Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Começa agora a nova edição do Bom, Mau e o Vilão da Rádio Observador, sempre com o Miguel Pinheiro. Olá, Miguel, bom dia, boa sexta-feira.
Bom dia.
Bom dia. Quem é o bom de hoje?
O bom de hoje é Cláudia Azevedo. Ontem a presidente executiva da Sonae voltou a responder ao governo dizendo que é um pouco estranha a procura desenfreada por culpados na questão dos preços dos alimentos. Cláudia Azevedo avisou ainda que a fixação de preços pelo governo pode contribuir para ter prateleiras vazias nos supermercados e avisou que tentar fixar preços dá sempre mau resultado. Em Portugal, tradicionalmente, os empresários têm medo de criticar os governos porque dependem do governo para tudo e mais alguma coisa. Por isso é bom ver que Cláudia Azevedo segue o exemplo de Belmiro de Azevedo, que dizia o que pensava, mesmo que isso desagradasse a primeiros-ministros ou a presidentes da República. É bom que os empresários se sintam à vontade para criticar o governo, este ou qualquer outro.
Sem dúvida. E Belmiro de Azevedo deu-se bem sempre com isso, sobretudo com a sua consciência, não é?
Sim, e tentou não depender dos governos para fazer a sua vida, que é uma coisa que em Portugal as pessoas acham muito esquisito. "Mas então se eu posso ir sacar aqui qualquer coisinha ao Estado, por que não hei de ir sacar?" Não, o Estado no seu lugar e os empresários no deles.
O bom é então Cláudia Azevedo e quem é o mau?
O mau é Duarte Cordeiro, o ministro do Ambiente, partilha a tutela da Transtejo com as Finanças. Raramente o ouvimos falar da Transtejo. Problemas nos serviços, uns atrás dos outros, falhas nos barcos, greves umas atrás das outras, uma empresa em conflito laboral permanente e Duarte Cordeiro sobre isso, nada. Mas ontem veio falar, porque depois de ser conhecido o acórdão do Tribunal de Contas a chumbar a compra de navios elétricos sem as respetivas baterias, Duarte Cordeiro aceitou o pedido de demissão da administração da empresa, mas, ao mesmo tempo, defendeu que a decisão de comprar navios sem baterias era a melhor e que aquilo que o tribunal decidiu é um transtorno. E eu não percebi. Se o ministro acha que a administração da Transtejo atuou de forma competente e prudente, não vejo porque é que deveria aceitar o pedido de demissão. E se acha que as decisões do Tribunal de Contas são um transtorno, então, se calhar errou na profissão que escolheu, ou então pode sugerir-nos uma forma alternativa de haver uma fiscalização da forma como o governo gasta o nosso dinheiro. Se é que acha que é preciso fiscalização. Se calhar, em maioria absoluta, não é preciso fiscalização para nada. O governo e as empresas públicas fazem o que entendem e o Tribunal de Contas remete-se a uma cave qualquer escura e fica em silêncio.
Pois, eu ontem depois de ouvir os argumentos dos administradores, até achei que devíamos pensar no assunto. Eles podem ter ali um bom ponto, mas de facto não se pode é ficar no meio da ponte. Se eles têm razão, então continuavam no cargo. É evidente.
Ó Paulo, felizes os que ficam no meio da ponte, porque aqueles que precisam dos barcos da Transtejo, esses ficam é do outro lado e não conseguem ir trabalhar.
Nem a meio da ponte chegam.
Eu acho que a preocupação de Duarte Cordeiro devia ser em ter uma empresa funcional, porque se o Estado não consegue ter uma empresa funcional, então arranje alguém que ponha... são uns barcos a irem de um lado para o outro. Quer dizer, qual é a dificuldade disto? Há o ponto A, há o ponto B e o barco vai de um lado para o outro. Isto não devia ser muito difícil, mas em Portugal parece que estamos a tentar chegar à Lua.
Miguel, e quem é o vilão?
Olha, o vilão é Marcelo Rebelo de Sousa. Tivemos um grande momento de Marcelo Rebelo de Sousa ontem. Nós podemos sempre contar com Marcelo Rebelo de Sousa para se superar a si próprio. Eu gosto das pessoas que não ficam acomodadas às vitórias que já têm. Não, tentam sempre mais. E Marcelo ontem conseguiu superar-se. O Presidente da República criticou os partidos da direita por terem sido contra a possibilidade de Lula da Silva discursar na sessão solene do 25 de Abril. E então disse esta frase incrível: "Como foi possível abrir um debate sobre a presença de um representante de um povo e de um Estado que foi precursor, que foi pioneiro nas fases de descolonização portuguesa no 25 de Abril, como se isso não fosse uma realidade óbvia e natural como respirar?" Depois explicou que o 25 de Abril é indissociável da descolonização. Ora, o 25 de Abril até pode ser indissociável da descolonização, mas uma pessoa fica a pensar: mas o que o Brasil tem a ver com isto? Para Marcelo, pelos vistos, a independência do Brasil, que aconteceu em 1822, faz parte do mesmo processo histórico que levou ao 25 de Abril e à descolonização que aconteceram em 1974. E esta é a justificação do nosso presidente para ter Lula a discursar no Parlamento a 25 de Abril. Portanto, é todo um processo que começou em 1822 e terminou em 74, 75. Eu acho que não vale a pena referir que a independência do Brasil foi um processo um bocadinho mais complexo do que isto. Aquilo é capaz de ter sido um bocadinho outra coisa, talvez. E acho que também não vale a pena referir que ter colónias não é sinónimo de ter ditaduras, como aliás poderiam explicar ingleses e franceses, por exemplo, ou como poderiam explicar vários democratas portugueses que até muito tarde defenderam a existência de colónias. Mas enfim, nada disto vale a pena, porque Marcelo é tão inteligente que acha que nós somos todos burros e por isso vamos andar nisto ainda mais uns aninhos até Marcelo acabar o seu mandato.
O Paulo ri-se.
É tão inteligente que até tropeça nos pés da própria inteligência, se quiseres, o Presidente da República.
É isso. Olha, eu sexta-feira, dia difícil, semana de trabalho árduo, e eu acho que estes alívios cômicos ajudam sempre. E portanto, muito obrigado ao seu Presidente da República.
Vamos então ao resumo. O bom desta sexta-feira é a presidente executiva da Sonae, Cláudia Azevedo, o mau Duarte Cordeiro e o vilão de hoje é Marcelo Rebelo de Sousa. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro.