Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Sejam bem-vindos ao "Nota 20", programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação, programa onde a ciência fala com a educação. Viva, professor Nuno Crato.
Ora viva, João Miguel.
Professor, esta semana vamos continuar a tratar o tema que começámos na semana passada, que no fundo é procurar respostas para uma pergunta: como se estuda, como se aprende melhor? Tínhamos visto que há técnicas que nos podem ajudar, até nós, adultos. Tínhamo-lo visto com a investigadora Ludmila Nunes. Eram essas técnicas: a elaboração e a prática da recuperação. Hoje aprendemos mais duas. Já vamos saber quais são, para já vamos à pergunta que colocámos na semana passada na rede social Twitter. E a pergunta era a seguinte: qual é o melhor método para aprender? Estudar a mesma matéria ou intercalar matérias? Professor Nuno Crato, há aqui uma grande divisão nas respostas. 55% dos nossos ouvintes dizem que é estudar a mesma matéria, 45% dizem que é intercalar matérias. Era a pergunta que se prestava a equívocos ou há ainda muita matéria para consolidar neste domínio?
Eu diria que a pergunta presta-se um pouco a equívocos, porque uma coisa seria estudar a mesma matéria durante um minuto e passar logo a outra, e depois voltar à outra. Se os leitores entenderam neste sentido, têm toda a razão em dizer que isto não funciona, porque isto não é propriamente estudar nada, isto é andar a saltar de assunto para assunto. Se os leitores entendem isto no sentido de que é melhor estudar uma hora uma matéria, depois passar uma hora para a seguinte, ou seja, ir intercalando as diversas matérias, eu julgo que entendem bem porque essa prática é recomendada. E é para isso que hoje temos aqui connosco uma especialista nesta matéria. Mas deixe-me, antes disso ainda, dizer duas ou três coisas.
Diga.
O que acontece neste momento é que os nossos jovens estão em exames, portanto, é um momento ainda mais oportuno para discutir o que é uma boa técnica de estudo e o que é uma má técnica de estudo. Nós no programa anterior vimos, por exemplo, que uma má técnica de estudo é ler e reler várias vezes seguidas a mesma matéria. Por várias razões que nós discutimos, porque cria a ilusão de que as coisas se conhecem quando não estão conhecidas ainda, e será melhor fazer uma recuperação, ou seja, o jovem ou quem estiver a estudar o assunto, testar-se a si próprio, que isso funciona melhor do que estar a ler e reler. Mas há, de facto, nos últimos 20, 30, 40 anos, mas talvez até mais nos últimos 20 anos, uma discussão e um estudo muito sistemático entre psicólogos, que chega à conclusão que há práticas de estudo que funcionam e há práticas que não funcionam. E com pequenas mudanças, podem-se obter grandes resultados, que é o mote de uma série de vídeos e de fichas que nós na Iniciativa Educação fizemos e que estão disponíveis para os nossos jovens. Amanhã sairá mais outro. E estes vídeos explicam quatro técnicas fundamentais. Nós discutimos já duas com a psicóloga Ludmila Nunes e agora vamos discutir outras duas com outra especialista em ciências cognitivas, que aliás, foi quem nos ajudou a desenhar todo este programa do estudar a 100%, ou seja, o estudo a 100% que pode ser obtido utilizando estas técnicas que hoje estão bem estabelecidas nas ciências cognitivas e que é a nossa convidada de hoje, a professora Célia Oliveira.
A quem damos desde já as boas-vindas. Célia, muito obrigado por estar no nosso "Nota 20". Deixe-me só fazer a introdução aos nossos ouvintes. A Célia já é uma repetente do "Nota 20", no bom sentido. É professora da Universidade Lusófona do Porto nos domínios da psicologia cognitiva e também da educação. Célia, é um gosto tê-la novamente no "Nota 20".
Muito obrigada, o gosto é meu.
Célia, na semana passada, já que o dissemos, falámos de duas estratégias para aprender melhor. Mas há mais duas. Que técnicas são essas?
Pelo menos duas. Mas assim muito importantes, de facto.
Sim, exatamente. Hoje vamos falar sobre a aprendizagem espaçada e a aprendizagem intercalada. E são, de facto, para além das duas estratégias referidas no programa anterior, aquelas que apresentam maior evidência científica de eficácia. E não foi por acaso que selecionamos estas quatro, é assim porque efetivamente são aquelas que têm maior investigação aplicada aos domínios da educação e com resultados robustos, que comprovam a eficácia destas estratégias, quer do ponto de vista da aprendizagem imediata, a curto prazo, digamos assim, quer do ponto de vista de produzirem uma aprendizagem mais duradoura. E esse é um aspeto central quando se fala nestas estratégias de aprendizagem e de estudo, porque, na verdade, são estratégias que são aplicáveis quer à sala de aula, quer ao estudo autónomo.
Diga, para concluir.
Enfim, e de facto, um dos aspetos bastante interessantes é que estas estratégias permitem um estudo para aprender e não apenas um estudo para desempenhar. Por quê? Porque produzem, de facto, uma aprendizagem que se prolonga no tempo, que é mais duradoura. E de facto interessa-nos que os estudantes se apropriem de estratégias Que efetivamente conduzam a uma aprendizagem sólida e duradoura no tempo e não a uma aprendizagem de curto prazo, como falaremos quando tratarmos do espaçamento, que produz aquela sensação frustrante, quer a alunos, quer a professores, de estudar para o teste e depois do teste esquecer quase tudo logo a seguir.
Isso é perigoso, é um caminho perigoso.
E, portanto, são estratégias que nos ajudam, ou que ajudam toda a gente, a consolidar os conceitos, a consolidar as ideias. Este é um assunto que já falámos da outra vez, mas que é bom sempre referir, é que não se pense que este tipo de estratégias e de estudo se destinam a memorizar factos desconexos. Não é isso, não é memorizar uma lista de dados. É apreender os conceitos, fazer com que eles fiquem bem sólidos na nossa memória de longo prazo, que é um termo que os psicólogos usam e que para quem não é psicólogo, fica logo a lembrar em fichas arrecadadas no cérebro, mas não é isso.
Então vamos às técnicas ou às estratégias, Célia. Primeira de todas, disse que era aprendizagem espaçada. O que é a aprendizagem espaçada?
A aprendizagem espaçada, como o próprio nome indica, consiste em distribuir a aprendizagem ao longo do tempo. Distribuir e recapitular a aprendizagem ao longo do tempo. Esta estratégia provém de um efeito há muito conhecido, que é o designado efeito de reaprendizagem. Se nós quisermos prolongar no tempo a aprendizagem que fazemos, seja em que área for, quer do estudo escolar, quer de qualquer outro tipo de conhecimento, uma das estratégias mais eficazes para conseguirmos isso é efetivamente recapitularmos os conhecimentos ao longo do tempo. E isso explica porque é que, por exemplo, é muito mais eficaz se um estudante precisa de estudar quatro horas para aprender determinado conteúdo, é muito mais eficaz distribuir essas quatro horas por dois blocos de duas horas de estudo do que concentrá-las num único bloco de quatro horas de estudo, aquilo que se chama uma aprendizagem massiva. Esta aprendizagem massiva tem um problema, é que para além de produzir um conhecimento de curta duração, porque permanece na nossa memória por pouco tempo, na nossa memória, sobretudo recente, a curto prazo, tem também o inconveniente de produzir aquilo que na ciência cognitiva nós chamamos de sobrecarga cognitiva. Ou seja, a nossa capacidade de aprendizagem é limitada no tempo. O que significa que se nós estudarmos durante quatro horas consecutivas, o proveito que vamos retirar desse estudo é muito inferior àquele que retiraremos se distribuirmos essas quatro horas por dois momentos diferentes de duas horas, porque prevenimos este efeito de sobrecarga cognitiva.
Corrija-me se estou errado, vou recuar no tempo aos anos em que era estudante. Portanto, fiz bem quando estudava todos os dias um pouquinho e não embarcava na aventura das diretas?
Perfeitamente. Até porque, de facto, muitas vezes nós percebemos isso intuitivamente, não é? Que efetivamente, quando usamos determinadas estratégias, aprendemos mais, elas produzem melhor resultado. E efetivamente isso acontece porque até a nossa memória, para consolidar as aprendizagens, sejam elas quais forem, mesmo as do nosso dia a dia, precisa de tempo. E esse tempo até é um requisito biológico, inclusivamente, para permitir a consolidação de novos traços de memória.
