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Começa agora o novo Domínio da Guerra, sempre com o Major-General José Armando Moura. Bom dia, General.
Olá, muito bom dia a todos.
Já sabe que, para além da rádio, também nos pode acompanhar em direto no YouTube, Facebook ou no site do Observador. Depois do silêncio operacional, a Ucrânia veio finalmente reconhecer que a contraofensiva tinha começado. General, que balanço podemos fazer neste momento sobre esta que é uma operação militar de grande envergadura?
É verdade, passou cerca de uma semana e, portanto, eu julgo que já temos alguns elementos interessantes para a nossa análise. O primeiro elemento tem a ver com aquilo que é o território que, neste momento, a Ucrânia considera já consolidado. Terá recuperado cerca de 100 km². 100 km² não parece um exagero, mas Bakhmut tinha 7 km por 7 km, eram 49 km².
E foram meses.
E foram meses, foram quase nove meses para conquistar Bakhmut. E, portanto, se numa semana as forças ucranianas já conseguiram recuperar 100 km² de território, eu julgo que é um bom início. Não será aquele início absolutamente espetacular que todos estaríamos à espera nós, neste momento.
E que gostaríamos, não é?
E que gostaríamos, certamente, de ver já as forças da Ucrânia a chegar ao Mar de Azov. Mas enfim, isso também são desejos que não se configuram de acordo com aquilo que é a dificuldade desta manobra. E por que esta manobra é particularmente difícil? Em primeiro lugar, porque quando foi dinamitada a barragem de Nova Kakhovka, todo aquele eixo que estava do lado oeste, que era o eixo que vinha diretamente de Kherson sobre a Crimeia, desapareceu. Desapareceu a possibilidade da sua utilização. Isto é, a Federação Russa conseguiu, com essa manobra, encurtar em cerca de 100 km a frente de combate. 100 km é muito quilômetro. E, portanto, isso permitiu-lhe pegar nas forças que tinha a segurar esse eixo, a proteger esse eixo, e enviá-las para a zona de Kherson. Quando começa o ataque ucraniano, o ataque ucraniano faz-se sobre aquilo que é uma frente muito mais curta do que a frente que estava inicialmente prevista. Isto significa que encontrou mais forças e, portanto, em vez de manobras que nós poderíamos eventualmente idealizar, de contornar forças, aproveitar locais que estivessem mal guarnecidos para poder, sobre esses locais, exercer uma penetração e, portanto, projetar forças em profundidade, tudo isso deixou de ser possível. E as forças ucranianas tiveram que adotar uma manobra que, do ponto de vista militar, é a mais custosa, que é o ataque frontal. Elas estão a enfrentar forças russas posicionadas numa zona que não pode ser contornada e, portanto, têm que ser atacadas do ponto de vista frontal. Ora, os ataques do ponto de vista frontal têm uma consequência imediata: é que o número de baixas e o número de perdas, em termos de material, é muito grande. E, portanto, é muito natural que logo nestes primeiros dias, e sobretudo nestes primeiros dias, o número de equipamentos perdidos e de baixas sofridas seja muito grande. Mas não é grande do lado ucraniano, é do lado ucraniano e do lado da Federação Russa. Por quê? Porque a Federação Russa não pode perder muito terreno. É verdade que ela tem entre a frente de combate e o Mar de Azov um pouco mais de 100 km, mas não é uma distância também muito grande. Isto é, começar a perder quilômetros na frente da batalha, isto é, a frente da batalha começar a aproximar-se do Mar de Azov, começa a ser uma manobra muito perigosa para aquilo que são as pretensões da Federação Russa. Pelo que a Federação Russa está a conduzir uma defesa avançada. Na defesa avançada, são colocados muitos meios à frente para impedir perder-se terreno, enquanto noutros tipos de manobra, nós podemos concentrar-nos mais sobre a destruição do inimigo. Não é bem isso que a Federação Russa, neste momento, parece estar à procura. Parece estar à procura de não perder terreno. O que isto significa? Significa que a concentração de forças se faz na frente de batalha e, portanto, se houver um sucesso ucraniano na ruptura das linhas da frente de batalha, tem aberto caminho mais fácil depois para uma progressão para sul. No entanto, nós estamos no início ainda do combate. São perspetivas, para já, interessantes. A situação é muito dinâmica, a Federação Russa continua a procurar realizar contra-ataques sobre estas pequenas penetrações que são feitas. De qualquer maneira, 100 km² na primeira semana é um valor que devemos registar.
E no início desta semana, na terça-feira, Vladimir Putin reuniu com os jornalistas de guerra e anunciou que a Federação Russa já tinha destruído 160 carros de combate ucranianos e que tinha perdido apenas 54.
É muito interessante.
Onde é que o líder russo foi buscar estes números, General?
