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Está no ar mais um episódio do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador, que também pode ouvir em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Miguel. Quem é o teu bom de hoje?

Manuel Castro Almeida, porque o Ministro da Economia foi entrevistado na SIC sobre a notícia de que a revista Economist considerou Portugal a economia do ano. E ele podia ter dito que somos maravilhosos, podia ter defendido que o governo é incrível, podia ter argumentado que esta é a prova definitiva de que as oposições estão enganadas em tudo, mas em vez disso, Castro Almeida disse o seguinte, eu vou citá-lo: "As pessoas que estão em casa dizem: 'Estamos em primeiro lugar? Isto está tão bom assim e eu não sinto nada na minha vida ou sinto pouco.'" E depois o ministro explicou: "De facto, nós estamos a partir de muito de trás. O que a Economist veio dizer é que Portugal em 2025 deu um salto maior do que os outros, mas nós não passámos de pobres a ricos. Passámos é de muito pobres a um pouco menos pobres, mas continuamos a ser um país onde ainda há muita pobreza." E a isto chama-se realismo, empatia, bom senso. São três ótimas qualidades para um ministro de um país pobre. E eu não estava à espera que num momento destes houvesse um ministro de um qualquer governo, fosse ele qual fosse, a ter um discurso tão realista e, portanto, até fiquei animado. Não fiquei animado porque somos pobres, mas fiquei animado por pelo menos não haver ilusões daquele lado.

Sim, sem dúvida. O pior que pode acontecer nestas coisas é andarmos a enganar-nos a nós próprios. Porque aí deixamos de ter objetivos, de alguma maneira. Achamos que já está tudo conseguido, somos os melhores.

Ora nem mais. E não dá pra ir ao supermercado e pagar a conta com a Economist.

Ainda. O teu mau é o primeiro-ministro.

É, Luís Montenegro foi o oposto de Castro Almeida. Como sabem, as pessoas que nos ouvem, o salário mínimo este ano é de € 870. No próximo ano vai passar a ser de € 920. Esta é a realidade, é o que há, é o que temos, é isto. Depois há uma promessa, a promessa de que até o final da legislatura o salário mínimo vai ser de € 1.100. Portanto, nós temos a realidade, temos a promessa e este fim de semana tivemos o delírio, porque na sexta-feira o primeiro-ministro garantiu que tem o sonho de colocar o salário mínimo em € 1.500 e o salário médio em 2.000 ou € 2.500. E no sábado ele quis mostrar ainda mais ambição e então passou o valor do salário mínimo dos seus sonhos para 1.600 e o salário médio para € 3.000. E isto, obviamente, não custa nada. Luís Montenegro até podia ter dito que quer um dia destes, lá pra frente, sabe Deus quando, ter um salário mínimo de € 2.000 e um salário médio de 4.000, ou um salário mínimo de 4.000 e um salário médio de 8.000, e só o zero. Um primeiro-ministro que queira ser levado a sério, não atirando números pro ar. Um primeiro-ministro que queira ser levado a sério tem de traçar objetivos reais pelos quais possa ser premiado, se a coisa correr bem, ou responsabilizado, se a coisa correr mal. Caso contrário, ficamos sem saber se Luís Montenegro, eu pelo menos fiquei sem saber, Luís Montenegro está a fazer política ou está a fazer anúncios do Euromilhões. Porque eu fiquei na dúvida. Temos aqui um excêntrico.

Pois, Miguel, mas o primeiro-ministro seguiu aquela regra de ouro quando se fazem previsões entre os economistas: ou escolhes um número de previsão, ou escolhes uma data. Nunca escolhes as duas coisas. Não juntas as duas coisas a dizer que isto vai acontecer naquela data.

É um pouquinho como aqueles líderes de cultos que preveem o fim do mundo.

Nunca dizer quando, não é?

Nunca digam quando, porque senão vai correr mal.

Esse é o grande segredo.

Miguel, o teu vilão perdeu o debate de ontem.

Pois, nós ontem tivemos um debate, mas António Filipe não se limitou a perder o debate com Jorge Pinto. Além de perder, ele mostrou mais uma vez que o PCP não tem emenda, porque António Filipe disse isto com grande orgulho: "Há aqui uma diferença grande entre nós. É que em relação à Ucrânia, a minha posição é nem Putin, nem Zelensky." E, perplexo, o moderador ainda lhe perguntou: "É tão crítico de Putin como de Zelensky?" E António Filipe nem hesitou. A resposta foi: "Claramente". E quando depois lhe pediram a opinião sobre a hipótese de usar ativos russos pra ajudar a reconstruir a Ucrânia, aí António Filipe passou-se. O que ele disse foi isto: "Eu não tenho dinheiro de oligarcas. Por que a União Europeia não faz isso? Se fizer, faça, mas se calhar sofre retaliações." E depois, aqui nesta altura, fez aquele gesto com as mãos, assim como quem diz: "É-me indiferente", aquele barulhinho que eu não vou estar aqui a replicar. Até porque não tenho as duas mãos livres. Mas ele prosseguiu e ainda disse: "Mas eu tenho alguma coisa a ver com ativos russos? Eu não sou banqueiro. É o presidente em Portugal que vai decidir se os ativos russos vão ser congelados na União Europeia? A União Europeia não se entende e eu agora é que tenho que ter opinião sobre isso?" Ora, o problema é que escassos minutos antes, António Filipe tinha defendido com grande convicção que Portugal precisava ter uma voz própria dentro da União Europeia. Então há uns minutos queria ter uma voz própria e agora já não queria ter voz nenhuma, já não queria ter opinião sobre os ativos russos e a Ucrânia. Enfim, de facto não vale a pena. O PCP está perdido algures do Donbass, não sabe o caminho de volta pra casa e isto foi trazendo o partido até estes resultados que vimos nas últimas legislativas. Vamos ver nas presidenciais o que é que isto vale.

Bom, e se esta máxima se aplicasse à política externa, o presidente nunca falava sobre política externa quase nenhuma.

Não, lá está, é o país de importa.

Mas somos nós que vamos decidir isso.

Lá em Bruxelas resolvam por nós. António Filipe quer que Bruxelas resolva por nós. É um euroseguidista no que diz respeito aos ativos russos.

Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, o mau é Luís Montenegro e o vilão de hoje é António Filipe. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.