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Aqui estamos nós para esta edição de "O Esplendor e a Infâmia", com Pedro Jorge Castro, que não tem microfone ligado, passou a ter. A maravilha da rádio. Pedro, vais começar pelo esplendor?

Desculpa, eu estava aqui a jogar o jogo do Observador da Joana Marques contra o Azêdo. Já jogaram ou não?

Já joguei.

Já jogaste? Quanto tempo aguentaste?

Muito pouco. Não vou dizer, porque já sei que o Miguel aguentou mais de dois minutos.

Fizeram um campeonato interno. Quanto tempo aguentaste, Miguel? Diz lá.

Foi praticamente dois minutos que consegui aguentar. Não consegui precisar o tempo, mas achei interessante. Fiquei ali um bocadinho a olhar para o jogo e a perceber qual é o objetivo aqui. A primeira vez perdi logo, porque não percebi que era suposto atirarmos piadas.

Não leste as instruções? Espera aí.

Li, mas estava à espera que fosse de outra forma. E depois quando percebi o jogo: "Ok, vamos a isto". E diverti-me.

Bom, aguentaste mais do que eu. Mas ainda só joguei três vezes, portanto vamos fazer um campeonato destes. E seguramente menos tempo do que aquele que passámos a rir com aquilo que aconteceu no julgamento.

Sim. Então, mas é sobre o julgamento que queres falar? É o que tem de esplendoroso este processo? Não, é Santos Silva, não é?

É mesmo Santos Silva.

Não é candidato à Presidência da República, esclareceu hoje por volta da hora de almoço que decidiram avançar. Considera que não iria representar uma candidatura que pudesse ser agregadora. O que é que há aqui de esplendoroso, Pedro?

De esplendoroso há precisamente isso, para começar: a humildade que teve de reconhecer que não tinha condições para protagonizar uma candidatura abrangente, nas palavras do próprio. Mas há ainda outra que é o bluff, o fingimento ao longo de tanto tempo que teve para pensar nisto e para manter esta dúvida no ar sobre se iria ou não iria ser candidato. O que me fez logo lembrar de uma música muito conhecida, que temos aí dois versos. Passa aí, Miguel.

É o grande fingidor?

Exatamente. The Great Pretender, exatamente, é isso mesmo. Caramba, já estamos a falar de presidenciais há muito tempo. Há muito tempo dentro desta corrida, no sentido de, como ele diz, não de ser candidato, mas de manter a disponibilidade. O que é que ainda havia mais para pensar? Pelos vistos, eu acho que ele precisava de mimos. E então passou estes cinco dias a ligar a pessoas e concluiu por tudo aquilo que aconteceu. E aquilo que aconteceu, entretanto, foi muitas críticas, muita gente a recordar o seu cadastro político, se calhar vou chamar assim, cadastro de polémicas e de broncas, de tiradas escandalosas, de certa forma. E no fundo, tudo aquilo junto não dá um bom currículo de um candidato presidencial. Lamento imenso. Eu juro que tentei procurar o currículo positivo, digamos assim, porque isto tem sido uma tarefa tão grande. Não é possível ser o homem que governou mais tempo a democracia em Portugal e não haver um currículo de feitos meritórios que tenham influenciado e melhorado a nossa vida e que deem elementos para equilibrar tantas polémicas que foram elencadas por tanta gente ao longo dos últimos tempos, incluindo por Miguel Morgado na sua estreia como cronista aqui no Observador no passado domingo. Estou a fazer muita propaganda a coisas do Observador, peço desculpa.

Não é portanto para ti propriamente uma surpresa que Augusto Santos Silva, em função dessas críticas que estão a não sendo escutadas e lidas, tenha decidido não avançar.

Sobretudo a partir do momento em que eu acho que ele estava à espera de uma vaga de fundo qualquer que não há, tal como não houve antes, tal como ele é o último classificado em todas as sondagens que foram feitas até aqui, eu não percebo é sequer qual é a surpresa.

Ou a dúvida.

Mas do próprio. Ele já não devia precisar disto, portanto, para que foi passar por isto mais estes cinco dias a criar um grande acontecimento? Lá fui eu hoje à hora do almoço, à 13h20, ver a entrevista em direto, por curiosidade. Senti todo o povo também a parar o que estava a fazer para ir sintonizar o noticiário da RTP da hora do almoço. Ávido de curiosidade para perceber se viria dali o candidato. Estou a brincar, obviamente, ninguém quer saber, tirando o país político e provavelmente mais por curiosidade do que por outras coisas, porque na verdade uma das consequências que ele diz que a sua candidatura teria é que seria divisiva, mas a não candidatura também é divisiva. Porque aquilo que ele propõe, diz que nenhum dos que estão serve, nenhum dos três, quatro candidatos assumidos serve. E diz que ele não, que não tem condições para uma candidatura abrangente, props para Augusto Santos Silva por isso, mas então quem é que deve ser? Não é mais ninguém de partido nenhum, deve ser então uma figura da sociedade civil. Eu imagino, ele diz que esteve a fazer vários telefonemas, portanto isto leva-me a deduzir que um dos telefonemas que ele fez foi para Sampaio da Nova. Parece encaixar aí ou então virá aí uma grande surpresa.

Que esta semana disse que não está a ponderar uma candidatura a presidente da República.

A chamada deve ter sido depois de Sampaio da Nova ter dito precisamente que não está a ponderar candidatura nenhuma. Se vier assim tão puxado pelos cabelos e depois de uma chamada de Augusto Santos Silva, e depois de já ter sido candidato e também com o resultado que sabemos, não foi assim um grande resultado na hipótese que teve Também não tenho a certeza que seja uma candidatura vencedora, embora perceba aquilo que Augusto Santos Silva diz, que há muita gente que não encontra um candidato onde se possa rever e isso pode levá-lo aqui. Fui à procura de méritos políticos de Augusto Santos Silva, não encontrei. Fui pedir ajuda à imprensa social, que me respondeu com o currículo dele, com os cargos que ele ocupou, e eu pus-me a perguntar: "Fez mesmo alguma coisa de jeito politicamente?" E eles inverteram os cargos, dizendo aquilo que tinha feito nos vários cargos ou que tinha acontecido nos vários cargos enquanto ele estava lá. Mas é um homem inteligente. Uma das respostas à pergunta é aquela premissa da condição necessária e da condição suficiente, que só um filósofo é que poderia utilizar estas duas premissas para responder a uma pergunta sobre a sua candidatura presidencial e a forma como isso, ou a sua não candidatura, e a forma como isso vai influenciar tudo aquilo que vai acontecer. Continua um problema grande, acho eu, nas mãos de José Luís Carneiro, de certa forma, porque há muita gente que já teceu largas críticas a António José Seguro. Não estou a ver que de repente o venham a apoiar ou que esse apoio seja genuíno. Parece que está a ser cozinhada qualquer coisa. Vamos ver se é Sampaio da Nova ou quem será.

A ideia paira é essa. Ouvindo Augusto Santos Silva, ainda há pouco escutámos esse registo aqui na Rádio Observador, no noticiário, fica a ideia de que ele sabe alguma coisa que nós ainda não sabemos de alguém que pode aparecer no meio do nevoeiro.

Se não aparecer Sampaio da Nova, nem nenhum candidato credível nos próximos dias, então é tudo uma inutilidade. A única maneira de fazer sentido esta intervenção dele é estarem a haver diligências no sentido de convencer alguém que esteja renitente a avançar e que tenha algum peso. Nem sequer é para ganhar, é para ter alguma hipótese. Mas também não há assim tanta gente, infelizmente, não há assim tantas figuras com peso para ainda virem influenciar e mexer nisto, com peso e com vontade. Acho que a principal coisa é essa. Isto é uma coisa tão trabalhosa, tem tantos incômodos, que para virem que venham com vontade, que não venha ninguém fazer um frete. Isso dispensamos, sinceramente. Pessoas que venham com frete, que não estão para aturar jornalistas, que não estão para aturar os eleitores, acho que ninguém precisa disso, nem como presidente, quanto mais como candidato.

E vamos agora passar para a infâmia. Mas antes da infâmia, deixe-me só dar aqui conta aos nossos ouvintes da esplendorosa passagem à terceira eliminatória do torneio de Wimbledon de Nuno Borges, que acaba de conquistar o terceiro set. Segue assim em frente o tenista português. Agora a tempo, reparaste que fiquei aqui a falar. Estavas para entrar ainda naquele segmento.

Aliás, eu julgo que Nuno Borges resolveu acabar o jogo para coincidir precisamente com este esplendor e infâmia e com este segmento esplendor. Então e depois do esplendor, vamos lá à infâmia.

Na infâmia, Pedro, queres debruçar-te sobre a RTP? Hoje temos este artigo de António José Teixeira no jornal Público. Tenta rebater a ideia da quebra de audiências da RTP3 e deixa também no ar que por alguma razão, até agora por explicar, se quis interromper o trabalho que estava a fazer na direção da RTP.

Vamos falar melhor disto embalados aí por uma música dos Florence and the Machine. Temos muita gente aqui a bater em muita gente, com beijinhos, sim, mas a bater. Pelo menos um triângulo, então António José Teixeira, isto é em resposta a Nicolau Santos, que foi quem o demitiu, que já anda também num bate-boca com Pedro Adão e Silva, antigo ministro da Cultura. E é muito interessante vermos que chegamos a esta desavença e as pessoas estão finalmente a dizer uma série de coisas que se calhar não diriam de outra forma. Então sim, as audiências da RTP3, no caso, que é o pretexto invocado para mexer nisto e se baixaram ou não baixaram, se as audiências têm aumentado ligeiramente ou não, eu creio que as audiências mesmo com aumentos ligeiros, são manifestamente baixas. Há muito pouca gente a ver a RTP3, como aliás os outros canais noticiosos. O problema é que a RTP3 é ainda menos vista, isso tendo em conta que a RTP é paga por todos nós, custa-nos a todos mais. Nós damos cada um, em média, 20 e tal euros por ano para pagar a RTP, logo aqui já são quase 100 €. Como todos vemos televisão, é ainda pior do que no futebol. Todos achamos que dávamos bons presidentes do conselho de administração da RTP e achamos que seria muito fácil cortar gorduras naquilo que é feito na televisão pública. Todos achamos que devia ser mudado este ou aquele programa, ou não percebemos porque é que se paga tanto a esta ou àquela pessoa. Sim, há aqui uma questão política, no entanto, e Pedro Adão e Silva tem falado dela com alguma pertinência, que é: nós não sabemos se houve um pedido expresso em surdina, feito em surdina pelo governo ou pelo primeiro-ministro, ou seja por quem for, ao conselho de administração da RTP para afastar a direção de informação ou o diretor de informação, mas sabemos que houve esse pedido feito às claras. De variadíssimas formas, a hostilidade de Luís Montenegro com a RTP foi visível em vários momentos.

Na campanha foi clara.

Portanto, não há dúvidas sobre isto. E qual é o problema, então? Isso deve ou não deve condicionar, de alguma forma, uma eventual decisão sobre o afastamento de uma direção de informação. Também temos aqui o risco oposto, que é: há uma crítica, então agora ninguém mexe. Fica garantido para a vida, enquanto tiver Luís Montenegro, este diretor também não vai à vida, porque senãoVai sempre aparecer que é uma existência a uma pressão pública feita pelo primeiro-ministro. Na verdade, é isso que tem invocado, de certa forma, Pedro Adão e Silva nos artigos que tem escrito no público. E sim, na verdade, está a dar razão. É aquilo que aparenta. Haverá sempre pessoas a fazer esta ligação e ela de certa forma é legítima. Nós não conseguiremos dizer que Nicolau Santos tomou esta decisão por causa das críticas do primeiro-ministro, mas há uma sequência cronológica que faz com que uma coisa tenha acontecido depois da outra e que pode levar as pessoas a pensar: "Espera aí, então se o primeiro-ministro critica e hostiliza um determinado canal, o canal público, o seu diretor fica imediatamente em risco", quando devia ser exatamente o contrário. Devia haver uma certa proteção contra essas questões. Tem toda a legitimidade para criticar, mas na verdade, seria mais difícil fazer essa ligação se fosse outros canais. Sendo o canal público, no limite, ele tem um poder direto de influência e de determinação sobre aquilo que acontece. Eu acho que fica mais complicado. Mas então temos aqui este bate-boca nos jornais, curiosamente. Nós já convidamos várias destas figuras a virem aqui falar. Tem havido alguma resistência, portanto há tudo com muita cautela, a discutir por escrito e na imprensa. O que é curioso, tendo a falar de uma televisão e de uma rádio também. E não estão a ir por aí, mas parece que este bate-boca ainda vai continuar, porque António José Teixeira, ao contrário daquilo que costuma acontecer em situações destas, em que as pessoas são removidas e ficam embaraçadas, aceitam que a vida segue o seu caminho, vão fazer outras coisas. Nicolau Santos queria que ele fosse fazer uma versão portuguesa do "60 Minutes" e continuasse como comentador. Ele achou que antes de começar a fazer pesquisas para esse novo programa, devia fazer aqui um ponto de honra e defender a sua dama, que é a forma como dirige a RTP nestes tempos. E deixou no ar que ainda está por explicar então quais são as razões que levaram ao seu afastamento, eliminando a hipótese ser a descida das audiências da RTP3.

A leitura dos jornais nos tempos mais próximos poderão eventualmente ajudar a perceber quais foram as razões que ditaram verdadeiramente este afastamento. E agora vamos mergulhar no baú. O que é que vais retirar do baú, Pedro?

Vou retirar do baú, estamos a falar da RTP3, vou recuar aos primórdios, aos avós, se calhar, quase da RTP3, que é os primeiros tempos do Telejornal na RTP, em 1959, só com duas ou três curiosidades, que em tempos menos vertiginosos, mas onde também aconteciam coisas e podiam acontecer coisas já depois de ter começado o Telejornal, como é que eram avisados os apresentadores, os primeiros apresentadores, que nem sequer eram apresentadores de televisão. Primeiro foram jornalistas de jornais, depois foram trocados muito rapidamente porque se percebia que não tinham ritmo de locução. Então havia um telefone em cima da mesa que aparecia na televisão e o telefone tocava e o apresentador do noticiário pegava no telefone, atendia a chamada em direto para receber a informação de última hora e atualizar essa informação perante os espetadores. Eu acho que isto é absolutamente bizarro. Houve um problema uma vez que foi passada uma informação de última hora que os administradores da RTP e governantes não gostaram, não apreciaram que fosse passada, e então acabaram com estas interferências, mas o telefone continua lá para efeitos decorativos. Também estava visível no cenário maços de cigarros que patrocinavam o programa, o que é uma coisa também muito extraordinária à luz dos tempos que passaram entretanto e do que vivemos hoje.

Episódios no baú da memória trazidos no fecho desta edição de "O Esplendor e a Infâmia", da autoria do Pedro Jorge Castro, que marca encontro consigo e conosco para a próxima quarta-feira.