É muito interessante, porque esta é a segunda parte da guerra. A primeira parte da guerra da Federação Russa foi aproveitar o silêncio operacional ucraniano para nos inundar de fotografias de carros de combate ucranianos destruídos. A segunda fase é a fase dos números. Portanto, todos os números aparecem números absolutamente estonteantes relativamente aos sucessos da Federação Russa. É interessante verificar que há aqui uma relação de um para três. Isto é, para tornar mais credíveis estes números, ele avançou com uma relação mágica que existe no meio militar, de um para três. Isto é, quem ataca tem que ter pelo menos três vezes mais forças do que quem defende e, provavelmente, isso é porque também perderá três vezes mais equipamentos do que aquilo que defende. Portanto, ele arranjou um número simpático aqui que permitisse ter esta relação e pudesse dar alguma credibilidade aos números.
E ainda é um número redondo, é 54.
Exatamente. Arranjou aqui números simpáticos. Não é santo Há muita gente ligada à intelligence que tem um conjunto de sites disponíveis onde podemos ver a confirmação visual de cada um dos carros de combate ou de outros veículos, até veículos de combate de infantaria, veículos blindados de transporte de tropas, de engenharia, de artilharia, etc., onde mostra não apenas os carros de combate ou esses veículos que estão destruídos, mas vai ao ponto de apenas o faz para aqueles que estão identificados do ponto de vista visual. Houve um carro de combate T-72 que foi destruído, nós clicamos nesse link e vemos o carro de combate, o local onde foi e o estado em que está, se foi capturado, se foi destruído, etc. É uma análise independente e não é um número inventado. Ora, o que nós temos como atualização desse site? Que até o momento foram perdidos pela Ucrânia dois Leopard do modelo A4 e três Leopard do modelo A6. Para além disto, foram perdidos também 17 veículos de combate de infantaria Bradley e dois AMX-10 fornecidos pela França. Estes números não são nada significativos em relação àquilo que nos tem sido mostrado. E ontem o secretário de Estado da Defesa, Lloyd Austin, foi muito claro sobre isso. Disse ele: "A Rússia já mostrou estes cinco carros de combate pelo menos mil vezes".
São sempre os mesmos.
São sempre os mesmos. E de 10 ângulos diferentes, para dar a sensação que são outros noutras situações. Mas isso não nos faz desistir. Nós vamos continuar a dar o nosso apoio, o que significa que nós também temos que compreender, e os líderes ocidentais já compreenderam, que não se pode fornecer uma vez e pensar que a guerra acabou. Os materiais, à medida que vão sendo destruídos, vão tendo que ser substituídos. E é esse o esforço que já mostrámos que éramos capazes de fazer. A Alemanha vai oferecer mais Marders, os Bradleys que foram destruídos vão ser substituídos pelos Estados Unidos e é este alimentar que vai garantir à Ucrânia que ela tem potencial de combate disponível para continuar a sua missão de combate.
Esta semana fica também marcada por novas ameaças de Putin. Disse que se os ataques em Belgorod continuassem, a Federação Russa se veria obrigada a criar uma zona sanitária em território ucraniano. General Armando Moura, o que pretende com isto o presidente da Rússia?
Esta tirada de Putin ainda não tinha aparecido, esta criação da zona sanitária ainda não nos tinha aparecido. Há que distinguir aqui talvez dois conceitos diferentes, que é o de zona sanitária e de uma zona desmilitarizada. Na prática, até pode ser a mesma coisa, mas a forma como chegamos lá é diferente. A zona desmilitarizada é criada normalmente na sequência de um tratado ou de um acordo entre as partes, em que as partes definem qual é a linha da frente e depois definem a distância à linha da frente para a qual não haverá forças militares colocadas. Isto é, pode ser 15 km, 20 km, 50 km, enfim. As duas partes definem entre si que para manterem a linha da frente sem problemas, sem ações de guerra, não vão colocar forças militares naquele espaço de terreno. Mas na zona sanitária é diferente, a zona sanitária é imposta por uma das partes. Isto é, uma das partes considera-se com poder para dizer: todas as forças do adversário que se encontrem até 30 km são considerados alvos prioritários e serão destruídos pelas nossas forças. Ora, isto é muito diferente da primeira. A primeira é um tratado, as duas partes acordam. A segunda tem que ser imposta e é preciso meios para a impor. Não basta apenas uma das partes chegar e dizer: "Agora, a 30 km da Federação Russa não há forças militares ucranianas". Os ucranianos diriam: "Era só o que faltava". Isto serve para quê? Isto não tem nenhum efeito neste momento do ponto de vista das operações militares, porque a Federação Russa tomara ela ser capaz de conservar, para já, este terreno que tem conquistado, quanto mais agora lançar uma operação ofensiva em Kharkiv, que lhe permita segurar todo este terreno da zona sanitária. Mas isto tem, sobretudo, um discurso virado para dentro. Ele tem que acalmar as populações da região de Belgorod, porque este problema continua por resolver. A insegurança que se vive nesta zona é muito grande e isto é uma espécie de uma grande esperança que ele está a dar a esta população de que vai encarar seriamente esta questão e que vai impedir que haja incursões por parte daquele conjunto de milícias russas, mas que trabalham em favor da Ucrânia com estas incursões de natureza militar sobre o território de Belgorod.
