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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão". Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. O teu bom é o Bloco de Esquerda.
É Alexandra Abreu, que é dirigente do Bloco de Esquerda e que pertence à ala de José Manuel Pureza, que vai ser eleito líder este fim de semana. O Bloco este fim de semana tem um congresso ou uma convenção, como eles lhe chamam. E numa entrevista ao Observador, Alexandra Abreu diz coisas sensatas e óbvias, mas que para o Bloco não têm sido óbvias nem sensatas nestes últimos tempos. Disse que o Bloco tem dificuldades em responder às circunstâncias. Disse que o Bloco tem se encontrado numa situação de alguma ambiguidade. Disse que Mariana Mortágua foi tão atacada, eu diria, foi tão polarizadora, que isso dificultou a passagem da mensagem e criou um ruído em torno dela difícil de ultrapassar. E disse que o Bloco tem que falar para todos os eleitores, incluindo, imagine-se lá, os que votam no Chega. Este fim de semana, o Bloco vai tentar mudar e corrigir os muitos erros do passado recente, tendo em conta que estão reduzidos a apenas um deputado. Talvez seja tarde, mas como diz o bom povo, esse bom povo que o Bloco agora queira ouvir, mais vale tarde do que nunca. Se bem que o bom povo também tem outro provérbio que diz: "Quando o cavalo está morto, a aveia vem tarde demais." Por isso, é ouvir o povo e perceber qual dos dois é que se aplica.
Pois, e antes mais ouvir a convenção. Para saber até onde é que vai esse diagnóstico interno.
Isso. Estaremos muito atentos aqui no Observador e na Rádio Observador para perceber para onde é que este grande porta-aviões que é o Bloco de Esquerda vai.
Então e quem é o teu mau, Miguel?
Olha, é o PS. Os dirigentes do partido estão permanentemente, e bem, a vigiar as linhas vermelhas que separam a AD do Chega, de cada vez que Luís Montenegro diz bom dia a André Ventura, de cada vez que Hugo Soares se senta numa cadeira mais próxima de Pedro Pinto, de cada vez que a AD e o Chega votam da mesma maneira no Parlamento, de cada vez que uma dessas coisas acontece, José Luís Carneiro denuncia o primeiro-ministro por estar a aliar-se à extrema-direita com o objetivo de levar o país no caminho do fascismo. Mas neste orçamento, como acontecera no anterior, o PS não teve qualquer problema de consciência em juntar os seus votos aos do Chega para aprovar ou travar medidas politicamente simbólicas. Por estes dias, o PS e o Chega somaram os seus votos pra aprovarem juntos o fim de mais portagens e pra travarem juntos um ligeiríssimo aumento das propinas. Entre o PS e o Chega, pelos vistos, nunca há linhas vermelhas, só há conveniências. Quando dá jeito, vota-se ao lado. Quando não dá jeito, não se vota.
Neste caso, são convergências a bem do país.
Claro, a pátria sempre primeiro.
Sempre à frente.
Make Portugal great again.
Miguel, o teu vilão anda muito ocupado.
Anda sim, senhora. Aqui o ponto é: anda ocupado com o quê? Esse é que é o ponto, Maria João, que nós vamos tentar perceber agora. O vilão é José Sócrates, falta de originalidade, mas enfim. E ontem houve dois desenvolvimentos. Primeiro, houve um desenvolvimento no processo que está em julgamento. Se bem se lembram, meninos e meninas, José Sócrates arranjou um novo advogado e esse novo advogado pediu a suspensão das sessões em tribunal durante cinco meses e meio pra poder consultar o processo. Agora vou ler aqui isto com calma. Apesar de a lei só prever cinco dias pra isso, atenção, é a lei. A lei prevê cinco dias. José Sócrates podia ter feito uma lei quando foi primeiro-ministro em que dava cinco meses, cinco anos pra ler os processos, mas não. A lei, que é imposta a todos nós, dá-nos cinco dias. Apesar disso, a juíza, com uma enorme generosidade, deu-lhe o dobro, 10 dias, sendo que esses 10 dias são extras porque nem contam com a interrupção obrigatória por causa das férias de Natal. Até são mais de 10 dias. E além disso, naturalmente, o novo advogado, como a juíza explicou, tem sempre acesso ao processo pra o ir consultando. O julgamento não decorre entre as 07:00 e a meia-noite de todos os dias. Não, tem lá um horário e são alguns dias da semana. Como é óbvio, o novo advogado de José Sócrates já anunciou que vai recorrer disso e também já disse que vai recorrer de outras coisas. Há ali outras coisas também pra recorrer. Isto foi no caso que está em julgamento, Operação Marquês. Ao mesmo tempo, nós temos um outro processo, um processo secundário da mesma Operação Marquês. É um processo que resulta de uma decisão do juiz Ivo Rosa, a célebre decisão do juiz Ivo Rosa, de levar Sócrates e Carlos Santos Silva a julgamento. Esse processo não está ainda em julgamento, ainda está numa outra fase, e nele o ex-primeiro-ministro arguido e o seu grande amigo são acusados de três crimes de branqueamento de capitais. Havia outros crimes que prescreveram. E aqui neste processo, atenção, surpresa Pedro Delito continua a ser advogado de Sócrates, nós estamos a dar esta notícia, e há dias apresentou um requerimento em que fez várias exigências e as mais importantes são estas: quer que os dois processos se transformem apenas num, portanto, o processo que está em julgamento e este segundo processo passam a ser só um. Quer, por isso, claro, que todas as sessões de julgamento deste processo principal, todas as que houve até agora sejam anuladas. Acabou, limpa lá isso, não se passou nada, não aconteceu nada. E quer que os atuais juízes, nomeadamente, imagino eu, a juíza principal, sejam afastados desse novo julgamento. E, portanto, a teia que pretende matar a Operação Marquês continua a ser montada por José Sócrates, esta teia jurídica complexa. Agora vamos ver se a justiça aguenta.
Mas obviamente que nada disto tem a ver com a tentativa de arrastar isto tanto que tudo prescreva, não é?
Não, alguém disse isso?
Não.
Ó Paulo, por amor de Deus. Não, claro que não.
Longe disso.
Não, é só porque, naturalmente, o arguido José Sócrates está a aproveitar, a usar, retiro a palavra aproveitar, está a utilizar os meios que as pessoas que fizeram as nossas leis lhe ofereceram. As nossas leis são feitas por alguém, as pessoas fizeram as leis, acharam que um arguido tinha que ter 10.432 hipóteses de recurso, requerimentos de defesas, de não sei o quê, e ele está a usar cada uma delas e por isso agora está aqui comprovado. Está provado como o sistema está montado. Se alguém quer desmontar esta confusão, está à vontade. Nós temos um Parlamento a funcionar. Da última vez que eu vi, nós temos um Parlamento a funcionar. Eu ainda não vi um único partido a apresentar mudanças consistentes no Código de Processo Penal para evitar que isto aconteça. Por isso acho que estão todos de acordo. Se está toda a gente de acordo, qual é o problema? Vocês veem algum problema, Maria João? Algum problema?
Zero. Zero, inclusive.
Ó Paulo, algum problema? Zero.
Zero, ainda por cima hoje é sexta-feira, Miguel.
Fim de semana prolongado, ainda por cima.
Pois é, fim de semana prolongado, ainda por cima.
Há problemas?
Ó meus amigos.
Ó meus amigos.
Meus amigos.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é o dirigente do Bloco de Esquerda, Alexandre Abreu, o mau é o PS e o vilão é José Sócrates. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a instantes também fica disponível em podcast.