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E já que está conosco, o Pedro Jorge Castro, diretor adjunto do Observador, para avaliar as glórias e as misérias da semana e desvendar duas histórias mais antigas que nos deixam sempre curiosos. Pedro, sendo esta rubrica meio da semana, escolhes acontecimentos ou figuras de quando a quando? De quinta à quarta?
Olha, ainda só vamos na terceira semana disto, mas eu já me começo a habituar a esta coisa muito perigosa de dividir tudo à volta entre esplendor e infâmia. Exemplo, estar aqui convosco, esplendor.
Claro.
Lista de prendas que ainda falta tratar para o Natal, infâmia.
E depois há coisas que vão muito rapidamente do esplendor à infâmia, veja-se o caso do Sporting.
O Porto também não pode falar muito, não é, Miguel Ribeiro?
É melhor deixarmos essas infâmias desportivas fora da nossa tarde política. Vamos começar pelo esplendor da semana . E venha lá esse esplendor, qual é que nos trazes hoje, Pedro?
Para começar, o esplendoroso David Bowie. Quem é que não gosta disto? Põe aí, Miguel.
Aí vai .
Este é o "Heroes", cantado ao vivo no Live Aid, em 1985. Tem este verso "I will be king" e assenta bem em Mário Soares, que conseguiria ser eleito presidente da República no ano seguinte.
Que jeito daria agora a quem está na rua com frio o sobretudo verde de Freitas do Amaral?
Daria mesmo. Ele perdeu essa eleição de forma dramática, mas ganhou a imagem marca do homem do sobretudo verde. Bowie também canta que podemos ser heróis só por um dia, que é o refrão desta canção, mas Mário Soares, que teria feito agora 100 anos, no passado sábado, foi herói em vários dias da sua vida. Alguns desses dias esplendorosos vão ser aqui recordados por alguém insuspeito.
O papel incontornável do homem que marcou também o 25 de Novembro, que nos impediu, e lutou por isso, de ter uma ditadura de sinal contrário, marcada pelo apoio da União Soviética e por um homem que deu os primeiros passos na Europa por parte de Portugal.
20 segundos de André Ventura, de ar contrariado, na sessão parlamentar que assinalou os 100 anos de Mário Soares. No total, a intervenção do líder do Chega durou oito minutos e 20 segundos, portanto, isto está um bocadinho desequilibrado, mas nem André Ventura escapou a reconhecer qualquer coisa de positivo na ação política de Mário Soares. Apesar de tudo, eu acho que ganha pontos por ter estado presente na sessão, em vez de faltar, como fez o PCP, para protestar sobre o 25 de Novembro.
Pois, mas o resto do discurso foi muito violento contra Mário Soares.
Violentíssimo, claro, e nem sempre limpo. Aliás, uma figura com a longevidade política de Mário Soares não poderia ser só esplendores, as vidas não são preto e branco. É tudo um bocadinho mais complexo do que isso.
Então o esplendor vai exatamente para quê?
Achei esplendorosa uma resposta aos ataques de André Ventura escrita por um neto de Mário Soares. Jonas Soares, que é um youth, é um jovem, na sua página de Facebook, e que se tornou viral nas redes sociais esta semana.
Nessa resposta, Jonas Soares, que é filho de João Soares, desmonta algumas das acusações de André Ventura, que chama traidor a Mário Soares, responde à questão da descolonização, esclarece um mal-entendido sobre a frase "em caso de emergência atiraremos sobre os colonos brancos" e contextualiza a frase "ó senhor guarda, desapareça", dita durante uma presidência aberta pelos transportes públicos. O que destacas dessa resposta, Pedro?
Também tinha jeito para mandar desaparecer um guarda, Vanessa .
Pois eu se calhar não .
Mais do que o conteúdo, que tu resumiste aqui tão bem, destaco o tom, que é incrivelmente sereno. É por escrito, o que ajuda sempre, ou quase sempre, à sensatez. Mas a resposta, que podia ser carregada de mágoa ou desconforto de um neto, a defender orgulho o avô, tem, na verdade, uma elevação e um tom de tranquilidade que contrasta muito com os discursos inflamados de André Ventura a gritar vergonha por tudo e por nada.
Um sinal de que o neto de Mário Soares tem futuro político, Pedro?
Isso é cedo para dizer, mas pelo que o próprio contou à TV este fim de semana, numa entrevista, o avô prometia-lhe que ia torcer pelo Benfica se ele adrisse ao PS, e a coisa está complicada. Aliás, o neto identifica-se no seu texto no Facebook como um jovem de direita convicto nos valores conservadores. Portanto, se for político, não me parece que vá pelo Partido Socialista.
