúvidas.
Não, não há grandes dúvidas. Não há grandes dúvidas, porque a maioria das pessoas, uma larga maioria, disse que não era exatamente uma ajuda aos pais, ou não é só uma ajuda aos pais, mas é uma maneira de preparar as crianças. Eu julgo que a maioria das pessoas está absolutamente certa. Ou seja, como é evidente, é também uma ajuda aos pais, é também uma maneira de socializar os jovens para a escola, muitos deles filhos únicos que chegaram, não têm contato regular com jovens da mesma idade. É tudo isso, e isso é tudo importante. Mas é também uma maneira de os preparar para entrar na escola já com o primeiro contato com letras, um primeiro contato com cores, com números. E isso faz uma grande diferença na vida de muitos jovens. Se nós quisermos olhar um pouquinho para trás e pensar as reformas estruturais que foram feitas no ensino em Portugal, as grandes, foram três ou quatro. Eu diria talvez o ciclo unificado, a extensão da escolaridade obrigatória até o nono ano, depois a extensão da escolaridade obrigatória até o 12º, depois os ciclos curtos do ensino superior, a reforma de Bolonha ainda antes disso, ou o rearranjo do ensino superior. Mas no fim do século XX, a generalização do pré-escolar foi uma das mais importantes reformas que nós tivemos no ensino. E foi importante precisamente porque preparou os jovens para entrarem na escola. E nós já vamos ver com o especialista exatamente o que isso quer dizer.
Nem mais. O pré-escolar é o tema do programa de hoje. Será que compensa sempre e em que condições? É nosso convidado Hugo Reis, economista da educação e investigador do Departamento de Estudos Econômicos do Banco Portugal. É neto, filho e irmão de professores. Hugo Reis, bem-vindo ao Nota 20.
Obrigado, queria agradecer o convite.
Hugo, o que ganha uma criança que frequenta o pré-escolar?
A resposta é clara e condizente com a sondagem, portanto, o benefício é claro. Mas é importante contextualizar um pouquinho mais. Ao nível da economia da educação, o processo de formação de uma pessoa é dinâmico e, portanto, os primeiros tempos, o primeiro ambiente, quer familiar, quer escolar, desempenham papel importante na formação da vida de uma pessoa. E o ensino pré-escolar, em particular, ao promover capacidades, quer ao nível cognitivo, quer ao nível não cognitivo, estabelece uma base muito importante que facilita a acumulação do que nós chamamos de capital humano, que vai perdurar ao longo da vida. E, portanto, é um alicerce fundamental e importante.
Uhum. Diga, diga.
Não, só queria realçar que esta questão, apesar de ser uma resposta que parece clara e relativamente simples, em termos de análise dos seus impactos, carece de alguma dificuldade, até porque nós queremos analisar dois grupos de pessoas, um que tem ensino pré-escolar, outro que não, e esses dois grupos de pessoas têm que ser claramente comparáveis, ou seja, têm que ser em tudo comparáveis, exceto na característica que nós estamos a analisar. Neste caso, queria fazer só esse parêntese para dizer que a análise deste tipo de impacto e de estudos tem essa dificuldade e carece desse rigor de analisarmos grupos que são comparáveis, porque quero lhe dar um exemplo: se uma família de um contexto familiar mais favorável escolherem todos o pré-escolar versus outra família cujas características não são tão favoráveis, não escolha o pré-escolar, estamos a comparar dois grupos que, na prática, em vez de estarmos a comparar o pré-escolar, estamos a comparar características das famílias.
E estamos, obviamente, a ser injustos para ambas as realidades.
Estamos a enviesar os resultados.
Exatamente. A frequência do ensino pré-escolar traz vantagens no futuro para as crianças, nomeadamente no futuro acadêmico?
Sim, esse resultado é visível e é tanto mais visível em crianças cujo contexto familiar é mais desfavorável no seu acompanhamento nessa fase pré-escolar da vida. E essas características desfavoráveis não são necessariamente o rendimento ou a educação, que também são fatores importantes, mas podem ser, por exemplo, tudo que seja estímulos para a criança. E, por exemplo, um indicador que muitas vezes se usa: livros em casa. Uma família que não tenha livros em casa, há propensão a não incentivo à leitura e, portanto, naturalmente, podem não estar criadas as condições mais favoráveis para o estímulo à leitura dessa criança.
