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Se eu lhe perguntasse quais são os maiores e grandes orgulhos das exportações portuguesas, qual seria a sua resposta? O calçado de luxo do norte, o têxtil que veste as maiores marcas do mundo. São boas respostas, é certo, mas há um novo campeão na pista internacional que está a passar à frente das indústrias mais históricas. Sabia, por exemplo, que Portugal já exporta mais fruta, legumes e flores do que sapatos? É verdade, o setor ultrapassou a barreira histórica dos 2.000 milhões de euros em exportações. As nossas maçãs, as nossas peras rocha e os nossos pequenos frutos estão nas bancas dos supermercados mais exigentes da Europa e não só, estão um pouco por todo o mundo. Bem-vindos ao "O Lado B da Terra", o podcast em parceria com a B Rural. Eu sou o João Costa e Silva e hoje vamos perceber como é que o campo português se transformou numa máquina de internacionalização. Isto é um grande palavrão, mas para nos contar esta história de sucesso, recebemos Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh. Gonçalo, seja muito bem-vindo também à Rádio Observador. Quem diria que a fruta ia dar um verdadeiro safanão no calçado português? É sempre talvez aquilo que pensamos primeiro, não é o calçado como um campeão das exportações, mas importa perceber como é que chegamos até aqui.

Obrigado, João. Em primeiro lugar, parabéns por esta iniciativa conjunta com o B Rural, que acho que é muito importante para falarmos do agroalimentar português. À boa maneira portuguesa chegamos aqui. Ou seja, tivemos que ter uma crise no setor 15 anos atrás.

Sim.

Na altura, estávamos com problema de valorização, principalmente nas maçãs e nas peras, que no fundo, foram setores que desbravaram muito os mercados no início, quando começamos realmente a aumentar as exportações. E os portugueses têm esta característica: quando sentem que há um problema e há uma crise, vamos nos lá juntar, em vez de ser propriamente uma estratégia que já devia vir de algum tempo atrás. Mas também acabou por ser bom, porque nessa altura, quando começamos a unir esforços para ter uma presença internacional mais forte, mais digna, com maior notoriedade da palavra Portugal, do país, exportávamos na altura 780 milhões de euros e como bem disse, passamos os 2.000 milhões, mas em 2025 já exportamos 2,6 mil milhões de euros.

Já estamos atualizados. Temos que atualizar estes números.

Já é mais do que o triplo do valor. E este caminho foi feito no início com presenças muito pequeninas a nível dos exportadores nacionais, mesmo antes da criação da Portugal Fresh, no final de 2010, que é uma associação pra promoção das frutas, legumes e flores de Portugal, em que havia empresas que iam aos eventos internacionais com 20, com 30, com 40 metros quadrados, a dignidade possível na altura. Depois, quando começamos a unir esforços, começamos a ir com 200, 300 metros quadrados, tentar dar uma notoriedade e uma visibilidade completamente diferente ao setor. E neste momento, por exemplo, a próxima feira internacional é em Madrid, em outubro de 2026, vamos ter uma presença com mais de 840 metros quadrados e só não temos mais porque a feira já não tem mais espaço. Isto mostra bem o caminho feito pelas empresas do setor, embora o João referiu um setor que para nós temos aprendido imenso, porque o calçado português, neste momento, é o segundo melhor preço a nível mundial.

E serviu de inspiração pra vocês, não é?

Claro, e nós temos que ter essa humildade de conseguir aprender muito com setores que criaram as suas interprofissionais, e nós irmos agora atrás de setores emblemáticos da economia nacional. O agroalimentar também fez um caminho muito interessante, porque, por exemplo, a nível do peso das exportações de todo o agroalimentar na economia de bens nacionais, já são 13,2%. As exportações de bens nacionais atingiram 79.000 milhões e o agroalimentar já são 10,5 mil milhões. E por isso também demonstra bem o peso que o próprio setor agroalimentar como um todo tem nos bens da economia nacional.

E sabemos bem que não exportamos já só pra aqui ao lado, pra Espanha, onde é que um europeu ou um asiático se cruza com o sabor de Portugal no seu dia a dia?