Pedro, numa figura com tanta atividade política, presumo que o difícil tenha sido escolher um episódio do baú.
Verdade, Vanessa. Numa figura com tanta paixão pela política, envolvido em campanhas eleitorais quase até ao fim da vida, achei interessante trazer aqui o estendedor da primeira campanha de Mário Soares. Ele tinha 24 anos, isto foi em 1949, quando foi o secretário do general Norton de Matos, que nesse ano se candidatou à presidência da República. Durante a campanha, o candidato recebia Mário Soares todas as manhãs, ainda deitado na cama, no seu apartamento da Lapa, enquanto lia The Times. Lá ia o jovem secretário Mário Soares encontrar-se com o general à cama. Foi Mário Soares que falou com Júlio Pomar, na altura, ainda muito jovem também, para fazer o desenho de Norton de Matos para os cartazes de campanha, que eram vendidos a R$ 0,50 e acabaram por ajudar a financiar a propaganda.
E em 1949 eram permitidos comícios?
Eram permitidos desde que terminassem à meia-noite. Mário Soares até contou que numa sessão no Teatro Avenida, em Coimbra, ainda faltava falar muita gente, muitos oradores, quando estava a aproximar a meia-noite e o próprio Mário Soares, que estava a dirigir a sessão, pediu ao representante da autoridade que deixasse continuar esta ação de campanha por mais meia hora. A autorização foi concedida e Mário Soares, do palco, pediu uma salva de palmas para o representante da autoridade.
Ainda faltavam uns oito anos para nascer a RTP. Como é que se chamava a atenção dos eleitores nessa altura?
Com criatividade e irreverência. Uma das ações mais surpreendentes desta candidatura foi comprar metade dos bilhetes para uma peça no Teatro Nacional e distribuí-los por apoiantes do candidato, de graça, que depois o ovacionaram no intervalo da peça de teatro. Isto para fazer parecer que era tudo espontâneo, mas esta aclamação fabricada foi depois notícia no jornal República no dia seguinte.
E como é que esta primeira campanha de Mário Soares acabou, Pedro?
Acabou com uma traição. Muita gente diz que o Soares foi traidor noutros contextos, mas aqui o início da sua carreira política fica de fato marcado por uma traição. Ele era, na altura, militante do PCP e o controleiro dele, assim que soube que ele era o secretário do candidato Norton de Matos, deu-lhe instruções para lhe comunicar que passava a ser o representante do PCP junto da candidatura. Só que o general não sabia que o seu jovem secretário era militante comunista e ficou muito desiludido. Nunca mais recebeu Mário Soares e proibiu-o mesmo de ir ao comício do Porto Quanto a Norton de Matos, desistiu antes de ir a votos e acabou por ser reeleito o presidente Óscar Carmona.
Histórias curiosas de uma figura central da vida política portuguesa do século XX. Pedro, vamos agora à infâmia?
Lá terá de ser.
Pedro, esta semana no segmento da infâmia queres falar da situação na Síria, onde esta semana caiu o regime de Bashar al-Assad. Começamos com banda sonora. Escolheste este "Freedom" do George Michael. Arranjas sempre maneira de nos pôr aqui a dançar. O fim de uma ditadura não é esplendoroso. Porque é que aqui aparece na infâmia?
É esplendoroso, mas na verdade é cedo para sabermos se o que aí vem a seguir é ou não esplendoroso. Depende muita coisa que ainda estamos para ver. Basta recordar que ainda há pouco tempo vimos cair o regime no Afeganistão, abriu-se uma janela de esperança e depois rapidamente se verificou um retrocesso nos direitos das mulheres. Se o esplendor é uma incógnita em aberto, a infâmia do regime de Assad é uma certeza.
Tens uma afinidade especial por este tema, porque tiveste a oportunidade de fazer a reportagem durante a crise dos refugiados imigrantes em 2015.
