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Começa agora a nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Bom dia, Miguel Pinheiro.
Bom dia.
O teu bom é o Ministério da Saúde.
É o Ministério da Saúde, porque saiu agora o decreto lei que regula o trabalho dos médicos tarefeiros no SNS e há ali duas medidas do mais puro bom senso. Primeira medida de bom senso: os tarefeiros que faltarem ao serviço num determinado hospital, sem avisarem com uma antecedência mínima de 48 horas, têm um corte de 50% no valor a que teriam direito no serviço seguinte. O que é que estava a acontecer? Muitas vezes os médicos faltavam ao serviço num determinado hospital, porque entretanto outro hospital lhes tinha oferecido mais dinheiro pra fazerem as mesmas horas. Isto é básico, se faltam em cima da hora, o hospital vai ter mais despesas pra preencher o lugar e é claro que os médicos têm de ser penalizados por isso. Mas isto existe em tudo na vida. Eu ainda ontem marquei um restaurante, eu já sei, tive que dar o cartão de crédito.
Se falhasses?
Se falhar, eles ficam com uma parte do dinheiro.
Claro.
Como é que era possível ser-
É uma mesa que deixaram de vender
...uma pessoa poder faltar ao trabalho com todos os problemas que isso tem. Atenção, não é por ficar doente, com certeza. Há exceções na lei que permitem faltar e não ter esta perda de salário. Só para não começarmos com isso, já estou a ver as pessoas a dizerem: "Isto é um ataque aos médicos, ficam doentes, coitadinhos, já não podem partir uma perna." Podem, partam uma perna à vontade, não há problema nenhum. Segunda medida de bom senso: os médicos tarefeiros passam a ter de ser avaliados pelos hospitais onde prestam serviço e só vão poder continuar a trabalhar como tarefeiros no SNS se tiverem uma avaliação positiva. E eu só me pergunto: mas até agora os médicos tarefeiros não eram avaliados por ninguém? Como é que era? Já agora, como é que era? "Ó senhor, estou aqui a apresentar-me ao serviço, médico tarefeiro." Corra como correr, faça o que fizer, diagnosticou bem, diagnosticou mal, esteve lá o tempo todo a trabalhar, não esteve, não havia avaliação nenhuma. "Então cá estamos amanhã." "Sim, senhor, muito bem. Então até amanhã." Estávamos mesmo na lei da selva, é a única conclusão que eu posso tirar. Se é preciso pôr isto numa lei, estávamos, de facto, na lei da selva.
E vamos ver se isto vai à frente mesmo, porque pode haver 1001 obstáculos pra isso não entrar em vigor.
Sim, Paulo, se vamos agora começar a avaliar a prestação de médicos, onde é que isto vai acabar?
Obviamente.
Já não basta tirar o curso, não é suficiente?
Claro.
Atenção, eu repito sempre isto, eu sou um hipocondríaco e, portanto, eu não quero criar inimizades entre os médicos. Adoro médicos.
São os seus melhores amigos, claro.
Eu até tenho amigos que são médicos. Mas vamos lá pensar um bocadinho nas coisas. Isto é básico.
Então e quem é o teu mau, Miguel?
Olha, o meu mau são
Gostei da mudança de tom
...são o Parlamento e o Governo. E eu não quero ser demagógico, não quero fazer demagogia. E sei que quando alguém começa a dizer alguma coisa com a frase: "Eu não quero fazer demagogia", é porque se está a preparar pra fazer demagogia, mas mesmo assim eu vou arriscar. Hoje é um grande dia, não é?
É.
É dia de debate quinzenal. E é aquele dia em que o Primeiro-Ministro vai ao Parlamento prestar contas sobre aquilo que andou a fazer, sobre aquilo que anda a fazer e sobre aquilo que pretende fazer. Eu acho que isto não é coisa pouca e, portanto, vou pegar no meu cachecol pra assistir ao debate quinzenal. E normalmente os debates quinzenais começam às 15h. Ora bem, hoje não. Hoje o debate vai começar uma horinha mais cedo, às 14h. Eu acho que já toda a gente adivinhou o porquê, mas eu vou dizer na mesma: o debate foi antecipado para os deputados e os membros do governo poderem ver o jogo de Portugal. E eu sei que há muita gente, em muitos empregos, que vai adaptar a sua vida pra poder ver o jogo. E está tudo muito bem, não tem problema nenhum. Mas também sei que há muita gente, em muitos empregos, que por mais que queira, não conseguirá adaptar a sua vida e terá mesmo de estar a trabalhar enquanto Portugal joga.
Os médicos tarefeiros, por exemplo.