Graças a Deus, 136 países têm a sorte de receber e poder degustar os fantásticos produtos produzidos no continente e nas ilhas. Não nos podemos esquecer que também temos produtos fantásticos, quer dos Açores, quer da Madeira, e do norte ao sul de Portugal temos inúmeros produtos. Evidentemente que destes 2,6 mil milhões, a União Europeia, A27, representa 84%. Ou seja, nós não nos podemos esquecer que estamos no mercado único, que tem 449 milhões de consumidores e que Portugal apenas tem 2,3% desses consumidores. Os portugueses também têm acesso aos melhores produtos, porque os clientes, quer seja a nível de retalho, de mercado abastecedor, quer sejam lojas de conveniência, têm as mesmas ou mais exigências do que nos outros países. Mas nós, evidentemente, que as exportações, o mercado espanhol, é a extensão do nosso mercado interno e tem um peso muito grande a nível Das exportações, mas depois França, Países Baixos, a Alemanha, que tem crescido imenso, o Reino Unido, que desde o Brexit era o nosso terceiro maior mercado, neste momento é o quinto, é o primeiro fora da União Europeia, e depois em produtos específicos, o Brasil tem uma importância muito relevante. É o principal mercado, por exemplo, para a maçã. Tem sido o principal para a pera, embora em 2025 foi o segundo, foi ultrapassado pela Alemanha. Portanto, em quase todo o mundo é possível degustar estes produtos que nós fazemos aqui com muito carinho e profissionalismo em Portugal.

E como é que nós somos vistos lá fora? É uma espécie de produto premium ou ainda estamos a caminhar para isso?

É assim, a nível dos clientes, a nível internacional, nós vamos, evidentemente, muito à procura de valorização do produto, porque Portugal não se consegue diferenciar pela quantidade, quando comparado, por exemplo, com os outros países da latitude sul da Europa, que têm uma dimensão bastante superior, se nos compararmos com uma Espanha, com uma França, com uma Itália. Mas conseguimos, nestes últimos 15 anos, que os clientes realmente procurem os produtos portugueses pela sua diferenciação. E isso é muito relevante, porque não procuram só por ser mais uma geografia de produção, mas mesmo os clientes, quando nos vêm visitar, veem o profissionalismo, veem a evolução tecnológica, a agricultura de precisão que foi começada a implementar há umas décadas atrás e veem aqui o melhor que se vê no mundo. Portanto, ao virem provar a nossa gastronomia, evidentemente que vão preferir em relação a um espanhol, a um italiano ou a um francês, porque nós temos uma oferta gastronómica completamente ímpar.

Vamos falar também, uma vez que este podcast, o "Lado B da Terra", é direcionado para os mais jovens, possivelmente estão a nos ouvir pessoas que estão a tirar ou acabaram de tirar o curso de Gestão, Economia, Marketing ou até Relações Internacionais. O Gonçalo está aqui também na gestão da Portugal Fresh. O setor hoje precisa de mais gravatas, entre aspas, ou isto mudou no setor propriamente dito, que está em crescimento e que temos também conhecido ao longo desta conversa?

Eu diria que as gravatas é um bocadinho indiferente ao gosto de cada um.

Hoje está sem gravata, confirmo.

Mas eu diria que precisa de muito mais competência, muito mais know-how e evidentemente que...

E os jovens podem ajudar nisso, mesmo até com ideias diferentes para o setor.

Sem dúvida, a questão de pessoas formadas e que percebam que a formação é contínua ao longo de toda a vida. Ou seja, é muito importante que as pessoas que estão no setor, independentemente da área acadêmica de onde venham, e é muito relevante termos uma diversidade maior a nível das áreas acadêmicas, tenham esta disponibilidade de continuar sempre a aprender. Nós temos sempre um campo muito grande de aprendizagem e evidentemente que este setor é um setor que teve a humildade de não conseguirmos construir isto sozinhos. Nós fizemos muito este caminho em parceria, por exemplo, com as nossas embaixadas, com a equipa de legados internacionais da AICEP, e nós com o tempo conseguimos planear e perceber exatamente como é que os negócios devem ser feitos, que devem ser feitos do mercado para a produção, e não da produção para o mercado. Isso também tem sido um pouco a garantia. Há pouco falávamos um pouco como é que nós nos conseguimos diferenciar. Nós, por um lado, temos um clima completamente único, porque há pouco falava nas diferenças com os outros países da latitude sul da Europa, mas nós nessa latitude sul somos o único país que temos uma influência atlântica. Ou seja, por vezes não somos os mais precoces a entrar no mercado, porque não temos um verão tão quente, nem um inverno tão rigoroso. Mas posso lhe dar o exemplo dos pequenos frutos. Portugal é o único país na Europa que consegue produzir 52 semanas por ano framboesas e amoras. E mesmo esta diversidade da oferta também é atrativa para estas pessoas com grande formação, com um know-how muito vasto noutras áreas e que podem se sentir atraídos por um setor que mesmo na nossa geografia, embora não seja uma geografia de quantidade, mas é uma geografia que pode diferenciar-se e ir à procura de valor acrescentado.