O professor Nuncrat está a dizer que sim, o professor Nuncrat também não fazia diretas, ou fazia?
Acho que fiz uma ou duas e sem grandes resultados. De facto, eu julgo que isto é uma coisa que se conhece há algum tempo, não é? Mas a professora Célia dir-nos-á. Mas ultimamente tem sido muito discutido, não é? Que é aprender uma coisa, voltar a repetir a mesma coisa de maneira ligeiramente diferente um dia depois ou dois dias depois e voltar a revisitar as coisas pouco a pouco. É esta a ideia, não é?
Exatamente. Aliás, e assim muito rapidamente, isso pode ser feito de diferentes formas, quer no estudo autónomo, quer em sala de aula, e muitos professores fazem isto. Fazem isto, por exemplo, quando nas suas aulas recapitulam conceitos e matérias estudadas anteriormente. Fazem isto quando, por exemplo, ao longo do período, fazem as chamadas avaliações semicumulativas, em que em cada teste sai, digamos assim, a matéria mais recente e alguma matéria anterior. Isto é excelente, porque isto conduz os alunos exatamente ao estudo distribuído ao longo do tempo, na medida em que é necessário ir recapitulando aprendizagens anteriores. Nós, por seu turno, podemos fazer isto no estudo autónomo, em casa, quando, por exemplo, estudamos no dia seguinte a matéria que demos numa aula no dia anterior. Ou quando, como estavam a referir e muito bem, distribuímos o nosso tempo de estudo ao longo do tempo. Outra estratégia que é útil no nosso estudo é começarmos por recapitular a matéria mais recente e irmos recuando e recapitulando a matéria anterior.
Começar pela que está mais fresca no nosso cérebro.
Exatamente. Já agora, outras duas notas importantes. Ao fazermos isto, nós estamos a conjugar isto com uma outra estratégia que já falaram no programa anterior, que é a recuperação da informação, e que é muito boa para consolidar os traços de memória e a aprendizagem e para nos lembrarmos das coisas. Aliás, a aprendizagem massiva, estudar de véspera, na noite anterior ou de véspera, de forma intensiva, conduz frequentemente àquilo que os alunos também se queixam, que são as brancas.
Exatamente.
E por que temos brancas? Temos brancas porque, como eu comecei por explicar, o estudo massivo é um estudo muito menos eficiente. Nós não temos uma capacidade ilimitada de estudar durante um período de tempo prolongado. Nós podemos fazer isso, mas o que vamos aprender nesse período de tempo está muito aquém daquilo que aprendemos se pegarmos no mesmo tempo e o distribuirmos. Além disso, este estudo massivo produz-nos uma sensação de familiaridade. Como estamos a olhar para a matéria, temos a impressão de que já a sabemos. Mas, na verdade, isto produz a tal ilusão de conhecimento de que nós tanto falamos e que, no momento em que nós precisamos de recuperar essa informação, ela não está disponível como nós pensávamos que estava. Daí as brancas, que não dão jeito nenhum na altura dos testes ou dos exames.
Célia, esta estratégia de ir repetindo as coisas ao longo do tempo, de ir distribuindo a aprendizagem ao longo do tempo, é algo que os psicólogos conhecem há bastante tempo, mas que muito mais recentemente tem vindo a ser estudado. Estamos a falar dos últimos 10 anos, 20 anos?
Sim.
Será isso.
Exatamente. Sim.
Agora, a outra estratégia, que é a estratégia da prática intercalada, é que eu tanto quanto sei, é bastante recente e que está muito solidamente comprovada pela experimentação psicológica e em sala de aula, que é a prática intercalada. Acho que era muito interessante nós conhecermos isso, porque isso também é importante para os alunos.
Sim.
Mais uma vez, eu volto a dizer, isto está tudo explicado, não tão bem como a professora Célia está a explicar agora, porque nada como ao vivo, mas isto está tudo nas nossas páginas, nos nossos vídeos e nas nossas fichas que foram elaboradas sob a orientação da professora Célia.
