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A hora é meio-dia. Este é o Jornal do Meio-Dia com a edição do Miguel Vilela. Miguel, o governo acaba de aprovar um dia de luto nacional pela morte do escritor António Lobo Antunes.

A cumprir depois de amanhã, dia 7 de março, é uma decisão aprovada na reunião de Conselho de Ministros, que ainda decorre a esta hora e que é presidida por Marcelo Rebelo de Sousa, prestes a terminar o mandato.

O chefe de Estado também se associa às homenagens ao escritor. O presidente da República anuncia que vai depositar junto de António Lobo Antunes, o grande colar da Ordem de Camões.

É o símbolo máximo da literatura portuguesa. Na página da presidência, Marcelo Rebelo de Sousa lamenta a morte do escritor, que deixa, palavras do presidente: "Uma bibliografia vasta, visceral, sofisticada em termos narrativos". O leitor, admirador e amigo de décadas considera que poucos representaram tão bem a grandeza literária de um país territorialmente pequeno como Lobo Antunes. O país acordou esta manhã com a notícia da morte, aos 83 anos, do autor de "Memória de Elefante", "Cus de Judas", "Manual dos Inquisidores", tantas e tantas vezes apontado como candidato ao Nobel da Literatura. Sobre a morte, falou António Lobo Antunes, em 2017, ao jornalista da RTP, Vítor Gonçalves, nestes termos.

A maior parte do tempo gosto de viver.

O presente.

A ideia da morte aborrece-me. Já viu, por exemplo, o Dom Afonso Henriques está morto há uma data de séculos, deve estar chateadíssimo. Não é? Não sei. Nós não somos capazes de conceber o fim, somos capazes de conceber intelectualmente, mas depois fisicamente não somos capazes de conceber. Tanto assim, por que existem as religiões? Todas elas prometem a eternidade. A morte é uma coisa muito assustadora.

Para a eternidade fica a obra de um escritor que também foi médico, psiquiatra, entre tantas outras coisas. A caminhada começou no início da década de 40. A jornalista Nadine Soares recorda-nos agora alguns desses passos.

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa em 1942, formou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1969, especializou-se em psiquiatria, foi médico militar em Angola durante a guerra colonial, uma experiência que acabou por marcar o percurso na escrita. Estreou-se em 1979 com o livro "Memória de Elefante", no mesmo ano em que saiu "O Cus de Judas", um romance que o destacou como uma das grandes vozes e mais importantes da ficção portuguesa. Decidiu optar pelo caminho da escrita a tempo inteiro em 1985, publicou mais de três dezenas de romances. Mais tarde, veio o reconhecimento no estrangeiro, com a edição dos romances em países europeus como Espanha, França, Reino Unido, a que se juntaram os mercados livreiros do Brasil, Estados Unidos e Canadá. Em 1987, chegou o prémio literário franco-português, atribuído à tradução francesa do romance "Os Cus de Judas". Foi o primeiro prémio de dimensão internacional que o escritor recebeu ao longo de 45 anos de carreira literária. Obra que acabou distinguida depois, em 2007, com o Prêmio Camões, atribuído em conjunto por Portugal e pelo Brasil, regularmente indicado como um dos mais prováveis vencedores portugueses do Nobel de Literatura. António Lobo Antunes acumulou outros tantos prêmios pelo percurso literário. O livro mais recente de Lobo Antunes, o segundo livro de crônicas, chegou às livrarias em 24 de outubro do ano passado. O escritor que nunca parou de trabalhar, nunca esqueceu também a psiquiatria, até porque definia-se em várias entrevistas como um caçador de palavras que escrevia romances para combater a depressão que existe em todas as pessoas. É considerado uma das vozes literárias mais importantes da história recente do país e um dos maiores escritores da literatura contemporânea.

Isso mesmo é reconhecido por alguns dos artífices da escrita com quem o Observador conversou esta manhã.

Começamos, Miguel, por Lídia Jorge, escritora da mesma geração de António Lobo Antunes.

A melhor memória é esta estante absolutamente cheia dos livros dele. Ele trabalhou para a literatura, viveu para a literatura, viveu escrevendo e deixa de facto uma obra gigantesca, imensa, uma obra que tem aspectos de inovação extraordinários e que faz dele um escritor que não é só um escritor português, é um escritor europeu, é um escritor do século XX, do século XXI. É uma honra nós termos um Lobo Antunes entre nós.

Escutamos também o jornalista e escritor Francisco José Viegas, que sublinha uma outra faceta para além do romancista.

Mas, aparte disso, ele é um grande cronista, um cronista mais ou menos da mó e do cotidiano. Isso fez dele também uma presença muito marcante nas nossas vidas, porque falava de nós. Isso era muito importante, criando uma coisa muito original a que nós provavelmente não somos muito sensíveis, mas era uma espécie de contaminação da ficção pela linguagem poética. E isso foi muito marcante.

