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O Bom, o Mau e o Vilão com Miguel Pinheiro na Rádio Observador. Muito bom dia, Miguel.
Bom dia.
Vamos começar com O Bom para esta quarta-feira, escolheste o primeiro-ministro.
Sim, porque ontem o gabinete de Luís Montenegro anunciou que ele decidiu não marcar férias no verão e decidiu que estará no seu posto a coordenar a atividade do governo. Aliás, mesmo que dê um salto à praia ao fim de semana, e o gabinete tem o cuidado de alertar que isso pode acontecer, pode haver aqui um fim de semana ou pode haver assim um diazito durante a semana em que Luís Montenegro decida ir à praia, mas mesmo que isso aconteça, o gabinete garante que pelo menos ele não vai de certeza sair do país. E eu coloco Luís Montenegro no bom, porque isto mostra que o primeiro-ministro tem a noção exata da atual fragilidade do governo. Ele sabe que não pode, de maneira nenhuma, ausentar-se por um minuto que seja, porque como se tem percebido, ainda mais depois de PJ nos ter dito ontem que encontrou indícios de abuso de poder e de descaminho no caso do outro lado, a qualquer momento Luís Montenegro pode ter de demitir o ministro da Administração Interna ou pode ter de aceitar a demissão do ministro da Administração Interna e pode ter de fazer como há uns meses, quando acumulou durante uns tempos a função de primeiro-ministro com a de ministro da Administração Interna. Teve que juntar ali as duas pastas, que remédio, não havia solução. E tudo isto ainda por cima, claro, verão, época de fogos. Ainda bem que Luís Montenegro mostra realismo. Ele sabe que não pode deixar as crianças sozinhas em casa e por isso vamos lá ver como é que isto se desenrola.
E também estabelece aqui uma bitola não só para futuros primeiros-ministros, mas para ministros de qualquer governo.
Certo, ficarem agarrados à secretaria durante o verão.
No verão, pois é.
Eu pensei que poderiam ter só acabado as milhas da TAP.
Isso também pode ter acontecido.
Não ficou com elas para o verão. Vamos ao mau de hoje, é o ministro da Educação.
Olha, já começo a estar um bocadinho farto disto, mas pronto. Ontem o ministro da Educação envolveu-se em mais uma polêmica, agora com o antigo presidente do Júri Nacional de Exames. Luís Duque de Almeida foi ouvido no Parlamento e lembrou que já tinha havido problemas no teste piloto de digitalização feito no ano passado com o exame de Filosofia. Tem-se falado disto de vez em quando e no Parlamento ele lembrou. E pouco depois, o ministro da Educação atacou e eu vou citar: "Se tinha informação sobre isso que não partilhou, ele vai ter de explicar. Foi embora em setembro e não deixou um relatório a ninguém." Isto disse Fernando Alexandre. Ora, há aqui dois problemas. O primeiro problema é que me parece que Fernando Alexandre está a ver o filme ao contrário, porque o ministro é que sabia o que ia fazer da sua vida. O ministro é que tinha a obrigação de ir fazer perguntas e pedir relatórios sobre a experiência piloto antes de avançar a toda a velocidade para a generalização da digitalização dos exames. Ele é que tinha que ir perguntar, como é evidente. O segundo problema é que não era preciso relatório nenhum. Bastava, por exemplo, o ministro ler a imprensa. A 30 de julho de 2025, às 13h40min, o Observador publicou um artigo onde se explicava quais os problemas que tinham surgido na experiência piloto. Portanto, isto foi na altura, nós demos a notícia e eu vou citar a nossa notícia: "Desde exames que desapareceram do sistema, impedindo que os professores fizessem uma revisão da correção, à existência de folhas de prova totalmente brancas ou pretas, passando por respostas cortadas a meio ou até trocadas." Foi tudo isto que aconteceu. Os professores que corrigiram o Exame Nacional de Filosofia este ano dão avaliação negativa à nova forma de correção introduzida pelo governo. E eu vou continuar a citar a notícia: "Já o Ministério da Educação considerou o processo muito positivo e admite que no próximo ano, que é este, serão introduzidas as melhorias qualitativas consideradas necessárias.", fim de citação. Portanto, obviamente, o ministério sabia de tudo o que aconteceu na prova piloto, como é evidente, achou tudo maravilhoso e até disse que ia introduzir melhorias, se é que elas eram necessárias. Estava tudo tão bem, se calhar nem era preciso melhorias. Pronto, mas mesmo assim, vamos cá introduzir umas melhorias. E depois deu nisto. E agora, pelos vistos, aí Jesus, o ministro, porque alguém não lhe entregou um relatório? E agora vai pedir contas porque não lhe entregaram um relatório?