No meio de toda a tragédia das inundações por causa da barragem de Kakhovka, felizmente houve histórias que acabaram bem e várias pessoas que estavam em território ocupado, na margem sul do Dnipro, conseguiram regressar a Kherson com a ajuda de voluntários. Que solidariedade corajosa foi esta!
É extraordinário como uma tragédia também, por vezes, oferece oportunidades magníficas. E nós, aqui, infelizmente, porque estamos a comentar a guerra, temos sempre tragédias para apresentar. Também é interessante que no meio dessa tragédia toda haja uma história como esta. O que acontece é que as forças da Federação Russa, quando dinamitaram a barragem de Nova Kakhovka, fugiram e deixaram as populações em cima dos tetos. Do lado ucraniano do rio Dnipro, as pessoas foram imediatamente recolhidas e salvas pelos serviços de proteção civil. Isso não aconteceu na margem esquerda do Dnipro, onde as pessoas ficaram em cima dos telhados durante muitos dias. Ora, alguns voluntários do lado ucraniano, uma vez que as forças russas tinham fugido, resolveram atravessar o rio para ir buscar estas pessoas. Eram pessoas ucranianas que tinham ficado do lado errado do rio, em função da situação militar, que estavam em cima dos telhados e que foram recolhidos por estes barcos que vieram da outra margem do Dnipro. Uma história de coragem, sem dúvida, que acaba bem, pelo menos para estas pessoas.
Entretanto, o presidente bielorrusso Lukashenko convocou um conjunto de jornalistas para anunciar que estava prestes a receber as armas nucleares táticas prometidas pela Rússia e até ameaçou usá-las contra quem invadisse a Bielorrússia. Ele é mesmo dono dessas armas ou estamos perante uma verdadeira cortina de fumo?
Há duas coisas que Lukashenko parece não saber. Primeiro é que ele não é dono das armas e o segundo é que ele também já não é dono da Bielorrússia. Há dois aspectos aqui que são importantes. E isto tem a ver também com esta situação deste conjunto de armas. Primeiro, eu tenho uma grande dúvida. Se, na verdade, a Federação Russa vai colocar ogivas nucleares lá. Porque uma coisa é colocar os meios de lançamento, quer a parte dos meios aéreos que permitem lançar, quer os mísseis balísticos que o permitem fazer. Isso é visível, é aquela parte que é visível, que pode ser mostrada nas televisões. Se do lado de dentro vai haver ogivas nucleares, isso é que eu também já não sei e teremos que esperar por melhores confirmações. Ele vai receber, pelo menos, um conjunto de coisas que pode mostrar para a imprensa. Simplesmente, ele não recebe os códigos. Por que ele não recebe os códigos? Não recebe os códigos por causa de um tratado já relativamente antigo, que é o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Basicamente, os Estados Unidos e a Rússia comprometeram-se em não criar novos Estados nucleares à volta do mundo e, portanto, não fornecer equipamentos que permita tornar, de repente, um Estado autônomo num novo Estado nuclear. Ora, os Estados Unidos têm sistemas destes instalados em vários países europeus. Simplesmente não forneceram os códigos, isto é, os países europeus não são autônomos na utilização destes equipamentos nucleares. E aqui também acontece a mesma coisa. A Rússia apenas desloca os seus, não são os de Lukashenko, são os seus meios nucleares para território da Bielorrússia, mas não fornece os códigos. A Bielorrússia não é dona destas armas e não tem autonomia nenhuma para as poder utilizar. Interessa também aqui verificar por que a Rússia faz isto, porque isto é uma manobra que vamos seguir. Posso estar enganado, também me engano muitas vezes, mas eu já estou a ver este filme, já estou a ver esta cena. Por que estas armas foram para a Bielorrússia nesta altura? Por causa da Cimeira de Vilnius. A Cimeira de Vilnius é na Lituânia, fica muito perto da fronteira com a Bielorrússia e, portanto, a necessidade de ter estas armas nucleares apontadas a Vilnius, operacionais antes da Cimeira de Vilnius, que é agora, em 10, 11, 12 de julho, coincide exatamente com este timing da colocação. Por quê? Porque agora o que vai acontecer nas televisões russas é que todas aquelas pessoas que são convidadas para dar a sua opinião, de forma como nos devem destruir a nós, os ocidentais, vão dizer: "Há aqui uma belíssima oportunidade. Os líderes mundiais estão todos ali em Vilnius, reunidos na mesma sala, e nós temos todas as armas táticas nucleares disponíveis do lado