Francisco José Viegas e as memórias de António Lobo Antunes. Escutamos também Bruno Vieira Amaral, escritor precisamente e membro do painel das manhãs 360 da Rádio Observador. Bruno Vieira Amaral considera que partiu hoje o escritor mais influente do último meio século.

É uma marca fortíssima. Quando António Lobo Antunes surgiu no final dos anos 70, transformou por completo. Foi mesmo uma tempestade na literatura portuguesa. Gerou muitos imitadores, influenciou muito as gerações seguintes. Eu acho que foi, dos escritores do último meio século, o mais influente. Era quase inevitável que os escritores que iam aparecer seguissem, tentassem seguir a sombra de António Lobo Antunes, mas ele, de facto, tem uma voz poderosíssima.

Bruno Vieira Amaral, escritor, integra o painel das manhãs 360 da Rádio Observador, aqui a recordar António Lobo Antunes e a importância para as gerações mais novas de escritores

E as reações à morte de António Lobo Antunes chegam não só do meio literário, mas também de outros setores da sociedade portuguesa.

Por exemplo, do desporto. O jornalista Carlos Pedro está agora aqui conosco e dá-nos conta das palavras e reações que têm ecoado ao longo das últimas horas. Carlos.

O impacto é inegável de António Lobo Antunes nas várias áreas da sociedade portuguesa. O escritor, como já aqui foi dito, foi também psiquiatra e, por isso, a Ordem dos Médicos manifesta o profundo pesar pela morte de uma personalidade que honrou a medicina e a cultura, diz que deixa um contributo ímpar de memória e identidade. Também a Associação Portuguesa de Escritores lamenta a perda de um dos nomes nucleares de toda a história literária do país. Para o presidente da APE, José Manuel Mendes, este é um momento de luto para a literatura portuguesa. No desporto, o Benfica lamentou a morte de um dos mais ilustres adeptos, escreve o clube em comunicado. As Águias recordam também as declarações de António Lobo Antunes ao jornal "Record", em 2014, quando o escritor assumiu que tinha como objetivo ser o Águas da literatura, numa referência ao antigo jogador do Benfica, José Águas. Ainda a editora do escritor, a Dom Quixote, lamenta a morte de um autor de romances que ficarão para sempre na memória dos leitores e admiradores. Destaca também a vasta obra de Lobo Antunes, cuja importância ultrapassou fronteiras. Aliás, não é por acaso que a notícia da morte de António Lobo Antunes corre o mundo. Em Espanha, o "El País" recorda um legado de mais de 30 romances que o colocou como o gigante das letras portuguesas. O jornal "El Mundo" noticia a morte do último guerrilheiro da literatura portuguesa. Já em França, o jornal "Le Monde" faz manchete da morte do escritor na área da cultura. Recorda o trabalhador incansável, autor prolífico, com uma imaginação fértil e fervoroso defensor da liberdade de expressão. Já o "Libération", a partir da notícia da Agência France-Presse, recorda o cronista desiludido da sociedade portuguesa contemporânea, autor de uma obra exigente, que mistura romance, poesia e autobiografia num estilo barroco e metafórico. Reação também, destaque para Roberto Ampuero, escritor e ex-ministro do Conselho Nacional da Cultura e das Artes do Chile. Através da rede social X, descreve Lobo Antunes como um dos grandes da literatura europeia no pós-guerra.

Carlos Pedro, com outras reações à morte de António Lobo Antunes. Uma notícia com que acordamos esta manhã. António Lobo Antunes morreu aos 83 anos.

Vamos à guerra no Médio Oriente. Neste jornal do meio-dia, o Irão atacou o seu vizinho do norte, o Azerbaijão, pela primeira vez.

Um ataque que provocou dois feridos. Essa é a informação avançada pela CNN Internacional. Conosco aqui em estúdio, o jornalista Martim Madeira, que está a acompanhar os desenvolvimentos mais recentes deste conflito. Martim, em que circunstâncias se deu este ataque?

Foi durante a madrugada. Por volta das 3h, vários drones atingiram o Azerbaijão. O terminal de um aeroporto azeri, muito perto da fronteira entre o Irão e o Azerbaijão, foi um dos alvos deste ataque. Já outro drone caiu perto de uma escola, perto da cidade de Shakarabad, de acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros do Azerbaijão. Também as autoridades azeris dizem que este é o primeiro ataque iraniano no país e, Miguel, entretanto, dizer que o Irão nega que tenha lançado qualquer ataque ao Azerbaijão.

Sim, jornalista Martim Madeira, com as últimas informações, informações mais recentes relacionadas com esta guerra no Irão, que atualizamos daqui a uma hora, na edição da 13h.

É o ponto final no jornal do meio-dia.