Mas independentemente de ter saído nas notícias e dos relatos de professores, é óbvio que tinha de haver um relatório, tinha de ser exigido um relatório por parte do Ministério da Educação. Não se compreende como é que se faz uma prova destas, que serve precisamente para detetar, ou deveria servir para detetar problemas, sem que depois seja feito um relatório a dar conta de uma avaliação ao procedimento. Não se percebe.
Claro que sim. De qualquer maneira, eu diria que estamos entregues aos bichos.
E o vilão, quem é esta quarta-feira, Miguel?
Olha, é André Ventura. Ontem o Chega anunciou que vai apresentar um projeto de lei para eliminar o IVA sobre a eletricidade. Aliás, o partido quer que essa medida seja aplicada já em 2027, com entrada em vigor no novo Orçamento de Estado, partindo do princípio que vai haver novo Orçamento de Estado, que alguém o aprova, mas enfim Segundo o Chega, a eletricidade, e estou a citá-los, é um bem essencial e não pode continuar a ser vista pelos sucessivos governos apenas como uma forma de arrecadar mais receita. E pergunto a vocês: de onde é que surgiu esta ideia incrível, revolucionária e original do Chega? De onde é que isto veio?
De onde é que podia vir?
Descansa, acalma-te, tranquilo, respira, porque não é preciso procurar muito. O próprio partido explica que esta proposta surge, e vou citá-los, no seguimento da decisão anunciada pelo novo governo do Reino Unido. Ora, como sabem os nossos ouvintes, o governo do Reino Unido é de Partido Trabalhista, ou seja, é de socialistas, como diria André Ventura, e o governo socialista do Reino Unido tem agora um novo primeiro-ministro, que é Andy Burnham. E a primeira medida anunciada por Andy Burnham foi precisamente o fim do IVA na eletricidade. O problema é que ele, lá no Reino Unido, encontrou logo uma dificuldade, porque esta medida custa cerca de € 1 mil milhões só no primeiro ano, e Andy Burnham anunciou que vai buscar o dinheiro a uma outra medida que tinha sido anunciada pelo anterior primeiro-ministro e que entretanto foi cancelada. O problema é que, como explicou um alto quadro do Partido Trabalhista, essa outra medida não tinha um único cêntimo orçamentado. Ou seja, Andy Burnham está a anunciar uma medida caríssima sem ter dinheiro para a pagar. Essa é a conclusão. Mas para o Chega, isso, pelos vistos, não é um problema. Aliás, o partido de André Ventura está farto de anunciar medidas para as quais não há dinheiro, portanto, é só mais uma. Mas de qualquer forma, eu acho que é interessante confirmar que o Chega não se importa nada de copiar o primeiro socialista que lhe apareça à frente. Eu já desconfiava, mas está confirmado. A grande inspiração do Chega são os primeiros-ministros socialistas que andam por esse mundo fora.
Ora aí está, é uma boa influência. Tem-se visto, aliás, no Chega, essa tendência.
É, mas está aqui a confirmação.
Miguel, hoje é dia de realpolitik, a crise no governo, os exames, a situação de Luís Neves, presumo que sejam temas para abordar depois do meio-dia.
Sim, vamos falar um pouco sobre como é que o governo sai desta crise, se é que sai desta crise, se é que há uma crise. No limite, como diria alguém, não há crise nenhuma. E também vamos querer falar um pouco sobre este novo governo do Reino Unido, que, como se vê pelo Chega, é mais importante para Portugal do que poderíamos pensar à primeira vista. Vamos tentar perceber o que é que quer este primeiro-ministro e o que é que aí vai.
Realpolitik para ouvir na Rádio Observador depois do meio-dia. Esta edição de "O Bom, o Mau e o Vilão" fica já disponível em podcast. Até mais logo, Miguel.
Até já.