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E conosco já está o Miguel Pinheiro. Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia, está tudo bem?
E por aí também? Estás a ter claro?
Eu? Como assim? Não te admito, Maria João. Eu não te admito.
Acusações essas logo de manhã.
Estou agora aqui a acabar, por acaso, uma coisa à última hora.
Agora eras capaz disso.
Nunca.
Vamos ao teu bom, quem é?
O meu bom é Luís Marques Mendes, porque o candidato presidencial falou ontem sobre a abertura de um processo no Ministério Público aos cartazes de André Ventura e disse o óbvio. Disse que este problema é muito mais político do que jurídico, resolve-se com o voto dos eleitores e não com processos nos tribunais. Disse também que quem recorrer aos tribunais só está a fazer um favor ao Chega, porque ele ainda se arma em vítima. E disse que enquanto as pessoas não perceberem isto, vai ser tudo mais difícil. E eu concordo com tudo, menos com a última parte, porque as pessoas percebem isto. As personalidades políticas e os partidos políticos que pretendem recorrer à Justiça por causa dos cartazes ou para tentarem ilegalizar o Chega com base em detalhes burocráticos, não são tontos. Acho eu, não parto do princípio que as pessoas são tontas. Sabem muito bem o efeito que isso tem, mas acham que para viverem precisam de um inimigo, precisam do Chega. Na verdade, se André Ventura desaparecesse amanhã, eles desapareceriam também e por isso andam nisto uns com os outros e nós a assistirmos.
E o Chega é muito bom em vitimização, isso já percebemos como é evidente.
É a epítome do partido galimero. Só falta porem uma casca de ovo em cima do partido.
Miguel, o bom é Luís Marques Mendes, o teu mau é o presidente da República.
De fato. Ontem fizeram perguntas a Marcelo Rebelo de Sousa sobre este caso do dermatologista do Hospital de Santa Maria, que ganhou €400 mil em 10 sábados com cirurgias adicionais e a resposta, como sempre, foi a de quem não sente nenhuma especial urgência para resolver as coisas. Marcelo disse uma série de coisas. Vou citar. Atenção: "Acho que é uma má metodologia estar a ver as questões de saúde do ponto de vista pontual. É preferível colocar a questão em termos genéricos. Há opções a fazer relativamente a situações que são genéricas. Isso deve ser visto genericamente. Vale a pena olhar para o quadro e ver uma situação que, porventura, decorreu de uma evolução histórica em que essas situações se sedimentaram. E vale a pena repensar essas situações, mas essa reflexão demora tempo e obriga a ponderação." E eu estava a ouvir isto, estava aqui a ferver, porque o presidente da República, pelos vistos, não percebe que as pessoas estão fartas de ver os responsáveis políticos a pensarem e a repensarem, a colocarem as situações em termos genéricos, a ponderarem, a demorarem tempo. Já não há paciência para continuar a pagar o que pagamos por um SNS que suga todo o dinheiro e depois não faz o que é suposto fazer. Aliás, ainda hoje, agora de manhã, está fresquinho. Saiu um estudo segundo o qual mais de um terço dos portugueses têm a chamada dupla cobertura de saúde, ou seja, através dos impostos têm acesso ao SNS e depois pagam para ter um seguro ou um subsistema. E este valor de um terço dos portugueses a terem esta dupla cobertura é três vezes superior à média europeia. Portanto, lá na Europa eles não têm estas preocupações, claro.
Países pobres.
Países pobres, mas cá os portugueses pagam e depois pagam outra vez. Só porque sim. Temos aqui umas notas, porque é que não devemos pagar outra vez?
Calma, vamos pensar e repensar. Isto demora tempo, porventura, quem sabe, genéricos.
É tudo muito genérico.
Miguel, o teu vilão está parado.
Está e parece que vai estar parado durante um bom tempo. A nossa Justiça está parada. Depois de o advogado de José Sócrates ter apresentado a renúncia e ter abandonado o processo de um dia para o outro, depois de José Sócrates ter recusado o advogado oficioso que lhe foi atribuído por lei, depois de José Sócrates ter gritado e esperneado, exigindo que o julgamento fosse interrompido enquanto ele calmamente pensava genericamente na possibilidade de arranjar um novo advogado. Depois de tudo isso, o julgamento foi mesmo suspenso. Foi suspenso mesmo com a juíza a admitir que uma série de crimes de corrupção podem prescrever já no início do próximo ano. Foi suspenso mesmo com a juíza a admitir que, em teoria, o próximo advogado de José Sócrates também pode decidir renunciar ao caso pouco depois de ser nomeado, e o seguinte também, e o seguinte também, tentando assim continuar a usar aquilo que a própria juíza descreveu como manobras dilatórias. E estamos nisto porque a Justiça portuguesa olha para os arguidos poderosos como Um menino mimado. É preciso fazer-lhe todas as vontades para não haver birras em público. E quando encontramos alguém capaz de fazer qualquer coisa, nós percebemos que os nossos tribunais são uns anjinhos. Permitem tudo. São uns anjinhos que estão para ali. Há que mudar leis, não é? Paul, eu diria que sim. Eu sei, depois parece-me. Sim, convém dizer uma coisa: não são os juízes quem escreve as leis. Claro. Não são os tribunais, os tribunais só aplicam as leis. Eu acho que um dos grandes problemas da justiça portuguesa é que uma parte muito substancial dos nossos deputados são advogados e, por isso, olham para o processo penal, não é por mal, não é pensarem que vão ter um processo a seguir, não é nada disso, mas toda aquela forma mental está virada, pensa como um advogado e, portanto, pensa em dar o máximo de garantias possíveis aos arguidos. Se calhar, se nós tivéssemos mais deputados que tivessem vindo do Ministério Público, por exemplo, ou que tivessem sido juízes, se calhar o nosso processo penal não era o que era. Não sei, é uma teoria de que eu me lembrei agora, assim genérico, isto é genericamente, atenção. Sim, mas vamos pensar nisso com calma. É, não há pressa.
Miguel, quarta-feira é dia de Realpolitik, depois do meio-dia, junto ao Sérgio Sousa Pinto. Quais são os temas de hoje?
Hoje vamos falar desta greve geral que se aproxima por causa da reforma laboral. Vamos falar um pouquinho também sobre a semana agitada de Gova e e-mail. As presenciais estão mesmo aí, temos que ir acompanhando isto. E depois, um tema internacional, mas que foi falado em todo lado esta semana, que é o da BBC. A BBC tem um problema de desequilíbrio na forma como aborda uma série de temas ou não, e o que isso nos diz sobre o jornalismo hoje em dia.
É o Realpolitik para ouvir depois do jornal do meio-dia. Quanto ao bom, ao vilão desta quarta-feira, o bom é Luís Marques Mendes, o mau é Marcelo Rebelo de Sousa e o vilão de hoje é a nossa justiça.