de cá e, portanto, vamos utilizá-las e acabar, resolver este problema". E Putin vai aparecer e dizer: "Não, eu sou um homem responsável. Eu tive a oportunidade de o fazer, mas não o fiz. Escolhi não fazer". Esta é a primeira manobra que vai acontecer. A segunda manobra também é interessante. A segunda manobra tem a ver com a deposição de Lukashenko. O problema é que Lukashenko é a figura mais fraca de toda esta aliança e de toda esta conceção geoestratégica da Federação Russa. Se Lukashenko cair, vai haver aqui um problema. Ora, deixa de haver um problema se houver armas nucleares da Rússia em território da Bielorrússia, porque a Federação Russa vai dizer o seguinte: "Existe o perigo destas armas passarem para a mão de grupos terroristas. Há aqui uma questão de segurança nuclear que importa fazer e, portanto, a Federação Russa considera-se no direito de colocar forças militares no território da Bielorrússia para que estas armas não caiam nas mãos erradas". Eu posso estar enganado, mas eu estou a ver este filme com muita clareza. E isto já tem a ver com a sucessão de Lukashenko. Garantir que existe uma boa desculpa internacional para as forças russas tomarem conta da Bielorrússia, no caso de haver um desaparecimento súbito de Lukashenko.
General, Prigozhin tem andado fora do nosso ponto de mira, mas hoje regressa em grande estilo desafiando mais uma vez o Ministério da Defesa e avisando que os soldados da Wagner não vão obedecer à directiva para que todos os corpos de voluntários assinem um contrato com o Ministério da Defesa. General, vão ou não assinar?
Ele regressa, e regressa realmente em grande estilo, porque Prigozhin está, neste momento, numa posição relativamente frágil. E eu explico por quê. Ele tinha uma posição predominante, fundamental para assegurar a vitória de Bakhmut. Simplesmente, isso já passou, isso já é parte do passado e, portanto, ninguém podia tocar em Prigozhin enquanto Bakhmut não fosse conquistada.
Agora que está.
A partir do momento em que está conquistada e que as forças de Prigozhin foram substituídas por forças do Ministério da Defesa russa, Prigozhin perdeu o valor que tinha. Ele sente isso, que do ponto de vista político, a sua posição é mais frágil. Ora, o Ministério da Defesa, que sabe muito bem ler estas questões também das fragilidades, entendeu que este era o momento adequado para colocar Prigozhin numa posição muito difícil. Qual é o racional do Ministério da Defesa russa? É que não pode haver combatentes na frente, só descobriu isto 14 ou 15 meses depois , que não estejam, de alguma maneira, ligados aos sistemas de proteção social, para o caso de ser necessário pagar indenizações, recuperação através de tratamentos, etc. Ora, isto não acontecia, porque não havia nenhuma ligação formal entre estes grupos de voluntários e o Ministério da Defesa. Portanto, o Ministério da Defesa encarregou-se de, nesta fase de fraqueza de Prigozhin, em que Prigozhin já não é um elemento fundamental e necessário, de encontrar aqui, através de um decreto, uma forma de ainda tornar Prigozhin, colocá-lo numa posição ainda mais frágil. E, portanto, obriga a que até o dia 1 de julho, nós estamos muito longe, vamos ver o que é que acontece até lá, teremos certamente a oportunidade depois de comentar isto, todos os grupos voluntários têm que assinar um contrato com o Ministério da Defesa. Isto significa o quê? Significa que o vínculo que existia entre os combatentes da Wagner e Prigozhin fica agora interrompido pelo vínculo que liga os combatentes ao Ministério da Defesa. Isto é, de alguma maneira, Prigozhin acaba por também perder o controle sobre aquilo que era a sua grande arma. Prigozhin, até agora, era o homem também que sustentava as suas ambições de natureza política na Federação Russa, através do fato de dispor de um exército que obedecia inteiramente às suas ordens e que estava disponível para morrer em nome dele e em nome da Federação Russa. Ora, a partir do momento em que estes soldados ganham outros vínculos ao Ministério da Defesa, também diminui consideravelmente aquilo que é o poder de Prigozhin. Portanto, vamos esperar agora pelo dia um para ver se eles assinam ou se não assinam pelo Ministério da Defesa e em que posição fica Prigozhin.
General Álvaro Namorado, muito obrigada por mais um "Domínio da Guerra".
Foi um prazer.
Gostamos sempre de te ter conosco. Até sexta. Muito obrigada.
Bom fim de semana para todos.