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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Olá, Miguel. Bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Quem é o teu bom de hoje?
Olha, o bom é o governo, que aprovou a compra de 8 mil bodycams para as forças de segurança. Em breve, uma parte substancial dos agentes da PSP e dos guardas da GNR vai andar com pequenas câmeras na farda que registram tudo o que acontece. E isto é bom para os agentes e para os guardas, porque se forem acusados de má conduta, podem provar facilmente que fizeram tudo direitinho. E é bom para os cidadãos, porque se forem vítimas de algum tipo de violência ou arbítrio policial, podem provar facilmente o que aconteceu. São 106 milhões de euros muitíssimo bem gastos, e só não se percebe de que andamos à espera para fazer isto. Agora, atenção, vai ter que haver um concurso, uma coisa qualquer. Só espero que não seja para daqui a 10 anos. Mas enfim, vamos ver.
Cada vez. Esperas bem, vamos ver se de fato não é para daqui a demasiado tempo. Isto em Portugal demora tudo muito tempo.
É, mas também, como diria alguém: qual é a pressa? Não há pressa nenhuma.
O bom é o governo, Miguel. O teu mau teve de recorrer ao tribunal ou quis recorrer?
Sim, diria que isto, de fato. Luís Montenegro ontem decidiu processar o autor de uma conta do X, do Twitter, queixando-se de estar a ser vítima de um ato de, vou citar: "desinformação com elevada difusão pública." E o assunto foi levado tão a sério que o ministro Leitão Amaro fez declarações a seguir ao Conselho de Ministros a afirmar que o autor da conta, no passado, foi avençado ou colaborador de algum espaço político. Eu te vou citar. Antes de irmos mais à frente, eu não percebo por que falar por enigmas. Parece que estamos no Star Trek ou no Star Wars, já não sei qual deles é, mas se o ministro Leitão Amaro tem alguma coisa para dizer, por que não diz? Não estou a entender. Se sabe que o autor da conta teve uma avença ou foi colaborador de um espaço político qualquer, por que não diz? Olhem, este senhor, este indivíduo teve esta avença com este partido ou com o que for. Por que não diz? Quer dizer, isto é o quê? Palavras cruzadas? É o Cruzadex? Não consigo entender. Não querem clareza? Não querem transparência? Não têm coragem? Não são políticos corajosos? Agora, num Conselho de Ministros, estamos a falar por enigmas. Diga o que tem a dizer, logo. Bem. Ok.
Calma. Respira, Miguel.
Enfim.
É verdade.
Obrigado. Vamos então lá ver se não misturamos as coisas todas. O que aconteceu? Depois de Donald Trump ter divulgado nas redes sociais uma mensagem que lhe foi enviada por Emmanuel Macron, o autor desta conta, Vox Vargas, que é muito conhecido no X, publicou a imagem de uma mensagem graficamente igualzinha e que supostamente teria sido enviada a Trump pelo nosso Luís Montenegro. E na mensagem lia-se, por exemplo, isto: "Vossa Excelência, líder supremo e grande arquiteto dos nossos tempos modernos, escrevo-lhe hoje ainda entusiasmado pela magnitude dos seus feitos recentes e porque sei que o senhor valoriza um bom negócio." Fim de citação. Ora, é verdade que a conta Vox Vargas é muito crítica do governo nas coisas que publica e até pode ser verdade que o autor da conta tenha sido, no passado, vou citar, colaborador de algum espaço político, imagino que à esquerda do PSD, como insinuou o ministro Leitão Amaro, que não teve coragem de dizer, só insinuou. Até pode ser verdade, mas há uma coisa sobre a qual não há qualquer dúvida: é que qualquer pessoa com mais de dois neurônios lê aquela suposta mensagem de Montenegro a Trump e percebe que ela não é verdadeira. Quer dizer, só seria verdadeira se Montenegro fosse um tonto. Acho que o ministro Leitão Amaro não acha que o primeiro-ministro é um tonto. Acho eu. Penso eu. Eu sei que nós já vimos líderes mundiais a fazerem figuras muito tristes a dirigirem-se a Donald Trump, mas qualquer pessoa informada olha para aquilo e percebe. Quer dizer, uma pessoa que viva nas cavernas pode não perceber, mas as leis e a política não é feita para quem vive nas cavernas, é para pessoas que andam neste mundo. E se o governo quer denunciar as guerras políticas clandestinas nas redes sociais, então cometeu dois erros. Primeiro erro: usou um caso concreto péssimo. Poderia então ter usado um outro caso qualquer que mostrasse a insídia nas redes sociais e, além disso, misturou política com tribunais, que nunca é um bom princípio. Quando um primeiro-ministro decide recorrer a um tribunal, quando alguém com a força e o simbolismo de um primeiro-ministro decide recorrer a um tribunal, tem que ter razões fortes.
