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Este é o som do Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, sempre com o Miguel Pinheiro. Fala, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Miguel. O teu bom de hoje não tem dinheiro para nada.

É, parece que aquilo é uma dificuldade. O bom é o supervisor dos seguros. Ontem, Gabriel Bernardino, que preside à ASF, à Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, esteve no Parlamento e deu um testemunho muito revelador sobre o estado desta entidade reguladora, sendo que, como se sabe, uma das formas de termos uma economia de mercado justa é com entidades reguladoras fortes. E o ponto dele é: a ASF tem que ter capacidade, autoridade e autonomia para conseguir regular este setor poderosíssimo, mas a lei transforma a ASF numa espécie de cachorrinho que tem de pedir autorização ao dono para sair à rua. A ASF não tem autonomia para nada que saia do orçamento estrito aprovado a cada ano. Gabriel Bernardino dá um exemplo muito educativo. Segundo ele, em maio, a ASF vai receber em Portugal todos os supervisores europeus da área dos seguros e, por cortesia, queria ir buscá-los ao hotel para os levar à sua sede. Podia mandá-los ir de metro, mas se calhar a coisa podia correr mal. Mas então queria arranjar um autocarro para os ir buscar. E esse é que é o problema, é que ele não pode arranjar um autocarro para os ir buscar, porque para alugar um autocarro, a ASF é obrigada a ir pedir, de chapéu na mão, autorização ao ministro das Finanças, porque essa despesa não está prevista no seu orçamento. E obviamente, isto cria uma situação de impotência e de subserviência que faz com que ninguém respeite ou tema o regulador dos seguros. E eu só fiquei com a dúvida sobre se a ideia da lei, destas leis, quando se criou os reguladores da economia, se a ideia não seria precisamente essa.

E é por esta e por outras que o Estado não regula bem. Não regula nada bem.

Não regula e nós pagamos.

Pois, que remédio. Mas com a autorização do ministro das Finanças.

Sim, sem isso, Bruno, eu nem mexo.

Miguel, o teu mau é o PS e nós estamos os dois com uma voz. A minha está quase a falhar.

Pois é.

Tu és mais novo.

Sabes que isto só mostra a nossa dedicação ao trabalho, não é? As pessoas têm que ter alguma paciência. Mas enfim.

Dizia eu que o teu mau é o PS.

É o PS. Dizia eu tossindo. Então, ontem, Pedro Delgado Alves, que é vice-presidente da bancada parlamentar do partido, deu uma entrevista à Rádio Observador e voltou a alimentar uma novela que não interessa nada aos socialistas, é a novela do orçamento. Eu vou citá-lo: "Cada orçamento terá de ser avaliado e um dos cenários possíveis é, se o seu conteúdo não for sustentável, não ter que ter o voto favorável do PS, e o PS ter liberdade para achar que não está moralmente obrigado a ter de aprovar os orçamentos todos." Vamos lá ver se o PS mete isto na cabeça de uma vez por todas. No futuro previsível, o PS não tem condições políticas para andar a chumbar orçamentos e a provocar crises. E por isso, só o PS é que perde de cada vez que alimenta a ideia de que pode querer deitar o governo abaixo.

Força nisso. É caso para dizer, avança com toda a confiança.

Ou esqueçam lá isso, sigam em frente, metam-se noutras coisas.

A abstenção pode ser violenta.

Não, mas repara, durante anos e anos a democracia portuguesa viveu assim. Havia um partido que ficava em primeiro lugar nas eleições sem maioria e o partido da oposição dizia: "Discordamos, mas governem."

Governem, claro.

Não é? E portanto, por que não voltar a esse passado maravilhoso?

Miguel, então e quem é o teu vilão? Parece que está em greve.

Está em greve, sim, senhora. Desculpem.

Aproveitas para tossires, não é?

Para vos poupar à minha tosse, eu desligo aqui o microfone uns segundinhos. É por bem. Mas então, parece que sim, que está em greve. Que surpresa. Eu fiquei de queixo caído. Ou como diria o Paulo Ferreira, de queijo caído. Então, o Metro de Lisboa, como os utentes já terão percebido, hoje não há metro, na próxima terça-feira também não vai haver metro, e existem três coisas interessantes nisto tudo. A primeira coisa interessante é a motivação da greve. Segundo a FECTRANS, estão em causa, entre outras coisas, há sempre muitas coisas, mas está em causa também a falta de diálogo e determinação da administração para responder às reivindicações dos trabalhadores. E pelos vistos, não cabe na cabeça dos sindicatos que a administração de uma empresa possa decidir não ceder às reivindicações dos trabalhadores. Não ceder por entender, por exemplo, que elas não são válidas ou que colocariam a empresa em dificuldades económicas. Não, segundo a FECTRANS, a administração do Metro tem de estar sempre determinada a responder às reivindicações. Depois, segunda coisa interessante: outra greve no Metro? A sério? Só há duas formas de justificar as greves permanentes no Metro de Lisboa. Só há duas. Ou a administração é muito incompetente, e não é só a administração, são as administrações, porque já tivemos muitas administrações. Só vão para lá incompetentes, que não fazem a menor ideia do que andam a fazer Essa é uma hipótese. Segunda hipótese: os sindicatos são incapazes de defender os trabalhadores sem greves. Não sabem fazer de outra maneira. Também eles não têm determinação para, numa negociação, impor e ceder. Não, só sabem recorrer às greves. Terceira coisa interessante: o tribunal arbitral decidiu, mais uma vez, não decretar serviços mínimos. E um dos motivos é o de que a greve só dura 24 horas de cada vez. Vá lá! Então, pessoal, são só 24 horas, agora estão aqui a choramingar? E além disso, segundo o tribunal arbitral, num dos dias, que é o de hoje, nem sequer há aulas do ensino básico e secundário. Ora bem, se no primeiro dia de greve não há aulas, no segundo dia há. Portanto, se esse argumento serve para não decretar serviços mínimos hoje, então deveria servir para decretar serviços mínimos na terça-feira. Acho eu. Ou então, se isso é irrelevante, para que referir? Se é indiferente, então não se refere. Além disso, o tribunal arbitral argumenta que mesmo não havendo metro, as pessoas, que serão dezenas e dezenas de milhares, e que serão, como o tribunal reconhece, estou a citá-los, os mais vulneráveis e os de menores recursos, mesmo não havendo metro, diz o tribunal, estas pessoas têm outros transportes públicos e por isso podem safar-se. E eu lembrei-me que na Revolução Francesa ficou célebre aquela frase de Maria Antonieta, que perante os protestos do povo contra a castidade de vida, disse isto: "Não há pão? Comam brioche." E aqui os lisboetas não têm metro? Comam brioche. Maria Antonieta acabou, se bem me lembro...

Com a cabeça perdida.

Foi. Mas estejam tranquilos, porque cá teremos o tribunal arbitral para continuarem criativamente a arranjar ótimos argumentos para não haver serviços mínimos nos transportes. Ainda me lembro daquela outra vez em que argumentou que se houvesse serviços mínimos ia estar muita gente ali na estação à espera dos transportes e que isso criava problemas de segurança.

Portanto, é mesmo melhor não decretar logo os serviços mínimos, que é para evitar confusões.

É, fiquem aí a comer brioches em vez de irem trabalhar, em vez de irem ao hospital, não se preocupem com isso.

Vamos ao resumo: o bom desta quinta-feira é o supervisor dos seguros, Gabriel Bernardino, o mau é o PS e o vilão de hoje é o Metro de Lisboa. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360.