E às vezes uma visão diferente, uma pessoa nova tem logo novas ideias e que põe em perspectiva também essa evolução, não é? Olhar para o setor de uma forma diferente.

Claro, e por isso são muito bem-vindos os engenheiros ambientais, os gestores, as pessoas de marketing, todos são bem-vindos ao setor agroalimentar.

Ainda assim, Gonçalo, nem tudo são rosas e para continuarmos a crescer e a exportar, precisamos de estabilidade, é um fator bastante importante. Precisamos da água, de solo saudável e de garantir também que as alterações climáticas não travam este motor. Como é que a Portugal Fresh vê o futuro próximo? Conseguimos manter este ritmo de crescimento de uma forma sustentável, que é aquilo que mais queremos neste momento?

Sem dúvida, nós precisamos é de ambição. E por vezes é uma palavra que falta muito no nosso meio, porque o setor agroalimentar tem ambição, mas precisa de uma correspondência também a nível de políticas. Evidentemente que de uma forma sustentável, mas indo aos dados científicos que existem. Ou seja, é muito bonito dizer que a União Europeia, e todos concordamos, é importante ser o líder mundial no combate às alterações climáticas, mas a União Europeia é apenas responsável por 6% das emissões de gases de efeito estufa. Se o setor agroalimentar da União Europeia representar, no máximo, 20% desses 6,1%, estamos a falar de cerca de 1%. Ou seja, não se pode condenar um setor por causa de 1%. Evidentemente que a questão da água é algo completamente prioritário. Temos que ter Mais reservas de água, sejam elas charcas, reservatórios, mini, micro, pequenas, médias, mas também grandes e gigantes barragens. Nós precisamos de uma estratégia a nível da gestão da água e vemos com muita ambição este projeto anunciado pelo governo da Água que Une, mas necessitamos de execução. Falando noutro tema, nós só chegamos a estes números fantásticos que o João lançou no início do podcast, porque temos migrantes. Sem migrantes, seria completamente impossível termos chegado onde chegamos. Mas é evidente que é importante que estes migrantes sejam tratados com dignidade e que, no fundo, exista também habitação para conseguirmos continuar a integrar estas pessoas na sociedade, que são pessoas-chave para o sucesso do setor. Por isso eu diria que, evidentemente, vejo o futuro com ótimos olhos, mas é preciso ambição. Risonho e muito saboroso, com as nossas frutas e legumes.

Claro, isso está mais do que garantido. Se pudesse deixar uma mensagem a um jovem que possa estar a ouvir este nosso episódio e que até pode equacionar um dia vir a integrar a equipa da Portugal Fresh, qual é que seria?

Eu diria que se os jovens hoje em dia preocupam-se muito com o planeta, não há melhores guardiões do planeta, do ambiente e da biodiversidade do que os agricultores. Portanto, acho que os jovens se devem juntar a nós, se estão preocupados com a questão do planeta e do futuro. Se querem apostar no setor com futuro, não é num setor, é no setor com mais futuro, têm que apostar no setor agroalimentar. Todos nós temos que comer, pelo menos, se calhar, três vezes por dia. Os produtos vêm dos agricultores, os agricultores utilizam de uma forma cada vez mais sustentável todos os recursos existentes no planeta, praticando uma agricultura de precisão baseada na ciência, na tecnologia e por isso é o setor a apostar.

Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh, muito obrigado por ter vindo aqui a este podcast em parceria com a B Rural, o "Lado B da Terra". Ficamos a perceber que a nossa fruta não é só saudável no prato, como disse ainda há pouco, mas também é um ótimo combustível para a nossa economia e isso é de louvar. O "Lado B da Terra" termina aqui mais um episódio. Não se esqueça de subscrever este podcast nas plataformas habituais e, claro, acompanhar o projeto B Rural para saber mais sobre o futuro do nosso território. Eu sou o João Costa e Silva. Até ao próximo episódio.