Hugo, eu fazia aqui só uma pergunta, que eu acho que está na cabeça de alguns dos nossos ouvintes, certeza. Nós estamos a falar do pré-escolar
É evidente, os psicólogos, os pedagogos têm algo a dizer sobre isso. O que têm os economistas de educação? Perguntarão algumas pessoas a ver sobre este assunto. É uma questão econômica, de pagar, não é? Não, economia de educação é outra coisa, mas como temos aqui um economista de educação, eu pedia uma curta justificação desse interesse.
A economia da educação tem a vertente de analisar, como ciência social, escolhas das pessoas. E, portanto, há a escolha também de ter ou não educação, também passa por uma escolha das pessoas, independentemente do cariz obrigatório que possa ter. E na prática, a economia da educação, o que procura analisar é com rigor científico, saber se esse investimento que as crianças fazem, neste caso, no pré-escolar, tem ou não um retorno positivo ao longo da sua vida, quer seja ao nível acadêmico, no ensino primário, ensino elementar, ensino secundário, até ensino universitário, mas depois fora da educação formal também, temos formas de avaliar ao nível de comportamento, nomeadamente ao nível da saúde, obesidade, ao nível de atividades criminais e até em termos de outros tipos de comportamentos sociais, conseguirmos dizer ao longo da vida se esse impacto, se o retorno desse investimento foi favorável ou desfavorável. E neste caso, o investimento no pré-escolar, é claro que é preferível prevenir do que remediar. Portanto, é preferível investir logo mais cedo, sai mais caro investir apenas mais tarde.
Há dados que nos permitam medir essa segunda parte? Há pouco dizia que o impacto é positivo no futuro acadêmico das crianças, mas depois, no que diz respeito já à sua vida adulta, os comportamentos sociais, há dados que permitam medir o impacto do pré-escolar na vida adulta?
Essa é outra dimensão de dificuldade de avaliar este tipo de impactos. Precisamos de ter dados que sigam, de facto, de uma forma consistente as pessoas ao longo de toda a sua vida. E nós, por exemplo, quando olhamos para uma pessoa, mesmo que saibamos o seu percurso pré-escolar ou não, quando tem 40 anos ou 50, se não tivermos o resto do seu percurso, também fica uma análise incompleta, porque todo o outro percurso tem também, naturalmente, a sua influência, independentemente da importância crítica que tem o pré-escolar.
Existem estudos internacionais sobre isso?
Existem estudos, mas não existem assim tantos como seria desejável por causa desta dificuldade. De qualquer forma, existem vários tipos de estudos, mas eu queria aqui só salientar que há estudos para programas que nós chamamos de cariz experimental, ou seja, foram programas que foram desenhados de propósito para avaliar um determinado grupo de pessoas e que normalmente são de uma escala pequena. E depois, há também agora mais recente, estudos, nomeadamente para a Noruega e pro Quebec, que analisam um programa já mais universal. E na prática, tal como na linha do que eu disse há pouco, os estudos que são experimentais focam-se já em comparação de grupos de pessoas cujo contexto familiar é mais desfavorável. E, portanto, naturalmente, os impactos que temos aí vão ser maiores. Por quê? Porque a alternativa destas pessoas, em condições normais, são piores do que em outro contexto familiar. Mas só de salientar que nestes casos experimentais, de escala pequena, estamos a comparar alunos já com condições familiares desfavoráveis no acompanhamento da criança nessa fase da vida e comparamos crianças que tiveram um programa de qualidade no pré-escolar com crianças com as mesmas características, com as mesmas dificuldades familiares, mas que não tiveram esse percurso. E os resultados são muito claros. Em particular, vou referir o resultado de um dos estudos mais famosos, que é o Perry Preschool Program, que foi realizado nos anos 60, nos Estados Unidos, em Michigan, em que o objetivo foi acompanhar, lá está, pessoas de famílias desfavorecidas e umas tiveram esse acompanhamento e outras não. E a ideia foi mesmo segui-las ao longo de toda a sua vida. E já existem resultados até à idade de 40 e até à idade de 50, vai sair ou este ano ou pro próximo ano, o relatório com esses resultados. E aí os resultados são muito claros. Existe esse impacto positivo ao nível cognitivo e da performance acadêmica, mas existe também, e de uma forma, se calhar, ainda mais clara, um impacto positivo ao nível de redução de estudantes que repetem ano, de abandono escolar, portanto, há menor probabilidade de abandono escolar, obesidade, tal como eu referi há pouco, e depois ainda mais tarde, as pessoas que frequentaram esse programa versus as que não frequentaram, são pessoas que em média têm maior probabilidade de ser empregadas e de ganharem mais. E esta é a questão mais monetária da questão.