Muito obrigada, mas está lá muito bem explicado também. Só para concluir muito rapidamente, queria só acrescentar uma coisa.
Temos quatro minutos, Célia, pedia-lhe alguma brevidade.
Muito brevemente. O espaçamento é uma estratégia que deve ser tida em conta, porque ela é útil em todos os níveis de escolaridade e com todos os perfis de aprendizagem. Isto também é muito importante. Ela mostra-se produtiva, quer com estudantes que têm maior facilidade na aprendizagem, quer com estudantes com dificuldades. Eu penso que isto é uma nota importante.
Exato.
Relativamente à prática intercalada, efetivamente a prática intercalada é uma estratégia fantástica, que é conhecida da psicologia cognitiva há muitas dezenas de anos.
Consiste em quê, professora Célia Oliveira?
Consiste, como o próprio nome indica, em alternar o estudo de matérias. Mas atenção, alternar o estudo de matérias relacionadas entre si dentro da mesma disciplina. É sobre tudo isto que a investigação mostra que é eficaz. E esta estratégia, como o professor Nuno Crato dizia, apesar de ser conhecida das ciências cognitivas há muito tempo, do ponto de vista laboratorial, da investigação experimental, ela tem vindo a ser estudada efetivamente e aplicada à educação, sobretudo nas últimas duas décadas. Ainda este ano, foi publicada uma revisão sistemática de literatura, há dois meses, sobre a eficácia desta estratégia para a aprendizagem de conhecimento conceptual, que é curiosamente onde ela está menos explorada. E o que esta revisão sistemática mostra é que efetivamente esta estratégia pode ser-nos muito útil para a aprendizagem de conhecimento conceptual, sobretudo, e já agora uma dica muito útil para os professores, para estudarmos matérias que temos tendência a confundir, precisamente porque têm aspetos em comum e se distinguem em pormenores. Então é extremamente útil pegarmos nesse tópico dessa matéria e estudarmos alternadamente os seus vários subtópicos. Por quê? Porque isto permite-nos fazer uma comparação da informação e desenvolver um conhecimento mais aprofundado e uma capacidade de análise melhor da informação. Porque esta estratégia tem provas dadas na aprendizagem motora há muito tempo, tem provas dadas na aprendizagem da matemática, que é uma das áreas onde ela tem sido mais investigada com resultados absolutamente espantosos, e também na aprendizagem, por exemplo, de ciências ou, sobretudo, na aprendizagem de materiais que requerem estímulos visuais, como por exemplo, as artes. E há vários exemplos de estudos que nós podemos dar para ilustrar isto.
Muito bem. Poderíamos estar aqui muito mais tempo, professora Célia Oliveira, mas o tempo, como sabe, é limitado. Muito obrigado por ter vindo ao "Nota 20".
Muito obrigado, Célia.
Foi um gosto.
Foi um gosto também nosso. Professor Nuno Crato, à maldade habitual, tem 30 segundos para as notas finais do programa.
As notas finais são simples. Eu diria que está comprovado pela psicologia cognitiva moderna que há algumas estratégias que são mais eficazes para estudar do que outras. Hoje discutimos duas delas, as quatro que nós discutimos, aliás, são as quatro mais importantes: a recuperação, o espaçamento, a prática intercalada e a elaboração. São as mais conhecidas e mais bem estudadas, e julgo que todos os nossos jovens têm muito a lucrar nesta época de exames e em todas as épocas, ao longo dos anos letivos, utilizarem as recomendações que a ciência lhes dá. Mais uma vez, estamos aqui com a ciência a falar com a educação.
Muito bem, e tem sido esse o mote de todos os nossos programas, professor Nuno Crato. E assim chegamos ao final da terceira série do "Nota 20". Foi um gosto fazer este programa ao longo dos últimos meses.
Muitos meses. Para mim também tem sido um grande gosto e julgo que tem sido muito útil aos nossos jovens e aos pais, a professores, a todos os que se interessam por educação. Portanto, estamos muito contentes com toda esta discussão e trouxemos aqui grandes especialistas e julgo que fizemos programas muito interessantes para todos. Agora, da minha parte, desejo a todos bom estudo e boas férias.
Igualmente, professor. Até à próxima. Obrigadíssimo.
Até à próxima.