Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Muito bom dia, Miguel Pinheiro. Bem regressado sejas.

Que alegria.

A tua também, não é?

Sim. Não, a minha especialmente. Nem sei como é que me estou a aguentar.

Se calhar não podes, basicamente.

É isso.

Bem-vindo sejas depois das tuas férias. Merecidas férias. Miguel, vamos às escolhas. Quem é o bom desta segunda-feira?

Olha, é Luís Marques Mendes, que ontem marcou um contraste com Gouveia e Melo. O almirante já fez duas declarações críticas da forma como o governo está a atuar nos fogos, mas Marques Mendes foi dizer que há um tempo pra tudo e que esta não é a altura pra isso. E é a vantagem de ter experiência política, porque como é óbvio, há muita coisa que não está a correr bem no combate aos fogos, e eu vou já falar disso, mas um candidato a presidente da República não é um comentador de rádio, não é um líder partidário, nem é um polo da oposição ao governo. Um candidato a presidente da República que pretenda mesmo ser eleito, não é como outros que andam por aí que não querem ser eleitos. Não, um que queira mesmo ser eleito tem de saber quando deve falar e quando não deve falar. E Gouveia e Melo ainda não sabe. Ainda, por vezes, está de cabeça um pouquinho perdida por causa das sondagens que não têm sido simpáticas ultimamente. E parece que está à procura da forma ideal de ser candidato a presidente, mas também não é assim.

E à procura de palco, de alguma maneira. De presença mediática, não é?

Sim, é tentar não desaparecer no meio disto tudo. Mas quer dizer, com pouquíssimos dias de distância, fazer duas declarações indignadas é um pouquinho demais. Quer dizer, ao menos que fosse só uma, juntava tudo numa só e arrumava o assunto.

E quem é o mau, Miguel?

Olha, é o governo. Eu posso, eu não sou candidato a presidente da República, mas o governo, pelos vistos, ainda não percebeu bem a gravidade política do que se passa com os fogos. Primeiro, Luís Montenegro demorou demasiado tempo a suspender as férias, permitindo que se multiplicassem as fotografias em que aparecia na praia a aproveitar o sol. Depois, manteve a rentrée política do partido, não entendendo que o simples nome Festa do Pontal passava uma imagem terrível de alheamento, primeiro isto numa festa, numa altura destas. E agora está a demorar a assumir ele próprio o controle político da situação. Em Espanha, Pedro Sánchez também ficou de férias em Lanzarote durante demasiado tempo, mas depois quando voltou, começou a ser ele a aparecer. Nós aqui a imagem que ficou do dia de ontem foi a da ministra da Administração Interna a terminar uma comunicação ao país, a anunciar o prolongamento da situação de alerta, sem responder a perguntas dos jornalistas e a dizer baixinho à sua comitiva: "Vamos embora." E realmente a ideia que passa é a de que perante os fogos que não abrandam, o governo só se quer ir embora, quer ter o menos a ver com isto possível. E eu diria que o primeiro-ministro tem que tomar conta disto rapidamente. Quer dizer, não pode ficar nas mãos da ministra da Administração Interna, por melhor que ela fosse nisto, que não é. E o primeiro-ministro, claro, não vai com baldes combater os fogos. Não é nada disso. Nem sequer deve ir, como é óbvio, pra zonas de combate, mas tem de aparecer, porque senão até parece que ainda está de férias.

Tem de haver uma ideia de que alguém está ao comando. Os políticos percebe-se que queiram fugir destas situações.

Mas não vale a pena. Aqui não vale a pena fugir. É preciso mostrar, sim, claro, e Luís Montenegro percebe a importância das perceções em política. Ele fala da importância das perceções. Aqui também é uma questão de perceção. As pessoas têm que ter a perceção de que o primeiro-ministro está ali todos os dias, o dia inteiro, a preocupar-se. Claro que não é ele quem vai definir a estratégia pra combater os fogos, não é nada disso que está em causa, mas tem que garantir que politicamente não falta nada numa altura destas. E sim, a presença em política é importante.

Olha, e o vilão, quem é, Miguel?

Olha, é a lusofonia. Na sexta-feira a Guiné-Bissau anunciou a expulsão das delegações da Agência Lusa, da RTP e da RDP, que têm até amanhã pra deixar o país. Em julho, convém lembrar, o jornalista e delegado da RTP já tinha sido agredido por desconhecidos que o avisaram que ele estava a denegrir a imagem da Guiné-Bissau no exterior. É o que mais acontece, as pessoas vão na rua e de repente aparece alguém que começa a espancar-nos, porque estamos a denegrir a imagem de um país. Além das relações históricas com Portugal, a Guiné-Bissau está neste momento a presidir à CPLP. É uma tristíssima coincidência. Nós andamos preocupados, e bem, com a possibilidade da Guiné Equatorial presidir à CPLP no próximo slot que vai surgir e afinal quem está a presidir agora à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa dá estes exemplos. O presidente da Guiné-Bissau até deveria estar hoje em Lisboa numa visita à sede da CPLP. Obviamente, a vinda a Portugal foi adiada. O embaixador da Guiné-Bissau foi chamado pelo nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas infelizmente o que fica daqui é que nós não sabemos lidar com os países lusófonos. Vimos isso quando Marcelo Rebelo de Sousa esteve em Moçambique há umas semanas nas cerimónias dos 50 anos da independência. Nem uma palavra sobre as mortes no último ato eleitoral, nem uma palavra sobre as perseguições ao principal opositor do poder moçambicano. Nada, zero. Vimos também as nossas dificuldades com a visita recente do presidente de Angola a Portugal, que nos veio pedir contas sobre as políticas portuguesas na área da imigração. E vemos isso agora com a Guiné-Bissau. A verdade, infelizmente, é que a lusofonia está cheia de políticos muito pouco recomendáveis e Portugal às vezes anda ali no meio sem saber muito bem como se comportar.

E é triste, de facto, isto. Sem saber como se deve comportar e defender o que são os legítimos interesses do país.

Sempre com muitas cautelas, sempre como se houvesse uma culpa histórica.

Exato.

E como se tivesse que manter acima de tudo uma imagem de uma relação absolutamente sem problemas e como se muitos desses países não tivessem problemas que têm. E aqui com a Guiné-Bissau, vamos ver. O presidente da Guiné-Bissau esteve em Cabo Verde e recusou-se a responder a perguntas dos jornalistas sobre este assunto, com certeza. Claro que não quer. Não lhe ponham um jornalista à frente, por amor a Deus. Vamos ver como é que isto se resolve, mas Portugal não sai muito bem destas coisas todas.

Vamos ao resumo da edição de hoje: o bom é Luís Marques Mendes, o mau é o governo e o vilão é a lusofonia.