Fica claro, Hugo, que é mais benéfico pra criança frequentar o pré-escolar do que ficar em casa. Mas o que lhe pergunto é: mesmo ficando em casa, por exemplo, com adultos qualificados?
A questão do qualificados tem que se diga, porque o qualificado, lá está, tem que ser um contexto familiar que estimule E que estabeleça o mesmo tipo de estímulos à criança que tem o ensino pré-escolar. Portanto, à partida, se o contexto familiar com pessoas mais qualificadas poderá de facto, assemelhar-se mais ao que desempenho do ensino pré-escolar. E daí que os resultados, mesmo nos programas universais, em que há uma vantagem clara para um grupo de crianças com famílias mais desfavorecidas, também existe para os outros grupos, mas é menor porque a alternativa é melhor.
Ensinar um jovem a ler, por exemplo, é uma tarefa altamente complexa. Eu às vezes penso: eu se estudasse uma matéria qualquer, história de primeiro ciclo, eu era capaz de explicar. Não muito bem, mas acho que era capaz de explicar aos jovens. Agora, aprender a ler é uma especialização, não é? Portanto, aquele primeiro contato dos educadores de infância estão especialmente preparados para isso, e é bom que estejam, para serem bastante eficazes nessa época da vida dos jovens.
E sabem dar exatamente os estímulos e as características que são fundamentais para aprender a ler. Este caso que o professor Nuno está a referir é muito claro de que a alternativa em casa pode ser boa, mas em certos casos não substitui totalmente, porque o aprender a ler é muito específico.
É uma coisa muito específica e é considerado que a leitura e que a escrita são civilizacionais, ou seja, não são coisas biológicas. Por exemplo, uma criança está junta a uma família. Começa a falar por si. Só o fato de estar em contato com outras pessoas que falam, ele aprende a falar. Mas mete-se uma criança numa casa cheia de livros, ela pode passar lá 10 anos com os livros que não aprende a ler, porque a leitura é uma convenção, é uma convenção social, é uma conquista da civilização e, portanto, tem que ser transmitida de forma organizada para as pessoas, que é aquilo que às vezes não se percebe. Por isso é que o esforço de leitura, de maneira muito dirigida, muito bem organizada, é tão importante para os jovens. João Miguel, desculpa, eu hoje estou particularmente falador, não sei por quê, mas deixe-me insistir aqui num ponto que eu também acho que é interessante termos aqui um especialista de economia da educação por uma outra questão. É que nós já começamos a perceber que isso é tudo muito difícil de fazer. Não se podem fazer experiências, não é como chegar a um laboratório e dizer: "Olha, eu vou tirar esta bola ao chão e a outra ao chão e ver qual é que parte mais depressa." Não se pode chegar ali e dizer assim: "Olha, este menino vai frequentar o pré-escolar, aquele não, aquele fica em casa." Não é possível fazer essas coisas na sociedade. Há aqui duas coisas que são difíceis, talvez o Hugo nos pudesse explicar um bocadinho. Uma coisa é: tem que haver algo semelhante a uma experiência, que não é exatamente uma experiência orientada. E depois tem que se registrar dados, microdados, dados ao nível da pessoa, não é?