Olha.
Estão ao serviço.
Esses precitos. Lá está, eu não quero fazer demagogia e obviamente o mundo não acaba só porque o debate quinzenal é antecipado uma hora, como é óbvio. Mas, mesmo assim, os deputados e o governo estão a passar a ideia de que ver a bola é mais importante do que o trabalho deles. Nós pagamos-lhes pra eles fazerem o trabalho deles e a ideia que dá é: há aqui uma coisa mais importante. Dê as voltas que se quiser, seja justo ou seja injusto, as pessoas ouvem isto e pensam: "Olha, lá estão eles. Olha os portalhões, anteciparam isto uma hora." E eu sei que a política não tem de ceder ao que se diz nas ruas. Eu sei isso tudo.
Mas espera lá, de facto o jogo não é mais importante do que aquilo que eles fazem?
Não, Paulo, não é.
É que parece.
Não, Paulo, não é.
Olha pra o país nos últimos dias.
Eu sei que tu sofres com isto. Eu sei que a bola pra ti é a coisa mais importante, mas não é. Ponto.
O certo é que o teu vilão vai vibrar com a seleção. É o Paulo Ferreira?
Não é o Paulo Ferreira. O vilão são os políticos que se querem apresentar como muito patriotas. Os nossos ouvintes já sabem que nós andamos nesta novela dos convites da federação aos políticos para assistirem aos jogos do mundial. Quem aceita, obviamente, comete um erro enorme, mas há alguns que recusam e que também fazem figuras escusadas ao exibirem o seu amor emurrador à pátria. Houve quem não aceitasse e ficasse assim. Não precisam fazer figuras. "Obrigado pelo convite, mas não." Certo. Está feito. José Luís Carneiro fez questão de dizer que, apesar de não ir ao jogo, e atenção que eu vou citar, eu não estou a inventar isto, vai viver intensamente a participação da seleção portuguesa neste mundial, procurando sempre que possível, estar em espaços coletivos a apoiar a seleção. E portanto, o líder do PS é procurar uma fan zone para ver os jogos ao lado dos seus compatriotas, a cantar o hino, a agitar uma bandeirinha, porque só assim é que consegue viver a seleção intensamente. E José Luís Carneiro é um português como nós e então quer estar a viver isto. Inês de Sousa Real jurou que, e atenção, mais uma vez eu estou a citar, jurou que vai torcer por Portugal com o mesmo entusiasmo e orgulho com que o faria no estádio. Vai estar ali muito entusiasmada e muito orgulhosa, como se estivesse num estádio. E por fim, André Ventura escreveu que apoiará sem reservas o esforço da seleção nacional para vencer este mundial e dar esta vitória a todos os portugueses. Portanto, sem reservas. E eu só me pergunto se o líder do Chega admitiu a hipótese de apoiar a seleção, mas com reservas. Se calhar é possível. "Eu estou a apoiar esta seleção, mas com algumas reservas. Eu se calhar não gosto muito deles." Enfim, este patriotirismo de pacotilha é irresistível para os nossos políticos. E está cada vez pior. É o que há. É o que há. É o que há, é o que temos. Paciência.
Miguel, depois do meio-dia regressas para mais um "Realpolitik" com o Sérgio Sousa Pinto. Do que vão falar hoje?
Não é sobre o mundial, não é sobre a seleção. Mas é permitido hoje haver coisas que não sejam sobre o mundial. Mas eu e o Sérgio vamos viver intensamente a participação da seleção e vamos sempre que possível estar em espaços coletivos. Como se estivessem no estádio. Como se estivéssemos no estádio. Tenho a certeza que o Sérgio nos está a ouvir e já está a vestir o cachecol. No mínimo o cachecol, exatamente. No mínimo, não. Espero que ele traga mais do que o cachecol, ó Paulo. Não dês aí também ideias. Seria esquisito.
Ficámos aqui com uma imagem.
Seria esquisito. Mas enfim, vamos falar sobre o memorando de paz entre os Estados Unidos e o Irão, quem é que ganha, quem é que perde. Vamos falar também um pouco sobre o veto do presidente à lei das bandeiras. Não é bandeirinha de apoio à seleção, são as outras. E também sobre se o governo já só lhe resta mesmo o Chega para negociar coisas ou se quer mesmo só ter o Chega para negociar coisas.
É para ouvir depois do jornal do meio-dia. Quanto ao bom, o mau e o vilão desta quarta-feira: o bom é o Ministério da Saúde, o mau o Parlamento e o governo, e o vilão são os políticos que se querem apresentar como muito patriotas. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a minutos fica disponível em podcast.