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Olá, David Cristina.
Muito bom dia.
Bom dia. Então vens falar de como a juventude está perdida?
A juventude está perdida. É, venho falar disso.
Tens noção que estás perante quatro jovens aqui em estúdio?
Sim, eu próprio também sou um jovem, mas é isso mesmo. Vou dar uma de velhote e vou falar de como estes jovens de hoje estão todos desgraçados. Vou fazer uma coisa que nunca ninguém fez, que é uma geração mais velha a queixar-se de uma geração mais nova.
Exato. Nunca tinhas visto.
Nunca.
Fraturante. Fraturante outra vez.
Vou falar de dois temas que me preocupam na juventude. Em primeiro lugar, a moda dos jovens e dos cigarros eletrónicos. Não sei se já ouviram falar disto, mas agora veio-se a descobrir que está a causar toda a forma de falecimento entre os utilizadores. É um problema muito grave. Acho que este é o momento apropriado para dizer de uma vez por todas aos jovens que têm de parar de fumar cigarros eletrónicos.
Parece-me uma sugestão muito sensata.
E começar a fumar cigarros a sério.
Pronto, estava enganada. Claro. É uma sugestão parva. Porque é que estás a recomendar aos jovens que fumem cigarros a sério, David Cristina? Por quê?
Para começar, isto tem que ficar claro, fumar, antes que eu seja preso, qualquer tipo de cigarros é uma imbecilidade, porque cancro e doenças respiratórias são muito desagradáveis. Olha o James Dean, fumava imenso e morreu super cedo.
O James Dean morreu num desastre de automóvel, David Cristina.
Morreu num desastre de automóvel enquanto acendia um cigarro. Disso ninguém fala. E mais, sempre me disseram que beijar uma mulher que fuma é como lamber um cinzeiro. Não é, já agora, aprendi da pior maneira, esta expressão não deve ser tomada de forma literal.
Isso é um contrário teu.
Eu gostava era de saber, não sei se o contrário, não é?
Pois, eu experimentei e vou-vos dizer, a mulher é francamente superior ao cinzeiro, mesmo fumando. Eu não advogo que se fume, mas, e este é o ponto, é verdade que os cigarros analógicos dão cancro, mas ao menos são cool, são fixes. Os cigarros eletrónicos era suposto serem seguros e o preço a pagar era parecer que estamos a chupar uma caneta Bic. Agora veio-se a descobrir que também matam pessoas. Isto é o pior dos dois mundos.
Meu Deus. Eu agora até tenho medo de perguntar, mas tinhas um segundo tema, não era?
Sim, o segundo tema.
Vamos avançar?
Sim, é ainda mais dramático. Atenção, pausa para suspense. Livros de histórias infantis. Eu sei, isto está agora muito pesadíssimo. Porque parece que houve uma grande barafunda há uns dias atrás, até acho que foi ontem. À volta de um livro infantil, mas que é completamente inapropriado para crianças. É uma coisa nova. É um livro de literatura adulta chamado "As Gémeas Marotas". Só pelo título, uma pessoa desconfiava logo. É um clássico.
Ninguém foi ao engano numa coisa destas.
É um clássico deste tipo de literatura para adultos. Tipo, "Colegiais Trapaceiras" ou "Enfermeiras Intrujonas". Pois bem, o que aconteceu foi que houve um cavalheiro na história, ou uma cavalheira, não sei, que fez um livro com desenhos semelhantes aos livros da coelhinha Miffy, que é um clássico de literatura infantil. Eu leio isso ao meu filho. Só que ao invés da Miffy ir andar de bicicleta pelo bosque ou ir comer uma bolacha com a sua tia Alice, aquilo é um deboche, que eu nem vou dignificar com uma descrição, porque isto é uma rádio séria de informação.
É verdade, e a ASAE, que também é séria, e não de informação, apreendeu os livros, não é?
Apreendeu os livros. Sim, apreendeu os livros e fez muito bem. E aqui é que começou a controvérsia na internet, porque apareceram logo aquelas personagens da internet indignarem-se, porque isto é censura. A sério, como é que eles têm energia para estarem sempre indignados? Que canseira! Eu quando me indigno um bocadinho no restaurante, fico logo com o dia estragado, passo o dia a ganhar discussões com o empregado na minha cabeça.
Não deves ser o único.
Isso é tão George do Seinfeld.
Eu devia-lhe ter dito, eu disse. E vocês sabem, aqui, que eu defendo a liberdade de expressão, claro, porque senão os bajardas que eu digo era logo um dos primeiros a ir preso. Mas, neste caso, eu não acho que seja apropriado mostrar este tipo de coisas a crianças pequenas. E só quem não percebe isto é quem não é pai.
Claro, e tu como pai não queres que os teus filhos se enganem e vejam conteúdos sexuais de repente, não é?
Ó Carla, não é bem isso. Eu não quero é ter que lhes responder às perguntas depois.
Isso é muito pior.
Isso é o pior que há. Não há pior do que ter essa conversa com os filhos. Eu fui educado pelos meus pais a fazer de conta que esses temas não existiam. Não existiam, é assim que deve ser. O meu filho de dois anos um dia perguntou-me porque é que a mana era diferente ali embaixo. E eu disse: "É igual, vai crescer mais tarde."
Mas, David, tu como é que esperas que eles aprendam, se calhar?
Com os colegas, que foi como eu aprendi. Com um bocadinho de informação aqui, um bocadinho de informação ali. Eu até aos 12 anos achava que os bebês vinham do umbigo das mulheres e ainda não estou completamente convencido que não é esse o caso. Quando eu era pequeno, havia histórias infantis como deve de ser, sem nenhuma dessas coisas, deste deboche, destas conotações, destes inuendos de cariz sexual. Ainda me lembro do livro do António Mota, eu gostava muito do António Mota, "A Gaita Maravilhosa". Li-o tantas vezes. Aquilo é uma coisa completamente inocente. E pouco depois, isto é tudo verdade, o António Mota publicou ainda um outro livro infantil chamado "O Nabo Gigante".
Vou-te dizer que é literatura obrigatória. É um livro obrigatório no sexto ano.
Isto é que é. Isto não chateia ninguém. Agora, estes jovens, depois de lerem livros infantis, ainda lhes deve dar vontade de fumar um cigarro eletrónico.
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