Sim, foi noutra vida. Eu trabalhava na revista Sábado na altura, mas as histórias continuam comigo. Na altura consegui ter conversas mais longas com alguns refugiados sírios na fronteira entre a Sérvia e a Croácia, que era parte do percurso por onde eles estavam a vir. Chegavam depois das viagens nos chamados barcos da morte, onde ainda hoje continuam a morrer pessoas no Mediterrâneo. Um dos refugiados com quem falei na altura era um livreiro que foi torturado na prisão com choques elétricos. Fez toda a travessia de Bengala com uma perna engessada e com um tablet cheio de documentos clínicos e raios-X para mostrar e comprovar precisamente essas torturas de que tinha sido vítima. Com a ajuda de um irmão, ele fugiu tanto do Estado Islâmico como da polícia do regime de Assad. Outra história que me fez muita impressão foi a de um bebé de 10 meses, Youssef, que fugiu da Síria com os pais e foi submetido a todas as atribulações de uma viagem destas. Eles para não morrerem no país ou para não correrem o risco de morrer no país, arriscaram a morte em mar alto. Ainda hoje mantenho contacto com os pais, que hoje vivem na Alemanha e não tencionam voltar à Síria, pelo menos nos próximos meses, enquanto não veem o que isto vai dar. O pequeno Youssef já tem 10 anos hoje e está a ter uma vida seguramente muito diferente, para melhor, do que se tivesse continuado na Síria ao longo deste tempo. Vamos continuar a acompanhar com muita atenção os desenvolvimentos no país, agora que se livrou de Assad, que fugiu para Moscovo.
Também tens um baú que relaciona Portugal e Síria precisamente. O que é que encontraste?
Na verdade, dois baús.
Que fartura!
O primeiro é sobre Leonor Belo, que era uma senhora muito devota, que trabalhava no SNI, o Secretariado Nacional da Informação, isto durante o Estado Novo, e escrevia a Salazar a contar as suas viagens a Israel e à Síria. Ela recebeu instruções do Bispo de Leiria para tentar ajudar a construir um santuário de Nossa Senhora de Fátima em Damasco, a capital da Síria. Com um grupo de oito senhoras, conseguiu mobilizar donativos de 3300 pessoas, de 25 nacionalidades e sete religiões, para a obra avançar. A notícia do arranque da obra saiu no jornal Novidades, que era um jornal afeto ao regime, em 1965, escrita pela própria Leonor Belo. É estranho escreveres tu mesmo as notícias sobre as tuas obras. E então a notícia dizia: "A pequenina pedra de Fátima enviada para a Síria envolta na bandeira de Portugal é colocada na argamassa misturada com água de Fátima e Lourdes." Segundo a mesma notícia, que é fidedigna, seguramente, porque foi escrita pela própria. A obra iria custar 2000 contos e os donativos para o arranque já iam em 100 contos.
Tendo em conta a inflação desde 1965, isso hoje valeria quanto em euros?
Qualquer coisa como 40 mil euros a preços atuais. Este santuário de Fátima em Damasco foi mesmo inaugurado a 3 de outubro de 1968 e, segundo o Departamento de Estudos do Santuário de Fátima, informou aqui o Observador, ainda existia em 2006, mas não conseguimos perceber se ainda resta alguma coisa deste santuário ou se foi de alguma forma afetado pelos conflitos armados na região.
Dizias ainda que tinhas outro episódio do baú a ligar Portugal à Síria.
Sim, este é um bocadinho mais leve para terminar. Eu não sei como é que vocês fizeram para pagar a vossa lua de mel.
Eu não fui.
Eu não casei.
Uma grande dificuldade de respostas. Estejam à vontade para não responder. Eu tive a sorte de ter a minha oferecida pela avó dos meus filhos mais velhos.
Sorte!
Exatamente. Mas se eu não tivesse dinheiro, eu não sei se ia ter a lata para fazer o que fez o cidadão sírio, Zareh Shainian. Eu espero não estar a pronunciar mal o nome.
O que é que ele fez?
A 30 de março de 1964, a partir de Damasco, ele escreveu diretamente a Salazar a anunciar que se iria casar daí a dois meses e que gostaria de passar a lua de mel em Portugal. Mas, escrevia ele: "Não me posso oferecer esse luxo. Seria muito amável se encontrasse uma solução." Se encontrasse Salazar. E depois ainda acrescentava com alguma noção: "Esta carta pode parecer estranha, mas peço que não me deixem resposta."
Isso é muito bom. E teve resposta.
Teve mesmo. Uma resposta oficial do gabinete de Salazar a dizer que o ditador achou muito simpático o desejo de passar a lua de mel em Portugal e a informar que teria muito prazer em proporcionar ao casal sírio a estadia numa das pousadas de Portugal durante cinco dias. Não é incrível?
É muito incrível.
É incrível, sim senhor. Sempre surpreendentes as histórias que o Pedro Jorge Castro resgata do baú a partir da atualidade. Termina assim mais um episódio de "O Splendor e a Infâmia". Vamos voltar na próxima semana, sempre às quartas-feiras.