Essa foi a questão que eu referi há pouco. Portanto, a dificuldade tem essas duas dimensões. A primeira é de que, sendo a ciência social, não é fácil, como fazer uma experiência como num laboratório. Portanto, mesmo em termos de ética, às vezes é questionável algumas experiências ao nível da educação, vem sempre a questão de quem deve ser escolhido versus quem não deve ser escolhido. E depois, há a questão fundamental da utilização de microdados e por isso é que é fundamental que se disponibilizem e que haja dados sobre as pessoas para que de uma forma rigorosa, se possa avaliar políticas em geral. Hoje estamos a falar do ensino pré-escolar, mas em geral, em qualquer dimensão, é muito importante que haja dados, microdados, para se poder aferir de uma forma rigorosa o impacto de uma política.
Portanto, não apenas médias, não apenas medidas globais, mas sim medidas indivíduo a indivíduo, com granularidade.
Normalmente, a média esconde sempre uma realidade distinta e heterogênea entre os agentes. O impacto de uma determinada política até pode ser neutro, mas depois esconder vantagens para um grupo versus outro. Aqui, de facto, na média, o impacto é positivo, mas quando vamos olhar em termos heterogêneos, vê-se que o impacto é muito maior num grupo, nomeadamente um contexto familiar mais desfavorecido, versus outro grupo de famílias. Sem esses microdados, isso não seria possível.
Hugo, estamos aqui na reta final do programa desta semana. Queria perguntar se a vantagem do pré-escolar para as crianças se mantém independentemente do projeto ser mais experimental ou mais universal.
A questão não é tanto na questão da universalidade ou não do programa. Claro que um programa experimental, sendo naturalmente pequena escala, terá sempre probabilidade e será natural que tenha maiores impactos do que um universal, pela sua dimensão. Mas mais importante do que isso, tem a ver com-
São tendencialmente com grupos de crianças mais pequenos, é isso?
Mais pequenos e normalmente são orientados para, de facto, os grupos que têm mais problemas e, portanto, naturalmente os impactos são maiores. Mas a questão principal que eu queria chamar a atenção e que ainda não tivemos oportunidade, e não vamos ter a oportunidade de aprofundar mais, mas é a questão da qualidade. Ou seja, mais do que a universalidade do programa versus ter experiência, é que outro resultado claro dos estudos que existem é que a qualidade do que é ensinado tem muito impacto positivo versus Ensino pré-escolar no mesmo país, nomeadamente na Noruega, foi muito claro que centros pré-escolares de grande qualidade tiveram impacto e resultados muito melhores do que noutros, onde o tipo de programas e de incentivos que os próprios centros davam não eram de tanta qualidade.
Hugo Reis, é um tema apaixonante. Poderíamos estar aqui imensas horas a falar sobre este assunto. Muito obrigado por ter vindo ao Nota 20 desta semana.
Obrigado eu, uma vez mais, pelo convite. Obrigado.
Professor Nuno Crato, em 35 segundos, consegue fazer um resumo do que aqui foi dito nos últimos 20 minutos?
Eu vou tentar falar das três ideias que eu achei muito importantes. A primeira é que estes estudos são difíceis, estes estudos são estudos econométricos difíceis e precisam de dados, e dados granulados, ou seja, precisam de microdados. Isso é fundamental e, portanto, é fundamental que esses dados estejam disponíveis para os investigadores. A segunda questão que eu achei muito interessante são as vantagens evidentes do pré-escolar para os jovens. Mas a terceira, que o Hugo falou e que muitas vezes se esquece, é a da qualidade do ensino pré-escolar, porque não basta ter os jovens na sala, em contacto uns com os outros e em contacto com alguns livros e com alguns números. Não é isso. É preciso que haja um estímulo e que esse estímulo seja organizado pelos educadores de infância, que são pessoas fundamentais para os nossos jovens.
E o próximo Nota 20 é sobre multitasking ou multitarefa. Vamos conversar com a professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, Sandra Fernandes. Daqui a pouco, já sabe, pode responder à nossa sondagem no Twitter. A pergunta que lhe lançamos é esta: enviar mensagens e, ao mesmo tempo, conseguir ouvir tudo o que o professor está a dizer. Opção A, só as raparigas conseguem. Opção B, é impossível para todos. Professor Nuno Crato, boa semana e até quarta-feira.
Muito obrigado. Até à próxima.