Sobretudo nestes casos em que começa logo a discussão sobre a fronteira entre a sátira, se quisermos, e a desinformação ou a calúnia.
O governo até pode achar que estamos perante o regresso ou aquele caso célebre do blog Abrantes, do José Sócrates.
Sim. E estes são casos na versão Twitter desse modus operandi, claro.
Se for isso, se o governo entende que é isso, se o governo entende que há pessoas no Twitter a receberem dinheiro de agentes políticos para fazerem combate político de forma clandestina, muito bem Desmonte isso? Com certeza. Mas não foi isso que o governo fez aqui. O governo insinuou e processou. Se quer fazer esse trabalho, faça-o bem.
Miguel, o teu vilão dá muito valor à família.
Nem imaginas, Maria João. André Ventura, que se está a candidatar a presidente da República e é líder do Chega, penso que não deixou de ser líder do Chega. Ontem ficámos a saber que a irmã do presidente da Câmara de Albufeira, que foi eleito pelo Chega nas últimas eleições, foi nomeada, não foi contratada, para trabalhar na autarquia onde ele manda. Sara Cristina era funcionária da Câmara de Loulé e agora, através do regime de mobilidade, vai para Albufeira. Não é uma contratação nova para o Estado, é o tal regime de mobilidade. Rui Cristina, que tomou posse há apenas um mês, diz que não teve nada a ver com o assunto, porque foi tudo tratado por uma vereadora. Que, por acaso, penso que ele manda nela, mas enfim, não interessa. Argumentou que não se trata de uma contratação, lá está, mas de uma nomeação, e afirmou o seguinte publicamente numa assembleia municipal, vou citar: "Sei que todos os presidentes de câmara gostariam de ter uma irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes." Vai trabalhar em prol. Sara Cristina, vamos ver. Não conheço. Pode ser a melhor funcionária municipal do Algarve, pode ser a melhor funcionária municipal de Portugal, pode ser a melhor funcionária municipal da Europa, pode ser a melhor funcionária municipal do planeta Terra e até pode, Maria João, Paulo, ser a melhor funcionária municipal da galáxia. Pode. Não contesto, pode ser. Mas, obviamente, os princípios proclamados pelo Chega deviam impedir que a autarquia onde o irmão manda fosse a correr chamar a irmã para depois o irmão, numa reunião com aqueles em quem manda, elogiar a irmã em quem eles vão mandar. Acho eu. E eu sei que há dias André Ventura voltou a usar o slogan "Deus, pátria, família e trabalho", porque ele acrescenta sempre trabalho ao Deus, pátria e família, que vem do Estado Novo. Deus, pátria, família e trabalho. Eu só não sabia é que o objetivo era misturar estas coisas todas na Câmara de Albufeira. Misturamos tudo, trabalho e família, tudo misturado na Câmara de Albufeira. Não sabia. Mas cá está, um caso prático do slogan de André Ventura aplicado à vida real. Albufeira.
E eles são todos iguais, basicamente.
Não, não são irmãos gêmeos, Paulo. Acho que não são irmãos gêmeos. Estás a confundir.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é o governo mau Luís Montenegro e o vilão de hoje é André Ventura. São as escolhas do Miguel Pinheiro, num episódio que daqui a instantes também fica disponível em podcast.